quinta-feira, 31 de agosto de 2017

São Raimundo Nonato


    Nonato quer dizer 'não nascido', pois São Raimundo foi tirado do ventre da mãe quando ela já havia falecido. Por esse fato, foi feito patrono das parteiras e dos obstetras.
    Sua família era espanhola, catalã de Portell. Nobre mas sem muitas propriedades, seu pai, logo que percebeu suas inclinações religiosas, quis fazer-lhe administrador. No entanto, o silêncio e a oração só confirmavam sua forte vocação para a .
    À época, um jovem francês, que viria a ser São Pedro Nolasco, mudou-se de sua pequena cidade para Barcelona com a finalidade de fazer frente à heresia divulgada pelos albigenses. Contudo, em 1218 terminou fundando a Ordem de Nossa Senhora das Mercês, cujo carisma era libertar os cristãos que estavam sendo capturados pelos muçulmanos para serem vendidos como escravos na Argélia. Não por acaso, desde 1203 ele já arrecadava a 'esmola dos cativos' nas igrejas e nos ambientes cristãos, que para eles era a única chance de libertação.
    Diante desta aterradora realidade, e ali mesmo, em terras europeias, se por seu nascimento São Raimundo foi resgatado da morte, vai dedicar sua vida ao resgate da escravidão. Em 1224, aos 24 anos, recebe do próprio São Pedro Nolasco o hábito da Ordem dos Mercedários. Tornou-se sacerdote e, após anos libertando cristãos na Espanha, foi enviado a África, para onde já haviam sido enviados muitos cristãos escravizados. Tamanho era seu ardor e devoção pela Salvação das almas, que, um dia, após exauridos todos os recursos com os quais negociava, nosso Santo ofereceu-se em troca de um escravo cristão.


    Como tal situação de calamidade que não retrocedia, sua esperança era dedicar os anos que lhe restava para alimentar a fé dos escravizados permanecendo em sua companhia, animando-os pela oração e adoração do Santíssimo Sacramento


    Das inspiradas pregações que fazia, e conseguia converter até mesmo os muçulmanos, logo se tornou vítima da raiva dos donos de escravos. Sofreu várias e frequentes torturas, mas, como não parava de pregar pessoa a pessoa ou às ocultas, teve seus lábios perfurados com um ferro em brasa e fechados com um cadeado.


    Nessa condição sofreu 8 meses até ser libertado em 1239, e, realmente muito doente, foi levado de volta a Espanha.
    Ao saber de sua libertação, o Papa Gregório IX nomeou-o cardeal, pois por seus conhecimentos e oratória queria-o como conselheiro em Roma. Em 1240, mesmo de saúde ainda frágil, resolve atender ao chamado do papa, porém, ao iniciar a viagem, morreu tomado por fortes febres ainda em Cardona, bem próximo a Barcelona.
    Seu corpo foi enterrado na capela de São Nicolau, onde havia servido como sacerdote. Em volta dela, entre 1597 e 1625, em sua homenagem foi construído o Monastério de São Raimundo de Portell, conhecido também como o Escorial de Segarra.




    São Raimundo Nonato, rogai por nós!

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Inseguranças


    Num mundo assaltado pelo medo, e até pelo pânico, ou onde a agressiva competitividade materialista é a oração mental comunitária prevalecente no dia-a-dia, ter inseguranças é quase uma frivolidade. Na intimidade, porém, todos nós temos nossas hesitações, nossas incertezas, nossas fraquezas. E na contramão da exacerbação da insensibilidade, tais características até são desejáveis dadas as grandes lições que ensinam, como percebeu o Eclesiástico: "... o que passou por muitas dificuldades desenvolve a prudência." Eclo 34,10
    Para mais prosperar nessa virtude, no entanto, o profeta Baruc recomenda à Israel a meditação dos Mandamentos da Lei de Deus: "Escuta, Israel, os Mandamentos de Vida; medita, a fim de que aprendas a prudência." Br 3,9
    E com toda razão, pois, como afirmam os Provérbios, ela é mesmo imprescindível: "O homem que se desvia do caminho da prudência repousará na companhia das trevas." Pr 21,16
    Mas só a prudência não é o bastante. Muito menos aquela meramente mundana, como bem demonstrou São Luís Maria Montfort. Por isso, apontando a 'imprudência' dos que realmente têm boa fé, Jesus pedia caridade mesmo que imperfeita: "E o proprietário admirou a astúcia do administrador, porque os filhos deste mundo são mais prudentes do que os filhos da Luz no trato com seus semelhantes. Eu vos digo: fazei-vos amigos com a riqueza amealhada na injustiça, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos." Lc 16,8-9
    A verdade é que não podemos nos deixar impressionar pelo medo. Mais que acovardar, eles podem imobilizar! E a solução é fortalecer-nos pela verdadeira Sabedoria, que só Deus pode oferecer, pois qualquer outro empenho representa o desperdício de toda uma vida. Baruc advertia: "Mesmo os filhos de Agar, que procuram inteligência sobre a terra, os negociantes de Madiã e Temã, os contadores de fábulas e os desejosos de inteligência, não chegaram a conhecer o caminho da Sabedoria, nem se recordam de suas veredas." Br 3,23
    Segundo os Provérbios, elas andam intimamente juntas: "Eu, a Sabedoria, sou amiga da prudência..." Pr 8,12
    E como toda virtude, precisamos pedi-la a Deus, tal e qual o salmista: "... ensinai-me a Sabedoria, para que conheça as Vossas prescrições." Sl 118,125
    Porque "... o Senhor é Quem dá a Sabedoria..." Pr 2,6
    Por isso São Paulo vincula-a à vontade de Deus: "Vigiai, pois, com cuidado sobre a vossa conduta: que ela não seja conduta de insensatos, mas de sábios que aproveitam ciosamente o tempo, pois os dias são maus. Não sejais imprudentes, mas procurai compreender qual seja a vontade de Deus." Ef 5,15-17
    E elogiando a obediência dos romanos, ele avisava das heresias, que sempre são apresentadas em sedutoras embalagens: "Rogo-vos, irmãos, que desconfieis daqueles que causam divisões e escândalos, apartando-se da Doutrina que recebestes. Evitai-os! Esses tais não servem a Cristo Nosso Senhor, mas ao próprio ventre. E com palavras adocicadas e linguagem lisonjeira enganam os corações simples. A vossa obediência tornou-se notória em toda parte, razão porque eu me alegro a vosso respeito. Mas quero que sejais prudentes no tocante ao bem, e simples no tocante ao mal." Rm 16,17-19
    O agir confiante, portanto, não é só uma prova de , mas também da Sabedoria, que é inspirada pelo Divino Espírito e mostra seu valor nas situações mais difíceis. Jesus diz: "... a Sabedoria foi justificada pelas obras de seus filhos." Mt 11,19
    Pois só ela nos permite entender o que disse Jesus, quando nos ensinou a abandonar a falsa prudência dos cuidados mundanos: "Porque, quem quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem sacrificar a sua vida por amor a Mim, salvá-la-á." Lc 9,24
    Ele dizia sobre os vacilantes: "Aquele que põe a mão no arado e olha para trás, não é apto para o Reino de Deus." Lc 9,62
    E era taxativo: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena. Portanto, quem der testemunho de Mim diante dos homens, também Eu darei testemunho dele diante de Meu Pai que está nos Céus. Aquele, porém, que Me negar diante dos homens, também Eu o negarei diante de Meu Pai que está nos Céus." Mt 10,28.32-33


CRISTO COMO MODELO

    Assim, da insegurança à prudência, e da prudência à Sabedoria, precisamos fortalecer-nos na fé. Jesus prometia: "Em verdade vos declaro que, se tiverdes fé e não hesitardes... Tudo o que em oração pedirdes com fé, vós o alcançareis." Mt 21,21a.22
    E ela não precisa ser muito grande, como Ele mesmo explicou: "Disse o Senhor: 'Se tiverdes fé, do tamanho de um grão de mostarda, direis a esta amoreira: 'Arranca-te e transplanta-te no mar!', e ela vos obedecerá.'" Lc 17,6
    Tal postura deve prevalecer mesmo contra todas as chances, como pediu a Jairo ao ouvir que sua filha, que estava enferma, havia morrido: "Não temas; crê somente e ela será salva." Lc 8,50
    Na verdade, precisamos da fé para tudo. Quando provocados por Jesus para perdoarem infinitamente, os Apóstolos pediram-Lhe por esse dom: "Aumentai a nossa a fé!" Lc 17,5
    Pois só a Divina Graça, que nos revigora a fé, ajuda a vencer os pecados, e com eles os medos: "No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    Todavia, antes de tudo precisamos do perdão de Deus, que é um grande bálsamo para a alma, porque é simplesmente insuportável viver sob os tormentos dos erros passados. Por isso, mais importante que uma cura, Jesus oferecia Seu perdão, como disse ao paralítico da maca descida pelo telhado, que na verdade apenas queria ser curado: "Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados." Mt 9,2
    Assim, movidos pela purificação do divino perdão e pela fé, podemos tomar Cristo como exemplo de Vitória. Lembrando, porém, que Sua força se mostrava pela Verdade e pela humildade, como fez ao lavar os pés dos Apóstolos: "Vós Me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque Eu o sou. Logo, se Eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, assim façais também vós." Jo 13,13-15
    Pois explicitava, e com contundência, nossa absoluta dependência do Pai: "Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: 'Somos servos inúteis; fizemos apenas o que devíamos fazer.'" Lc 17,10
    Sem dúvida, Ele mesmo Se dizia totalmente submisso ao Pai: "Jesus tomou a palavra e disse-lhes: 'Em verdade, em verdade vos digo: de si mesmo o Filho não pode fazer coisa alguma; Ele só faz o que vê fazer o Pai; e tudo o que faz o Pai, faz também semelhantemente o Filho.'" Jo 5,19
    Obedecia pontualmente Seus desígnios, como se viu no Horto das Oliveiras: "Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, todavia, a Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42
    E por viver profundamente Sua humanidade, experimentou na Cruz toda amplitude dos mistérios de Deus: "E à hora nona Jesus bradou em alta voz: 'Elói, Elói, lammá sabactáni?', que quer dizer: 'Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?'" Mc 15,34
    A maior fortaleza, portanto, capaz de enfrentar a própria morte, Nosso Salvador demonstrou através de Seu amor. E recomendou: "Como Eu vos tenho amado, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros." Jo 13,34
    São Paulo já atinava: "Eis porque sinto alegria nas fraquezas, nas afrontas, nas necessidades, nas perseguições, no profundo desgosto sofrido por amor a Cristo. Porque quando me sinto fraco, então é que sou forte." 2 Cor 12,10
    E ressaltando a superioridade o amor salvífico, ele aponta o Cristo como Modelo, como escreveu aos efésios: "... até atingirmos o estado de homem feito, a estatura da maturidade de Cristo. Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus artifícios enganadores. Mas, pela prática sincera da caridade, cresçamos em todos os sentidos n'Aquele que é a cabeça, Cristo." Ef 4,13b-15
    Modelo que, avisando de seu martírio já próximo, ele colocava como o extremo oposto à vida mundana: "Exorto-vos, pois, - prisioneiro que sou pela causa do Senhor -, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda a humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da Paz. Portanto, eis o que digo e conjuro no Senhor: não persistais em viver como os pagãos, que andam à mercê de suas idéias frívolas. Têm o entendimento obscurecido. Sua ignorância e o endurecimento de seu coração mantêm-nos afastados da Vida de Deus. Indolentes, entregaram-se à dissolução, à prática apaixonada de toda espécie de impureza." Ef 4,17-19
    E reclamou das 'aflições' de que padeciam os coríntios: "A vós, irmãos, não vos pude falar como a homens espirituais, mas como a carnais, como a criancinhas em Cristo. Eu dei-vos leite a beber, e não alimento sólido que ainda não podíeis suportar. Nem ainda agora o podeis, porque ainda sois carnais. Com efeito, enquanto houver entre vós ciúmes e contendas, não será porque sois carnais e procedeis de um modo totalmente humano?" 1 Cor 3,1-3
    São Tiago Menor denunciava o mesmo problema: "Donde vêm as lutas e as contendas entre vós? Não vêm elas de vossas paixões, que combatem em vossos membros? Cobiçais, e não recebeis; sois invejosos e ciumentos, e não conseguis o que desejais; litigais e fazeis guerra. Não obtendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, com o fim de satisfazerdes as vossas paixões." Tg 4,1-3
    Para complicar, São Paulo profetizou a São Timóteo o surgimento de falsos mestres, que da fé desviam muita gente, arrastando a verdadeiros tormentos: "Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão do poder. Dessa gente, afasta-te! Deles fazem parte os que se insinuam jeitosamente pelas casas e enfeitiçam mulherzinhas carregadas de pecados, atormentadas por toda espécie de paixões, sempre prontas para aprender sem nunca chegar ao conhecimento da Verdade." 2 Tm 3,2-7
    São Pedro fez igual advertência, pois tais heresias representam vários e danosos obstáculos à Igreja: "Assim como houve entre o povo falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos doutores que disfarçadamente introduzirão perniciosas seitas. Eles, renegando assim o Senhor que os resgatou, atrairão sobre si repentina ruína. Muitos os seguirão nas suas desordens, e serão deste modo a causa de o Caminho da Verdade ser caluniado." 2 Pd 2,1-3
    Mas contra toda devassidão, e em meio a grandes perigos, Jesus deixou-nos uma inafastável missão: "Eu envio-vos como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas. Cuidai-vos dos homens." Mt 10,16-17a
    Contudo, mesmo avisando de Seu Martírio, também nos deu razões para não hesitar: "Não se perturbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em Mim." Jo 14,1
    E garantia: "Não se vendem dois passarinhos por um asse? No entanto, nenhum cai por terra sem a vontade de Vosso Pai. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois! Bem mais que os pássaros valeis vós." Mt 10,29-31


O EXERCÍCIO DA FÉ

    Entre os Apóstolos, dado o privilégio que tiveram de presenciar Seus milagres, Jesus não tolerava nem mesmo o medo de morrer. É o que vemos quando o vento e as ondas jogavam o barco de um lado para outro, e eles atemorizavam-se. Ele repreendeu-os seriamente: "Por que este medo, gente de pouca fé?" Mt 8,26
    Da mesma forma, quando São Pedro ofereceu-se para andar sobre as águas, mas vacilou diante das grandes ondas, também foi censurado por Ele: "Homem de pouca fé, por que duvidaste?" Mt 14,31
    O mesmo se deu quando os Doze já não entendiam Sua Palavra, por preocuparem-se demasiadamente com a comida que levavam para a viagem. Ele não os poupou: "Homens de pouca fé! Por que julgais que vos falei por não terdes pão?" Mt 16,8-9
    Ou quando os Apóstolos não conseguiram exorcizar um menino possesso, por quem clamava seu pai: "Ó geração incrédula e perversa, até quando estarei convosco e vos aturarei? Traze cá teu filho." Lc 9,41
    São Tomé também não foi tolerado por sua incredulidade e egocentrismo. Enquanto duvidava de Sua Ressurreição, ou exigia pessoalmente uma prova, quando apareceu mais uma vez no meio dos Onze, Jesus lhe disse: "Introduz aqui o teu dedo, e vê as Minhas mãos. Põe a tua mão no Meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé." Jo 20,27
    A mulher estrangeira, em contraponto, que aceitou humildemente 'as migalhas' de Sua atenção, recebeu um entusiasmado elogio de Jesus. De fato, sua fé estava acima da vergonha ou do vaidade: "Ó mulher, grande é tua fé!" Mt 15,28
    O centurião, no mesmo sentido, que acreditava que bastaria tão somente uma Palavra Sua para a cura de seu servo, também foi enaltecido por Jesus: "... nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé." Lc 7,9
    Reclamava, realmente, de toda uma geração e suas 'prudências': "Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes? Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam, nem recolhem nos celeiros e vosso Pai celeste as alimenta. Não valeis vós muito mais que elas? Qual de vós, por mais que se esforce, pode acrescentar um só côvado à duração de sua vida? E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo; não trabalham nem fiam. Entretanto, Eu digo-vos que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus veste assim a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, Vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas próprias preocupações. A cada dia basta o seu cuidado." Mt 6,25-34
    E apontando a imprudente cultura dos mundanos prazeres, denunciava a origem de toda incredulidade: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    São Paulo, que já divisava perfeitamente a Divindade de Jesus pelas Escrituras, sabia muito bem o caminho: "Logo, a fé provém da pregação, e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,17
    Condenava, por isso, os projetos que não têm por meta a Vida Eterna: "Se é só para esta vida que temos colocado a nossa esperança em Cristo, somos, de todos os homens, os mais dignos de lástima." 1 Cor 15,19
    O que aprendemos de Jesus, portanto, é que Ele não nos quer entregues a ventos de incertezas. Temos sempre que acreditar, não importa quão difícil seja a situação, mesmo vivendo num mundo extremamente violento, onde a vida foi banalizada. Poderíamos deixar de dar nosso testemunho de fé? Não por acaso, quando falava sobre os últimos tempos, Ele deixou uma ruidosa pergunta: "Mas, quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a terra?" Lc 18,8
    E Ele mesmo a respondeu, embora noutras palavras e noutra situação: "A maldade se espalhará tanto que o amor de muitos esfriará." Mt 24,12
    Contudo, não deixou de apontar o caminho da firmeza da fé: "Mas quem perseverar até o fim, esse será salvo" Mt 24,13
    É por essa razão que devemos buscar o dom da fortaleza, que nos é dado pelo Espírito Santo. São Pedro recomenda a busca dessa virtude numa sequência de outras: "Por isso mesmo, dedicai todo o esforço em juntar à vossa fé a fortaleza, à fortaleza o conhecimento, ao conhecimento o domínio próprio, ao domínio próprio a constância, à constância a piedade, à piedade a fraternidade, e à fraternidade, o amor." 2 Pd 1,5-7
    Jesus garantiu: "Portanto, quem ouve estas Minhas Palavras e as põe em prática é como um homem sensato, que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não desabou, porque estava construída sobre a rocha." Mt 7,24-25
    E recomendou a constante vigília, só possível por frequentes orações, como a verdadeira prudência: "Então o Reino dos Céus será semelhante a dez virgens, que saíram com suas lâmpadas ao encontro do Esposo. Cinco dentre elas eram tolas e cinco, prudentes. Tomando suas lâmpadas, as tolas não levaram óleo consigo. As prudentes, todavia, levaram de reserva vasos de óleo junto com as lâmpadas. Tardando o Esposo, cochilaram todas e adormeceram. No meio da noite, porém, ouviu-se um clamor: 'Eis o Esposo, ide-Lhe ao encontro.' E as virgens levantaram-se todas e prepararam suas lâmpadas. As tolas disseram às prudentes: 'Dai-nos de vosso óleo, porque nossas lâmpadas se estão apagando.' As prudentes responderam: 'Não temos o suficiente para nós e para vós; é preferível irdes aos vendedores, a fim de o comprardes para vós.' Ora, enquanto foram comprar, veio o Esposo. As que estavam preparadas entraram com Ele para a sala das bodas e foi fechada a porta. Mais tarde, chegaram também as outras e diziam: 'Senhor, Senhor, abre-nos!' Mas Ele respondeu: 'Em verdade vos digo: não vos conheço!' Vigiai, pois, porque não sabeis nem o dia nem a hora." Mt 25,1-13
    Ensina o Catecismo da Igreja: "A prudência é a virtude que dispõe a razão prática para discernir, em qualquer circunstância, o nosso verdadeiro bem, e para escolher os justos meios de atingi-lo. 'O homem prudente vigia os seus passos' (Pr 14,15). 'Sede ponderados e comedidos, para poderdes orar' (1 Pd 4,7). A prudência é a 'reta norma da ação', escreve São Tomás seguindo Aristóteles. Não se confunde, nem com a timidez ou o medo, nem com a duplicidade ou dissimulação. É chamada 'auriga virtutum – condutor das virtudes', porque guia as outras virtudes, indicando-lhes a regra e a medida. É a prudência que guia imediatamente o juízo da consciência. O homem prudente decide e ordena a sua conduta segundo este juízo. Graças a esta virtude, aplicamos sem erro os princípios morais aos casos particulares e ultrapassamos as dúvidas sobre o bem a fazer e o mal a evitar." CIC § 1807

    "Caminhamos na estrada de Jesus!"

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Martírio de São João Batista


    A exemplo da Crucificação de Jesus, o cruel destino que teve São João Batista também ficou para sempre gravado na memória da humanidade: a história do Profeta do Altíssimo, mártir defensor do Sacramento do Matrimônio. Ele ousou levantar a voz para denunciar o adultério do rei, que se dizia hebreu, e ironicamente acabou assassinado não por sua vontade, pois o temia, mas por astúcia de sua côrte, lugar costumeiramente frequentado e assediado por pessoas da pior espécie. A 'nobreza', muitas vezes, representa o que um povo tem de pior.
    Levita como São Mateus, Profeta de primeiríssima grandeza, ele foi o arauto da Vinda do Salvador, como anunciou seu pai, o sacerdote Zacarias, no dia em que nasceu: "E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e Lhe prepararás o Caminho, para dar ao Seu povo conhecer a Salvação, pelo perdão dos pecados." Lc 1,76-77
    Isso havia sido previsto pelo anjo do Senhor, que o descreveu com um reorientador dos pais para o bem das famílias, um dissuasor de vãs rebeldias e o preparador do povo para o encontro com o Messias: "... irá adiante de Deus com o espírito e poder de Elias para reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à Sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto." Lc 1,17
    São João Batista, pois, não 'conseguia' calar-se, não se permitia deixar de proclamar as Verdades de Deus. E não alimentava projetos de permanecer por muito tempo nesse mundo; vivia 'outra' realidade, ou melhor, a verdadeira realidade: o Reino dos Céus, como anunciava Jesus: "Mas se expulso os demônios pelo dedo de Deus, certamente é chegado a vós o Reino de Deus." Lc 11,20
    Como escolheu o deserto, e o povo é que ia até ele, à sua volta a Verdade tinha que prevalecer, a qualquer custo. Não por acaso, Jesus vai questionar aqueles que por ele foram batizados: "Tendo eles partido, disse Jesus à multidão a respeito de João: 'Que fostes ver no deserto? Um caniço agitado pelo vento? Que fostes ver, então? Um homem vestido com roupas luxuosas? Mas os que estão revestidos de tais roupas vivem nos palácios dos reis. Então por que fostes para lá? Para ver um profeta? Sim, digo-vos Eu, mais que um profeta. É dele que está escrito: 'Eis que Eu envio Meu mensageiro diante de Ti para Te preparar o Caminho' (Ml 3,1). E, se quereis compreender, ele é o Elias que devia voltar. Quem tem ouvidos, ouça." Mt 11,7-10.14-15
    Sua missão custou-lhe a vida, mas, podemos ter certeza, ele faria tudo de novo, pois sua missão estava em perfeita sintonia com a Boa Nova anunciada por Jesus, que pregou: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena." Mt 10,28
    Ele não se arrependeria, portanto, de ter condenado nem a devassidão do rei nem a corrupção dos costumes, que imperava na côrte e na sociedade judaica à época, inclusive entre religiosos. Sua pregação pois, era tão contundente quanto clara: "Ao ver, porém, que muitos dos fariseus e dos saduceus vinham ao seu batismo, disse-lhes: 'Raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera vindoura? Dai, pois, frutos de verdadeira penitência. Não digais dentro de vós: 'Nós temos a Abraão por pai!' Pois eu vos digo: Deus é poderoso para suscitar destas pedras filhos a Abraão.'" Mt 3,7-9
    Ora, o próprio São João Batista era ele mesmo um penitente: "João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Mt 3,4
    Assim, silêncio ou desfaçatez perante a crescente degeneração moral eram-lhe uma grande ofensa a Deus, porque viviam-se os tempos da espera do Messias. Por isso sua 'rebeldia' era santa; sua profunda indignação impedia-lhe de viver na indiferença. 'Aqueles tempos' eram por demais sérios. Jesus mesmo arguia: "Dizia ainda ao povo: 'Quando vedes levantar-se uma nuvem no poente, logo dizeis: Aí vem chuva. E assim sucede. Quando vedes soprar o vento do sul, dizeis: Haverá calor. E assim acontece. Hipócritas! Sabeis distinguir os aspectos do céu e da terra; como, pois, não sabeis reconhecer o tempo presente?'" Lc 12,54-56
    E acusou: "Porque se nesta geração adúltera e pecadora alguém se envergonhar de Mim e das Minhas palavras, também o Filho do homem Se envergonhará dele, quando vier na Glória de Seu Pai com os Seus santos anjos." Mc 8,38
    As classes mais altas e as autoridades religiosas judaicas, de fato, curvavam-se não só a 'sabedoria' de estrangeiros como também à indecência, aos desmandos e às profanações perpetradas pela corte romana. O bacanal de Herodes era só um exemplo. Muitos judeus tomavam parte ativa nos seus 'cultos', pois para eles Herodes seria o próprio Messias, e, de tão pervertidos, até conspirariam contra Jesus: "Saindo os fariseus dali, deliberaram logo com os herodianos como O haviam de matar. " Mc 3,6
    Por isso Jesus vai exigir de todos esses falsos religiosos que devolvessem o povo a Deus: "Reuniram-se então os fariseus para deliberar entre si sobre a maneira de surpreender Jesus nas Suas próprias palavras. Enviaram seus discípulos com os herodianos, que Lhe disseram: 'Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o Caminho de Deus em toda a Verdade, sem Te preocupares com ninguém, porque não olhas para a aparência dos homens. Dize-nos, pois, o que Te parece: É permitido ou não pagar o imposto a César?' Jesus, percebendo sua malícia, respondeu: 'Por que Me tentais, hipócritas? Mostrai-me a moeda com que se paga o imposto!' Apresentaram-Lhe um denário. Perguntou Jesus: 'De quem é esta imagem e esta inscrição?' 'De César', responderam-Lhe. Disse-lhes então Jesus: 'Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.'" Mt 22,16-21
    Mas tudo isso era demais, inaceitável para São João Batista. Cioso das maiores responsabilidades, após anunciar o Cristo, não lhe restava outra coisa senão continuar vivendo o que pregava: negar-se a si mesmo: "Importa que Ele cresça e que eu diminua." Jo 3,30
    Para que entendamos o que ele queria dizer com essa frase, um misto de dever cumprido e resignação quanto à vontade de Deus, basta lembrar o que disse o próprio Jesus: "Eu vim lançar fogo à terra, e que tenho Eu a desejar se ele já está aceso?" Lc 12,49
    Significativamente, para alguém que veio batizar, o brutal martírio de nosso Santo foi também um batismo, tal e qual Jesus havia previsto para Si, para os Apóstolos e para tantos outros Seus seguidores: "Vós bebereis o cálice que Eu devo beber e sereis batizados no batismo em que Eu devo ser batizado." Mc 10,39


    Vemos então que o Batista não poderia simplesmente passar por esse mundo, como muitos de nós pretendemos. E seu destino, que não nos enganemos, não foi a desgraça de uma morte horrível, mas a Eterna Glória. Não lhe importava a violência ou a humilhação desse batismo, mas seu compromisso com a Verdade, com Deus. É Jesus Quem faz a melhor síntese de sua missão, ao falar aos religiosos da época: "Vós enviastes mensageiros a João, e ele deu testemunho da Verdade." Jo 5,33
    Essa era questão muito cara a Jesus, a essência de Sua própria Missão. Ele disse diante de Pilatos: "É para dar testemunho da Verdade que nasci e vim ao mundo. Todo aquele que é da Verdade ouve a Minha voz." Jo 18,37b
    E tão horrendo destino foi também o do Cristo, como Ele disse ao aproximar-se o momento de Seu Martírio: "Respondeu-lhes Jesus: 'É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado. Presentemente, a Minha alma está perturbada. Mas que direi?... Pai, salva-Me desta hora... Mas é exatamente para isso que vim a esta hora.'" Jo 12,23.27
    Aliás, em certo sentido, é o que Ele determinou a todos nós: "Porque o que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por amor a Mim e ao Evangelho, salvá-la-á." Mc 8,35
    De fato, São João Batista cumpriu muito bem sua missão. Primeiro, pregando o arrependimento dos pecados, e assim preparar o povo de Israel para encontrar-se com Deus Jesus: "Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Dizia ele: 'Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus.'" Mt 3,1-2
    Em seguida, tomando Confissões e batizando, para purificar-lhes os pecados: "Pessoas de Jerusalém, de toda a Judeia e de toda a circunvizinhança do Jordão vinham a ele. Confessavam seus pecados e eram batizados por ele nas águas do Jordão." Mt 3,5-6
    Com efeito, esse era o sentido do seu batismo, como vai dizer São Lucas: "Ele percorria toda a região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados..." Lc 3,3
    Por fim, ao encontrar Jesus, identificou n'Ele o Redentor: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo." Jo 1,29
    E deu esse testemunho: "É Este de Quem eu disse: 'Depois de mim virá um homem, que me é superior, porque existe antes de mim.' Eu não O conhecia, mas, se vim batizar em água, é para que Ele Se torne conhecido em Israel. (João havia declarado: 'Vi o Espírito descer do Céu em forma de uma pomba e repousar sobre Ele.) Eu não O conhecia, mas Aquele que me mandou batizar em água disse-me: 'Sobre Quem vires descer e repousar o Espírito, Este é Quem batiza no Espírito Santo.'" Jo 1,30-33
    Em seu louvor, Jesus declarou que o Batista era o maior dentre os homens. Contudo, antes de Sua Ressurreição, ele era inferior às criaturas celestiais: "Pois vos digo: entre os nascidos de mulher não há maior que João. Entretanto, o menor no Reino de Deus é maior do que ele." Lc 7,28
    De fato, o autor da Carta aos Hebreus vai invocar esse interlóquio entre o salmista e Deus: "Alguém em certa passagem afirmou: 'Que é o homem para que dele Te lembres, ou o filho do homem, para que o visites? Fizeste-o, por pouco, menor que os anjos... (Sl 8,5-6a)." Hb 2,6-7a
    Por sua grandeza, portanto, embora haja evidências em contrário, ele poderia muito bem ser um dos Santos que ressurgiram logo após a Ressurreição de Jesus, como registrou São Mateus: "Os sepulcros abriram-se e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da Ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas." Mt 27,52-53
    E falando sobre Jesus, São João Batista disse uma frase que ainda hoje ecoa nos ventos e em nossos ouvidos: "... no meio de vós está Alguém que vós não conheceis." Jo 1,26
    Assim, pelo exemplo desse eremita, um legítimo essênio, devemos ser mais conscientes de nosso compromisso com a Verdade, isto é, a obrigação de testemunhar o Cristo. Não podemos simplesmente admirar sua coragem: seria muito pouco! Foi o que disse Jesus: "João era uma lâmpada que ardia e iluminava; vós, porém, só por uma hora quisestes alegrar-vos com a sua luz." Jo 5,35
    Jesus está no meio de nós, como disse o Batista. Não desprezemos esse anúncio que lhe custou tão caro. Não nos alegremos com a luz do último grande profeta só por uma hora. Seu martírio é um sinal da força do Espírito Santo que o movia, assim como da Glória que lhe esperava. E apesar de destemido, ele tudo fez na mais perfeita humildade: "Eu batizo-vos com água, em sinal de penitência, mas Aquele que virá depois de mim é mais poderoso do que eu e nem sou digno de carregar Seus calçados. Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo." Mt 3,11
    Isso bem explica sua reação ao ver Jesus: "Da Galileia foi Jesus ao Jordão ter com João, a fim de ser batizado por ele. João recusava-se: 'Eu devo ser batizado por Ti e Tu vens a mim?'" Mt 3,13-14
    De fato, diferentemente dos grandes profetas que lhe antecederam, o Batista não realizou nenhuma maravilha sequer. O próprio povo testemunhou sobre ele: "João não fez milagre algum... " Jo 10,41
    Sua autoridade vinha tão somente da realidade que ele francamente vivia: "O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito; e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel." Lc 1,80
    E por isso tinha autoridade para pregar: "Perguntava-lhe a multidão: 'Que devemos fazer?' Ele respondia: 'Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo.'" Lc 3,10-11
    Deixou, enfim, uma ruidosa recomendação que vale para todos funcionários públicos, especificamente no que concerne ao salário: "Do mesmo modo, os soldados lhe perguntavam: 'E nós, que devemos fazer?' Respondeu-lhes: 'Não pratiqueis violência nem defraudeis a ninguém, e contentai-vos com o vosso soldo.'" Lc 3,14


SEU MARTÍRIO, SEGUNDO SÃO MARCOS

    "Pois o próprio Herodes mandara prender João e acorrentá-lo no cárcere, por causa de Herodíades, mulher de seu irmão Filipe, com a qual ele se tinha casado. João tinha dito a Herodes:
    - Não te é permitido ter a mulher de teu irmão.
    Por isso Herodíades odiava-o e queria matá-lo, não o conseguindo, porém. Pois Herodes respeitava João, sabendo que era um homem justo e santo; protegia-o e, quando o ouvia, sentia-se embaraçado. Mas, mesmo assim, de boa mente ouvia-o.
    Chegou, no entanto, um dia favorável em que Herodes, por ocasião do seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, aos seus oficiais e aos principais da Galileia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça:
    - Pede-me o que quiseres, e eu to darei.
    E jurou-lhe:
    - Tudo o que me pedires te darei, ainda que seja a metade do meu reino.
    Ela saiu e perguntou à sua mãe:
    - Que hei de pedir?
    E a mãe respondeu:
    - A cabeça de João Batista.
    Tornando logo a entrar apressadamente à presença do rei, exprimiu-lhe seu desejo:
    - Quero que sem demora me dês a cabeça de João Batista.
    O rei entristeceu-se; todavia, por causa da sua promessa e dos convivas, não quis recusar. Sem tardar, enviou um carrasco com a ordem de trazer a cabeça de João. Ele foi, decapitou João no cárcere, trouxe a sua cabeça num prato e a deu à moça, e esta entregou-a à sua mãe.
    Ouvindo isto, seus discípulos foram tomar o seu corpo e depositaram-no num sepulcro." Mc 6,17-29

    São Mateus complementa: "Depois foram dar a notícia a Jesus." Mt 14,12

    "São João Batista, rogai por nós!"

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Santo Agostinho


    O Bispo de Hipona foi o primeiro grande sintetizador da Doutrina Cristã, e o último dos Padres Latinos, aqueles que conceberam a Filosofia Cristã, também chamada Patrística. De singular inteligência, enquanto importante professor do Império Romano defendeu uma herética corrente de pensamento, o maniqueísmo, e, passando a grande admirador de Plotino, tornou-se, ainda antes de vir a ser cristão, neoplatônico.
    Desde jovem rejeitava veementemente os convites às práticas religiosas que lhe fazia sua mãe, Santa Mônica, mas em 387, aos 33 anos, foi a Milão conhecer a Sabedoria de Santo Ambrósio e rendeu-se em definitivo à Verdade, abraçando o Catolicismo. Deixou a vida que levava com uma concubina e vendeu todos seus bens, retendo apenas sua casa em Hipona, na atual Argélia, que, inspirado pela vida de Santo Antão, transformou num monastério para si e para alguns amigos. Era o ano de 388 e ali nascia a Ordem de Santo Agostinho, também chamada de 'agostinianos'.
    Já era renomado professor de Gramática e Retórica, porém sentia que precisava começar tudo de novo: entregou-se à oração, à pobreza e ao serviço aos mais carentes. Tamanha era sua devoção que em 391 foi ordenado sacerdote de Hipona pelo próprio povo, e em 396, também pela vontade popular, foi apresentado como bispo coadjutor, ou bispo sucessor, da mesma cidade. Morreu em 430, aos 76 anos, quando os vândalos invadiram a África através de Gibraltar. Passou seus últimos dias sitiado, entre penitências, orações e recitações de Salmos.
    Deixou o 'Regulamento' para os sacerdotes de seu mosteiro, e por essa obra foi reconhecido como Padroeiro do Clero Regular. Foi canonizado também por aclamação popular e logo reconhecido como Doutor da Igreja.
    Bastante ativo, comia muito pouco, cuidava da igreja local, de questões de justiça entre o povo e dedicava muito especial atenção aos órfãos e pobres. Sua rotina diária inalteradamente incluía celebrar a Santa Missa, catequizar, fazer pregações, servir aos carentes e escrever. Deixou obras belíssimas como 'Confissões', na qual conta sua vida, e 'A Cidade de Deus', em que exalta a grande dádiva divina que é a Igreja.
    Deixou-nos ainda conceitos e explanações fundamentais para a compreensão do projeto de Deus, em obras como 'O Pecado Original', 'O Livre Arbítrio', 'O Problema do Mal', 'O Tempo como parte da Criação', 'A Fé como a restauração da Razão', 'O Resgate do Platonismo', 'A Ética' etc. É reconhecido também como Doutor da Graça, por sua enorme contribuição sobre esse assunto.
    Era natural de Tagaste, antiga cidade argelina. Foi professor em Cartago e em Roma, mas, mesmo entre as pessoas mais importantes e nos mais luxuosos ambientes, nunca encontrava satisfação para sua alma. Na Igreja viveu seus melhores, mais produtivos e mais felizes anos. Referindo-se a essa obra de Cristo, dizia: "Fora da Igreja não há Salvação."
    Escreveu em belíssimas linhas o que representou sua conversão: "Tarde Te amei... Trinta anos estive longe de Deus. Mas durante esse tempo algo se movia dentro do meu coração... Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava... Mas Tu compadeceste-Te de mim e tudo mudou porque Tu me deixaste conhecer-Te... Tu estavas dentro de mim e eu fora..."
    Sua inspiração era realmente ímpar:
    "Quem me dera descansar em Ti! Quem me dera que viesses a meu coração e que o embriagasses, para que eu esqueça minhas maldades e me abrace Contigo, meu único bem! Que és para mim? Tem misericórdia de mim, para que eu possa falar. E que sou eu para Ti, para que me ordenes amar-Te e, se não o fizer, irar-Te contra mim, ameaçando-me com terríveis castigos? Acaso é pequeno o castigo de não Te amar? Ai de mim! Dize-me por Tuas misericórdias, Meu Senhor e Meu Deus, que és para mim? Dize a minha alma: 'Eu sou a tua Salvação.' Que eu ouça e siga essa voz e Te alcance. Não queiras esconder-me Teu rosto. Morra eu para que possa vê-lo, para não morrer eternamente."
    "Estreita é a casa de minha alma para que venhas até ela: que seja por Ti dilatada. Está em ruínas; restaura-a. Há nela nódoas que ofendem o Teu olhar: confesso-o, pois eu o sei; porém, quem haverá de purificá-la? A quem clamarei senão a Ti? Livra-me, Senhor, dos pecados ocultos, e perdoa a Teu servo os alheios! Creio, e por isso falo. Tu o sabes, Senhor. Acaso não confessei diante de Ti meus delitos contra mim, ó Meu Deus? E não me perdoaste a impiedade de meu coração? Não quero contender em juízos Contigo, que és a Verdade, e não quero enganar-me a mim mesmo, para que não se engane a si mesma minha iniquidade. Não quero contender em juízos Contigo, por que, se dás atenção às iniquidades, Senhor, quem, Senhor, subsistirá?"
    "Que deseja a alma com mais veemência do que a Verdade?"
    "À minha mesa convido-vos. Nela ninguém morre, nela está a Vida verdadeiramente feliz, nela o Alimento não se corrompe, mas refaz e não se acaba.
    Eis para onde vos convido: para a morada dos anjos, para a amizade do Pai e do Espírito Santo, para a Eterna Ceia, para a fraternidade Comigo; enfim, a Mim mesmo, à Minha Vida Eu vos conclamo! Não quereis crer que vos darei a Minha Vida? Retende, pois, como penhor a Minha Morte."
    "Foi o orgulho que transformou anjos em demônios, mas é a humildade que faz de homens anjos."
    "... conhece-se melhor a Deus na ignorância."
    "Aquele que nos criou sem a nossa ajuda, não nos salvará sem nosso consentimento."
    "Deus é mais íntimo a nós que nós mesmos."
    "Com o amor do próximo, o pobre é rico; sem o amor do próximo, o rico é pobre."
    "Nada estará perdido enquanto estivermos em busca."
    "Pois Deus Todo-Poderoso, por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em Suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio mal."
    "Se tu crês somente naquilo que gostas no Evangelho, e rejeitas o que não gostas, não é no Evangelho que crês, mas sim em ti mesmo."
    "A fé e a razão caminham juntas, mas a fé vai mais longe."
    "Tão cegos são os homens, que chegam a vangloriar-se da própria cegueira!"
    "Há pessoas que desejam saber só por saber, e isso é curiosidade; outras, para alcançarem fama, e isso é vaidade; outras, para enriquecerem com a sua ciência, e isso é um torpe negócio; outras, para serem edificadas, e isso é prudência; outras, para edificarem os outros, e isso é caridade."
    "Aquele que tem caridade no coração, tem sempre alguma coisa para dar."
    "Não é de admirar que a soberba gere a separação, e a caridade, a unidade."
    "O coração delicado sofre menos das feridas que recebe do que das que faz."
    "pecado é amor a si mesmo até o desprezo de Deus."
    "O pecado é o motivo de tua tristeza. Deixa que a santidade seja o motivo de tua alegria."
    "O que Deus mais odeia depois do pecado é a tristeza, porque nos predispõe ao pecado."
    "O viver em plena felicidade não é próprio desta vida mortal. Só o será quando aparecer a imortalidade... Sem a imortalidade não existe felicidade."
    "Para alcançarmos esta vida feliz, a verdadeira Vida ensinou-nos a orar."
    "Teu desejo é tua oração; se o desejo é contínuo, também a oração é contínua. Não foi em vão que disse o Apóstolo: 'Orai sem cessar (1 Ts 5,17)'. Ainda que faças qualquer coisa, se desejas aquele repouso do Eterno Sábado, não cesses de orar. E se não queres cessar de orar, não cesses de desejar."
    "Não há lugar para a Sabedoria onde não há paciência."
    "A Esperança tem duas lindas filhas, a indignação e a coragem; a indignação ensina-nos a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las."
    "Prefiro os que me criticam, porque me corrigem, aos que me elogiam, porque me corrompem."
    "Com a corrupção morre o corpo, com a impiedade morre a alma."


    No século VIII, por força das invasões muçulmanas, seus restos mortais foram levados para Pávia, no norte da Itália, e foram sepultados na Basílica de San Pietro in Ciel d’Oro. Aí, no século XIV, foi-lhes construído um esplendoroso mausoléu.


    Santo Agostinho, rogai por nós!