sábado, 22 de setembro de 2018

O Dom da Fé


A REVELAÇÃO E A VERDADE

    Através da Revelação, Deus quer que conheçamos uma realidade muito maior que a que vemos e tocamos. Quando devidamente contemplada, de tão perfeita a verdadeira realidade tem o poder, mas antes a finalidade, de levar-nos à correta adoração, e dar-nos a certeza da fé.
    A Encarnação do Cristo, ápice da Revelação, deixou em São João Evangelista tamanha convicção que ele fervorosamente convida a comungar dessa nova dimensão com os Apóstolos e com Deus: "O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com nossos olhos, o que temos contemplado e nossas mãos têm apalpado no tocante ao Verbo da Vida, porque a Vida Se manifestou e nós temo-la visto, damos testemunho e anunciamo-vos: a Vida Eterna, que estava no Pai e que Se nos manifestou. O que vimos e ouvimos nós anunciamo-vos, para que conosco também vós tenhais Comunhão. Ora, nossa Comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,1-3
    Quando fala da 'Vida que Se manifestou', São João refere-se ao próprio Jesus, que disse: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida..." Jo 14,6
    Disse do Santíssimo Sacramento: "Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente. E o Pão, que Eu hei de dar, é Minha Carne para a Salvação do mundo." Jo 6,51
    E explicou: "Assim como vive o Pai que Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer Minha Carne viverá por Mim." Jo 6,57
    Disse de Sua Paixão: "Ainda um pouco de tempo e o mundo já não Me verá. Porém vós tornareis a ver-Me, porque Eu vivo e vós vivereis." Jo 14,19
    Disse mais: "O Pai ama-Me porque dou Minha Vida para retomá-la. Ninguém a tira de Mim, mas Eu a dou de Mim mesmo. Tenho o poder de dá-la como tenho o poder de reassumi-la." Jo 10,17-18
    Ainda disse: "Eu sou a Ressurreição e a Vida." Jo 11,25
    Ao mencionar os milagres realizados por Jesus, São João diz abertamente o motivo de tê-los relatado: "Mas estes foram escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a Vida em Seu Nome." Jo 20,31
    Mas, e nós, que não presenciamos tais fatos? Como haveríamos de crer? Enquanto rezava ao Pai pelos Apóstolos, Jesus também pediu por nós, que receberíamos o testemunho que eles dariam: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim." Jo 17,20
    De São Tomé, entretanto, que tantos milagres havia presenciado, Ele cobrou: "Põe aqui teu dedo e olha Minhas mãos. Estende tua mão e coloca-a no Meu lado. E não sejas incrédulo, mas crê!" Jo 20,27
    E finalizou exaltando a pura fé, a fé do simples conceber, para muito além de provas materiais: "Creste porque Me viste. Felizes aqueles que creem sem ter visto!" Jo 20,29
    Sem dúvida, presenciar Seus milagres também traziam grandes responsabilidades, como aconteceu com as cidades de Corazim e Cafarnaum, para as quais Ele profetizou ruínas: "Depois Jesus começou a censurar as cidades onde tinha feito grande número de Seus milagres, por terem recusado arrepender-se: 'Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo elas teriam-se arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso, digo-vos: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até o Céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro de teus muros, subsistiria até este dia. Por isso, digo-te: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Sodoma que para ti!'" Mt 11,20-24
    Ele ressalta, porém, a fé por Deus concedida aos mais humildes: "Por aquele tempo, Jesus pronunciou estas palavras: 'Eu bendigo-Te, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e revelaste-as aos pequenos.'" Mt 11,25
    E no comportamento dos príncipes dos judeus de então, sempre tão ciosos de bens materiais,  denunciou a razão da incredulidade: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    Com efeito, entre eles não se vivia espiritualidade alguma, mas somente mundanas conveniências: "Vim em Nome de Meu Pai, mas não Me recebeis. Se vier outro em seu próprio nome, haveis de recebê-lo..." Jo 5,43
    Também denunciou a falta de interiorização da religiosidade, que se acompanha de verdadeiras práticas espirituais: "Ai de vós, hipócritas escribas e fariseus! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os mais importantes preceitos da Lei: a justiça, a Misericórdia, a fidelidade." Mt 23,23a
    Aliás, denunciou o desprezo deles pelas próprias Escrituras: "... e não tendes Sua Palavra permanente em vós, pois não credes n'Aquele que Ele enviou." Jo 5,38
    Porque segundo Ele, o primeiro Mandamento, amar a Deus sobre todas as coisas, estava sendo renegado: "Não espero Minha Glória dos homens, mas sei que não tendes em vós o amor de Deus." Jo 5,41-42
    E evocando Seus milagres, deu este simples veredicto: "As obras que faço em Nome de Meu Pai dão testemunho de Mim. Entretanto, não credes porque não sois das Minhas ovelhas." Jo 10,25b-26
    Quanto aos que sinceramente O indagavam, Sua resposta era sucinta: "Perguntaram-Lhe: 'Que faremos para praticar as obras de Deus?' Respondeu-lhes Jesus: 'A obra de Deus é esta: que creiais n'Aquele que Ele enviou." Jo 6,28-29
    Entretanto, apesar do conjunto da Revelação ter se encerrado com os escritos dos Apóstolos, Deus não deixa de revelar-Se particularmente a cada um de nós, como prometeu Jesus: "E aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e a ele manifestar-Me-ei." Jo 14,21
    Foi particularmente, por exemplo, que Deus revelou a São Pedro a identidade de Jesus. E foi o próprio Jesus que a confirmou: "Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus." Mt 16,17
    Claro, não sabemos tudo sobre Deus. Mas como diz São João, através da Vinda do Cristo foi-nos possível saber Quem Ele é: "Sabemos que o Filho de Deus veio e deu-nos entendimento para conhecermos o Verdadeiro." 1 Jo 5,20
    E São Pedro afirma que assim temos tudo de que precisamos: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    São Paulo também testifica a favor da fé, mesmo não omitindo a limitação do nosso conhecimento: "Hoje conheço em parte, mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido." 1 Cor 13,12
   Há, portanto, essa realidade maior a ser conhecida. Perante Pilatos, Jesus chamou-a de Verdade e indicou o Caminho para que ela fosse conhecida: através de Sua Voz, ou seja, de Sua Palavra: "É para dar testemunho da Verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da Verdade ouve Minha Voz." Jo 18,37
    Ele prometeu que quem obedecesse à Sua Palavra conheceria a Verdade, na forma de uma revelação particular: "Se permanecerdes na Minha Palavra, sereis Meus verdadeiros discípulos. Conhecereis a Verdade e a Verdade libertar-vos-á." Jo 8,32
    E como vimos, essa Verdade é Ele mesmo: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida..." Jo 14,6
    É d'Ele que falam as Escrituras, como assegurou aos religiosos judeus: "Vós perscrutais as Escrituras, julgando encontrar nelas a Vida Eterna. Pois bem! São elas mesmas que dão testemunho de Mim." Jo 5,39
    Disse-o mais de uma vez: "Pois se crêsseis em Moisés, certamente creríeis em Mim, porque ele escreveu a Meu respeito. Mas se não acreditais em seus escritos, como acreditareis em Minhas Palavras?" Jo 5,46-47
    Também o disse São Pedro, falando ao centurião Cornélio e sua família, instantes antes do 'Pentecostes dos Gentios': "D'Ele todos Profetas dão testemunho, anunciando que todos aqueles que n'Ele creem recebem o perdão dos pecados por meio de Seu Nome." At 10,43
    E enquanto Caminho da Verdade, para aqueles que creem, Jesus tornou-Se pedra angular, que orienta a construção de Sua Igreja. Ou, para aqueles que não creem, pedra de tropeço. Ele advertia: "Aquele que tropeçar nesta pedra, far-se-á em pedaços. E aquele sobre quem ela cair, será esmagado." Mt 21,44
    Por isso, afirmou: "... ninguém vem ao Pai senão por Mim." Jo 14,6
    Pois Ele e o Pai são inseparáveis: "Desse modo, todos honrarão o Filho, bem como honram o Pai. Aquele que não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou." Jo 5,23
    Só nos é possível adorar a Deus se estivermos completamente envolvidos pela Verdade, como Ele ensinou à samaritana no poço de Jacó: "Deus é espírito, e Seus adoradores devem adorá-Lo em espírito e Verdade." Jo 4,24
    E a Verdade, defende São Paulo, é-nos facultada pela boa vontade em conhecer: "Porém, como invocarão Aquele em Quem não têm fé? E como crerão n'Aquele de Quem não ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados, como está escrito: 'Quão formosos são os pés daqueles que anunciam as boas novas (Is 52,7)'? Mas não são todos que prestaram ouvido à Boa Nova. É o que exclama Isaías: 'Senhor, quem acreditou em nossa pregação (Is 53,1)?' Logo, a fé provém da pregação, e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,14-17
    Por isso, ele rezava a Deus, buscando oportunidades para pregar, como escreveu aos tessalonicenses: "Noite e dia, com intenso, extremo fervor, oramos para que nos seja dado ver novamente vossa face e completar o que ainda falta à vossa fé." 1 Ts 3,10
    Falava claramente em progressão "Sentimo-nos na obrigação de incessantemente dar graças a Deus a respeito de vós, irmãos. Aliás, com muita razão, visto que vossa fé vai progredindo sempre mais e desenvolve-se a caridade que tendes uns para com os outros." 2 Ts 1,3
    Tinha perfeitamente presente que era esse o trabalho dos Apóstolos: "Esperamos que, com o progresso de vossa fé, nossa obra cresça entre vós dentro do quadro de ação que nos foi determinado." 2 Cor 10,15b
    Sabia que nem todos tem o mesmo grau de conhecimento, e assim de fé: "Acolhei aquele que é fraco na fé, com bondade, sem discutir suas opiniões." Rm 14,1
    Que a fé carece de alento, como sua física presença entre eles: "Persuadido disto, sei que ficarei e continuarei com todos vós, para proveito vosso e consolação da vossa fé." Fl 1,25
    E insistia na pregação com eloquência perante os cristãos, mesmo advertindo de grandes tormentos, e assim instituía novos Sacerdotes por onde passava: "Naqueles dias, Paulo e Barnabé voltaram para as cidades de Listra, Icônio e Antioquia. Encorajando os discípulos, eles exortavam-nos a permanecerem firmes na fé, dizendo-lhes: 'É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus.' Em cada igreja instituíram Anciãos e, após orações com jejuns, encomendaram-nos ao Senhor, em Quem tinham confiado." At 14,21b-23
    Profundamente inspirado, ele sabia da imensa responsabilidade que pesava sobre seu ministério: "Anunciar o Evangelho não é glória para mim. É uma obrigação que se me impõe. Ai de mim, se eu não anunciar o Evangelho!" 1 Cor 9,16
    Mas ele e seus companheiros tinham sempre presente que era Deus que lhes abria as portas: "Dali embarcaram para Antioquia, de onde tinham saído, entregues à Graça de Deus, para o trabalho que haviam realizado. Chegando ali, reuniram a comunidade. Contaram-lhe tudo que Deus fizera por meio deles, e como havia aberto a porta da fé aos pagãos." At 14,26-27


O AUXÍLIO DO ESPÍRITO SANTO

    E a Verdade, como afirmou o próprio Jesus, só pode ser conhecida com a ajuda do Espírito Santo: "Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,13
    Ele é o constante Condutor da Igreja, que é ignorado pelo mundo: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Paráclito para que fique eternamente convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-lo-eis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,16-17
    Foi agindo em Comunhão com o Ele, e implicitamente com o Pai, que Jesus instruía os Apóstolos, como registrou São Lucas: "... depois de ter dado pelo Espírito Santo Suas instruções aos Apóstolos que escolhera..." At 1,2
    Junto aos Apóstolos, o Espírito de Deus também Se tornou 'testemunha' da Ressurreição de Cristo, como São Pedro disse perante o Sinédrio: "Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." Ap 5,32
    Jesus diz que Ele é o maior presente que Deus tem para nos dar: "... Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    É Ele Quem revela a Verdade que Deus quer que conheçamos, como disse o Apóstolo dos Gentios: "Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou (Is 64,4), tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam. Todavia, Deus no-las revelou pelo Seu Espírito..." 1 Cor 2,9-10
    É Ele que nos faz perceber as Graças que recebemos: "... o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as Graças que Deus nos concedeu..." 1 Cor 2,12
    Sem Sua ajuda, portanto, é impossível chegar à fé: "... o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem as pode compreender, porque é pelo Espírito que se devem ponderar. O homem espiritual, ao contrário, julga todas as coisas e não é julgado por ninguém." 1 Cor 2,14-15
    Até mesmo para reconhecer Jesus como Nosso Salvador precisamos do auxílio do Divino Paráclito: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3
    Por isso, para que todos conhecêssemos a Divina Revelação, São Paulo rezava: "Rogo ao Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da Glória, para que vos dê um espírito de Sabedoria e de revelação, para realmente poderdes conhecê-Lo..." Ef 1,17
    E como se iniciou no 'Pentecostes dos Gentios', aconteceu com todos os não-judeus, como aferiu São Pedro em sua primeira carta: "... àqueles que, pela justiça do Nosso Deus e do Salvador Jesus Cristo, alcançaram uma fé tão preciosa como a nossa." 2 Pd 1,1b

"AUMENTA-NOS A FÉ!"

    Na noite em que o vento e as ondas açoitaram com força o barco dos Apóstolos, eles tiveram muito medo e, desesperados, acordaram Jesus. E Ele, que tantos sinais já havia realizado diante de seus olhos, fez-lhes uma pergunta que cabe a todos cristãos: "Onde está vossa fé?" Lc 8,25
    De quantos sinais precisamos? Até quando continuaremos esquecendo tantas Graças já recebidas? Em uma atitude parecida a de muitos de nós, o pai do menino possesso pede socorro a Jesus, mas sem muita convicção, exprimindo-se com dubiedade e vagueza. Embora tenha sido sutil, Jesus não deixou de repreendê-lo: "'Se tu, porém, podes alguma coisa, ajuda-nos, compadece-te de nós!' Disse-lhe Jesus: Se podes alguma coisa?'... Tudo é possível àquele que crê." Mc 9,22b.23
    Realmente desesperado, o pai então implorou, reconhecendo sua tibieza: "Imediatamente exclamou o pai do menino: 'Creio! Vem em socorro à minha falta de fé!'" Mc 9,24
    Um centurião de Cafarnaum, porém, vai deixar Jesus admirado: "Respondeu o centurião: 'Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. Dizei uma só Palavra e meu servo será curado. Pois eu também sou um subordinado e tenho soldados às minhas ordens. Eu digo a um: 'Vai', e ele vai; a outro: 'Vem', e ele vem; e a meu servo: 'Faze isto', e ele faz...' Ouvindo isto, cheio de admiração, disse Jesus aos presentes: 'Em verdade, digo-vos: não encontrei semelhante fé em ninguém de Israel.' Depois, dirigindo-Se ao centurião, disse: 'Vai, seja-te feito conforme tua fé.' Na mesma hora o servo ficou curado." Mt 8,8.10.13
    A mulher cananeia, não por acaso mais alguém do estrangeiro, também tocou o Coração de Jesus pela fé: "Jesus partiu dali e retirou-Se para os arredores de Tiro e Sidônia. E eis que uma cananeia, originária daquela terra, gritava: 'Senhor, filho de Davi, tem misericórdia de mim! Minha filha está cruelmente atormentada por um demônio.' Jesus não lhe respondeu Palavra alguma. Seus discípulos vieram a Ele e disseram-Lhe com insistência: 'Despede-a, ela persegue-nos com gritos.' Jesus respondeu-lhes: 'Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.' Mas aquela mulher veio prostrar-se diante d'Ele, dizendo: 'Senhor, ajuda-me!' Jesus respondeu-lhe: 'Não convém jogar aos cachorrinhos o pão dos filhos.' 'Certamente, Senhor,' replicou-Lhe ela, 'mas os cachorrinhos ao menos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos...' Disse-lhe, então, Jesus: 'Ó mulher, grande é tua fé! Seja-te feito como desejas.' E na mesma hora sua filha ficou curada." Mt 15-21-28
    E Ele teve que denunciar a incredulidade de Seus conterrâneos: "E acrescentou: 'Em verdade, digo-vos: nenhum Profeta é bem aceito em sua pátria. Em verdade, digo-vos: muitas viúvas havia em Israel, no tempo de Elias, quando por três anos e meio se fachou o céu e houve grande fome por toda a terra. Mas a nenhuma delas foi mandado Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia. Igualmente havia muitos leprosos em Israel, no tempo do Profeta Eliseu, mas nenhum deles foi limpo, senão o sírio Naamã.'" Lc 4, 24-27
    A conclusão de São Mateus sobre esse fato é terminativa: "Por causa da incredulidade deles, ali operou poucos milagres." Mt 13,58
    São Marcos ainda registra outro detalhe: "E admirou-Se da incredulidade deles." Mc 6,6
    Mas os cegos que clamavam por Jesus, chamando-O de Filho de Davi, logo foram pedindo que por misericórdia fossem curados. Ele respondeu-lhes com uma pergunta e, em seguida, realizou as cura correspondentes à fé que Lhe tinham, que, de fato, pelos relatos que ouviram ao Seu respeito, era absoluta: "Disse-lhes: 'Credes que Eu vos posso fazer isso?' 'Sim, Senhor', responderam eles. Ele então tocou-lhes nos olhos, dizendo: 'Seja-vos feito segundo vossa fé.' No mesmo instante, seus olhos abriram-se." Mt 9,28b-30a


    Para que se chegue a tal fé, como visto, carece-se de uma sincera iniciativa, de uma antecipada simpatia, porque equivale a chegar-se a Deus, como dizem os seguidores da tradição de São Paulo: "... pois para achegar-se a Ele é necessário que primeiro se creia que Ele existe, e que recompensa aqueles que O procuram." Hb 11,6b
    E se a cristandade chegou a este ruidoso contingente na atualidade, que é um inconteste sinal do poder de Deus, devemos lembrar que tudo começou por apenas um homem: "Foi pela fé que Abraão, obedecendo ao divino apelo, partiu para uma terra que devia receber em herança. E partiu sem saber para onde ia. Assim, de um só homem quase morto nasceu uma posteridade tão numerosa como as estrelas do céu, e inumerável como os grãos de areia da praia do mar." Hb 11,8.12
    Como todas coisas santas, pois, o dom da fé, entre outros, deve ser pedido a Deus. Jesus ensinou: "Pedi e dar-se-vos-á. Buscai e achareis. Batei e ser-vos-á aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate, abrir-se-á." Mt 7,7-8
    Não por acaso, diz São Tiago Menor: "A oração do justo tem grande eficácia." Tg 5,16b
    Pois o próprio Jesus havia dito: "Tudo que pedirdes com fé em oração, vós alcançareis." Mt 21,22
    Ele pedia apenas que crêssemos: "Por isso, digo-vos: tudo que pedirdes na oração, crede que o tendes recebido, e ser-vos-á dado." Mt 11,24
    São João Evangelista apenas explicava: "A confiança que n'Ele depositamos é esta: em tudo quanto Lhe pedirmos, se for conforme Sua vontade, Ele atender-nos-á. E se sabemos que Ele nos atende em tudo quanto Lhe pedirmos, sabemos daí que já recebemos o que pedimos." 1 Jo 5,14-15
    Os Apóstolos, aliás, desde logo entenderam bem essa lição. Tanto que, quando Nosso Salvador falou em perdoar infinitamente, eles pediram-Lhe: "Aumenta-nos a fé!" Lc 17,5
    Noutra situação, quando os Apóstolos Lhe perguntaram porque não conseguiram curar um menino, Ele responde-lhes com uma hipérbole, um proposital exagero, para evidenciar o poder e a importância da fé: "Por causa de vossa falta de fé. Em verdade, digo-vos: se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a esta montanha: 'Transporta-te daqui para lá', e ela irá; e nada vos será impossível." Mt 17,20
    São Paulo recomenda empenho para alcançá-la, mas em companhia de quem verdadeiramente cultua a Deus: "Foge das paixões da mocidade, busca com empenho a justiça, a fé, a caridade, a Paz, com aqueles que invocam o Senhor com pureza de coração." 2 Tm 2,22
    Pois enquanto obedientes filhos de Deus, na Igreja temos uma especial condição, o fraterno amor como nosso Santo exortava os gálatas: "Irmãos, se alguém for surpreendido numa falta, vós, que sois animados pelo Espírito, admoestai-o em espírito de mansidão. E tem cuidado de ti mesmo, para que não caias também em tentação! Ajudai-vos uns aos outros a carregar vossos fardos, e deste modo cumprireis a Lei de Cristo. Não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, se não relaxarmos. Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos os homens, mas particularmente aos irmãos na fé." Gl 6,1-2.9-10
    Ele também faz uma radical síntese, em carta aos coríntios, da vida cristã: "Andamos pela fé, e não pela visão." 2 Cor 5,7
    Pois pelo Sacrifício Pascal de Nosso Senhor alcançamos a definitiva Redenção, como ele pregou na sinagoga de Antioquia da Pisídia: "Sabei, pois, irmãos, que por Ele se vos anuncia a remissão dos pecados. Todo aquele que crê é justificado por Ele de tudo aquilo que não pôde ser pela Lei de Moisés." At 13,38-39
    No entanto, escrevendo aos tessalonicenses, igualmente indicou de Quem vem esse dom: "Não cessamos de rezar por vós, para que Nosso Deus vos faça dignos da Sua vocação. Que Ele, por Seu poder, realize todo bem que desejais e torne ativa vossa fé." 2 Ts 1,11
    E ao convidar os romanos à humildade, afirmou claramente que a fé é uma dádiva: "Em virtude da Graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não tenham de si mesmos mais elevado conceito do que convém, mas uma justa estima, ditada pela Sabedoria, de acordo com o grau de fé que Deus lhes distribuiu." Rm 12,3
    Já o Profeta Habacuc, sem o menor exagero, disse em poucas palavras o que mantem vivo aquele que quer praticar a justiça. De tão forte, essa frase foi repercutida em vários livros da Bíblia: "O justo vive da fé!" Hab 2,4
    De toda forma, Jesus bem sabia a importância dos divinos sinais. Por isso, pouco antes de Sua Ascensão aos Céus, garantiu que Seus Apóstolos realizariam maravilhas: "Estes milagres acompanharão aqueles que crerem..." Mc 16,17
    E algo mais nos sustenta no Caminho indicado por Jesus. Diz São Paulo: "... a esperança não engana." Rm 5,5
    Também disse a São Timóteo: "... pusemos nossa esperança no Deus Vivo, que é o Salvador de todos os homens, sobretudo dos fiéis." 1 Tm 4,10
    Mas devemos ter uma consciência ativa e honesta, capaz de não desmerecer as Graças já alcançadas e ser fiel aos compromissos que assumimos em honra dos Sacramentos. É com esse espírito que devemos enfrentar as difíceis situações, sem nos afastarmos da fé, como muitos fazem. Através de São Timóteo, São Paulo exorta-nos: "... sustenta o bom combate com fidelidade e boa consciência, pois alguns desprezaram e naufragaram na fé." 1 Tm 1,18-19
    De fato, com toda propriedade diz-nos a Carta aos Hebreus: "Ora, sem fé é impossível agradar a Deus..." Hb 11,6
    Lembremos, contudo, que nossa fé tem que agir dentro dos inconfundíveis limites do amor: "... a fé que opera pela caridade." Gl 5,6
    São Judas Tadeu, referindo-se à Revelação como o maior bem entregue aos Apóstolos, diz-nos com que propósito escreveu sua carta, pois conhecer as coisas de Deus é uma conquista: "... senti a necessidade de dirigir-vos esta carta para exortar-vos a pelejar pela fé, de uma vez para sempre confiada aos Santos." Jd 1,3
    E pede que os irmãos se edifiquem, buscando aprofundar-se sempre mais o Mistério do Cristo: "Mas vós, caríssimos, edificai-vos mutuamente sobre o fundamento da vossa santíssima fé. Orai no Espírito Santo." Jd 20
    São Paulo alertava para não fugirmos destes limites: "Nós somos operários com Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus. Segundo a Graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso d'Aquele que já foi posto: Jesus Cristo." 1 Cor 3,9-11
    Pois só assim nos tornamos verdadeiramente Igreja: "Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É n'Ele que todo edifício, harmonicamente disposto, levanta-se até formar um santo templo no Senhor. É n'Ele que também vós entrais, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus." Ef 2,19-22
    Esse era seu grande esforço, como disse aos gálatas: "Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto até que Cristo seja formado em vós..." Gl 4,19
    Zelava pela estrita obediência nas comunidades: "Quando vos escrevi, minha intenção era submeter-vos à prova para ver se éreis totalmente obedientes. Não quero que sejamos vencidos por Satanás, pois não ignoramos suas maquinações." 2 Cor 2,9.11
    E sua preocupação era bem real porque a fé também se perde, como disseram seus seguidores: "Tomai precaução, meus irmãos, para que ninguém de vós venha a perder interiormente a fé, a ponto de abandonar o Deus Vivo. Antes, mutuamente animai-vos cada dia durante todo tempo compreendido na palavra hoje, para não acontecer que alguém se torne empedernido com a sedução do pecado. Porque somos incorporados a Cristo, mas sob a condição de conservarmos firme, até o fim, nossa fé dos primeiros dias." Hb 3,12-14
    Aliás, são muitos os maus exemplos: "Pelo que, transpondo os elementares ensinamentos da Doutrina de Cristo, procuremos alcançar-lhe a plenitude. Porque aqueles que uma vez foram iluminados saborearam o dom celestial, participaram dos dons do Espírito Santo, experimentaram a doçura da Palavra de Deus e as maravilhas do mundo vindouro e, apesar disso, caíram na apostasia... Desejamos, apenas, que ponhais todo empenho em guardar intata vossa esperança até o fim, e que, longe de tornardes-vos negligentes, sejais imitadores daqueles que pela fé e paciência se tornam herdeiros das promessas." Hb 6,1.4.11-12
    O próprio Jesus ditou uma mensagem assim à igreja Éfeso: "Mas tenho contra ti que arrefeceste teu primeiro amor. Lembra-te, pois, donde caíste. Arrepende-te e retorna às tuas primeiras obras." Ap 2,4-5
    Ora, a perda da fé será o grande problema dos últimos tempos. Ao falar da efetiva realização justiça de Deus, Jesus perguntou: "Mas quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?" Lc 18,8b
    São Paulo profetizou essa 'embriaguez' por berrantes ilusões: "Ninguém de modo algum vos engane. Porque primeiro deve vir a apostasia, e deve manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo o que é divino e sagrado, a ponto de tomar lugar no Templo de Deus e apresentar-se como se fosse Deus. A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda sorte de enganadores portentos, sinais e prodígios. Ele usará de todas seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à Verdade que os teria podido salvar. Desse modo, serão julgados e condenados todos aqueles que não deram crédito à Verdade, mas consentiram no Mal. Nós, porém, sentimo-nos na obrigação de incessantemente dar graças a Deus a respeito de vós, irmãos queridos de Deus, porque desde o princípio vos escolheu Deus para dar-vos a Salvação, pela santificação do Espírito e pela fé na Verdade." 2 Ts 2,3-4.9-10.12-13
    Nesse sentido, não podemos nos deixar seduzir pelo individualismo, exigindo manifestações e sinais ao sabor de nossa vontade, desmerecendo tantos testemunhos já dados por tantas pessoas. E tenhamos uma certeza: é Jesus mesmo, por Sua inteira e soberana vontade, que pode semear e fazer crescer a fé em nossos corações: "Desse modo, cercados como estamos de uma tal nuvem de testemunhas, desvencilhemo-nos das cadeias do pecado. Corramos com perseverança ao combate proposto, com o olhar fixo no Autor e Consumador de nossa fé: Jesus." Hb 12,1-2a
    A fé, portanto, é mais um mistério. Contudo, é também a grande conquista, a vitória do povo de Deus. É ela que nos dá o saber além da mera ciência humana: "A fé é o fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê. Foi ela que fez a Glória de nossos antepassados. Pela fé reconhecemos que o mundo foi formado pela Palavra de Deus, e que as coisas visíveis se originaram do invisível." Hb 11,1-3
    Por isso, garante São João Evangelista: "... porque todo aquele que nasceu de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: nossa fé." 1 Jo 5,4

    "Meu Senhor e Meu Deus, eu creio, mas aumentai minha fé!"
    "Tornai viva nossa fé, nossa esperança!"

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

São Mateus, Apóstolo e Evangelista


    O próprio São Mateus, em seu Evangelho, teria registrado seu encontro com Jesus:
    "Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, que estava sentado no posto de pagamento de impostos. Disse-lhe:
    - Segue-Me.
    O homem levantou-se e seguiu-O.
    Como estivesse Jesus à mesa na casa desse homem, numerosos publicanos e pecadores vieram e sentaram-se com Ele e Seus discípulos. Vendo isto, os fariseus disseram aos discípulos:
    - Por que come Vosso Mestre com os publicanos e com os pecadores?
    Jesus, ouvindo isto, respondeu-lhes:
    - Não são os que estão sãos que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a Misericórdia, não o sacrifício (Os 6,6).' Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores.
    Então os discípulos de João, dirigindo-se a Ele, perguntaram:
    - Por que jejuamos nós e os fariseus, e Teus discípulos não?
    Jesus respondeu:
    - Podem os amigos do Esposo afligir-se enquanto o Esposo está com eles? Dias virão em que lhes será tirado o Esposo, então eles jejuarão. Ninguém põe um remendo de novo pano em velha veste, porque arrancaria uma parte da veste e o rasgo ficaria pior. Tampouco se coloca novo vinho em velhos odres; do contrário, os odres rompem-se, o vinho derrama-se e os odres perdem-se. Coloca-se, porém, novo vinho em novos odres, e assim tanto um como outro se conservam." Mt 9,9-18

    São Marcos conta a mesma passagem, identifica a cidade, mas, assim como São Lucas, chama São Mateus por outro nome, provavelmente para assinalar sua condição de levita, isto é, membro da classe de sacerdotes de Israel, que usavam o critério de descendência, os filhos de Levi, instituída por Deus desde os tempos Moisés:
    "Alguns dias depois, Jesus novamente entrou em Cafarnaum... Quando ia passando, viu Levi, filho de Alfeu, sentado no posto de arrecadação, e disse-lhe:
    - Segue-Me.
    E Levi, levantando-se, seguiu-O." Mc 2,1.13

    São Lucas menciona mais explicitamente o banquete que São Mateus ofereceu a Jesus, ao qual acorreram também seus amigos de profissão, fato que gerou a crítica dos hipócritas religiosos:
    "Levi deu-Lhe um grande banquete em sua casa. Vários desses fiscais e outras pessoas estavam sentados à mesa com eles. Os fariseus e seus escribas puseram-se a criticar..." Lc 5,29-30

    De fato, São Mateus era cobrador de impostos, quer dizer, recolhia parte das riquezas de seu povo para o Império Romano, àquela época representado na Galileia por Herodes Antipas. No entanto, embora vivesse um drama de consciência, pois bem sabia da desumana exploração, exercia sua profissão com lisura.
    E por certo já havia ouvido Jesus falar, em Quem sua alma encontrou a Paz que todos buscamos. Ora, como bem narrou São João Evangelista, os próprios guardas enviados para prender Jesus percebiam que havia 'algo diferente' no Mestre.
    "Voltaram os guardas para junto dos príncipes dos sacerdotes e fariseus, que lhes perguntaram:
    - Por que não O trouxestes?
    Os guardas responderam:
    - Jamais alguém falou como este homem!... " Jo 7,46

    Mas Jesus conhece os corações das pessoas e não iria destratar um cobrador de impostos só por causa da profissão. Não foi à toa que Se sentou à mesa com eles, e não o fez porque fossem 'doentes'. Com esse gesto, Jesus alertava aqueles que já se julgam 'sadios', 'limpos'. Aliás, os cobradores de impostos seriam apenas tão pecadores quanto os saduceus, mancomunados com os romanos até em assuntos de fé (cf. At 23,8), ou quanto os fariseus, que contra jesus maquinavam com os herodianos (cf. Mt 22,16 e Mc 3,6). Por isso, Jesus vai desmascarar a falta de humildade dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos do povo, e defender conhecidos pecadores por serem conscientes de seus erros:
    "Em verdade, digo-vos: os cobradores de impostos e as prostitutas entrarão antes de vós no Reino de Deus! João veio a vós no Caminho da justiça e não crestes nele. Porém, os coletores e as prostitutas nele creram. E vós, vendo isto, nem fostes tocados de arrependimento para nele crerdes." Mt 21,31-32
    
    Noutra parábola, Jesus vai colocar lado a lado um cobrador de impostos e um fariseu, e mais uma vez o bom exemplo virá do fiscal:
    "Subiram dois homens ao Templo para orar. Um era fariseu; o outro, cobrador de impostos. O fariseu, em pé, orava em seu íntimo desta forma: 'Graças dou-Te, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros. Nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos meus lucros.'
    O cobrador, porém, mantendo-se à distância, não ousava sequer levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: 'Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!'
    Digo-vos: este voltou para casa justificado, e não o outro. Pois todo aquele que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado." Lc 18,10-14


    São Mateus era um nobre galileu de Cafarnaum, homem de leitura e contemplação. Não há registro algum de palavra sua nos Evangelhos, nem mesmo no seu. Sua atenção era tão centrada em Jesus, em Seus gestos e Suas Palavras, que os demais Apóstolos e as pessoas que seguiam o Salvador quase nem percebiam sua distinta presença. Jesus, como a própria Palavra de Deus que é, o Verbo Encarnado, significa para ele, judeu culto e de , a absoluta realização da alma. Todas as Escrituras estavam ali, diante dele, na forma de uma Pessoa. E os Evangelhos só registram uma Palavra de Jesus dirigida a ele: 'Segue-Me'. Foi o bastante.
    Profundo conhecedor dos sagrados livros, ele sabia que a vinda do Messias estava próxima. Conhecia em especial as profecias, e estava muito bem atento ao cumprimento delas. Quando Jesus as explicava, então, ele sentia-se nos Céus, com o peito em flamas, exatamente como disseram os discípulos que foram acompanhados, sem que soubessem, por Jesus ressuscitado, no caminho de Emaús durante o Domingo da Ressurreição:
    "Não nos abrasava o coração, quando Ele falava pelo caminho e explicava-nos as Escrituras?" Lc 24,32

    São Mateus escreveu seu Evangelho, o primeiro dos quatro, em aramaico, língua que Jesus falava, caso único do Novo Testamento. Mas logo foi traduzido para o grego nas seguintes compilações. Em cinco discursos de Jesus, ele deixou-nos a melhor síntese de Sua Doutrina, entre eles o Sermão da Montanha, além da versão mais conhecida e apreciada do Pai Nosso. Seu Evangelho traz a essência da Catequese Cristã. Por isso, ao viajar a Índia, São Bartolomeu Apóstolo teria levado uma cópia.
    Seu Evangelho dirigia-se aos judeus e helenistas, descendentes de judeus espalhados pelas cidades que haviam sido dominadas pelo então destituído Império Grego, sempre mostrando por frequentes citações das Escrituras que Jesus era o Messias. E os judeus que se convertiam, antes de começarem a ser chamados de cristãos, eram conhecidos como nazarenos, por causa da origem de Jesus. Vemos esse termo na acusação que os judeus fizeram contra São Paulo a Felix, que foi governador da Judeia e morava em Cesareia:
    "É um dos líderes da seita dos nazarenos." At 24,5

    Após a Ascensão de Jesus, São Mateus teria pregado discretamente, bem a seu modo, entre os judeus da própria Judeia, mesmo em meio às perseguições. Assim viveu por 15 anos, mas com o passar do tempo viu-se obrigado a escrever seu Evangelho, que era a tradição oral da interpretação das Escrituras, tomando como base a Vida do Cristo e Suas pregações no anúncio da Boa Nova. Certamente, foi uma decisão inspirada: as tensões sociais em Israel iriam explodir no ano de 70 da nossa era, e uma nova dispersão iria demandar que Suas revelações e ensinamentos estivessem escritos.
    A primeira redação teria sido arrematada por volta do ano 50, em Antioquia, na atual Turquia, que era a terceira maior cidade do Império Romano, menor apenas que Roma e Alexandria. Paradoxalmente, apesar de seus escritos que ligam o cristianismo ao judaísmo, foi aí que os cristãos vindos do judaísmo perderam a influência sobre os cristãos vindos do paganismo. Aliás, foi aí onde os seguidores de Cristo foram chamados de cristãos pela primeira vez, por força da pregação de São Paulo e São Barnabé: "Durante um ano inteiro, eles tomaram parte nas reuniões da comunidade e instruíram grande multidão, de maneira que em Antioquia é que os discípulos, pela primeira vez, foram chamados pelo nome de cristãos." At 11,26

    Daí São Mateus quis ir a Roma; Talvez para auxiliar São Pedro na formação da sede da Igreja e do Colegiado Romano, que serviu de esboço para o atual Colégio de Cardeais. Mas aparentemente não conseguiu, e a razão pode ter sido a expulsão de judeus e cristãos da capital pelo imperador Cláudio, no ano de 49 (cf. At 18,2). Registros, entretanto, dão conta de sua passagem pela Macedônia, pelo Império Parto, pela Pérsia e, por fim, pela Etiópia, o que amplia em muito sua área de atuação após deixar a Judeia.
    Na Etiópia, centro de grande movimentação de judeus, ele teria vivido seus últimos anos. Curou de lepra Santa Efigênia, filha do rei, e por esse milagre ela teria se recusado a casar com o sucessor de seu pai, Hitarco, pois preferiu consagrar-se a Deus e ajudar São Mateus na divulgação da Boa Nova. Muito contrariado, Hitarco culpou São Mateus por essa decisão: ele a teria enfeitiçado. E mandou matá-lo no altar, enquanto celebrava a Santa Missa.
    Em 930, suas relíquias foram localizadas nesse país e levadas para Salerno, sul da Itália, onde é o padroeiro da cidade e sua procissão, de secular tradição, é muito festejada.


    Aí ele tem seu nome junto ao de Nossa Senhora dos Anjos na dedicação da Catedral, cuja cripta lhe é dedicada.


      São Mateus, rogai por nós!

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Santo André Taegon, São Paulo Hasang e Mártires


    A Coreia começou a ser catequizada nos anos de 1700, por simples leigos. Em suas visitas a Pequim, na época um grande centro de estudos e divulgação de conhecimento, o coreano Yi Byuk conheceu o livro 'A Verdadeira Doutrina de Deus', do padre jesuíta italiano Mateus Rici.
    Essa simples centelha incendiou sua alma: era o miraculoso nascimento da Igreja na Coréia, evidentemente sob a mais pura ação do Espírito Santo por meio de singelas comunidades orantes, mesmo sem a presença de nenhum Sacerdote. Também impressiona a força da que animava essa gente, pois as autoridades eram extremamente intolerantes ao cristianismo, e o primeiro padre, o chinês Zhu Wen Miao, só pisaria nessas terras em 1795.
    Em 1784 o Bispo de Pequim, um missionário francês, batizou Yi Sung-Hun, filho do embaixador coreano na China, que havia conhecido Yi Byuk em 1779 e através dele foi imediatamente arrebatado a Cristo. Sob a Graça desse Sacramento, ele retornou a Coreia, começou a anunciar Jesus e, por si mesmo, teve a iniciativa de batizar e 'ordenar' líderes leigos como 'clérigos temporários'.
    Mas, informados pelo Bispo de Pequim que tal procedimento era contrário às regras da Igreja, eles corrigiram-se e aguardaram a vinda de um Sacerdote, pois, apesar de seus frequentes pedidos, os números e as condições de atuação do clero na Ásia eram extremamente limitadas.
    De fato, nos séculos XVI e XVII, São Francisco Xavier, o 'Apóstolo' do Oriente, havia estado na Índia, na China e no Japão, contudo a resistência dos reis e autoridades locais não lhe permitiu fundar nada mais que isoladas comunidades, embora firmes na fé, que só clandestinamente sobreviveriam.
    Quando o padre Zhu Wen Miao chegou, porém, a igreja coreana já contava mais de 4000 membros. E em 1821 nascia Santo André Kim Taegon. Seu pai era um desses heroicos pioneiros cristãos da Ásia, que fizera da sua casa uma igreja: difundia-se, catequizava-se e celebrava-se o Verbo da Vida. Mas em 1836, ao ser descoberto, seu pai foi brutalmente assassinado.
    Sua família foi poupada, sob ameaças para que abandonassem a fé, mas Santo André Taegon, na época aos 15 anos, aceitou ser enviado a Macau por intermédio de missionários franceses para estudar Teologia. Lá se vivia sob o domínio português, e os jesuítas haviam fundado em 1565 a Igreja de Santo Antônio, que ele veio a frequentar.


      Atualmente, num jardim próximo a essa Igreja, há uma estátua em sua homenagem.


    Aí Santo André Taegon preparou-se para ser Sacerdote. E em 1844, aos 23 anos, ao ser ordenado diácono, sempre muito solícito para com as condições espirituais das comunidades de seu povo, decidiu-se por retornar imediatamente a Coreia, e pôs-se a trabalhar com fervor pela Salvação das almas.
    Conhecido por seu valoroso zelo pela Igreja, logo foi convidado a Xangai, na China, a fim de receber a ordenação sacerdotal, para onde prontamente viajou enfrentando todos perigos da clandestinidade. Aí se tornou o primeiro Sacerdote de origem coreana.
    A viagem de regresso foi igualmente temerária, evitando ser identificado como clérigo, o que colocava sua vida em risco. Mas tão logo pisou em terra, começou a evangelizar, batizar, tomar Confissão e casar como manda a Santa Igreja. A consolidação da paróquia, no entanto, demandava trânsito de documentos, e logo Santo André Taegon foi chamado mais uma vez a China, desta vez a Pequim.
    Nesta viagem em 1846, aos 25 anos, ele não teve a mesma sorte. Foi descoberto ainda em seu país. Levado à presença do rei, dada a condição de respeitável por sua erudição, foi interrogado e obrigado a renegar a fé católica. Mas ele respondeu: "Dado que o Senhor do Céu é o Pai de toda humanidade e o Senhor de toda Criação, como podeis pedir-me para trai-Lo? Se neste mundo aquele que trair o pai ou a mãe não é perdoado, com maior razão jamais posso trair Aquele que é o Pai de todos nós!"
    O rei, mudando de estratégia, perguntou pelos nomes das pessoas que comungavam de sua fé, mas Santo André, sabendo de suas intenções, negou-se a nominá-los. O perverso regente, porém, que já havia prendido seus familiares e cristãos mais próximos, reuniu todos e mandou decapitá-los.
    Eram 103, mas nenhum deles fez menção em abandonar a fé em Cristo.
    O Papa São João Paulo II beatificou-os em 1984.


    Seu grande colaborador era o leigo São Paulo Chong Hasang, incansável pregador do Evangelho e grande responsável por um expressivo número de conversões. Era visivelmente movido pelo Espírito Santo, e também foi canonizado.


    Santo André Kim Taegon, antes de ser sacrificado, conseguiu deixar uma mensagem escrita para os fiéis que não haviam sido capturados. Dizia: "Eu peço-vos: não deixeis de lado o amor fraterno, mas ajudai-vos uns aos outros, perseverando até que o Senhor tenha piedade de nós e afaste a tribulação."


    Para que se tenha um ideia da dificuldade da divulgação da Palavra de Deus na Coreia (bem como em toda Ásia), mas principalmente do heroísmo da fé e do perfeito amor a Deus que aí se viram, dignos dos maiores Santos, entre 1785 e 1882 mais de 10 mil fiéis foram martirizados.
    Hoje, absolutamente vitoriosos e em virtuoso crescimento, os católicos na Coréia do Sul são mais de 5 milhões, em 14 Dioceses, com 5.000 Sacerdotes e 3.500 religiosos.
    O lugar do nascimento de Santo André Taegon, onde havia vivido sua família desde o bisavô, tornou-se um belíssimo santuário, conhecido como o berço do Catolicismo na Coreia. Sua casa foi especialmente preservada. Muitos dos atuais padres e freiras coreanos são dessa região.


    Sua fíbula, osso mais fino da canela, encontra-se bem preservada.


    Santo André Taegon e São Paulo Hasang, rogai por nós!