quarta-feira, 18 de julho de 2018

7 Milagres

    Para mais claramente demonstrar que Jesus é o Salvador, São João relata em seu Evangelho apenas 7 milagres, que distintivamente chama de sinais. São 3 curas: de enfermidade mortal, não especificada, de paralisia e de cegueira de nascença; 3 manipulações da matéria: transformar água em vinho, multiplicar pães e peixes e andar sobre as águas; e 1 Ressurreição, que envolve de uma só vez a eliminação da enfermidade letal, recomposição do corpo e restituição da vida.
    Eles são extremamente significativos para que se tenha alguma noção da onipotência de Deus. Pela Graça, neles veremos algumas luzes. Contudo, vale dizer, mesmo após toda e qualquer reflexão, esses milagres continuarão sendo puro mistério. Durante a vida terrena, jamais iremos compreendê-los por completo.
    Não convém, portanto, debater-se com as palavras dos Evangelhos, nelas tentando encontrar possíveis reveladores detalhes para entender como esses milagres se deram. As palavras de São João, ou dos demais evangelistas, assim como quaisquer outras, não são capazes de traduzir integralmente esses fenômenos, mesmo tendo sido eles testemunhas oculares, como registrou o 'amado discípulo': "... o que vimos e ouvimos, nós anunciamo-vos..." 1 Jo 1,3


1 - A TRANSFORMAÇÃO DA ÁGUA EM VINHO

    "Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná da Galileia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e Seus discípulos.
    .Como viesse a faltar vinho, a mãe de Jesus disse-Lhe:
    - Eles já não têm vinho.
    Respondeu-lhe Jesus:
    - Mulher, que há entre Mim e ti? Minha hora ainda não chegou.
    Disse, então, Sua mãe aos serventes:
    - Fazei o que Ele vos disser.
    Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas.
    Jesus ordenou-lhes:
    - Enchei as talhas de água.
    Eles encheram-nas até a borda.
    - Agora tirai - disse-lhes Jesus -, e levai ao chefe dos serventes.
    E levaram.
    Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho, não sabendo de onde era (se bem que o soubessem os serventes, pois tinham tirado a água), chamou o noivo e disse-lhe:
    - É costume servir primeiro o bom vinho e, depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o melhor vinho até agora.
    Este foi o primeiro milagre de Jesus. Realizou-o em Caná da Galileia. Manifestou Sua Glória, e Seus discípulos creram n'Ele." Jo 2,1-11

    Longe do fim de uma das mais tradicionais festas dos judeus, talvez a de maior alegria, a Santíssima Virgem percebe o grande constrangimento das famílias dos noivos, que certamente lhes eram muito próximas. E vai a Seu Filho, o único que realmente poderia resolver o problema. Enquanto Deus, Jesus soube-o primeiro, mas demonstra comedimento, alegando esperar 'Sua hora'. Seu Sagrado Coração, porém, não Se permitiu demorar, pois, além do vexame para as famílias, era um pedido de Sua Mãe.
    Assim como São João Batista, Jesus é intransigente defensor da indissolubilidade do Matrimônio. Por maior amizade que tivessem às famílias dos noivos, não foi por acaso que Ele estava nessa celebração com Sua mãe e Seus Apóstolos, nem o fato de realizar justamente aí Seu primeiro grande milagre em público. Sobre o Sacramento do Matrimônio, Ele iria dizer: "Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu." Mt 19,6
    E o vinho é Seu preciosíssimo Sangue, que redime nossos pecados e tornou-Se nossa Comunhão com Ele, alimento que nos leva à Vida Eterna, como afirmou na Santa Ceia: "Tomou depois o Cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo: 'Bebei dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado em favor de muitos homens para a remissão dos pecados.'" Mt 26,28
    Assim Jesus sacramentou com Seu Sangue o Matrimônio, e trouxe-o para a Nova e Eterna Aliança, onde não mais vale a carta de divórcio de Moisés. Esse Sacramento, portanto, a despeito da prática corriqueiramente observada, não pode ser usado como simples festa ou cerimônia social.
    Quanto ao Seu divino poder, Ele demonstrou objetivamente ser capaz de transubstanciar a matéria: água em vinho. E notemos, em bem generosas proporções: por tradicionais medidas das talhas, foi algo entre 600 e 800 litros, pois as bodas podiam durar dias.
    Entretanto, mais que vinho de excelente qualidade, neste Sacramento Ele oferece Sua Graça à vida orientada para a purificação da alma, visando o bem infinitamente maior que é a Salvação. O que era uma simples união conjugal tornou-se Comunhão de santidade, poder gerador da vida e fonte de eterna alegria: uma inextinguível centelha do Reino de Deus, pois essa é a missão da família.


2 - A CURA DO FILHO DE UM OFICIAL DO EXÉRCITO ROMANO

    "Então havia em Cafarnaum um oficial do rei, cujo filho estava doente.
    Ao ouvir que Jesus vinha da Judeia para a Galileia, foi a Ele e rogou-Lhe que descesse e curasse seu filho, que estava prestes a morrer.
    Disse-lhes Jesus:
    - Se não virdes milagres e prodígios, não credes...
    Pediu-Lhe o oficial:
    - Senhor, desce antes que meu filho morra!
    - Vai - disse-lhe Jesus -, teu filho vive!
    O homem acreditou na Palavra de Jesus e partiu.
    Enquanto ia descendo, os criados vieram-lhe ao encontro e disseram-lhe:
    - Teu filho está passando bem.
    Indagou deles, então, a hora em que se sentira melhor. Responderam-lhe:
    - Ontem, à sétima hora, a febre deixou-o.
    Reconheceu o pai ser a mesma hora em que Jesus dissera: 'Teu filho está passando bem.' E creu, tanto ele como toda sua casa.
    Esse foi o segundo milagre que Jesus fez, depois de voltar da Judeia para a Galileia." Jo 4,46-54

    Sob o aspecto meramente humano, Jesus não estava diante do enfermo, não o viu, nem sequer o conhecia. Apenas dialogava com seu pai e, de forma aparentemente inoportuna, chegou a questionar sua e a de todos em volta. A cada nova abordagem, no entanto, Ele verificava um suspense que se criava entre a multidão, como se, colocado à prova, constantemente precisasse demonstrar Seu poder: "Se não virdes milagres e prodígios, não credes..." Jo 4,48
    Jesus esperava mais de Seu povo. Pelo milagre que já havia realizado em Caná, assim como Sua passagem por Jerusalém e pela Samaria, tanto o pai com todos ali não mais precisavam temer enfermidades, sofrimentos ou até mesmo a morte. De fato, embora São João Evangelista não tenha dado detalhes, Sua primeira Páscoa em vida pública foi um grande acontecimento: "Enquanto Jesus celebrava em Jerusalém a festa da Páscoa, muitos creram em Seu Nome, à vista dos milagres que fazia." Jo 2,23
    Porém permaneciam na incerteza, em específico quanto à Sua manifestação enquanto o Messias.
    Também nessa situação, contudo, Seu Coração não Se permitiu demorar, dado que diante de Si tinha um pai exasperado pela vida do filho. Pudera! A fé que ele tinha em Seus poderes era realmente verdadeira, apenas desconhecia o completo significado de Sua Vinda, e ainda vacilava, como os demais, diante da sombra da morte.
    Outro ponto a ser considerado nesse episódio é que se tratava de um oficial romano, isto é, além de estrangeiro, era gente importante. Mas Jesus não discriminava pessoas, mesmo sabendo que esse milagre teria grande repercussão. Aliás, essa cidade vai ser cobrada por milagres como este e, mais tarde, sumariamente punida por uma de Suas profecias: "E tu, Cafarnaum, serás elevada ao Céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro de teus muros, subsistiria até este dia." Mt 11,23
    Nessa cura, em detalhe, o poder de Deus põe imediato fim a uma grave doença, sem nenhum contato físico com o enfermo e a despeito da distância a que se encontrava. Bastou a fé daquele pai em Jesus e seu amor pelo filho. Assim Nosso Senhor demonstra Sua imensa compaixão por nós num momento reconhecidamente difícil: a sensação de impotência ao ver alguém à beira da morte. E ainda mais aflitiva: um pai querendo salvar o filho.


3 - A CURA DE UM PARALÍTICO

    "Há em Jerusalém, junto à porta das Ovelhas, um tanque, chamado em hebraico Betesda, que tem cinco pórticos. Nestes pórticos jazia um grande número de enfermos, de cegos, de coxos e de paralíticos, que esperavam o movimento da água. Pois de tempos em tempos um anjo do Senhor descia ao tanque e a água punha-se em movimento. E o primeiro que entrasse no tanque, depois da agitação da água, ficava curado de qualquer doença que tivesse.
    Estava ali um homem enfermo havia trinta e oito anos. Vendo-o deitado e sabendo que já havia muito tempo que estava enfermo, perguntou-lhe Jesus:
    - Queres ficar curado?
    O enfermo respondeu-Lhe:
    - Senhor, não tenho ninguém que me ponha no tanque, quando a água é agitada. Enquanto vou, outro já desceu antes de mim.
    Ordenou-lhe Jesus:
    - Levanta-te, toma teu leito e anda.
    No mesmo instante, aquele homem ficou curado, tomou seu leito e foi andando. Ora, aquele dia era sábado. Mais tarde, Jesus achou-o no Templo e disse-lhe:
    - Eis que ficaste são. Já não peques, para não te acontecer coisa pior!" Jo 5,2-9.14

    Este milagre também é de restituição da saúde física, mas de um corpo atrofiado e deformado havia 38 anos. Como sempre, Jesus realiza uma cura imediata, total e irreversível, que recapacita para todas atividades corporais. Era um homem praticamente imobilizado, ou seja, mais uma grande sensação de impotência: dele e de quem o via. Estava impedido de fazer alguns dos mais simples movimentos, e por período de quase uma vida inteira.
    Num gesto que valoriza os santuários, Jesus está visitando um lugar sagrado, conhecido pelos milagres que ali aconteciam. Esse pobre homem já não tem sequer quem lhe ajude: está paralítico e só. 38 anos de sofrimento é tempo demais. Estar ali era uma prova de fé, mas Jesus vai perguntar-lhe se realmente deseja a cura, quer ouvir sua voz. E após curá-lo, informa de sua nova condição e de seu compromisso com o testemunho do que é sagrado, lembrando seus pecados passados e que eles se agravariam em caso de reincidência.
    O poder de Deus, também nesse caso, manifesta-se pela simples Palavra de Jesus. Ela fez a vez do fenômeno que acontecia naquele santuário, do anjo santo que agitava a água e da própria água milagrosa. Ossos, nervos e músculos instantaneamente recuperaram suas condições de perfeita saúde. Jesus liberta nosso corpo da paralisia para fazer-nos agir conforme a santidade. E com esse milagre, Ele também rompe com o legalismo religioso: "Por esse motivo, os judeus perseguiam Jesus, porque fazia esses milagres no dia de sábado. Mas Ele disse-lhes: 'Meu Pai continua agindo até agora, e Eu também ajo.'" Jo 5,16-17
    Já havia sido ainda mais preciso: "O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado..." Mc 2,27
    E mesmo após essa assombrosa cura, decepcionado com as paralisantes restrições inventadas em Nome de Deus, Jesus promete que o Pai tem muito mais por realizar: "... maiores obras do que esta lhes mostrará, para que fiqueis admirados." Jo 5,20


4 - A MULTIPLICAÇÃO DOS PÃES E DOS PEIXES

    "Aproximava-se a Páscoa, festa dos judeus. Jesus levantou os olhos sobre aquela grande multidão que vinha ter com Ele e disse a Filipe:
    - Onde compraremos pão para que todos estes tenham o que comer?
    Um de Seus discípulos, chamado André, irmão de Simão Pedro, disse-Lhe:
    - Está aqui um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes... Mas que é isto para tanta gente?
    Disse Jesus:
    - Fazei-os assentar.
    Ora, havia naquele lugar muita relva. Sentaram-se aqueles homens, em número de uns cinco mil.
    Jesus tomou os pães e rendeu graças. Em seguida, distribuiu-os às pessoas que estavam sentadas, e igualmente dos peixes deu-lhes o quanto queriam.
    Estando eles saciados, disse aos discípulos:
    - Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca." Jo 6,4-5.8-13

    Aqui Jesus faz com que, a partir de uns poucos pães e peixes, milhares materializem-se. É o poder de replicar, de multiplicar algo pré-existente, e Ele escolhe multiplicar alimento. Mas primeiro era necessário que os Apóstolos partilhassem dos pães e dos peixes de que dispunham, mesmo que fossem poucos.
    O real objetivo de Jesus, porém, era sinalizar para o Pão da Vida Eterna, que impreterivelmente só se faz presente pela caridade, pelo amor que partilha. No dia seguinte, Ele vai dizer a essa mesma gente: "Trabalhai não pela comida que perece, mas por aquela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará." Jo 6,27
    Mais adiante, Ele afirmaria: "Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente." Jo 6,51
    E na Santa Ceia, Ele iria instituir este Sacramento: "Em seguida, tomou o pão e depois de ter dado graças, partiu-O e deu-lhO, dizendo: 'Isto é Meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de Mim.'" Lc 22,19
    Jesus é nossa verdadeira e definitiva Páscoa. Não se trata apenas de cruzar miraculosamente o Mar Vermelho, nem veio Ele simplesmente saciar nossa fome do dia-a-dia, mas libertar-nos de todos inimigos e satisfazer-nos todas necessidades. É passar da condição de mortal para a condição de filho de Deus, para a Vida Eterna.
    Se Ele já havia transformado água em vinho, agora multiplicou pães. Em São João, a manipulação da matéria acontece de modo a proporcionar-nos Comunhão com Deus, que significa participar de Sua santidade, divindade e eternidade. Seja para aqueles que festejam a 'recriação do mundo' em um novo casal, pelo Matrimônio, seja entre os que estão famintos, à beira de desfalecer, pelo Pão do Céu.
    Mas aprendamos, como bem mostra essa passagem, que Jesus não permite que nenhum pedaço do Pão da Vida seja desperdiçado: "Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca." Jo 6,13


5 - JESUS ANDA SOBRE AS ÁGUAS

    "Chegada a tarde, Seus discípulos desceram à margem do lago. Subindo a uma barca, atravessaram o lago rumo a Cafarnaum.
    Já era escuro, e Jesus ainda não Se tinha reunido a eles.
    O mar, entretanto, agitava-se, porque soprava um rijo vento. Tendo eles remado uns vinte e cinco ou trinta estádios, viram Jesus que Se aproximava da barca, andando sobre as águas, e ficaram atemorizados.
    Mas Ele disse-lhes:
    - Sou Eu, não temais.
    Quiseram recebê-Lo na barca, mas pouco depois a barca chegou a seu destino." Jo 6,16-21

    Nesse milagre, outra uma vez Jesus demonstra Sua condição divina, muito além das propriedades da matéria como nós a conhecemos. Em nossa incipiente especulação, apenas podemos imaginar: ou manipulou o estado físico da água, tornando-a sólida onde pisava, ou alterou as condições da gravidade sobre Si mesmo, anulando o peso de Seu Corpo, ou, ainda, alterou as condições físicas de Seu Corpo, como na Transfiguração do Monte Tabor, quando O fez reluzir.
    Mas o recado é: não temos o que temer. Temos Deus. Ele está conosco. Isso não depende de nós, pois é Ele mesmo que quer estar conosco, como já expressa Seu Nome, segundo o anjo anunciou a São José: "Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor falou pelo Profeta: 'Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho, que Se chamará Emanuel (Is 7, 14), que significa: Deus conosco.'" Mt 1,22-23
    E, claro, não somos nós que O conduzimos em nossa barca, mas Ele que nos conduz ao Céu na Nova Arca de Noé, ou na Barca de São Pedro, que é a Igreja.
    Quanto a Seus poderes, Jesus havia-nos avisado: Ele é onipotente. Nós é que resistimos em aceitar Sua divindade: "Aos homens isto é impossível, mas a Deus tudo é possível." Mt 19,26


6 - A CURA DE UM CEGO DE NASCENÇA

    "Caminhando, viu Jesus um cego de nascença.
    Seus discípulos indagaram d'Ele:
    - Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?
    Jesus respondeu:
    - Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus. Enquanto for dia, cumpre-Me terminar as obras d'Aquele que Me enviou. Virá a noite, na qual já ninguém pode trabalhar.
    Dito isso, cuspiu no chão, fez um pouco de lodo com a saliva e com ele ungiu os olhos do cego.
    Depois, disse-lhe:
    - Vai, lava-te na piscina de Siloé (esta palavra significa Enviado).
    O cego foi, lavou-se e voltou vendo.
    Então os vizinhos, e aqueles que antes o tinham visto mendigar, perguntavam:
    - Não é este aquele que, sentado, mendigava?" Jo 9,1-4.6-8

    Mais um milagre de cura. E mais uma situação em que predominam as limitações humanas. Todos nós temos limites de percepção que só Deus pode expandir. Perceber as obras de Deus, portanto, também é um dom. E a fé é uma dessas grandes dádivas, mas precisa ser sinceramente desejada, como quem dela precisa para viver.
    Decerto, há na vida de todos nós uma história de redenção que Deus quer realizar. E isso não significa que alguns, por vontade de Deus, carreguem previamente alguma punição. Nossas dificuldades, como demonstrou Jesus, são oportunidades para que as obras de Deus se manifestem. Apenas devemos reconhecer que é Ele Quem detém todo poder, todo controle. E é Ele Quem decide quando e como vai ajudar-nos. Qual é mesmo nosso estado de espírito? Vivemos de presunção, de que merecemos um milagre, ou do ânimo de um coração aberto, de quem se entrega à vontade de Deus? Jesus avisou: "Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não vêem vejam, e os que vêem se tornem cegos." Jo 9,39
    Curar um cego de nascença é um sinal que remete à formação do corpo durante a gestação. É um milagre ainda maior, diferente de restituir a visão a quem já havia enxergado antes. É dar algo que alguém jamais possuiu. Jesus acena para o poder de Deus sobre as sutilezas de nossos órgãos mais ínfimos e admiráveis, em dimensões microscópicas, mesmo que assim eles não tenham sido gerados. E aqui não há como fugir à imagem do Criador e a criatura: quando Jesus manipula o lodo, lembramos do barro, vemos Deus 'refazendo' Sua Criação.
    Mas, a esse respeito, Ele disse algo ainda mais grandioso, que faz pensar na própria Criação do Universo, na luz e nas dimensões cósmicas: "Eu sou a Luz do mundo. Aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da Vida." Jo 8,12


7 - A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO

    "Quando, porém, Maria chegou onde Jesus estava e viu-O, lançou-se a Seus pés e disse-Lhe:
    - Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido!
    Ao vê-la chorar assim, como também todos judeus que a acompanhavam, Jesus ficou intensamente comovido em espírito.
    E sob o impulso de profunda emoção, perguntou:
    - Onde o pusestes?
    Responderam-Lhe:
    - Senhor, vinde ver.
    Jesus chorou.
    Tomado, novamente, de profunda emoção, Jesus foi ao sepulcro. Era uma gruta, coberta por uma pedra.
    Jesus ordenou:
    - Tirai a pedra.
    Disse-Lhe Marta, irmã do morto:
    - Senhor, já cheira mal, pois há quatro dias que ele está aí...
    Levantando Jesus os olhos ao alto, disse:
    - Pai, rendo-Te graças, porque Me ouviste.
    Depois destas palavras, exclamou em alta voz:
    - Lázaro, vem para fora!
    E o morto saiu, tendo os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto por um sudário.
    Ordenou então Jesus:
    - Desligai-o, e deixai-o livre." Jo 11,32-35.38-39.41.43-44

    Aqui temos nosso medo e nossa impotência outra vez, mas diante de seus limites máximos: a morte. E já não se trata apenas de sua iminência, anunciada por uma grave enfermidade. Temos um corpo em decomposição, e resta sofrer a dor da ausência de um ente querido!
    Mas, ao mesmo tempo, temos o amor de Deus, que se expressa em lágrimas. E vê-se aí a reafirmação do poder da Criação, o poder de inflar a vida 'pelas narinas'. É o que Jesus quer dizer-nos nessa frase, como disse a Santa Marta, que não se restringe à Ressurreição do Último Dia: "Eu sou a Ressurreição e a Vida. Aquele que crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá." Jo 11,25
    Nesse milagre, certamente o mais grandioso e mais impressionante dos 7, somos confrontados pelo poder de curar, de manipular a matéria e de restituir a vida. Todos ao um só tempo. Deus sobrepõe-Se a etapas e processos biológicos.
    Se curou o filho do oficial à distância, agora Jesus faz questão de vir ao sepulcro de um amigo mesmo que isso pusesse em risco Sua vida, pela perseguição que sofria dos religiosos, e opera a ressurreição ainda que o último suspiro tenha se dado havia um grande lapso de tempo: 4 dias. Quis mostrar que o temor à morte, que era bem real, não poderia ser nenhum empecilho à Sua Missão, e assim às Suas demonstrações de amor. Foi até Lázaro em Sua condição humana, caminhando pelas estradas da judeia na companhia dos Apóstolos, mas revelou-Se Deus ao vivenciar a saudade.
    Não esqueçamos, porém, que tempos mais tarde Lázaro tornaria a morrer. A Ressurreição e a Ascensão de Jesus, sim, são os maiores feitos de Deus perante os olhos humanos. Nunca se viu nem se ouviu nada igual: Seu novo Corpo aparecia e desaparecia; mostrava-se reconhecível ou não, era tocável ou não, dependendo do momento; atravessava paredes; comia e bebia; tinha marcas da crucificação, mas não da flagelação; e, ainda mais espetacular, por Si só subiu aos Céus.

O TESTEMUNHO

    É certo que Jesus fez muito mais milagres que esses, como o próprio São João Evangelista registrou na primeira Páscoa em Jerusalém. Aliás, ele mesmo atestou: "Fez Jesus, na presença de Seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro." Jo 20,30
    Contudo, foi para comunicar-nos todas essas estrondosas verdades, e assim nos levar à fé no Redentor, que ele as registrou, como declarou quase ao fim de seu Evangelho: "Estes sinais foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhais a Vida em Seu Nome." Jo 20,31
    Era uma das promessas de Deus, feitas através do Profeta Isaías: "Naquele tempo, o Rebento de Jessé, que Se ergue como um sinal para os povos, será procurado pelas nações e gloriosa será Sua Morada." Is 11,10
    Sinal que ainda hoje se verifica por Seus legítimos representantes, nossos Santos, portadores de Evangelho como registrou São Marcos logo após Sua Ascensão: "Os discípulos partiram e pregaram por toda parte. O Senhor cooperava com eles, e confirmava Sua Palavra com os milagres que a acompanhavam." Mc 16,20

    "A todos saciai com Vossa Glória!"