sábado, 29 de fevereiro de 2020

O Pão da Vida Eterna


    Existe um sagrado alimento que nos põe em comunhão com Deus. Todo verdadeiro cristão, pois, deve desejar sentar-se à mesa com Seu Filho e Nosso Irmão Jesus Cristo, e servir-se deste Alimento. Contrapondo ao maná comido pelos judeus no deserto, Ele ensinou: "... Meu Pai é Quem vos dá o verdadeiro Pão do Céu..." Jo 6,32
    E o Pão que Deus nos oferece é o próprio Jesus, o Verbo Encarnado, o Pão da Vida Eterna, pois nossa Salvação vem por Sua Carne e por Seu Sangue: "Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente. E o Pão, que Eu hei de dar, é Minha Carne para a Salvação do mundo." Jo 6,51
    De fato, como a Encarnação de Deus na Pessoa de Jesus foi um fenômeno sobrenatural, assim também se dá com Sua presença na Hóstia Consagrada, que recebemos na Santa Missa. Ambas manifestações de Deus são obras do Espírito Santo: a primeira deu-se através de Nossa Mãe Maria Santíssima, e a segunda dá-se através da Santa Eucaristia.
    Logo, para vivermos a Vida Plena que Deus nos oferece, precisamos estar em Comunhão com a Santíssima Trindade, precisamos do Espírito de Deus agindo em nós, como São Paulo diz: "A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    Porque não há Vida Plena se não nos alimentarmos do Corpo de Cristo. São Suas palavras: "... se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos." Jo 6,53
    Para tanto, Ele mesmo instituiu a Eucaristia na Santa Ceia: "Em seguida, tomou o pão e depois de ter dado graças, partiu-O e deu-lhO, dizendo: 'Isto é Meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de Mim.'" Lc 22,19
    Isso se deu pouco antes de Jesus ser glorificado, e foram decisivos instantes de Sua Missão e para a Redenção da humanidade: "Chegada que foi a hora, Jesus pôs-Se à mesa e com Ele os Apóstolos. Disse-lhes: 'Ardentemente tenho desejado convosco comer esta Páscoa, antes de sofrer.'" Lc 22,14-15
    E no Domingo da Ressurreição, antes de aparecer ao Colégio dos Apóstolos, Ele só Se revelou aos dois discípulos que tomaram o caminho de Emaús quando partiu o Pão: "Aconteceu que, estando sentado juntos à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-O, partiu-O e serviu-lhO. Então se lhes abriram os olhos e reconheceram-nO... mas Ele desapareceu." Lc 24,30-31
    Essa memória, portanto, como sinal de perfeito acolhimento do testemunho dos Apóstolos, foi muito bem preservada por discípulos e seguidores desde o início, como se vê logo após o Pentecostes: "Eles perseveravam na Doutrina dos Apóstolos, na reunião em comum, na fração do Pão e nas orações." At 2,42
    E eles celebravam-na aos 'domingos', que significa Dia do Senhor, nome que deram ao Dia da Ressurreição: "Na tarde do mesmo dia, que era o primeiro da semana, os discípulos tinham fechado as portas do lugar onde se achavam, por medo dos judeus. Jesus veio e pôs-Se no meio deles. Disse-lhes Ele: 'A Paz esteja convosco!' Dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos alegraram-se ao ver o Senhor." Jo 20,19-20
    É o que se constata da prática de evangelização de São Paulo e São Lucas: "No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para partir o Pão..." At 20,7
    São João Evangelista, com efeito, vai usar exatamente esse termo para designar o dia em que foi agraciado com celestiais visões. Pudera, era o dia da maior e mais patente manifestação de Deus à humanidade, da Ressurreição de Deus feito homem: "No Dia do Senhor, fui arrebatado em êxtase e ouvi, por trás de mim, uma forte voz como de trombeta..." Ap 1,10
    Ora, o próprio Jesus aparecia aos Colégio dos Apóstolos no primeiro dia da semana, como foi a segunda aparição: "Oito dias depois, outra vez estavam Seus discípulos no mesmo lugar, e Tomé com eles. Estando trancadas as portas, veio Jesus, pôs-Se no meio deles e disse: 'A Paz esteja convosco!'" Jo 20,26
    Eram, de fato, aparições em carne e ossos, como Ele demonstrou: "'Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo. Apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho.' E, dizendo isso, mostrou-lhes as mãos e os pés. Mas, vacilando eles ainda e estando transportados de alegria, perguntou: 'Tendes aqui alguma coisa para comer?' Então ofereceram-lhe um pedaço de peixe assado. Ele tomou e comeu à vista deles." Lc 24,39-43
    E São Paulo, com propriedade, afirma que a Comunhão Eucarística é o principal instrumento da Unidade da Igreja: "Uma vez que há um único Pão, nós, embora sendo muitos, formamos um só Corpo, porque todos nós comungamos do mesmo Pão." 1 Cor 10,17
    Afirma que tal celebração se dá quando revivemos e atualizamos o Sacrifício de Cristo: "Assim, todas vezes que comeis desse Pão e bebeis desse Cálice, lembrais a morte do Senhor, até que Ele volte." 1 Cor 11,26
    Pois Ele é Nossa Páscoa, nossa passagem para a Terra Santa, para a Vida Eterna: "Pois Nossa Páscoa, Cristo, foi imolada. Celebremos, pois, a festa, não com o velho fermento nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os Pães sem fermento, de pureza e de Verdade." 1 Cor 5,8
    E o Último Apóstolo assim tratava de ensinar por onde passava, como explicou aos coríntios, garantindo-lhes a fidelidade à tradição: "Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-O e disse: 'Isto é Meu Corpo, que é entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo, depois de haver ceado, também tomou o cálice, dizendo: 'Este Cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue. Todas vezes que O beberdes, fazei-o em memória de Mim.'" 1 Cor 11,23-25
    Mas ele adverte que não confundamos a Santa Ceia com qualquer outro rito: "Não podeis beber ao mesmo tempo o Cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar ao mesmo tempo da Mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Ou queremos provocar a ira do Senhor? Acaso somos mais fortes que Ele?" 1 Cor 10,21-22


"FELIZES OS CONVIDADOS"

    Ele fala da necessária penitência para que se esteja em dia com os Mandamentos de Deus, e assim possamos participar da Comunhão Eucarística: "Portanto, todo aquele que indignamente comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor, será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse Pão e beba desse Cálice. Aquele que O come e O bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe sua própria condenação. Esta é a razão porque entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos." 1 Cor 11,27-30
    Pois a verdadeira fé vive-se perante os olhos de Deus, como São Paulo pedia a todos: "... que guardem o mistério da fé numa pura consciência." 1 Tm 3,9
    Ele mesmo dava exemplo, como alegou em sua defesa perante Felix e os principais dos judeus, quando foi julgado em Cesareia: "Por isso, sempre procuro ter sem mácula minha consciência diante de Deus e dos homens." At 24,16
    Porque nosso Batismo, antes de tudo, é um pedido a Deus em virtude da Ressurreição de Cristo, como São Pedro argumenta: "Esta Água prefigurava o Batismo de agora, que salva também a vós, não pela purificação das impurezas do corpo, mas pela que consiste em pedir a Deus uma boa consciência, pela Ressurreição de Jesus Cristo." 1 Pd 3,21
    E nada podemos sem a Graça, pela qual São Paulo exulta: "A razão da nossa Glória é esta: o testemunho de nossa consciência de que, no mundo e particularmente entre vós, temos agido com santidade e sinceridade diante de Deus, não conforme o espírito de sabedoria do mundo, mas com o socorro da Graça de Deus." 2 Cor 1,12
    Eis, pois, que os seguidores de sua tradição exaltam a inestimável dádiva que é o Sacrifício Pascal, que nos redime de todos pecados: "... quanto mais o Sangue de Cristo, que pelo Eterno Espírito Se ofereceu como vítima sem mácula a Deus, purificará nossa consciência das obras mortas para o serviço do Deus Vivo?" Hb 9,14b
    Porque quem bem se examina, deve confessar e pedir absolvição aos Sacerdotes da Igreja, conforme o Sacramento que Jesus também instituiu pelo Espírito Santo: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    Ora, os judeus também tinham restrições sobre quem poderia comer das coisas sagradas, como Deus disse a Abraão: "Também te dou as primícias que os israelitas oferecerem ao Senhor: o melhor de seu óleo, de seu vinho e de seu trigo. Serão para ti as primícias dos produtos da terra que trouxerem ao Senhor. Todo membro de tua família, que estiver puro, delas poderá comer." Nm 18,12-13
    Quanto aos castigos a quem desrespeita a Comunhão, havia paralelo na história do povo de Deu, como São Paulo aponta: "Não quero que ignoreis, irmãos, que todos nossos pais estiveram debaixo da nuvem e que todos atravessaram o mar. Todos foram batizados em Moisés, na nuvem e no mar, todos comeram do mesmo alimento espiritual, todos beberam da mesma bebida espiritual, pois todos bebiam da pedra espiritual que os seguia, e essa pedra era Cristo. Não obstante, a maioria deles desgostou a Deus, pois seus cadáveres cobriram o deserto. Estas coisas aconteceram para servir-nos de exemplo, a fim de não cobiçarmos más coisas, como eles as cobiçaram." 1 Cor 10,1-6
    E assim, por não acolherem Jesus como o Cristo, os judeus terminaram afastados da Santa Eucaristia. Invocando o Antigo Testamento como um convite, Ele afirmou na parábola da grande ceia: "Pois digo-vos: nenhum daqueles homens que foram convidados provará Minha Ceia." Lc 14,24
    No episódio em que multiplicou os 5 pães e os 2 peixes para a multidão, de fato, Ele apontou a mundana ânsia da mera saciação física: "Em Verdade, em Verdade, digo-vos: buscais-Me não porque vistes os milagres, mas porque comestes dos Pães e ficastes fartos." Jo 6,26
    Instou-nos, portanto, a buscar o Sagrado Alimento: "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois n'Ele Deus Pai imprimiu Seu sinal." Jo 6,27
    E como São Pedro, Seu Sumo Pontífice, deixou claro, Jesus disse que os Sacerdotes da Igreja não podem descuidar dessa vital obrigação: "Disse-lhe Pedro: 'Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos?' O Senhor replicou: 'Qual é o sábio e fiel administrador que o Senhor estabelecerá sobre Seus operários para a seu tempo dar-lhes sua medida de trigo? Feliz daquele servo que o Senhor assim achar procedendo, quando vier! Em Verdade, digo-vos: confiá-lhe-á todos Seus bens.'" Lc 12,41-44
    Não por acaso, no Pai Nosso, ainda que também Se referindo ao diário alimento, Ele ensinou-nos a pedir: "O Pão Nosso de cada dia dai-nos hoje..." Mt 6,11
    Pois sobre o alimento propriamente dito, Ele já havia citado o Deuteronômio quando por Satanás foi tentado no deserto: "Está escrito: 'Não só de pão vive o homem, mas de toda Palavra de Deus (Dt 8,3).'" Lc 4,4
    E criticando aqueles que em demasia se preocupam com as vísceras, foi contundente: "Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, Vosso Pai Celeste sabe que necessitais de tudo isso. Antes buscai o Reino de Deus e Sua justiça, e todas estas coisas sê-vos-ão dadas em acréscimo." Mt 6,25.31-33
    Alertando para nossas obrigações de cristãos, disse mais: "Tenho um alimento para comer que vós não conheceis. Meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou e cumprir Sua obra." Jo 4,32.34
    Porque a obra do Pai é espiritual: "Perguntaram-Lhe: 'Que faremos para praticar as obras de Deus?' Respondeu-lhes Jesus: 'A obra de Deus é esta: que creiais n'Aquele que Ele enviou.'" Jo 6,28-29
    É conceder-nos a Vida Eterna, como Jesus descreveu o Evangelho: "Em Verdade, não falei por Mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Ele mesmo prescreveu-Me o que devo dizer e o que devo ensinar. E Eu sei que Seu Mandamento é Vida Eterna." Jo 12,49-50a
    E isso Ele realiza através do Santíssimo Sacramento, que ofereceu na Santa Ceia: "Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir Minha voz e abrir-Me a porta, entrarei em sua casa e cearemos, Eu com ele e ele Comigo." Ap 3,20
    Uma vez nos Céus, porém, o alimento será outro, da própria árvore da Vida de que fala o livro do Gênesis. Jesus prometeu no livro do Apocalipse: "'Ao vencedor darei de comer do fruto da árvore da Vida, que se acha no Paraíso de Deus.' O anjo então me mostrou um rio de Água Viva, resplandecente como cristal de rocha, saindo do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da avenida e às duas margens do rio, achava-se uma árvore da Vida, que produz doze frutos, dando cada mês um fruto, servindo as folhas da árvore para curar as nações." Ap 2,7;22,1-2
    Pois é a árvore da própria Vida Eterna, como se lê logo após a sedução de Eva pela serpente: "E o Senhor Deus disse: 'Eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda sua mão e também tome do fruto da árvore da Vida, e coma-o e viva eternamente.'" Gn 3,22
    O Arcanjo São Rafael, aliás, deu este singular detalhe sobre a alimentação dos anjos: "Parecia-vos que convosco eu comia e bebia, mas meu alimento é um invisível manjar, e minha bebida não pode ser vista pelos homens." Tb 12,19
    E a entrada dos eleitos na Vida Eterna terá a festividade de um indizível banquete, como o Cordeiro de Deus ordenou a São João Evangelista: "Escreve: 'Felizes os convidados para a Ceia das Núpcias do Cordeiro.'" Ap 19,9
    Mas enquanto aqui na terra, e sobre a necessária 'digestão' da Palavra de Deus, São Paulo vai dizer aos inconstantes: "Eu dei-vos leite a beber, e não sólido alimento que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais." 1 Cor 3,2
    Os seguidores de sua tradição também reclamavam: "Muita coisa teríamos a dizer sobre isso, e coisas bem difíceis de explicar, dada vossa lentidão em compreender... A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus, e tornastes-vos tais que precisais de leite em vez de sólido alimento! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma profunda doutrina, porque é ainda criança. Mas o sólido alimento é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,11-14
    São Pedro, no mesmo sentido, vai falar de outro leite, do 'leite espiritual': "Deponde, pois, toda malícia, toda astúcia, fingimentos, invejas e toda espécie de maledicência. Como recém-nascidas crianças, com ardor desejai o leite espiritual, que vos fará crescer para a Salvação..." 1 Pd 2,1-2
    Com efeito, os últimos 20 anos da vida de São Nicolau de Flüe, nos quais apenas se alimentou da Hóstia Consagrada, demonstram que só o Pão do Céu é realmente essencial. Assim também foi a experiência da estigmata alemã Teresa Neumann e da Beata Alexandrina Maria da Costa, que viveram no século passado.
    Se realmente quisermos viver, portanto, temos o Sacrifício Pascal oferecido por Jesus: "Eu sou o Pão da Vida..." Jo 6,35
    A multidão, que havia comido dos pães e dos peixes multiplicados, bem entendeu Sua mensagem: "Senhor, dá-nos sempre deste Pão!" Jo 6,34

    "Todas vezes que comemos deste Pão e bebemos deste Cálice, anunciamos, Senhor, Vossa morte, enquanto esperamos Vossa Vinda!"

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O Sacramento da Confissão


    Quando se fala em penitência, a primeira ideia que vem em mente são os sacrifícios físicos, como mera punição. Mas o sentido de penitenciar-se é bem diferente: é forçar a verdadeira mudança de vida, a transformação interior, e a melhor palavra para descrever essa renovação é conversão.
    Insensatamente, tem-se renegado a mais sincera demonstração de conversão que é a Confissão, a efetiva admissão de culpa. Como poderíamos ser perdoados por Deus se não reconhecemos nossos erros? Se não admitimos exatamente em que erramos? O Eclesiástico já recomendava esse imprescindível exercício de fé: "Meu filho, aproveita-te do tempo, evita o Mal. Para o bem de tua alma, não te envergonhes de dizer a Verdade, pois há uma vergonha que conduz ao pecado e uma vergonha que atrai Glória e Graça. Não te mostres parcial, causando tua própria perdição, não mintas em prejuízo de tua alma. De nenhum modo contradigas a Verdade, envergonha-te da mentira cometida por ignorância. Não te envergonhes de confessar teus pecados, não te oponhas à correnteza do rio." Eclo 4,23-26.30-31
    Esconder os pecados, segundo este sagrado autor, pode representar a própria desgraça: "Oh! Quanto melhor é admoestar que irritar-se, e não impedir de falar quem quer confessar sua falta! Como é bom que o corrigido manifeste seu arrependimento! Pois assim se evita um voluntário pecado. Há quem ache sua perdição diante da Glória, e há quem levante a cabeça após uma humilhação." Eclo 20,1.4.11
    Para manter Sua Aliança com Israel, o próprio Deus exigia a confissão dos pecados, mesmo que para isso o povo tivesse que ser dizimado e levado em cativeiro: "Perecereis entre as nações e a terra inimiga consumi-vos-á. Os que sobreviverem consumi-se-ão por causa de suas iniquidades na terra de seus inimigos, e também serão consumidos por causa das iniquidades de seus pais, que levarão sobre si. Assim, eles confessarão suas iniquidades e as de seus pais, as transgressões cometidas contra Mim, porque Me resistiram. Por isso, Eu também lhes resisti e levei-os à terra de seus inimigos. Se, então, humilharem seu incircunciso coração e sofrerem a pena de sua iniquidade, Eu lembrar-Me-ei de Minha Aliança com Jacó, de Minha Aliança com Isaac e com Abraão, e lembrar-Me-ei dessa terra." Lv 26,38-42
    Como divina inspiração, o livro de Números continha tal previsão contra as ofensas ao próximo e ao Senhor: "O Senhor disse a Moisés: 'Dize aos israelitas: se um homem ou uma mulher causa qualquer prejuízo a seu próximo, assim se tornando culpado de uma infidelidade para com o Senhor, ele confessará sua falta e integralmente restituirá o objeto do delito, ajuntando um quinto a mais àquele que foi lesado.'" Nm 5,5-7
    Josué, sucessor de Moisés, usou deste expediente para com aqueles que contrariaram as ordens de Deus durante batalha contra Jericó: "Os israelitas cometeram uma infidelidade a respeito do interdito. Acã, filho de Carmi, filho de Zabdi, filho de Zara, da tribo de Judá, reteve para si algumas coisas condenadas, e a cólera do Senhor inflamou-se contra os israelitas. Josué disse-lhe: 'Meu filho, dá Glória e homenagem ao Senhor, Deus de Israel! Confessa-me o que fizeste, sem nada ocultar.'" Js 7,1.19
    Também aconteceu durante a batalha contra os filisteus, quando Jônatas violou as juras que Saul havia feito a Deus, sobre si atraindo maldição de morte, mas acabou absolvido pelo povo: "'Confessa-me o que fizeste', disse Saul a seu filho. Jônatas contou-lhe: 'Provei um pouco de mel com a ponta da vara que eu tinha na mão. Eis que vou morrer!'" 1 Sm 14,43
    E assim o povo de Israel adotou esse ritual desde a fundação do judaísmo, como foi exigido daqueles que se casavam com estrangeiras: "No vigésimo quarto dia do mesmo mês, vestidos de sacos e com a cabeça coberta de pó, os israelitas reuniram-se para um jejum. Os que eram de origem israelita estavam separados de todos estrangeiros, e apresentaram-se para confessar seus pecados e as iniquidades de seus pais." Ne 9,1-2
    Sem dúvida, como poderíamos nos aproximar de Deus sem antes nos purificarmos? Os seguidores da tradição de São Paulo falaram dessa condição: "E dado que temos um Sumo-Sacerdote estabelecido sobre a Casa de Deus, acheguemo-nos a Ele com sincero coração, com plena firmeza da , o mais íntimo da alma isento de toda mácula de pecado e o corpo lavado com a purificadora Água do Batismo." Hb 10,21-22
    A palavra Sacramento vem do termo grego 'mysterion', ou seja, os Sacramentos da Igreja são mistérios. Assim, a Hóstia Consagrada, a Água do Batismo, os Santos Óleos do Batismo, da Crisma e da Extrema Unção e as Alianças do Matrimônio são partes visíveis de invisíveis eventos realizados por Deus. A Sabedoria já ensinava: "São por natureza insensatos todos que desconheceram a Deus, e através dos visíveis bens não souberam conhecer Aquele que é, nem reconhecer o Artista, considerando Suas obras." Sb 13,1
    E o Eclesiástico também apregoa: "Jamais te glories de tuas vestes, nem te engrandeças no dia em que fores homenageado, pois só as obras do Altíssimo são admiráveis, dignas de Glória, misteriosas e invisíveis." Eclo 11,4
    A Confissão, pois, também é um Sacramento, e por isso uma celebração. Chama-se Sacramento da Penitência, da Conversão ou da Reconciliação, e também é comum ouvirmos falar em arrependimento e em contrição, mas não é difícil entender o porquê de tantos nomes, pois todo arrependimento é uma forma de contrição, e quem realmente se arrepende confessa, quem confessa já está se penitenciando, quem se penitencia quer se converter e quem se converte se reconcilia com Deus. São Paulo exalta essa preciosa Graça que nos é alcançada pelo Sangue de Cristo, bem como pela consequente Salvação: "Portanto, muito mais agora, que estamos justificados por Seu Sangue, por Ele seremos salvos da ira. Se, quando éramos ainda inimigos, fomos reconciliados com Deus pela Morte de Seu Filho, com muito mais razão, estando já reconciliados, seremos salvos por Sua Vida." Rm 5,9-10
    E essa Reconciliação, tão facilmente concedida, basta querer, é mais uma prova do imenso amor que Deus nos tem. Jesus é a própria Divina Misericórdia: "Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para lavar os pés, mas esta, com suas lágrimas, regou-Me os pés e enxugou-os com seus cabelos. Não Me deste o ósculo, mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-Me os pés. Não Me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com perfume, ungiu-Me os pés. Por isso, digo-te: seus numerosos pecados foram-lhe perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas a quem pouco se perdoa, pouco ama." Lc 7,44-47


3 ATOS E A ABSOLVIÇÃO

    O Sacramento da Penitência é constituído de 3 atos do penitente e da absolvição dada pelo padre. Os atos são: o arrependimento, na intimidade da consciência, a confissão ao padre, à qual se junta a promessa de cumprir a penitência por ele estabelecida, e as obras de reparação, que é a penitência propriamente dita. Fora os Sacerdotes, pelo que foi revelado, só mesmo um anjo de alta hierarquia foi visto ministrando esse Sacramento em Nome de Deus, como aconteceu com o Profeta Isaías: "'Ai de mim', gritava eu. 'Estou perdido porque sou um homem de impuros lábios, e habito com um povo também de impuros lábios, e, entretanto, meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!' Porém, um dos serafins voou em minha direção. Na mão trazia uma viva brasa, que tinha tomado do Altar com uma tenaz. Aplicou-a em minha boca e disse: 'Tendo esta brasa tocado teus lábios, teu pecado foi tirado, e tua falta, apagada.'" Is 6,5-7
    E tão grande é a importância da penitência que, logo ao iniciar Sua vida pública, foram essas as primeiras palavras de Jesus, e assim o primeiro Sacramento que Ele anunciou e exigiu: "Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Fazei penitência e crede no Evangelho." Mc 1,15
    Não só São Marcos registrou esse ensinamento, mas também foi da observação de São Mateus: "Desde então Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    E rebatendo toda soberba, Jesus dedicou Sua Vinda a quem assumidamente deseja a conversão: "Não vim chamar os justos à conversão, mas sim os pecadores." Lc 5,32
    De fato, Ele não poderia ser mais claro: "Jesus ainda lhes disse esta parábola a respeito de alguns que se vangloriavam, como se fossem justos, e desprezavam os outros: 'Subiram dois homens ao Templo para orar. Um era fariseu, o outro, publicano. O fariseu, em pé, em seu interior orava desta forma: 'Graças dou-Te, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros. Nem como o publicano que está ali. Jejuo duas vezes na semana e pago o dízimo de todos meus lucros.' O publicano, porém, mantendo-se à distância, sequer ousava levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: 'Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador!' Digo-vos: este voltou para casa justificado, e o outro não. Pois todo aquele que se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado.'" Lc 18,9-14
    E demonstrou como é sublime a Divina Misericórdia, ao colocá-la à frente de qualquer cura que se possa obter: "Eis que Lhe apresentaram um paralítico estendido numa padiola. Jesus, vendo a fé daquela gente, disse ao paralítico: 'Meu filho, coragem! Teus pecados são-te perdoados.' Ouvindo isto, alguns escribas murmuraram entre si: 'Este homem blasfema.' Jesus, penetrando-lhes os pensamentos, perguntou-lhes: 'Por que pensais mal em vossos corações? Que é mais fácil dizer: Teus pecados são-te perdoados, ou: Levanta-te e anda? Ora, para que saibais que na terra o Filho do Homem tem o poder de perdoar os pecados: Levanta-te', disse Ele ao paralítico, 'toma tua maca e volta para tua casa.' Levantou-se aquele homem e foi para sua casa. Vendo isto, a multidão encheu-se de medo e glorificou a Deus, por ter dado tal poder aos homens." Mt 9,2-8
    Contudo, também Seus milagres devem levar à conversão, como Ele sentenciou as cidades em volta do Mar da Galileia: "Depois Jesus começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de Seus milagres, por terem-se recusado a arrepender-se: 'Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os milagres que em vosso meio foram feitos, há muito tempo elas teriam-se arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso, digo-vos: no Dia do Juízo haverá menor rigor para Tiro e Sidônia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até o Céu? Não! Serás atirada ao inferno! Porque se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro de teus muros, até este dia subsistiria. Por isso, digo-te: no Dia do Juízo haverá menor rigor para Sodoma do que para ti!'" Mt 11,20-24
    O Sacramento da Confissão, portanto, foi declarado por Ele como principal finalidade da Nova Aliança, e exatamente no momento em que instituiu a Eucaristia, que é o Sacramento dos Sacramentos: "Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-O, partiu-O e o deu aos discípulos, dizendo: 'Tomai e comei, isto é Meu Corpo.' Depois tomou o Cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo: 'Bebei dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens para a remissão dos pecados.'" Mt 26,26-28
    Eis que São Paulo adverte da suma importância da Confissão antes de comungar, para quem está em pecado mortal: "Portanto, todo aquele que indignamente comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor, será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse Pão e beba desse Cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe sua própria condenação. Esta é a razão porque entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos." 1 Cor 11,27-30
    São Pedro fez essa bela síntese da Missão de Jesus perante o Sinédrio, em evidência colocando a penitência: "O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-O num madeiro. Deus elevou-O pela mão direita como Príncipe e Salvador, a fim de dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,30-32
    Ele explicou que essa é a razão da aparente inatividade de Deus: "O Senhor não retarda o cumprimento de Sua promessa, como alguns pensam, mas usa de paciência para convosco. Não quer que alguém pereça. Ao contrário, quer que todos se arrependam." 2 Pd 3,9
    Assim como a Missão da Igreja, que pelas Graças recebidas deve trazer todo povo à Confissão: "... temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo." 2 Pd 1,4
    E em perfeita coerência, o Príncipe dos Apóstolos foi o primeiro a confessar-se diante de Jesus, logo nos primeiros momentos em Sua companhia, por ocasião da pesca miraculosa: "Vendo isso, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus e exclamou: 'Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador." Lc 5,8
    De fato, Zacarias, pai de São João Batista, tinha profetizado precisamente assim o modo como Cristo realizaria a Salvação: "... para anunciar a Seu povo a Salvação, pelo perdão dos pecados." Lc 1,77
    Não por acaso, São João Batista, último Profeta e Santo Precursor de Jesus, usava do mesmo procedimento: "Dizia ele: 'Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus.'" Mt 3,2
    E assim apresentou Jesus: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." Jo 1,29b


AS CONFISSÕES - DE SÃO JOÃO BATISTA A SÃO PAULO

    Aliás, também é da prática de São João Batista que temos registro da Penitência que se realiza através da Confissão, sem a qual ele não batizava: "Pessoas de Jerusalém, de toda Judeia e de toda circunvizinhança do Jordão vinham a ele. Confessavam seus pecados e por ele eram batizados nas águas do Jordão." Mt 3,5-6
    E essa foi a essência de sua vida pública, como atestou São Lucas: "... sendo sumos sacerdotes Anás e Caifás, veio a Palavra do Senhor no deserto a João, filho de Zacarias. Ele percorria toda região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados..." Lc 3,2-3
    Ele assim fazia porque tinha a exata noção de importância do que ensinava. Dizia: "Fazei, pois, uma conversão realmente frutuosa..." Lc 3,8
    E como era de seu estilo, mostrava-se exigente, anunciando a iminência do Juízo que se efetivaria com o Evangelho de Nosso Senhor: "Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: 'Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da vindoura cólera? Dai frutos, pois, de verdadeira penitência. O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo." Mt 3,7-8.10
    Essa já era uma antiga prática do povo judeu, que antecipava a chegada à Cidade Santa para cumprir os rituais de purificação e assim poder comer a Páscoa: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e muita gente de todo país subia a Jerusalém antes da Páscoa para purificar-se." Jo 11,55
    Na cidade de Éfeso, por exemplo, onde São Paulo pregava e operava milagres, judeus e gregos sensibilizavam-se e iam até ele para confessar-se e abraçar a Doutrina Cristã: "Muitos dos que haviam acreditado vinham confessar e declarar suas obras." At 19,18
    Ciente da missão que Jesus lhe confiou, sua exortação era clara e contundente: "Porque é Deus que, em Cristo, Consigo reconciliava o mundo, não levando mais em conta os pecados dos homens, e pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação. Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em Nome de Cristo, e é Deus mesmo que exorta por nosso intermédio. Em Nome de Cristo vos rogamos: reconciliai-vos com Deus!" 2 Cor 5,19-20
    E o Apóstolo dos Gentios afirmou usar dessa autoridade, bem como a ter concedido a seus seguidores em Corinto: "A quem vós perdoais, também eu perdoo. Com efeito, o que perdoei, se alguma coisa tenho perdoado, foi por amor a vós, sob o olhar de Cristo." 2 Cor 2,10
    Pedia, pois, exame do consciência também aos gálatas: "Cada um examine seu procedimento." Gl 6,4a
    Sinceridade: "Examinai-vos a vós mesmos, se estais na fé. Provai-vos a vós mesmos." 2 Cor 13,5a
    Disse do bem da penitência pela Confissão: "Se nos examinássemos a nós mesmos, não seríamos julgados. Mas sendo julgados pelo Senhor, Ele castiga-nos para não sermos condenados com o mundo." 1 Cor 11,31-32
    Pois não cogitava dispensá-las: "Receio que, à minha chegada entre vós, Deus ainda me humilhe a vosso respeito, e tenha de chorar por muitos daqueles que pecaram e não fizeram penitência da impureza, da fornicação e da dissolução que cometeram." 2 Cor 12,21
    Mas, falando aos teimosos, também avisou de seu direito de negar o perdão, referindo-se, claro, à necessária Penitência e conversão: "Quando de minha segunda visita, já adverti àqueles que pecaram, e hoje, que estou ausente, torno a repeti-lo a eles e aos demais: se eu for outra vez, não usarei de perdão!" 2 Cor 13,2
    E dizia: "Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo. Também estamos prontos para castigar todos desobedientes, desde que vossa obediência seja perfeita." 2 Cor 10,5-6
    Contudo, em caso de sincero arrependimento e penitência, a Igreja e todo cristão têm o dever de perdoar, como Jesus ensinou: "Se teu irmão pecar, repreende-o. Se se arrepender, perdoa-lhe. Se sete vezes no dia pecar contra ti e sete vezes no dia vier procurar-te, dizendo: 'Estou arrependido', perdoar-lhe-ás." Lc 17,3-4
    Com efeito, esse foi o primeiro Sacramento ministrado pelos Apóstolos, quando foram enviados por Jesus na jornada que inaugurava seus ministérios: "Eles partiram e pregaram a penitência." Mc 6,12
    E durante as pregações de Jesus, eles também ministravam o batismo usado por São João Batista, isto é, exigindo prévia confissão de pecados: "Em seguida, foi Jesus com Seus discípulos para os campos da Judeia e ali Se deteve com eles, e batizava. ... se bem que não era Jesus quem batizava, mas Seus discípulos..." Jo 3,22;4,2
    No mesmo sentido, ao comentar entre o povo sobre trágicas mortes de que se tinha notícia, Jesus energicamente recomendava o Arrependimento: "Mas se não vos arrependerdes, todos perecereis do mesmo modo." Lc 13,3
    E dizia o que a Penitência representa para os Céus: "Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador que fizer penitência que por noventa e nove justos que não necessitam de Arrependimento." Lc 15,7
    Quando São Pedro, inspirado por Deus Pai, declarou que Ele era o Messias, de imediato Jesus tratou de atribuir-lhe essa especial função: o poder de ligar e desligar na Terra, que também equivale a perdoar ou não os pecados: "Eu dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,19
    Da mesma forma, quando apareceu ao colégio dos Apóstolos pela primeira vez, Jesus fez questão de ressaltar o papel que lhes cabia: "Então lhes abriu o espírito para que compreendessem as Escrituras, dizendo: 'Assim é que está escrito, e assim era necessário que Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia. E que em Seu Nome se pregasse a penitência a todas nações, começando por Jerusalém." Lc 24,45-47
    Segundo São João Evangelista, desde então Ele constituiu-os Seus Ministros para que redimissem os pecados da humanidade: "Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." Jo 20,22-23
    Por fim, nas revelações do livro do Apocalipse, essa mesma diretriz deu Jesus à igreja de Sardes, pois essencialmente vincula o Evangelho ao Arrependimento: "Lembra-te de como recebeste e ouviste a Doutrina. Observa-a e arrepende-te. Se não vigiares, a ti virei como um ladrão, e não saberás a que horas te surpreenderei." Ap 3,3
    À igreja de Éfeso: "Lembra-te, pois, donde caíste. Arrepende-te e retorna às tuas primeiras obras. Senão, virei a ti e removerei teu candelabro de seu lugar, caso não te arrependas." Ap 2,5
    São Paulo assim registrou o poder de ministrar a Penitência: "... Deus... por Cristo... confiou-nos o ministério desta Reconciliação." 2 Cor 5,18
    Defendia a seriedade dos Sacramentos: "Na qualidade de colaboradores de Deus, exortamo-vos a que não recebais Sua Graça em vão." 2 Cor 6,1
    E assim contrastava o Ministério do Espírito Santo com o Antigo Testamento: "Se o ministério da condenação já foi glorioso, muito mais há de sobrepujá-lo em Glória o Ministério da Justificação!" 2 Cor 3,9
    Disse desse dom: "Não que sejamos capazes por nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus. Ele é que nos fez aptos para ser Ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." 2 Cor 3,6
    Falava de santificação: "E fi-lo em virtude da Graça que me foi dada por Deus, de ser o Ministro de Jesus Cristo entre os pagãos, exercendo a sagrada função do Evangelho de Deus. E isso para que os pagãos, santificados pelo Espírito Santo, sejam-lhe uma agradável oferta." Rm 15,15b-16
    Jesus mesmo disse aos Apóstolos, garantindo a invencibilidade da Igreja: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu escolhi-vos e constituí-vos para que vades e produzais fruto, e vosso fruto permaneça. Eu assim vos constituí, a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em Meu Nome, Ele conceda-vos." Jo 15,16
    Os Apóstolos, pois, ao receberem o Espírito Santo no Pentecostes, bem entenderam o que lhes cabia. São Pedro vai dizer em sua primeira pregação diante dos judeus: "Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados..." At 2,38
    Ao curar um paralítico na companhia de São João Evangelista, ele faz outro sermão aos presentes judeus, mas termina do mesmo modo, convidando-os ao Arrependimento e à conversão: "Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos para serem apagados vossos pecados." At 3,19
    Um mago da Samaria, percebendo a Graça que se derramava pela Crisma, quis comprar de São Pedro o poder de impor as mãos sobre os fiéis, para também fazer descer o Espírito Santo. Mas foi severamente repreendido, e, arrependido, implorou a ele mesmo que intercedesse por seu pecado: "Rogai vós por mim ao Senhor, para que nada do que haveis dito venha a cair sobre mim." At 8,24
    São Paulo, já em suas primeiras pregações, tinha o mesmo foco. Ele e São Barnabé operavam muitos milagres, mas buscavam mesmo era a conversão de todo povo: "... pregamos justamente para que vos convertais das coisas vãs ao Deus vivo..." At 14,15
    E como ele disse aos atenienses no Areópago, é necessário que os povos se arrependam, pois a Vida de Jesus é o parâmetro do Juízo, e Sua Ressurreição é uma prova: "Deus, porém, não levando em conta os tempos de ignorância, agora convida a todos homens de todos lugares a arrependerem-se. Porquanto fixou o Dia em que há de julgar o mundo com justiça, pelo Ministério de um Homem que para isso destinou. Como garantia, a todos deu o fato de tê-Lo ressuscitado dentre os mortos." At 17,30-31
    Era exatamente isso que Jesus lhe havia pedido na aparição que o converteu, no caminho de Damasco. Ele enviou-o aos não-judeus "... para abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas à Luz e do poder de Satanás a Deus, para que, pela fé em Mim, recebam o perdão dos pecados..." At 26,18
    E foi isso que o Último Apóstolo disse ao rei Agripa, quando teve que explicar qual era o objetivo de suas pregações: "... para que se arrependessem e se convertessem a Deus, com a prática de obras dignas desse arrependimento." At 26,20


A GRAÇA DO PERDÃO

    Os benefícios da Confissão, enfim, são realmente grandes Graças. Por este Sacramento, temos:
    - remissão dos pecados mortais, pois só pela Comunhão, que a Confissão possibilita, chegamos a serenidade da consciência e da alma: "... porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado por muitos homens para a remissão dos pecados." Mt 26,28
    - reconciliação com Deus: "... nós gloriamo-nos em Deus por Nosso Senhor Jesus Cristo, por Quem desde agora temos recebido a reconciliação!" Rm 5,11b
    - destemor: "... e libertar aqueles que, pelo medo da morte, toda vida estavam sujeitos a uma verdadeira escravidão." Hb 2,15
    - paz espiritual: "... dou-vos Minha Paz..." Jo 14,27
    - força para resistir nos combates espirituais: "Pedro respondeu-lhes: 'Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo.'" At 2,38
    - consolação nos difíceis momentos, pois Jesus é "... a Consolação de Israel..." Lc 2,25

    É em nome de tão desejáveis bênçãos que São Tiago Menor nos recomenda essa prática de piedade, e não só aos padres: "Confessai vossos pecados uns aos outros..." Tg 5,16
    Mas ele é muito claro ao indicar quais ministros podem celebrar este e os demais Sacramentos: "Chame os Sacerdotes da Igreja..." Tg 5,14
    Ora, isso já estava instituído desde o Pentateuco, no Livro de Levítico: "A expiação será feita pelo sacerdote, que foi ungido e empossado para exercer o sacerdócio..." Lv 16,32
    Desde então já estava estabelecida a confissão para pecados como falso testemunho, tocar coisa impura ou jurar, que deviam ser expiados pelo sacerdote: "Aquele, pois, que for culpado de uma dessas coisas, confessará aquilo em que faltou. Em expiação pelo pecado cometido, apresentará ao Senhor uma fêmea de seu rebanho miúdo, uma ovelha ou uma cabra em sacrifício pelo pecado, e por ele o sacerdote fará a expiação de seu pecado." Lv 5,5-6
    E São João Evangelista garante: "Se confessarmos nossos pecados, Deus está aí, fiel e justo para perdoar-nos os pecados e para purificar-nos de toda iniquidade." 1 Jo 1,9
    Porém, para tanto pede que vivamos a Comunhão da Igreja: "Se dizemos ter Comunhão com Ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não seguimos a Verdade. Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, temos Comunhão uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado. Se dizemos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a Verdade não está em nós." 1 Jo 1,6-8
    São Paulo diz o mesmo: "Ajudai-vos uns aos outros a carregar vossos fardos, e deste modo cumprireis a Lei de Cristo. Quem pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo." Gl 6,2-3
    Se realmente amamos Jesus, portanto, devemos colaborar com Ele em Sua missão, arrependendo-nos, convertendo-nos e afastando-nos do pecado. Em Antioquia da Pisídia, São Paulo claramente disse em Nome de Quem age a Igreja: "Sabei, pois, irmãos, que por Jesus se vos anuncia a remissão dos pecados." At 13,38
    Pois não podemos duvidar de que Ele tenha cumprido Sua missão, como seus seguidores pregam: "Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos Céus..." Hb 1,3b
    São Paulo taxativamente afirma: "... pelo Seu Sangue temos a Redenção..." Ef 1,7
    Mas não deixava de lembrar as imprescindíveis penitências: "Mortificai vossos membros, pois, no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria." Cl 3,5
    Essa era uma antiga exortação, como o Profeta Isaías já fazia, assegurando o perdão: "Abandone o ímpio seu caminho, e o injusto homem, suas maquinações. Volte para o Senhor, que dele terá piedade. Volte para Nosso Deus, que é generoso no perdão." Is 55,7
    Magistralmente, o salmista dá nítidos detalhes da angustiante situação do inconfesso: "Enquanto me conservei calado, entre contínuos gemidos mirravam-se-me os ossos. Pois dia-e-noite Vossa mão pesava sobre mim, esgotavam-se-me as forças como nos ardores do verão. Então Vos confessei meu pecado, e não mais dissimulei minha culpa. Disse: 'Sim, vou confessar ao Senhor minha iniquidade.' E Vós perdoastes a pena de meu pecado." Sl 31,3-5
    Também aqui: "Porque minhas culpas se elevaram acima de minha cabeça, como pesado fardo me oprimem em demasia. São fétidas e purulentas as chagas que minha loucura me causou. Estou abatido, extremamente recurvado, todo o dia ando cheio de tristeza. Inteiramente inflamados estão meus rins, não há parte sã em minha carne. Sim, minha culpa eu confesso, meu pecado atormenta-me." Sl 37,5-8.19
    Mas também registra como encontrar a alegria: "Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido." Sl 31,1
    E inspiradamente atinava: "Ainda que Vosso servo neles atente, com todo cuidado guardando Teus juízos, quem pode, entretanto, ver as próprias faltas? Purificai-me das que me são ocultas." Sl 18,12-13
    E os Provérbios atestam: "Quem dissimula suas faltas, não há de prosperar. Quem as confessa e as detesta, obtém Misericórdia." Pr 28,13
    A Confissão, pois, significa reconhecer não apenas nossas máculas, mas a indefectível Glória de Deus. Ele mesmo diz: "Quem Me oferece uma confissão Me glorifica, e ao íntegro homem mostrarei a Salvação de Deus." Sl 50,23
    Ora, a Vinda de Jesus deu-se como na profecia de Isaías, mas com específica notação sobre os destinatários: "Mas virá como Redentor a Sião, e aos arrependidos filhos de Jacó..." Is 59,20

    "Glória e louvor ao Pai, que em Cristo nos reconciliou!"

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Penitências


    Qualquer sensata pessoa sabe que não há como nos aproximarmos de Deus sem que antes reconheçamos, por força de Sua plena santidade, nossos pecados, e busquemos, de fato, purificar-nos. O salmista admitia: "Se não perdoardes nossas iniquidades, Senhor Javé, quem poderá subsistir diante de Vós?" Sl 129,3
    Noutras circunstâncias, ele já havia perguntado: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer no Seu santo lugar? Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, Seu Salvador. Tal é a geração dos que O procuram, dos que buscam a face do Deus de Jacó." Sl 23,3-6
    Por isso, os seguidores da tradição de São Paulo recomendam os Sacramentos: "E dado que temos um Sumo-Sacerdote estabelecido sobre a Casa de Deus, a Ele acheguemo-nos com sincero coração, com plena firmeza da , o mais íntimo da alma isento de toda mácula de pecado e o corpo lavado com a purificadora Água do Batismo." Hb 10,21-22
    Não por acaso, tanto pela pecaminosidade do mundo quanto pela triunfante Graça da Divina Misericórdia, é tão concreto o que a Sã Doutrina ensina sobre o Purgatório. São Pedro registrou: "Pois para isto o Evangelho também foi pregado aos mortos: para que, embora sejam condenados em sua humanidade na carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito." 1 Pd 4,6
    Ora, ao iniciar Sua vida pública, as primeiras palavras de Jesus foram exatamente um convite à conversão, ou seja, a abandonar de uma vez o pecado, penitenciando-se por ele: "Desde então Jesus começou a pregar: "Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo." Mt 4,17
    Com idêntico propósito Ele enviou os Apóstolos, desde a primeira missão: "Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois... Eles partiram e pregaram a penitência." Mc 6,7.12
    E tal e qual o batismo ministrado por São João Batista, que demandava prévia confissão de pecados, os Apóstolos também batizavam durante as pregações de Jesus: "Em seguida foi Jesus com Seus discípulos para os campos da Judeia e ali Se deteve com eles, e batizava. ... se bem que não era Jesus quem batizava, mas Seus discípulos..." Jo 3,22;4,2
    Sem dúvida, a confissão era premissa para o batismo de São João Batista: "Pessoas de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele. Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão." Mt 3,5-6
    Isso permaneceu através dos tempos, como vemos São Paulo operando em Éfeso: "Muitos dos que haviam acreditado vinham confessar e declarar as suas obras." At 19,18
    E como Jesus explicou aos Apóstolos no Domingo da Ressurreição, a missão da Igreja é trazer o povo de Deus à contrição espiritual: "E que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas nações, começando por Jerusalém." Lc 24,47
    Com efeito, antes mesmo de Jesus iniciar Sua Missão, era São João Batista que, revelando a vontade de Deus, exigia de todo povo uma sincera conversão: "Dai frutos, pois, de verdadeira penitência." Mt 3,8
    Exatamente como Jesus, foi o que fez ele desde o início de seu ministério: "Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Dizia ele: 'Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus.'" Mt 3,1-2
    Seu pai, o sacerdote Zacarias, profetizou ao seu nascimento: "E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e Lhe prepararás o Caminho, para dar ao Seu povo conhecer a Salvação, pelo perdão dos pecados." Lc 1,76-77
    Já adulto, São Lucas narrou seus primeiros passos: "... veio a Palavra do Senhor no deserto a João, filho de Zacarias. Ele percorria toda região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados..." Lc 3,2b-3
    Assim faziam os próprios Profetas nos mais difíceis momentos da História de Israel: "Naquele tempo, eu, Daniel, fiz penitência durante três semanas. Não provei alimento delicado algum: não passou em minha boca nem carne nem vinho; absolutamente não me ungi de óleo durante o transcurso dessas três semanas." Dn 10,2-3
    Essa também era a missão dos líderes de Israel, como o rei Josias: "Foi divinamente destinado a levar o povo à penitência, e robusteceu a piedade numa época de pecado." Eclo 49,1
    Até mesmo São Paulo, e em nome de sua própria salvação: "Ao contrário, castigo meu corpo e mantenho-o em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de ter pregado aos outros." 1 Cor 9,27
    E Jesus assim descreveu o que a conversão de um pecador significa para Deus: "Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador que fizer penitência que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento." Lc 15,7
    O livro da Sabedoria já dizia que Deus pacientemente espera por nosso arrependimento: "... inspirastes a Vossos filhos a boa esperança de que, após o pecado, lhes dareis tempo para a penitência..." Sb 12,19
    E atesta: "Tendes compaixão de todos porque Vós podeis tudo. E para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens." Sb 11,23
    Foi o mesmo que ensinou São Pedro: "O Senhor não retarda o cumprimento de Sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Ele não quer que alguém pereça. Ao contrário, quer que todos se arrependam." 2 Pd 3,9
    Pois a primeiríssima das penitências é afastar-se do pecado, como São Paulo pregava, a despeito de toda privação que tal postura represente para nosso corpo: "Mortificai vossos membros, pois, no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria." Cl 3,5
    Porque é Deus mesmo que nos estimula a uma verdadeira conversão, e de idosos a crianças como exortou o Profeta Joel ante o anúncio da Grande Tribulação: "'Agora, portanto,' Oráculo do Senhor, 'voltai a Mim de todo vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos de luto. Rasgai vossos corações e não vossas vestes.' Voltai ao Senhor Vosso Deus, porque Ele é bom e compassivo, longânime e indulgente, e compadece-Se da desgraça. Tocai a trombeta em Sião: publicai o jejum, convocai a assembléia, reuni o povo; santificai a assembléia, agrupai os anciãos, congregai as crianças e os meninos de peito; saia o recém-casado de seus aposentos, e a esposa de sua câmara nupcial." Jl 2,12-13.15-16
    Pela indizível dádiva do Santo Paráclito, Ele colabora para a definitiva transformação de nossos corações, como prometeu através do Profeta Ezequiel ainda durante a escravidão da Babilônia: "Dá-vos-ei um novo coração e em vós porei um novo espírito; tirá-vos-ei do peito o coração de pedra e dá-vos-ei um coração de carne." Ez 36,26
    Com efeito, a verdadeira penitência acontece em nosso íntimo, e assim canta o salmista: "Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar." Sl 50,19


ORAÇÃO, JEJUM E ESMOLA

    A Confissão, portanto, é uma das três etapas do Sacramento da Penitência, que por Jesus foi pessoalmente instituído. Por isso é insubstituível, uma indeclinável obrigação da Igreja. De fato, ao incumbir os Apóstolos do Ministério da Reconciliação logo em Sua primeira aparição, Ele deu-lhes este poder: "Disse-lhes outra vez: 'A Paz esteja convosco! Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio.' Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, sê-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, sê-lhes-ão retidos." Jo 20,23
    Era o que fazia São Pedro, como vemos no dia do Pentecostes: "Ao ouvirem essas coisas, ficaram compungidos no íntimo do coração e indagaram de Pedro e dos demais apóstolos: 'Que devemos fazer, irmãos?' Pedro respondeu-lhes: 'Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos que de longe ouvirem o apelo do Senhor, Nosso Deus." At 2,37-39
    E também São Paulo: "Porque é Deus que, em Cristo, reconciliava Consigo o mundo, não mais levando em conta os pecados dos homens, e em nossos lábios pôs a mensagem da reconciliação. Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em Nome de Cristo, e é Deus mesmo que por nosso intermédio exorta. Em Nome de Cristo, rogamo-vos: reconciliai-vos com Deus!" 2 Cor 5,19-20
    Há vários modos de cumprir a penitência que é estabelecida pelo Sacerdote, e assim obter de Deus o perdão dos pecados. Contudo, os padres mais frequentemente falam em oração, jejum e esmola, inspirados nas palavras do próprio Jesus, que recomenda:
    "Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra em teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo. E teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á." Mt 6,5-6
    "Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um abatido semblante para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava teu rosto." Mt 6,16-17
    "Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em Verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita." Mt 6,2-3
    O Arcanjo São Rafael já havia falado dessas práticas a Tobit e a Tobias: "Boa coisa é a oração acompanhada de jejum, e a esmola é preferível aos escondidos tesouros de ouro. Porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a Misericórdia e a Vida Eterna..." Tb 12,8-9
    E há vários exemplos de jejum, ou abstinência. Por primeiro, destaca-se São João Batista, que foi um penitente por vida: "O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel. João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Lc 1,80; Mt 3,4
    Outro grande sinal foi a profetisa do Templo de Jerusalém, como vemos no dia da Apresentação do Menino Jesus: "Havia também uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; era de avançada idade. Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do Templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações. Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação." Lc 2,36-38
    E o próprio Jesus apontou o gesto de outra viúva no Templo, que cumpria fielmente os Mandamentos da Lei e vivia tão somente das Graças de Deus: "Jesus sentou-Se defronte do cofre de esmola e observava como o povo nele deitava dinheiro; muitos ricos depositavam grandes quantias. Chegando uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, no valor de apenas um quadrante. Ele chamou Seus discípulos e disse-lhes: 'Em Verdade, digo-vos: esta pobre viúva deitou mais do que todos que lançaram no cofre, porque todos deitaram do que tinham em abundância. Esta, porém, de sua indigência, pôs tudo que tinha para seu sustento.'" Mc 12,41-44
    Mas, ainda dos ensinamentos de Jesus, como forma de penitência também temos:
    Ouvir a Palavra: "Se vos falo a Verdade, por que Me não credes?" Jo 8,46b
    Guardar oportuno silêncio: "O sumo sacerdote levantou-se no meio da assembléia e perguntou a Jesus: 'Nada respondes? O que é isto que dizem contra Ti?' Mas Jesus calava-Se e nada respondia." Mc 14,60-61a
    Praticar efetiva Misericórdia: "Sede misericordiosos, como também Vosso Pai é misericordioso." Lc 6,36
    E ativa caridade, material ou espiritual: "... porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e acolhestes-Me; nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me; estava na prisão e viestes a Mim." Mt 25,35-36
    Por isso o Profeta Sofonias, que bem atinava para a gravidade do Juízo, com veemência exortava a todos: "Curvai-vos, curvai-vos, gente sem pudor, antes que nasça a sentença e o dia passe como a palha; antes que caia sobre vós o ardor da ira do Senhor; antes que caia sobre vós o Dia da indignação do Senhor! Buscai o Senhor, todos vós, humildes da terra, que observais Sua Lei; buscai a justiça e a humildade: talvez assim estareis ao abrigo no Dia da cólera do Senhor." Sf 2,1-3
    O Profeta Malaquias também se perguntava: "Quem estará seguro no Dia de Sua Vinda? Quem poderá resistir quando Ele aparecer? Porque Ele é como o fogo do fundidor, como a lixívia dos lavadeiros." Ml 3,2
    São Pedro, por sua vez, lembrando os Provérbios, exalta a excelência da caridade, seja material ou espiritual: "Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque ela cobre uma multidão de pecados." 1 Pd 4,8
    E aos fariseus, Jesus recomendou a caridade material como modo de purificação dos objetos de diário uso: "Antes dai esmola do que possuís, e todas coisas ser-vos-ão limpas." Lc 11,41

PEDIR E OFERECER PERDÃO

    Sem dúvida, Jesus demonstrou que nossas devoções nada representam para Deus sem que tenhamos a humildade de pedir desculpas a quem ofendemos, ou simplesmente a quem quer que se sinta ofendido por nós: "Se estás, portanto, para fazer tua oferta diante do altar e lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá tua oferta diante do altar e primeiro vai reconciliar-te com teu irmão. Só então vem fazer tua oferta." Mt 5,23-24
    Na parábola do filho pródigo, na cena de seu retorno à casa do pai, vemos uma sincera confissão de arrependimento, expressando o pecado em toda sua dimensão: "Meu pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho." Lc 15,21
    De mesmo modo destaca-se a importância do perdão oferecido ao próximo, que, aliás, igualmente ensinado pelo próprio Jesus, é uma obrigação e também um modo de penitenciar-se: "Porque se perdoardes aos homens suas ofensas, Vosso Pai Celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco Vosso Pai vos perdoará." Mt 6,14-15
    Ele ainda ensinou que nosso perdão não pode ter limites: "Então Pedro aproximou-se d'Ele e disse: 'Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?' Respondeu Jesus: 'Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.'" Mt 18,21-22
    E deve ser oferecido antes de qualquer oração: "E quando vos puserdes de pé para orar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que também Vosso Pai, que está nos Céus, perdoe vossos pecados. Mas se não perdoardes, tampouco Vosso Pai que está nos Céus perdoará vossos pecados." Mc 11,25-26


VIGÍLIA DE ORAÇÃO

    A vigília é mais um modo de estreitar nossa relação com Deus. Jesus usou-a, por exemplo, antes de convocar Seus principais seguidores: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e aí passou toda noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e dentre eles escolheu Doze, que chamou de Apóstolos..." Lc 6,12-13
    Logo também é uma forma de penitência. Nosso Salvador, embora não tivesse de que se penitenciar, entrou em vigília momentos antes de ser preso no Jardim das Oliveiras, e convidou São Pedro, São João e São Tiago Maior para acompanhá-Lo: "Minha alma está numa tristeza mortal. Ficai aqui e vigiai." Mc 14,34
    E quando viu que não era auxiliado nem mesmo por São Pedro, reclamou de sua sonolência: "Simão, dormes? Não pudeste vigiar uma hora?" Mc 14,37
    Por fim, abertamente recomendou a vigília de oração contra as tentações: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mc 14,38

INTERCESSÃO PELO PRÓXIMO

    Rezar pela Salvação do próximo é outra maneira de penitenciar-se, agora em conjunto, com todo corpo da Igreja, isto é, o Corpo Místico de Cristo. São Paulo exortava: "Intensificai vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos cristãos." Ef 6,18
    Jesus, ademais, pediu que rezássemos até mesmo por aqueles que nos perseguem: "Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem." Mt 5,44

COMPAIXÃO PELOS QUE SOFREM

    Jesus bem percebia as aflições do povo, principalmente a carência de esperança, causada por inúmeras faltas morais dos que lideram as nações: "Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se dela, porque era como ovelhas que não têm pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas." Mc 6,34
    Por isso, mais que sacrifícios, Ele pedia misericórdia, e que a Ele nos juntássemos em busca das ovelhas perdidas. Perdição que às vezes se dá por falta de condescendência, de solidariedade espiritual, como Ele apontou: "Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a misericórdia e não o sacrifício' (Os 6,6). Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores." Mt 9,13

ACEITAR OS SOFRIMENTOS

    Muitos pecam por imaturas tentativas de fugir dos sofrimentos. Mas Jesus propôs exatamente o contrário, e segui-Lo com sinceridade é a maior das penitências: "Se alguém Me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome sua Cruz e siga-Me." Mc 8,34
    Pois mesmo nas mais difíceis situações, Ele sempre buscou cumprir os desígnios de Deus: "Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, todavia, Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42


ENFRENTAR AS INJUSTIÇAS

    Além de ícone de vida penitente, São João Batista também foi um poderoso Profeta, como visto acima, e assim denunciou a situação de adultério em que vivia o rei Herodes, razão pela qual foi martirizado. Jesus destacou essa bem-aventurança, que é igualmente uma penitência: "Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,10

PEREGRINAÇÕES

    Viagens por devoção também são obrigação religiosa e uma maneira de expiar pecados, como é da tradição dos judeus: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e de todo país muita gente subia a Jerusalém antes da Páscoa para purificar-se. Procuravam Jesus e falavam uns com os outros no Templo: 'Que vos parece? Achais que Ele não virá à festa?' Mas os sumos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem para que todo aquele que soubesse onde Ele estava, que O denunciasse, para prenderem-nO." Jo 11,55-57
    Esse preceito também cumpriam São José e Nossa Senhora: "Seus pais iam todos anos a Jerusalém para a festa da Páscoa." Lc 2,41
    E o próprio Jesus, depois de iniciada Sua vida pública: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém." Jo 2,13

QUARESMA

    Os 40 dias que antecedem a Páscoa, pois, é o tempo mais apropriado para as penitências, e a Igreja estabelece através de Seu quarto Mandamento: "Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja." No Brasil, isso se aplica a todas sextas-feiras da quaresma, à Quarta-Feira de Cinzas e à Sexta-Feira Santa.

CINZAS E TRADIÇÕES JUDAICAS

    No Antigo Testamento, vemos outras formas de penitência além de pôr cinzas sobre a cabeça, como fazemos na Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma. É o rasgar as vestes e vestir-se de saco, que foi a penitência de Mardoqueu ao saber que o rei Assuero havia dado a Amã permissão para exterminar o povo judeu, enquanto estavam no Exílio da Babilônia: "Quando Mardoqueu soube o que se tinha passado, rasgou suas vestes, cobriu-se de saco e cinza, e percorreu a cidade, dando gritos de dor." Est 4,1
    Tamar também rasgou as vestes ao ser violentada e, em seguida, desprezada por Amnon, seu meio irmão: "Tamar então derramou cinza sobre a cabeça, rasgou seu longo vestido e, pondo a mão sobre a cabeça, afastou-se gritando." 2 Sm 13,19
    Esses costumes foram confirmados por Jesus: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os prodígios que foram realizados em vosso meio, há muito tempo teriam feito penitência, cobrindo-se de saco e cinza." Lc 10,13

DIZ O CATECISMO:

    "A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e repugnância às más obras que cometemos. Ao mesmo tempo, é o desejo e a resolução de mudar de vida com a esperança da Divina Misericórdia e a confiança na ajuda de Sua Graça. Esta conversão do coração vem acompanhada de uma dor e uma tristeza salutares, chamadas pelos Padres de 'animi cruciatus (aflição do espírito)', 'compunctio cordis (arrependimento do coração)'." CIC § 1431
    "O pecado é antes de tudo uma ofensa a Deus, uma ruptura da Comunhão com Ele. Ao mesmo tempo é um atentado à Comunhão com a Igreja. Por isso, a conversão simultaneamente traz o perdão de Deus e a reconciliação com a Igreja, que é liturgicamente expresso e realizado pelo Sacramento da Penitência e da Reconciliação." CIC § 1440
    "O Sacramento da Penitência é constituído de três atos do penitente e da absolvição dada pelo Sacerdote. Os atos do penitente são o arrependimento, a Confissão ou manifestação dos pecados ao Sacerdote, e o propósito de cumprir a penitência e as obras de reparação." CIC § 1491
    "Se alguém tem consciência de ter pecado mortalmente, não deve comungar a Eucaristia sem previamente ter recebido a absolvição pelo Sacramento da Penitência." CIC § 1415

    "Recebe, ó Senhor, por Tuas mãos este sacrifício, para a Glória de Teu Nome, para nosso bem e de toda a Santa Igreja!"