sábado, 16 de setembro de 2017

O Difícil Caminhar com Jesus


    Seguir Jesus não significa abraçar um mundo de facilidades. Ao contrário: muitas vezes as coisas ficam bem mais difíceis, pois o Caminho que Ele aponta é realmente estreito: "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são aqueles que por aí entram. Estreita, porém, é a Porta e apertado o Caminho da Vida e raros são aqueles que O encontram." Mt 7,13-14
    E sem que desanimemos, pois com Ele caminhamos para a Vida Eterna, também é necessário ter em mente que o Divino Mestre advertiu os Apóstolos de Seu Sacrifício, e, consequentemente, do sacrifício pelo qual hão de passar Seus seguidores: "Em seguida, convocando a multidão juntamente com os Seus discípulos, disse-lhes: 'Se alguém quer seguir-Me, renuncie-se a si mesmo, tome a sua Cruz e siga-Me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que perder a sua vida por amor a Mim e ao Evangelho, salvá-la-á. Pois que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua Vida?'" Mc 8,34-36
    Caminhar com Jesus, portanto, é enfrentar corajosa e realisticamente as desafiantes situações do dia-a-dia, sem entregar-se à desilusão ou à ira. É assim que tomamos nossa cruz e 'perdemos nossa vida', por amor a Ele e ao anúncio da Vida Eterna. É cruz porque significa um sacrifício total; é 'perder a vida' porque está na contramão dos prazeres desse mundo. Mas esse é o Caminho da libertação dos pecados, do amadurecimento espiritual, do fazer o que tem que ser feito.
    Tristes daqueles que, perante o Juízo, forem julgados preguiçosos, ambiciosos, covardes ou inimigos da construção do Reino de Deus. Esses são os que realmente perdem suas vidas, e podem perder a Vida Eterna.


O EXEMPLO DE PEDRO

    O que aconteceu com São Pedro, quando ousou andar sobre as águas como Jesus? São Mateus narrou assim:
    "Pela quarta vigília da noite, Jesus veio a eles, caminhando sobre o mar. Quando os discípulos O perceberam caminhando sobre as águas, ficaram com medo:
    - É um fantasma! disseram eles, soltando gritos de terror.
    Mas Jesus logo lhes disse:
    - Tranquilizai-vos, sou Eu. Não tenhais medo!
    Pedro tomou a palavra e falou:
    - Senhor, se és Tu, manda-me ir sobre as águas até junto a Ti!
    Ele disse-lhe:
    - Vem!
    Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus.
    Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e, começando a afundar, gritou:
    - Senhor, salva-me!
    No mesmo instante, Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e disse-lhe:
    - Homem de pouca ! Por que duvidaste?
    E apenas tinham subido para a barca, o vento cessou." Mt 14,28-32

    São Pedro teve a audácia de imitar Jesus, e não estava errado em querer. Tanto que Jesus lhe consentiu de imediato, sem argumentar. Apenas disse: 'Vem!' Contudo, tomar Jesus como modelo significa enfrentar grandes contrariedades e fortes oposições. Ele permitiu que Pedro viesse até Si sobre as águas, porém não lhe abrandou o vento. Pelo contrário: permitiu que redobrasse sua violência. Isso fica claro porque, logo que voltaram à barca, o vento parou.
    Quando se abraça a verdadeira realidade, que é apresentada pelo Cristo, em muitas situações as dificuldades apenas aumentam. O inimigo e o mundo passam a opôr ainda mais suas forças. Esse, no entanto, é o momento de mostrar fé, de perseverar. Temos que ter presente que Jesus está do nosso lado, seja para dar-nos a mão, seja para acalmar o vento, e quer ver nossa vitória.
    Desse episódio, todavia, ficam os exemplos de duas atitudes de São Pedro. Primeiro, ele destemidamente tentou imitar o Mestre; segundo, quando se agravaram as circunstâncias, ele soube muito bem a Quem recorrer: nem tentou valer-se de si mesmo, pois sabia nadar, nem pediu socorro aos companheiros da barca, mas a Jesus.


A BOA SEMENTE

    Outra passagem em que as condições se complicam após ouvir Jesus é descrita na parábola do semeador, segundo São Marcos:
    "O semeador semeia a Palavra. Alguns se encontram à beira do caminho, onde ela é semeada; apenas a ouvem, vem Satanás tirar a Palavra neles semeada.
    Outros recebem a semente em lugares pedregosos; quando a ouvem, recebem-na com alegria; mas não têm raiz em si, são inconstantes, e assim que se levanta uma tribulação ou uma perseguição por causa da Palavra, eles tropeçam.
    Outros ainda recebem a semente entre os espinhos; ouvem a Palavra, mas as preocupações mundanas, a ilusão das riquezas, as múltiplas cobiças sufocam-na e tornam-na infrutífera.
    Mas há aqueles que recebem a semente em boa terra. Eles escutam a Palavra, acolhem-na e dão frutos: um trinta, outro sessenta, outro cem!" Mc 4,14-20

    Jesus aponta o inimigo roubando a semente dos que ficam 'à beira do caminho'; diz que os problemas e perseguições fazem tropeçar os vacilantes, que não se aprofundam; avisa que as preocupações, as ilusões e as cobiças sufocam os que vivem 'entre os espinhos', ou seja, em maus ambientes e em más companhias; mas também reconhece a boa terra, que dá até cem frutos por cada semente.
    Ao final, as contas são essas: para cada semente que frutifica, três são perdidas. A quantidade de frutos da semente que vinga, porém, compensa em muito as que se perdem. E a lição é: ninguém é boa terra só porque quer ser, mas por persistir em ser e assim obter de Deus a Graça de gerar frutos. O que se é, comprova-se com o tempo através de atitudes, não só com palavras. Por isso, Jesus pediu que perseverássemos junto a Ele: "Permanecei em Mim e Eu permanecerei em vós. O ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar fruto se não permanecerdes em Mim." Jo 15,4
    E mesmo assim Ele advertia das correções que o Pai faz: "Eu sou a videira verdadeira, e Meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto em Mim, Ele o cortará; e podará todo aquele que der fruto, para que produza mais fruto." Jo 15,1-2
    Acolher devidamente a semente, de fato, não é fácil. Mas é sem dúvida a maior das realizações humanas, e é o exemplo dado por Nossa Senhora ao ouvir Jesus ainda aos 12 anos, quando Ele permaneceu sozinho em Jerusalém e disse que devia estar na Casa do Pai. São Lucas registrou: "Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração." Lc 2,51
      
       
O CAMINHO DA CRUZ

    Contudo, o maior exemplo de 'contrariedade' para o cristão é própria Crucificação de Jesus. É do texto do nosso Santo médico:
    "Conforme o Seu costume, Jesus saiu dali e dirigiu-Se para o monte das Oliveiras, seguido dos Seus discípulos. Ao chegar àquele lugar, disse-lhes:
    - Orai para que não caiais em tentação.
    Depois Se afastou deles à distância de um tiro de pedra e, ajoelhando-Se, orava:
    - Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, todavia, a Minha vontade, mas sim a Tua.
    Apareceu-Lhe então um anjo do Céu para confortá-Lo.
    Ele entrou em agonia e orava ainda com mais instância, e Seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra." Lc 22,39-44

    Com efeito, mesmo fazendo plena e exclusivamente o que era da vontade do Pai Eterno, Jesus não foi por Ele poupado da maior das torturas que àqueles tempos um ser humano poderia padecer. Se Deus pareceu por demais cruel pedindo a Abraão para sacrificar Isaac, seu filho único, e levando-o à iminência do ato, com o Seu próprio Filho Ele não só ensejou o sacrifício como também o consumou. Claro, a Glória da Ressurreição de Jesus supera incomparavelmente a humilhação e a dor da morte na Cruz. E entre nós, sempre tão insensíveis, Sua história certamente não teria a mesma repercussão sem Sua morte, Ressurreição e Ascensão aos Céus.
    Resta evidente, no entanto, que os sacrifícios exigidos por Deus, por mais estranhos que pareçam, não são desprovidos de sentido nem acontecem sem que uma Graça infinitamente maior seja dada aos que perseveram fazendo Sua vontade. Se quisermos obedecê-Lo, estaremos inevitavelmente envolvidos no processo de santificação conduzido por Ele mesmo, ou seja, a própria construção do Reino de Deus. Disse São Paulo aos filipenses: "Porque é Deus Quem, segundo o Seu beneplácito, realiza em vós o querer e o executar." Fl 2,13
    Disseram também os seguidores de sua tradição: "E o Deus da Paz... queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais Sua vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável aos Seus olhos, por Jesus Cristo..." Hb 13,20a.21a
    No livro do Apocalipse, o próprio Jesus adverte: "Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima teu zelo, pois, e arrepende-te." Ap 3,20
    Logo, sejam os desígnios de Deus compreensíveis ou não, assim é Sua vontade, e assim é o caminhar com Jesus. E Ele foi categórico ao afirmar o que nos espera quando resistimos ao Mal: "Se o mundo vos odeia, sabei que odiou a Mim antes que a vós. Se fôsseis do mundo, o mundo vos amaria como sendo seus. Porém, como não sois do mundo, mas do mundo escolhi-vos, por isso o mundo vos odeia." Jo 15,18-19
    Garantiu-nos, entretanto, o sucesso pela Verdade: "Lembrai-vos da Palavra que vos disse: 'O servo não é maior do que o Seu Senhor.' Se Me perseguiram, também vos hão de perseguir. Se guardaram a Minha Palavra, hão de guardar também a vossa." Jo 15,20
    Que nos fique na memória, então, o paradoxo do Cristo, a imagem de Deus assassinado. Pois mesmo que para ser rejeitado por tantos, como estava previsto nas Escrituras, Ele teve que vir e levar a cabo Seu ato máximo de amor pela Redenção da humanidade. São João Evangelista resumiu assim Sua passagem entre nós: "Veio para o que era Seu, mas os Seus não O receberam." Jo 1,11
    Longe da desenfreada busca por ilusórios prazeres que se vê pelo mundo, e diante do mistério do Mal que nele impera, seguir Jesus, como o sacrifício ao qual espiritualmente nos oferecemos toda Santa Missa, é desde sempre mortificação. São Paulo foi contundente: "Pois todos aqueles que quiserem viver piedosamente, em Jesus Cristo, terão de sofrer a perseguição." 2 Tm 3,12
    Os seguidores do Apóstolo dos Gentios tinham bem presente essa realidade, e preparavam-se até mesmo para o martírio, que era tão frequente nos primeiros anos da Igreja e ainda hoje acontece: "Considerai, pois, atentamente Aquele que sofreu tantas contrariedades dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo. Ainda não tendes resistido até o sangue, na luta contra o pecado." Hb 12,3-4
    Aos jovens, sempre tão ansiosos, seja em busca de ilusões seja para a obtenção de uma Graça, São Pedro deixou essa acurada recomendação: "Semelhantemente, vós que sois mais jovens, sede submissos aos Anciãos. Todos vós, em vosso mútuo tratamento, revesti-vos de humildade; porque Deus resiste aos soberbos, mas dá Sua Graça aos humildes (Pr 3,34). Humilhai-vos, pois, debaixo da poderosa mão de Deus, para que Ele vos exalte no tempo oportuno. Confiai-Lhe todas as vossas preocupações, porque Ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios e vigiai. Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar. Resisti-lhe fortes na fé. Vós sabeis que os vossos irmãos, que estão espalhados pelo mundo, sofrem os mesmos padecimentos que vós. O Deus de toda Graça, que vos chamou em Cristo à Sua eterna Glória, depois que tiverdes padecido um pouco, vos aperfeiçoará, vos tornará inabaláveis, vos fortificará." 1 Pd 5,5-10
    Eis porque com instância rezava o salmista: "Ensinai-me, Senhor, Vosso Caminho; por causa dos adversários, guiai-me pela reta senda." Sl 26,11
    Caminhar com Jesus, pois, como que sobre as águas, requer ciência de que o vento é revolto. Ele mesmo avisou: "No mundo haveis de ter aflições. Coragem!" Jo 16,33
    Contudo, como vemos, também nos encorajou. E garantiu a verdadeira vitória: "Perseverai no Meu amor. Se guardardes os Meus Mandamentos, sereis constantes no Meu amor, como também Eu guardei os Mandamentos de Meu Pai e persisto no Seu amor. Disse-vos essas coisas para que a Minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa." Jo 15,9-11

    "Caminhamos na estrada de Jesus!"