sexta-feira, 31 de agosto de 2018

São Raimundo Nonato


    Nonato quer dizer 'não nascido', pois São Raimundo foi tirado do ventre da mãe quando ela já havia falecido. Por esse fato, foi eleito patrono das mulheres que desejam engravidar, das grávidas, dos recém-nascidos, das parteiras e dos obstetras.
    Sua família era espanhola, catalã de Portell. Nobre mas de poucas propriedades, seu pai, logo que percebeu suas inclinações religiosas, quis fazê-lo administrador na corte real de Aragon, no nordeste da Espanha, e depois entregou-lhe as fazendas ao seu gerenciamento. No entanto, nosso Santo dava-se a exercer os ofícios dos trabalhadores e pastores, conforme suas necessidades de ajuda, e o tempo restante gastava entre o silêncio e a oração, que só confirmavam sua forte vocação para a .
    À época, um jovem francês, que viria a ser São Pedro Nolasco, mudou-se de sua pequena cidade, Mas-des-Saintes-Puelles, no sul da França, para Barcelona, com a finalidade de fazer frente à heresia divulgada pelos albigenses. Contudo, em 1218 terminou fundando a Ordem de Nossa Senhora das Mercês, cujo carisma era libertar os cristãos que estavam sendo capturados pelos muçulmanos para serem vendidos como escravos na Argélia, no norte da África. Não por acaso, desde 1203 ele já arrecadava a 'esmola dos cativos' nas igrejas e nos ambientes cristãos, que para eles era a única chance de libertação.
    Diante desta aterradora realidade, e ali mesmo, em terras europeias, se por seu nascimento São Raimundo foi resgatado da morte, vai dedicar sua vida ao resgate da escravidão. Em 1224, aos 24 anos, recebe do próprio São Pedro Nolasco o hábito da Ordem dos Mercedários. Tornou-se Sacerdote e, após anos libertando cristãos na Espanha, o que fez até gastar toda sua herança, foi enviado a África, para onde já haviam sido enviados muitos cristãos escravizados. Tamanho era seu ardor e devoção pela Salvação das almas, que, um dia, após exauridos todos recursos com os quais negociava, nosso Santo ofereceu-se em troca de um escravo cristão.


    Como tal situação de calamidade que não retrocedia, sua esperança era dedicar os anos que lhe restava para alimentar a fé dos escravizados permanecendo em sua companhia, tomando confissões e animando-os pela oração e adoração ao Santíssimo Sacramento


    Das inspiradas pregações que fazia, e conseguia converter até mesmo os muçulmanos, logo se tornou vítima da raiva dos donos de escravos. Foi sentenciado à morte por empalamento, mas acabou poupado por seu valor em possível resgate. Sofreu várias e frequentes torturas, e como não parava de pregar pessoa a pessoa ou às ocultas, convertendo inclusive seus guardas, teve seus lábios perfurados com um ferro em brasa e fechados com um cadeado.


    Nessa condição, sofreu 8 meses até ser libertado mediante resgate em 1239, de coletas feitas por São Pedro Nolasco, e, realmente muito doente, foi levado de volta a Espanha.
    Ao saber de sua libertação, o Papa Gregório IX nomeou-o cardeal, pois por seus conhecimentos e oratória queria-o como conselheiro em Roma. Ele, no entanto, continuou vivendo como monge mendicante, pois era muito requisitado lá mesmo na Espanha. Em 1240, enfim, mesmo sem ter recuperado plena saúde, resolveu atender ao chamado do papa, porém, ao iniciar a viagem, morreu tomado por fortes febres ainda em Cardona, bem próximo a Barcelona.
    Seu corpo foi enterrado na capela de São Nicolau, onde havia servido como Sacerdote. Em volta dela, entre 1597 e 1625, em sua homenagem foi construído o Monastério de São Raimundo de Portell, conhecido também como o Escorial de Segarra.




    São Raimundo Nonato, rogai por nós!

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Argumentos de Ateus


    Num movimento exatamente inverso à conversão, alguns ateus acreditam ser possível desconstruir a alheia com algumas simples afirmações. Para eles, a religião seria apenas um primitivo costume, coisa de gente de pouca reflexão e de maliciosos líderes, que ludibriam e tiram proveito da ingenuidade popular. Em geral, eles recorrem aos seguintes argumentos, que atentamente examinados não oferecem nenhuma consistência:

    'Não há provas da existência de Deus!'
    A Verdade é que os ateus não aceitam as provas da existência de Deus, mas Seus sinais estão por toda parte e podem ser observados em inúmeros testemunhos. As miraculosas curas, por exemplo. E não é a Igreja, senão a própria ciência médica que atesta não haver explicação para o restabelecimento da saúde em casos clinicamente muito complicados ou sem solução, que se dá de modo imediato, completo e irreversível, e com pessoas que rezavam para específicos Santos, intercessores para aqueles tipos de enfermidades.
    E o que dizer da passagem de Jesus entre nós? Haveria algo paralelo na História? Que dizer dos Apóstolos e de tantos mártires que aceitaram dar suas vidas em testemunho de Cristo? Que dizer de sinais como o Santo Sudário? Que dizer da perfeita coerência das mensagens dadas nas aparições de Nossa Senhora, sempre confiadas a pessoas muito humildes, incapazes de enganar quem quer que seja? Que dizer dos corpos santos? Que dizer de tantos e tão grandes sinais de Deus manifestos por todo globo terrestre ao longo da História da Igreja? Que dizer de milhares de relatos de gente do povo e dos próprios Santos, pessoas de ilibada reputação, que atestam visões, audições, bençãos, livramentos, 'coincidências' e 'improváveis casualidades' em perfeita consonância com os ensinamentos da Igreja? Pretender que todos esses testemunhos através dos séculos sejam apenas fantasias não seria extrema arrogância? É, no mínimo, uma grosseira imprudência; mesmo no âmbito da ciência.

    'Só a ciência pode atestar a realidade dos fatos.'
    Há pessoas que simplesmente trocaram uma possível fé em Deus por uma cega fé na ciência. Esta sim, saberia todas as coisas, ou pelo menos garantiria o que anuncia. Não obstante, o mais comum é que se veja a ciência refazer suas teorias ou reconhecer sua absoluta ignorância sobre uma enormidade de assuntos. Poderia ela, por si mesma, indicar o sentido da existência humana? Suas descobertas e aplicações estão isentas de avaliações morais? A ciência é sempre neutra em seus posicionamentos? Não pode estar a serviço de ideologias ou disparatados devaneios, como tão frequentemente se vê? O que foi a "sociologia" do comunismo, senão um ateísmo genocida? O que foi o "Darwinismo social" senão racismo científico?
    A propósito: a que chegou a moderníssima física quântica? Diante da antimatéria não sabe mais nem mesmo o que é a matéria?
    Mais: seria a razão a única capacidade humana para apreensão da Verdade? Seria ela instrumento absolutamente isento de impressões, paixões e até mesmo crenças? Saberíamos mesmo o que é o instinto, a intuição, os sonhos, a telepatia, as premonições? Não nos valemos deles?
    Ou ainda: não seria a Teologia, enquanto conhecimento teórico, uma ciência tão rigorosa em seus critérios quanto a própria e alardeada Filosofia, da qual usa amplamente?

    'Assuntos ainda desconhecidos não precisam ser explicados pela fé.'
    O Catolicismo não explica tudo. Muito pelo contrário, convida a aceitar e conviver confiantemente com os mistérios e, em muitas circunstâncias, os insondáveis desígnios de Deus. Não obstante, é fato, somos sim igualmente convidados a reconhecer as sobrenaturais revelações que Deus quer comunicar, mas que visam tão somente nossa Salvação, nossa emancipação espiritual, ou seja, que vençamos o pecado. Os benefícios da conversão são notórios! Como não aceitar as revelações, portanto, se são confirmadas por uma 'nuvem de testemunhas' e por várias manifestações de Deus através de inequívocos sinais?
    Nossas limitações cognitivas, salutarmente admitidas, não são obstáculos para a fé que nos conduz à Glória de Deus, a qual sem dúvida excede em muito toda e qualquer expectativa humana. Desde a Criação, passando pela grandiosa manifestação de Seu Filho Jesus, Redentor da humanidade, e atualmente pela guia do Espírito Santo, patentes sinais de Deus encaminham-nos com segurança, mesmo que às vezes entre trevas, rumo à Sua divina natureza, que historicamente só é experimentada pelo ser humano por concessões de Sua Graça.

    'Religião impõe dogmas, não aceita questionamentos.'
    Os ensinamentos do Catolicismo são realmente perenes, como Deus é eterno, mas ninguém é obrigado a aceitá-los. Eis aí o livre arbítrio, um de seus fundamentos! A Igreja, entretanto, através de seu Magistério, quer sim muito bem explicar as razões de sua fé, e convida a todos para conhecê-las. É sua missão anunciá-las, e ela aceita de boa vontade ser questionada. Contudo, é claro, espera que seus argumentos sejam acompanhados com as devidas disposição e honestidade intelectual.
    Sem delongas, os Dogmas são conclusões, portanto feitos plenamente racionais, que contaram com os luminosos auxílios e a condução do Espírito de Deus, o Qual zelosamente vela pela Igreja. Uma vez que se conhece os fundamentos que os sustentam, conclui-se que é bem compreensível e mesmo louvável que essas Verdades de fé sejam cultuadas e proclamadas.

    'Fiéis preferem reconfortantes e fáceis respostas, para a morte e a falta de sentido da existência.'
    Seriam as respostas da religião realmente as mais fáceis e críveis? É fácil resignar-se diante das agruras da vida, de tantas injustiças e de organizações sociais sempre em ebulição? A obediência e a paciência para com os misteriosos desígnios de Deus são assim tão palatáveis à irriquieta e relutante alma humana? Pode a consciência humana ser massivamente tão obtusa a ponto de abraçar, de modo 'passivo e infantil', tantas 'fábulas'? Seria a percepção do 'mundo espiritual' um contagioso devaneio coletivo a despeito da singularidade de todas experiências pessoais? Seria a morte realmente o fim da vida? Seria a existência, de fato, vazia de significados e sem razão de ser? Em absoluto, não é isso que sugere o amor, maior dos atributos da pessoa humana.
    Jesus, que Se entregou à morte para afirmar e comprovar a Vida Plena, também aponta algo diferente. E não foram poucos os que, através d'Ele ou de Sua Graça, chegaram a conclusões completamente opostas à ideia de uma vida meramente biológica. O Reino de Deus é, na verdade, prodigioso em indizíveis dons e graças, que elevam a condição humana à sua real dignidade.

    'Fiéis são pouco questionadores, e contentam-se com explicações sobrenaturais.'
    É possível aferir quem tem a mais acurada percepção da realidade e dos valores que realmente importam? Será que a direta observação das coisas, feita pelos mais humildes, não lhes permite posicionar-se com Sabedoria? Seriam eles realmente conformados e pouco questionadores? As ambições, materiais e intelectuais seriam o verdadeiro e mais construtivo impulso ao desenvolvimento humano? O conhecimento técnico, por si só, pode promover completa emancipação e realização à pessoa?
    Um amadurecido posicionamento diante da vida é muito mais abrangente e profundo que simplesmente estabelecer relações materiais e cognitivas com o mundo em volta. Depende muito mais da qualidade dessas relações quanto a reflexos afetivos, morais e espirituais. A mística é uma inalienável função da alma e precisa ser plenamente exercida para que a vida terrena alcance seu verdadeiro significado.

    'As religiões levam as pessoas ao conformismo, para serem manipuladas por aqueles que detêm o poder.'
    Dizer que a religião mantém o povo submisso faz parecer que o ideal é que o mundo viva de revoluções e insurgências, ou simplesmente na mais pura anarquia. Dispõem-se assim os povos dos países mais desenvolvidos? Não existiria também entre eles hierarquia, exercício de poder, bem como manobras políticas e até corrupção? O que é estruturação e organização social? A liberdade sem responsabilidade, a insubmissão e a rebeldia são valores em si absolutos? Vivem melhor os que frequentemente se contrapõem aos poderes ou a qualquer suposta tentativa de manipulação popular? E de que vale o poder?
    Seria mesmo real a teoria conspiração, esse grupo de controladores que trabalha incessante e exclusivamente para manipular, para a manutenção da dominação? Que graça existiria, para eles, em viver num mundo assim? E qual poder vale mais? O econômico, o político, o militar, o da informação ou o moral? Uma conspiração assim conseguiria realmente manter-se sempre oculta e bem sucedida? Eles mesmos não se manipulam, não se desentendem nem se rebelam entre si? Existiria alguma organização humana capaz de tão perfeito e indefectível funcionamento? Que dizer então dos santos que se submeteram às autoridades clericais e pregaram a obediência aos desígnios de Deus? Não se teriam realizado pessoalmente, mesmo sob esta hierarquia, e ainda arrastado multidões para seus supostos desenganos? Qual seria o processo mais construtivo e seguro? Agir pelo poder ou pelo amor?

    'Países desenvolvidos e democráticos são éticos e justos, e não precisam da fé.'
    Quando os preceitos da consciência moral não são renegados, o ateísmo em si não é um terrível mal. O humanismo, ademais, embora clara e maliciosamente manipulado por certos autores e correntes de opinião, também foi gerado no seio da Igreja. Aliás, ele foi a própria semente do protestantismo, do iluminismo e até do comunismo. Ora, a concreta prática dos ensinamentos de Cristo no dia-a-dia, fundada em espírito de caridade e partilha, não é o objetivo da fé? No entanto, o puro e simples ativismo, por mais humano que seja, jamais substituirá a contemplação e a mais profunda percepção da realidade. O ser humano carece da transcendência para conhecer a efetiva amplitude de sua natureza, e a espiritualidade, como resposta a evidentes realidades, é absolutamente imprescindível. Eis aí o verdadeiro valor da literatura, da poesia, da música, do teatro, em suma da arte e das ciências em geral.
    E uma ponderação histórica: não são exatamente os países mais afastados dos valores religiosos os que mais sofrem com os males do materialismo, do hedonismo e da banalização do amor e da vida, como o alcoolismo, as drogas, a prostituição, a desestruturação da família e o suicídio? De que valem os benefícios materiais e a justiça social se a vida não tem sentido? Poderia encerrar-se o ser humano apenas numa dimensão econômica e política? A abominável desgraça que se revelou pela implementação do socialismo mostrou que não!

    'Países mais religiosos são pobres, corruptos e atrasados.'
    Não há duvida de que quanto mais sofrido, mais o ser humano busca a consolação de Deus. Isso é inerente à alma humana, é seu último e principal recurso. O povo pobre cultua mais a religião, é verdade, e os elementos culturais estão de fato diretamente relacionados com o desenvolvimento humano. Mas isso não permite dizer que a religiosidade é o fator determinante do subdesenvolvimento de certos países. A maioria dos países ricos traz a religião como base de seus mais fortes traços culturais e sociais.
    Ou seja, se é verdade que os pobres buscam a fé, não é verdade que as práticas religiosas empobrecem. Pelo contrário, até fazem prosperar. Renomados sociólogos e historiadores apoiam esta tese. Como negar benefícios como o fim da escravidão, a implementação do direito, o desenvolvimento técnico e cultural, e assim a organização social que o Catolicismo proporcionou à Europa? Os fatores que realmente determinam a pobreza são vários, e alguns deles até podem vir de disfunções da religião, mas evidentemente não têm nela sua única nem principal razão de ser. A grande Verdade é que os povos mais felizes e bem realizados são sim religiosos.

    'Há muitas religiões, e todas pretendem ser a única verdadeira!'
    Ora, é óbvio que as revelações tenham força para renovar a noção da realidade. Mas, graças ao dom da razão, Deus concedeu-nos, entre as verdadeiras revelações e os enganos, a capacidade de analisá-los conforme o histórico de Suas manifestações. Vale dizer, Deus não Se contradiz.
    Assim, as religiões podem e devem ser intelectual e diligentemente examinadas para que saibamos onde se encontram os verdadeiros e mais significativos sinais de Deus. Sem dúvida, Ele quer comunicar-Se com todos Seus filhos, mas também é notório que Sua participação na História da humanidade não começou recentemente. Por isso, buscando o fio condutor da coerência de Suas mensagens, inevitavelmente precisamos olhar para o passado e, antes de entregar-nos a mirabolantes exercícios de imaginação, devemos estudar o que de fato temos em mão, o que nos foi legado e transmitido. E, bem comparadas as revelações, é simplesmente impossível encontrar mais verossímil e grandiosa manifestação que a passagem de Jesus entre nós.

    "Vosso Filho permaneça entre nós!"

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Martírio de São João Batista


    A exemplo da Crucificação de Jesus, o cruel destino que teve São João Batista também ficou para sempre gravado na memória da humanidade: a história do Profeta do Altíssimo, mártir defensor do Sacramento do Matrimônio. Ele ousou levantar a voz para denunciar o adultério do rei, que se dizia hebreu, e ironicamente acabou assassinado não por sua vontade, pois o temia, mas por astúcia de sua côrte, lugar costumeiramente frequentado e assediado por pessoas da pior espécie. A 'nobreza', muitas vezes, representa o que um povo tem de pior.
    Levita como São Mateus, Profeta de primeiríssima grandeza, ele foi o arauto da Vinda do Salvador, como anunciou seu pai, o sacerdote Zacarias, no dia em que nasceu: "E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e preparar-Lhe-ás o Caminho, para dar a Seu povo conhecer a Salvação, pelo perdão dos pecados." Lc 1,76-77
    Isso havia sido previsto pelo anjo do Senhor, que o descreveu como um reorientador dos pais para o bem das famílias, um dissuasor de vãs rebeldias e o preparador do povo para o encontro com o Messias: "... irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias, para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à Sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto." Lc 1,17
    São João Batista, pois, não 'conseguia' calar-se, não se permitia deixar de proclamar as Verdades de Deus. E não fazia projetos de permanecer por muito tempo nesse mundo, como concorda São Paulo: "Mas se o viver no corpo é útil para meu trabalho, então não sei o que devo preferir. Sinto-me pressionado dos dois lados: por uma parte, desejaria desprender-me para estar com Cristo, o que seria imensamente melhor. Mas, de outra parte, continuar a viver é mais necessário, por causa de vós..." Fl 1,22-24
    E completa: "Se é só para esta vida que temos colocado nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima." 1 Cor 15,19
    São João Batista vivia 'outra' realidade, ou melhor, a verdadeira realidade: o Reino dos Céus, como anunciava Jesus: "Mas se expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente a vós é chegado o Reino de Deus." Lc 11,20
    Como escolheu o deserto, e o povo é que ia até ele, à sua volta a Verdade tinha que prevalecer, a qualquer custo. Não por acaso, Jesus vai questionar aqueles que por ele foram batizados: "Tendo eles partido, disse Jesus à multidão a respeito de João: 'Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver, então? Um homem vestido com luxuosas roupas? Mas os que estão revestidos de tais roupas vivem nos palácios dos reis. Então, por que fostes lá? Para ver um Profeta? Sim, digo-vos Eu, mais que um Profeta. É dele que está escrito: 'Eis que Eu envio Meu mensageiro diante de Ti, para preparar-te o Caminho' (Ml 3,1). E se quereis compreender, ele é o Elias que devia voltar. Quem tem ouvidos, ouça." Mt 11,7-10.14-15
    Sua missão custou-lhe a vida, mas, podemos ter certeza, ele faria tudo de novo, pois sua missão estava em perfeita sintonia com a Boa Nova anunciada por Jesus, que pregou: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena." Mt 10,28
    Ele não se arrependeria, portanto, de ter condenado nem a devassidão do rei nem a corrupção dos costumes, que imperava na côrte e na sociedade judaica à época, inclusive entre religiosos. Sua pregação era tão contundente quanto clara: "Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: 'Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da vindoura cólera? Dai, pois, frutos de verdadeira penitência. Não digais dentro de vós: 'Nós temos a Abraão por pai!' Pois eu digo-vos: Deus é poderoso para suscitar destas pedras filhos a Abraão.'" Mt 3,7-9
    Ora, o próprio São João Batista era um penitente: "João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Mt 3,4
    Assim, silêncio ou desfaçatez perante a crescente degeneração moral eram-lhe uma grande ofensa a Deus, porque viviam-se os tempos da espera do Messias. Por isso, sua 'rebeldia' era santa, sua profunda indignação impedia-lhe de viver na indiferença. 'Aqueles tempos' eram por demais sérios. Nosso Salvador instruía em mesmo sentido: "Desde então Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    Arguia: "Dizia ainda ao povo: 'Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: 'Aí vem chuva.' E assim sucede. Quando vedes soprar o vento do sul, dizeis: 'Haverá calor.' E assim acontece. Hipócritas! Sabeis distinguir os aspectos do céu e da terra. Como, pois, não sabeis reconhecer o presente tempo?'" Lc 12,54-56
    E acusou: "Porque se nesta adúltera e pecadora geração alguém se envergonhar de Mim e das Minhas palavras, também o Filho do homem Se envergonhará dele, quando vier na Glória de Seu Pai com Seus santos anjos." Mc 8,38
    As classes mais altas e as autoridades religiosas judaicas, de fato, curvavam-se não só a 'sabedoria' de estrangeiros como também à indecência, aos desmandos e às profanações perpetradas pela corte romana. O bacanal de Herodes era só um exemplo. Muitos judeus tomavam parte ativa em seus 'cultos', pois para eles Herodes seria o próprio Messias, e, de tão pervertidos, até conspirariam contra Jesus: "Saindo dali os fariseus, deliberaram logo com os herodianos como haviam de matá-Lo. " Mc 3,6
    Por isso, Jesus exigiu de todos esses falsos religiosos que 'devolvessem' o povo a Deus: "Reuniram-se, então, os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas Suas próprias palavras. Enviaram seus discípulos com os herodianos, que Lhe disseram: 'Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o Caminho de Deus em toda a Verdade, sem Te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens. Dize-nos, pois, o que Te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?' Jesus, percebendo sua malícia, respondeu: 'Por que Me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto!' Apresentaram-Lhe um denário. Perguntou Jesus: 'De quem é esta imagem e esta inscrição?' 'De César', responderam-Lhe. Disse-lhes então Jesus: 'Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.'" Mt 22,16-21
    Mas tudo isso era demais, inaceitável para São João Batista. Cioso das maiores responsabilidades, após anunciar o Cristo, não lhe restava outra coisa senão continuar vivendo o que pregava: negar-se a si mesmo: "Importa que Ele cresça e que eu diminua." Jo 3,30
    Para que entendamos o que ele queria dizer com essa frase, um misto de dever cumprido e resignação quanto à vontade de Deus, basta lembrar o que disse o próprio Jesus: "Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho Eu a desejar se ele já está aceso?" Lc 12,49
    Significativamente, para alguém que veio batizar, o brutal martírio de nosso Santo foi também um batismo, tal e qual Jesus havia previsto para Si, para os Apóstolos e para tantos outros Seus seguidores: "Vós bebereis o cálice que Eu devo beber, e sereis batizados no batismo em que Eu devo ser batizado." Mc 10,39


    Vemos, então, que o Batista não poderia simplesmente passar por esse mundo, como muitos de nós pretendemos. E seu destino, que não nos enganemos, não foi a desgraça de uma horrível morte, mas a Eterna Glória. Não lhe importava a violência ou a humilhação desse batismo, mas seu compromisso com a Verdade, com Deus. É Jesus Quem faz a melhor síntese de sua missão, ao falar aos religiosos da época: "Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da Verdade." Jo 5,33
    Essa era questão muito cara a Jesus, a essência de Sua própria Missão. Ele disse diante de Pilatos: "É para dar testemunho da Verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da Verdade ouve Minha voz." Jo 18,37b
    E tão horrendo destino foi também o do Cristo, como Ele disse ao aproximar-se o momento de Seu Martírio: "Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Presentemente, Minha alma está perturbada. Mas que direi?... Pai, salva-Me desta hora... Mas é exatamente para isso que vim a esta hora.'" Jo 12,23.27
    Aliás, é, em certo sentido, o que Ele determinou a todos nós: "Porque aquele que quiser salvar sua vida, perdê-la-á. Mas aquele que perder sua vida por amor a Mim e ao Evangelho, salvá-la-á." Mc 8,35
    De fato, São João Batista cumpriu muito bem sua missão. Primeiro, pregando o arrependimento dos pecados, e assim preparava o povo de Israel para encontrar-se com Deus Jesus, antecipando Seu próprio anúncio: "Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Dizia ele: 'Fazei penitência, porque está próximo o Reino dos Céus.'" Mt 3,1-2
    Em seguida, tomando Confissões e batizando, para purificar-lhes os pecados: "Pessoas de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda circunvizinhança do Jordão vinham a ele. Confessavam seus pecados e por ele eram batizados nas águas do Jordão." Mt 3,5-6
    Com efeito, esse era o sentido do seu batismo, como vai dizer São Lucas: "Ele percorria toda região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados..." Lc 3,3
    Por fim, ao encontrar Jesus, n'Ele identificou o Redentor: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." Jo 1,29
    Deu esse testemunho: "É Este de Quem eu disse: 'Depois de mim virá um homem, que me é superior, porque existe antes de mim.' Eu não O conhecia, mas, se vim batizar em água, é para que Ele Se torne conhecido em Israel. (João havia declarado: 'Vi o Espírito descer do Céu em forma de uma pomba e repousar sobre Ele.)" Jo 1,30-32
    E revelou que de Deus recebera esta missão: "Eu não O conhecia, mas Aquele que me mandou batizar em água disse-me: 'Sobre Quem vires descer e repousar o Espírito, Este é Quem batiza no Espírito Santo.'" Jo 1,33
    Em seu louvor, Jesus declarou que o Batista era o maior dentre os homens até então. Contudo, antes de Sua Ressurreição, era inferior às criaturas celestiais: "Pois digo-vos: entre os nascidos de mulher não há maior que João. Entretanto, o menor no Reino de Deus é maior que ele." Lc 7,28
    De fato, o sagrado autor da Carta aos Hebreus vai invocar esse interlóquio entre o salmista e Deus: "Alguém em certa passagem afirmou: 'Que é o homem para que dele Te lembres, ou o filho do homem, para que o visites? Fizeste-o, por pouco, menor que os anjos... (Sl 8,5-6a)." Hb 2,6-7a
    Por sua grandeza, portanto, embora haja evidências em contrário, ele poderia muito bem ser um dos Santos que ressurgiram logo após a Ressurreição de Jesus, como registrou São Mateus: "Os sepulcros abriram-se e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da Ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas." Mt 27,52-53
    E falando sobre Jesus aos principais dos judeus, São João Batista disse uma frase que ainda hoje ecoa nos ouvidos de muitos de nós: "Este foi o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram sacerdotes e levitas de Jerusalém para perguntar-lhe: 'Quem és tu?' João respondeu: 'Eu batizo com água, mas no meio de vós está Alguém que vós não conheceis.'" Jo 1,19.26
    Assim, pelo exemplo desse eremita, um legítimo essênio, devemos ser mais conscientes de nosso compromisso com a Verdade, isto é, a obrigação de testemunhar o Cristo. Não podemos simplesmente admirar sua coragem: seria muito pouco! Foi o que disse Jesus: "João era uma lâmpada que ardia e iluminava. Vós, porém, só por uma hora quisestes alegrar-vos com sua Luz." Jo 5,35
    Jesus está no meio de nós, como disse o Batista. Não desprezemos esse anúncio que tão caro lhe custou. Não nos alegremos com a Luz do último grande Profeta só por uma hora. Seu martírio é um sinal da força do Espírito Santo que o movia, assim como da Glória que lhe esperava. E apesar de destemido, ele tudo fez na mais perfeita humildade: "Eu batizo-vos com água, em sinal de penitência, mas Aquele que virá depois de mim é mais poderoso que eu, e nem sou digno de carregar Seus calçados. Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e em fogo." Mt 3,11
    Isso bem explica sua reação ao ver o Cristo: "Da Galileia foi Jesus ao Jordão ter com João, a fim de ser batizado por ele. João recusava-se: 'Eu devo ser batizado por Ti e Tu vens a mim?'" Mt 3,13-14
    De fato, diferentemente dos grandes Profetas que lhe antecederam, o Batista não realizou nenhuma maravilha sequer. O próprio povo testemunhou sobre ele: "João não fez milagre algum... " Jo 10,41
    Sua autoridade vinha exclusivamente da realidade que ele com franqueza vivia: "O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito. E viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel." Lc 1,80
    E por isso tinha autoridade para pregar: "Perguntava-lhe a multidão: 'Que devemos fazer?' Ele respondia: 'Quem tem duas túnicas, dê uma ao que não tem. E quem tem o que comer, faça o mesmo.'" Lc 3,10-11
    Deixou, enfim, uma ruidosa recomendação que vale para todos funcionários públicos, especificamente no que concerne ao salário: "Do mesmo modo, os soldados perguntavam-lhe: 'E nós, que devemos fazer?' Respondeu-lhes: 'Não pratiqueis violência nem defraudeis a ninguém, e contentai-vos com vosso soldo.'" Lc 3,14


SEU MARTÍRIO, SEGUNDO SÃO MARCOS

    "Pois o próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado. João tinha dito a Herodes:
    - Não te é permitido ter a mulher de teu irmão.
    Por isso, Herodíades odiava-o e queria matá-lo, não o conseguindo, porém. Porque Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo. Protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente ouvia-o.
    Chegou, no entanto, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galileia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça:
    - Pede-me o que quiseres, e eu to darei.
    E jurou-lhe:
    - Tudo que me pedires, dar-te-ei, ainda que seja a metade de meu reino.
    Ela saiu e perguntou à sua mãe:
    - Que hei de pedir?
    E a mãe respondeu:
    - A cabeça de João Batista.
    Apressadamente tornando a entrar à presença do rei, exprimiu-lhe seu desejo:
    - Quero que me dês, sem demora, a cabeça de João Batista.
    O rei entristeceu-se. Todavia, por causa de sua promessa e dos convivas, não quis recusar. Sem tardar, enviou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi, decapitou João no cárcere, trouxe sua cabeça num prato e deu-a à moça, e esta entregou-a à sua mãe.
    Ouvindo isto, seus discípulos foram tomar seu corpo e depositaram-no num sepulcro." Mc 6,17-29

    São Mateus complementa: "Depois foram dar a notícia a Jesus." Mt 14,12

    "São João Batista, rogai por nós!"

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Santo Agostinho


    O Bispo de Hipona foi o primeiro grande sintetizador da Doutrina Cristã, e o último dos Padres Latinos, aqueles que conceberam a Filosofia Cristã, também chamada Patrística. De singular inteligência, enquanto importante professor do Império Romano defendeu uma herética corrente de pensamento, o maniqueísmo, e, passando a grande admirador de Plotino, tornou-se, ainda antes de vir a ser cristão, neoplatônico.
    Desde jovem veementemente rejeitava os convites às religiosas práticas que lhe fazia sua mãe, Santa Mônica, mas em 387, aos 33 anos, foi a Milão conhecer a Sabedoria de Santo Ambrósio e em definitivo rendeu-se à Verdade, abraçando o Catolicismo. Deixou a vida que levava com uma concubina e vendeu todos seus bens, retendo apenas sua casa em Hipona, na atual Argélia, que, inspirado pela vida de Santo Antão, transformou num monastério para si e para alguns amigos. Era o ano de 388 e ali nascia a Ordem de Santo Agostinho, também chamada de 'agostinianos'.
    Já era renomado professor de Gramática e Retórica, porém sentia que precisava começar tudo de novo: entregou-se à oração, à pobreza e ao serviço aos mais carentes. Tamanha era sua devoção que em 391 foi ordenado sacerdote de Hipona pelo próprio povo, e em 396, também pela vontade popular, foi apresentado como bispo coadjutor, ou bispo sucessor, da mesma cidade. Morreu em 430, aos 76 anos, quando os vândalos invadiram a África através de Gibraltar. Passou seus últimos dias sitiado, entre penitências, orações e recitações de Salmos.
    Deixou o 'Regulamento' para os Sacerdotes de seu mosteiro, e por essa obra foi reconhecido como Padroeiro do Clero Regular. Foi canonizado também por aclamação popular, e logo reconhecido como Doutor da Igreja.
    Bastante ativo, comia muito pouco, cuidava da igreja local, de questões de justiça entre o povo e dedicava muito especial atenção aos órfãos e pobres. Sua diária rotina inalteradamente incluía celebrar a Santa Missa, catequizar, fazer pregações, servir aos carentes e escrever. Deixou obras belíssimas como 'Confissões', na qual conta sua vida, e 'A Cidade de Deus', em que exalta a divina dádiva que é a Igreja.
    Deixou-nos, ainda, fundamentais conceitos e explanações para a compreensão do projeto de Deus, em obras como 'O Pecado Original', 'O Livre Arbítrio', 'O Problema do Mal', 'O Tempo como parte da Criação', 'A Fé como a restauração da Razão', 'O Resgate do Platonismo', 'A Ética' etc. Também é reconhecido como Doutor da Graça, por sua enorme contribuição sobre esse assunto.
    Era natural de Tagaste, cidade da atual Argélia. Foi professor em Cartago e em Roma, mas, mesmo entre as mais importantes pessoas e nos mais luxuosos ambientes, nunca encontrava satisfação para sua alma. Na Igreja viveu seus melhores, mais produtivos e mais felizes anos. Referindo-se a essa obra de Cristo, dizia: "Fora da Igreja não há Salvação."
    Escreveu em belíssimas linhas o que representou sua conversão: "Tarde Te amei... Trinta anos estive longe de Deus. Mas durante esse tempo algo se movia dentro de meu coração... Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava... Mas Tu compadeceste-Te de mim e tudo mudou porque Tu me deixaste conhecer-Te... Tu estavas dentro de mim e eu fora..."
    Sua inspiração era realmente ímpar:
    "Quem me dera descansar em Ti! Quem me dera que viesses a meu coração e que o embriagasses, para que eu esqueça minhas maldades e Contigo abrace-me, Meu Único Bem! Que és para mim? Tem Misericórdia de mim, para que eu possa falar. E que sou eu para Ti, para que me ordenes amar-Te, e, se não o fizer, irar-Te contra mim, ameaçando-me com terríveis castigos? Acaso é pequeno o castigo de não Te amar? Ai de mim! Dize-me por Tuas Misericórdias, Meu Senhor e Meu Deus, que és para mim? Dize a minha alma: 'Eu sou tua Salvação.' Que eu ouça e siga essa voz, e alcance-Te. Não queiras esconder-me Teu rosto. Morra eu para que possa vê-lo, para não morrer eternamente."
    "Estreita é a casa de minha alma para que venhas até ela: que por Ti seja dilatada. Está em ruínas; restaura-a. Há nela nódoas que ofendem Teu olhar: confesso-o, pois eu o sei; porém, quem haverá de purificá-la? A quem clamarei senão a Ti? Livra-me, Senhor, dos ocultos pecados, e a Teu servo perdoa os alheios! Creio, e por isso falo. Tu o sabes, Senhor. Acaso não confessei diante de Ti meus delitos contra mim, ó Meu Deus? E não me perdoaste a impiedade de meu coração? Não quero Contigo contender em juízos, que és a Verdade, e não quero enganar-me a mim mesmo, para que não se engane a si mesma minha iniquidade. Não quero Contigo contender em juízos, por que, se deres atenção às iniquidades, Senhor, quem, Senhor, subsistirá?"
    "Nossa Vida desceu a esta terra e levou embora a morte, matou a morte com a abundância da Vida. E Ele reclamou, chamando-nos para voltar a Ele, para aquele secreto lugar do qual Ele viera direto a nós - primeiro no útero da Virgem, no qual a humanidade uniu-se a Ele, nossa carne mortal, nem sempre destinada a ser mortal. Ele não tardou, mas apressou-Se, chamando-nos por Sua Morte e Sua vida, por Sua Vinda e Sua Ascensão, para voltarmos a Ele. E Ele retirou-Se de nossa visão, para que pudéssemos voltar ao nosso próprio coração e encontrá-Lo. Como Ele Se afastou, ainda está próximo. Ele não está conosco, e nunca nos deixou."
    "Fizeste-nos, Senhor, para Ti, e nosso coração anda inquieto enquanto em Ti não descansar."
    "À Minha Mesa convido-vos. Nela ninguém morre, nela está a Vida verdadeiramente feliz, nela o Alimento não se corrompe, mas refaz e não se acaba.
    Eis para onde vos convido: para a morada dos anjos, para a amizade do Pai e do Espírito Santo, para a Eterna Ceia, para a fraternidade Comigo; enfim, a Mim mesmo, à Minha Vida Eu conclamo-vos! Não quereis crer que vos darei Minha Vida? Retende, pois, como penhor Minha Morte."
    "Que deseja a alma com mais veemência que a Verdade?"
    "Com a corrupção morre o corpo, com a impiedade morre a alma."
    "Foi o orgulho que transformou anjos em demônios, mas é a humildade que de homens faz anjos."
    "O orgulho é a fonte de todas fraquezas, porque é a fonte de todos vícios."
    "Milagres não são contrários à natureza, mas apenas contrários ao que nós sabemos sobre a natureza."
    "Tu queres existir, viver e entender, mas existes para viver e vives para entender. Portanto, sabes que existes, sabes que vives, sabes que entendes."
    "Não queiras entender para crer; crê para que possas entender. Se não crês, não entenderás."
    "Creio para compreender, e compreendo para melhor crer."
    "A compreensão é a recompensa da fé."
    "A fé e a razão caminham juntas, mas a fé vai mais longe."
    "Se tu crês somente naquilo que gostas no Evangelho, e rejeitas o que não gostas, não é no Evangelho que crês, mas sim em ti mesmo."
    "Amem esta Igreja, sejam essa Igreja, permaneçam na Igreja! E amem o Esposo!"
    "Ser cristão não é conquistar Cristo, mas deixar-se conquistar por Ele. Deixa que Ele conquiste em ti, que Ele conquiste para ti, que Ele te conquiste."
    "Tão cegos são os homens, que chegam a vangloriar-se da própria cegueira!"
    "Não há mais incurável doente que aquele que não reconhece sua doença."
    "Tenho mais compaixão do homem que se alegra no vício, que pena de quem sofre a privação de um funesto prazer e a perda de uma ilusória felicidade."
    "As pessoas viajam para admirar a altura das montanhas, as imensas ondas dos mares, o longo percurso dos rios, o vasto domínio do oceano, o movimento circular das estrelas, e no entanto elas passam por si mesmas sem se admirarem."
    "No interior do homem habita a Verdade."
    "As pessoas costumam amar a Verdade quando esta as ilumina, porém tendem a odiá-la quando as confronta."
    "Preocupas-te se a árvore de tua vida tem galhos apodrecidos? Não percas tempo: cuida bem da raiz, e não terás de andar pelos galhos."
    "Conhece-te, aceita-te, supera-te."
    "Que não te cause aborrecimento imitar aquilo que te dá prazer elogiar."
    "... conhece-se melhor a Deus na ignorância."
    "Na procura de Deus, é Ele Quem Se adianta e vem a nosso encontro."
    "Deus não será maior se O respeitares, mas tu serás maior se O servires."
    "Aquele que nos criou sem nossa ajuda, não nos salvará sem nosso consentimento."
    "Deus é mais íntimo a nós que nós mesmos."
    "Quereis cantar louvores a Deus? Sede vós mesmos o canto que ides cantar. Vós sereis o seu maior louvor, se viverdes santamente."
    "Nada estará perdido enquanto estivermos em busca."
    "Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão teus frutos."
    "O amor é meu peso. A qualquer parte que vá, é ele quem me leva."
    "A medida do amor é amar sem medida."
    "Com o amor do próximo, o pobre é rico; sem o amor do próximo, o rico é pobre."
    "Necessitamos um do outro, para sermos nós mesmos."
    "O supérfluo dos ricos é propriedade dos pobres."
    "Com o coração se pede, com o coração se procura, com o coração se bate e é com o coração que a porta se abre."
    "Se o homem soubesse as vantagens de ser bom, seria homem de bem por egoísmo."
    "Ninguém faz bem o que faz contra a vontade, mesmo que seja bom o que faz."
    "Não basta fazer boas coisas, é preciso fazê-las bem."
    "Pois Deus Todo-Poderoso, por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em Suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para do próprio mal fazer resultar o bem."
    "A função do Mal consiste em mais nitidamente salientar o Bem."
    "Há pessoas que desejam saber só por saber, e isso é curiosidade; outras, para alcançarem fama, e isso é vaidade; outras, para enriquecerem com sua ciência, e isso é um torpe negócio; outras, para serem edificadas, e isso é prudência; outras, para edificarem os outros, e isso é caridade."
    "Aquele que tem caridade no coração, sempre tem alguma coisa para dar."
    "Não é de admirar que a soberba gere a separação, e a caridade, a unidade."
    "Onde não há caridade não pode haver justiça."
    "O dedicado coração sofre menos das feridas que recebe que das que faz."
    "O pecado é amor a si mesmo até o desprezo de Deus."
    "O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixa que a santidade seja o motivo de tua alegria."
    "O que Deus mais odeia depois do pecado é a tristeza, porque nos predispõe ao pecado."
    "Ame o pecador, mas odeie o pecado."
    "É preferível a tristeza de quem suporta a iniquidade que a alegria de quem a comete."
    "As lágrimas são o sangue da alma."
    "O viver em plena felicidade não é próprio desta vida mortal. Só o será quando aparecer a imortalidade... Sem a imortalidade não existe felicidade."
    "Aqueles que pretendem encontrar a alegria fora de si, facilmente encontram o vazio."
    "Para alcançarmos esta feliz vida, a verdadeira Vida ensinou-nos a orar."
    "Teu desejo é tua oração; se o desejo é contínuo, também a oração é contínua. Não foi em vão que disse o Apóstolo: 'Orai sem cessar (1 Ts 5,17)'. Ainda que faças qualquer coisa, se desejas aquele repouso do Eterno Sábado, não cesses de orar. E se não queres cessar de orar, não cesses de desejar."
    "Não há lugar para a Sabedoria onde não há paciência."
    "A ira gera o ódio, e do ódio nascem a dor e o medo."
    "Para muitos, a total abstinência é mais fácil que a perfeita moderação."
    "Uma boa consciência é o palácio de Cristo, templo do Espírito Santo, paraíso do deleite, permanente descanso dos Santos."
    "Não é o suplício que faz o mártir, mas a causa."
    "Não é tanto o que fazemos, mas o motivo pelo qual fazemos que determina a bondade ou a malícia."
    "O dom da fala foi concedido aos homens não para que eles enganassem uns aos outros, mas sim para que expressassem seus pensamentos uns aos outros."
    "A Esperança tem duas lindas filhas, a indignação e a coragem; a indignação ensina-nos a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las."
    "O tempo é um vestígio de eternidade."
    "O tempo é a extensão da criação e a extensão da mente."
    "Minha infância morreu há muito tempo; mas eu ainda vivo."
    "Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem."


    No século VIII, por força das invasões muçulmanas, seus restos mortais foram levados para Pávia, no norte da Itália, e foram sepultados na Basílica de San Pietro in Ciel d’Oro. Aí, no século XIV, foi-lhes construído um esplendoroso mausoléu.


    Santo Agostinho, rogai por nós!