domingo, 15 de julho de 2018

São Boaventura


    Era amigo íntimo de São Tomás de Aquino nos tempos dos debates abertos da Universidade de Paris, quando provaram que professores religiosos das recém-surgidas ordens medicantes, ou seja, os franciscanos, dominicanos e mercedários, eram capazes de ensinar tão bem quanto os leigos e até melhor.
    Doente quando criança, nem mesmo seu pai, que era médico, conseguia curá-lo. Por volta dos 10 anos sua morte foi dada como certa, mas sua mãe pediu a intercessão de São Francisco de Assis, que havia sido recentemente canonizado, e a cura foi imediata, como ele mesmo registrou. Nasceu em 1217, na cidade de Bagnoregio, Itália, com o nome de Giovanni da Fidanza.
    Ao receber o diploma de professor de Artes em Paris, foi bater à porta dos franciscanos, querendo dar melhor rumo à sua vida. Era 1243. Anos mais tarde, ele iria justificar essa escolha assim: "A Igreja começou com simples pescadores, e imediatamente enriqueceu-se com muito ilustres doutores e sábios. A religião do beato Francisco não foi estabelecida pela prudência dos homens, mas por Cristo."
    Sua inteligência, porém, não poderia ser mal aproveitada. Estudando teologia na Universidade de Paris, obteve todos títulos que lá eram oferecidos. Conheceu e comentou profundamente as Escrituras e 'As Sentenças', obra de Pietro Lombardo, que era a mais bem elaborada compilação de teologia que havia à época, e só seria superada pela 'Summa Teológica' de seu amigo São Tomás de Aquino, alguns anos mais tarde.
    Escreveu nada menos que 11 volumes sobre teologia, versando sobre Santo Agostinho e a filosofia de Platão, onde coloca a nas revelações de Jesus Cristo como a coroa de todo conhecimento humano. Alcançou privilegiado lugar entre os mestres da Escolástica, que eram os estudos mais avançados, e, em síntese, com maestria incorporavam a filosofia grega à Revelação. Inquestionavelmente, São Boaventura tornou-se um dos maiores teólogos da História da Igreja.


    Após as disputas com os professores de Paris, em 1257 São Boaventura foi oficialmente reconhecido como Doutor e Professor da universidade de lá. Mas aí não pôde ficar, pois nesse mesmo ano foi eleito Ministro Geral da Ordem Franciscana.
    De fato, a Ordem dos Frades Menores vivia um momento de divisão entre os que queriam alguma flexibilização da Regra, em nome de mais espiritualidade, e os que queriam um retorno às origens da irmandade, baseando-se estritamente na vida de São Francisco. E só São Boaventura poderia achar uma resposta que agradasse aos dois lados. Com efeito, no Capítulo Geral da Ordem, ocorrido em 1260, seu texto, que dava a mais profunda interpretação do verdadeiro carisma franciscano, foi aprovado.
    Como procurou ouvir todos que haviam conhecido pessoalmente o 'poverello', e acolheu os registros históricos, escreveu sua melhor biografia. Era a 'Legenda Maior'. Fez também um belo resumo deste mesmo trabalho, a 'Legenda Minor'. Uma de suas mais conhecidas obras é 'Itinerário da alma a Deus', onde também toma a vida de São Francisco como modelo.
    O carinho que os frades tinham por São Boaventura era realmente tocante: permaneceu com supervisor entre eles por 18 anos. E por seus inestimáveis trabalhos, entre eles a pacificação dos que se opunham e fomentavam divisões, com justiça foi apelidado de 'Segundo Fundador da Ordem'.
    Aqui temos alguns extratos de seus textos:
    "A Santa Missa é a obra na qual Deus coloca, sob nossos olhos, todo amor que Ele nos tem."
    "Eis a fonte de meus conhecimentos: estudo Jesus, e Jesus crucificado!"
     "Se quereis progredir no amor a Deus, meditai todos os dias a Paixão do Senhor. Nada contribui tanto para a santidade das pessoas como a Paixão de Cristo."
    "Aquele que atentamente olha [para o Crucificado]... com Ele realiza a páscoa, ou seja, a passagem."
    "O humilde não pode ser apanhado por nenhuma paixão, nem a ira pode molestá-lo, nem mesmo o desejo de Glória."
    "A melhor perfeição de um homem religioso é fazer coisas comuns de uma perfeita maneira. Uma constante fidelidade nas pequenas coisas é uma grande e heroica virtude."
    "Se Deus só dá ao homem a Graça de poder amá-Lo, isso basta... Uma simples velhinha poderá amar a Deus mais que um professor de Teologia."
    "Os homens não temem um poderoso e hostil exército como os poderes do inferno temem o nome e a proteção de Maria."

    "Tem seguro o Paraíso todos que anunciam as Glórias de Maria."
    "Se Meu Redentor, por causa de meus pecados, me atirasse longe d'Ele, eu lançar-me-ia aos pés de Sua mãe e, prostrado, não me levantaria enquanto ela não me obtivesse o perdão. Ela não deixaria de fazer violência ao Coração de Jesus para que me perdoasse."
    "Jamais li que algum Santo não tivesse sido especial devoto da Santíssima Virgem Maria."
    "Maria procura por aqueles que devotamente e com reverência dela se aproximam, por isso, ela ama-os, nutre-os e adota-os como seus filhos."
    "Não só te ofendem, ó Senhora, quem te ultraja, mas também és ofendida por aqueles que deixam de pedir teus favores... Quem negligencia o serviço da Santíssima Virgem morrerá em seus pecados..."
    "Se agora desejas saber como acontece isto (a comunhão mística com Deus), interroga a Graça, não a Doutrina; o desejo, não o intelecto; o gemido da oração, não o estudo da letra; o Esposo, não o mestre; Deus, não o homem; as trevas, não a clareza; não a luz, mas o fogo que em Deus tudo inflama e transporta, com as fortes unções e os ardentíssimos afetos..."
    "Não basta a leitura sem a unção, não basta a especulação sem a devoção, não basta a pesquisa sem maravilhar-se, não basta a circunspecção sem o júbilo, o trabalho sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a Graça, o espelho sem a Sabedoria divinamente inspirada."
    "A castidade sem caridade é uma lâmpada sem óleo."
    "Exorto o leitor, antes de tudo, ao gemido da oração por Cristo Crucificado, cujo Sangue lava as manchas das nossas culpas."
    "Jesus Cristo é a última Palavra de Deus – n'Ele Deus disse tudo, doando-Se e proclamando-Se a Si mesmo. Mais que Ele mesmo, Deus não pode dizer, nem doar."
    "A oração é a mãe e a origem da elevação, ação que nos leva para o alto."
    "Só com nossas forças, não podemos elevar-nos à altura de Deus. O próprio Deus deve ajudar-nos, deve 'puxar-nos' para o alto. Por isso, é necessária a oração."
    "Portanto, oremos e digamos ao Nosso Senhor Deus: 'Conduza-me, Senhor, pela Tua Via, e eu caminharei na Tua Verdade. Alegre-se meu coração no temor do Teu Nome."
    "Se de tua alma queres desenraizar todos vícios, e plantar em seu lugar as virtudes, sê homem de oração."
    "Cristo tem algo em comum com todas criaturas. Com a pedra Ele compartilha a existência, com as plantas que Ele compartilha a vida, com os animais Ele compartilha a sensação, e com os anjos Ele compartilha inteligência. Assim todas as coisas são transformadas em Cristo, pois na plenitude de Sua natureza Ele abraça alguma parte de toda criatura."
    "Toda criatura é uma palavra divina, porque proclama Deus."
    "Em belas coisas São Francisco viu a própria beleza, e através de Seus vestígios impressos na Criação, seguiu Seu Amado em todos os lugares, fazendo de todas as coisas uma escada pela qual pudesse subir e abraçar Aquele que é absolutamente desejável."
    "Também morando no mundo, ele assim imitou a pureza do Anjos, propondo-se como exemplo aos perfeitos imitadores de Cristo."
    "Quem… não vê os inúmeros esplendores das criaturas, é cego; aquele que não desperta com tantas vozes, é surdo; quem não louva a Deus por todas estas maravilhas, é mudo; aquele que de tantos sinais não se eleva ao primeiro princípio, é estulto."
    "Na profundidade do nosso ser está inscrita a memória do Criador. E precisamente porque esta memória está inscrita em nosso ser, podemos reconhecer o Criador em Sua Criação, recordar-nos, ver Suas pegadas neste Cosmos por Ele criado."
    "O curioso cuida do que não deve ser cuidado, mas descuida do necessário."
    "Saber muito e saborear nada - de que serve isso?"
    "Embora tu te sintas indiferente, aproxima-te com confiança, pois quanto maior tua enfermidade, mais precisas de um médico."


    Em 1273 o Papa Gregório X consagrou-o bispo, e logo em seguida Cardeal. Sua intenção era que São Boaventura preparasse o II Concílio Ecumênico de Lyon, no qual se desejava desfazer o Grande Cisma do Oriente, fato acontecido em 1054, quando os 'ortodoxos', com sede em Constantinopla, desligaram-se da Igreja.


    São Boaventura, porém, veio a falecer em 1274, ainda durante os encontros desse grande Concílio. Colaborou decisivamente, entretanto, desde os primeiros dias, para desfazer qualquer desconfiança que os clérigos seculares pudessem levantar contra as ordens mendicantes. E conseguiu.


    Seu funeral foi realizado com honras e mereceu registro nas Atas do Concílio: "Nesta manhã morreu o irmão Boaventura, de famosa memória; homem de notável santidade, bondade, homem piedoso, afável, misericordioso, e repleto de virtudes e amor a Deus e ao homem... Deus deu a ele a graça de que todas pessoas que com ele convivesse, o respeitasse e o amasse."
    Foi sepultado aí mesmo em Lyon, onde poucas décadas mais tarde construiu-se uma belíssima igreja em estilo gótico para sua veneração.


    Em 1434 seu corpo foi exumado, e sua cabeça continuava em perfeito estado de conservação, fato que constou nos registros de sua canonização em 1482. Em 1588 foi reconhecido como Doutor da Igreja, com o diferencial título de Doutor Seráfico.
    Ainda em 1490, seu braço direito foi levado como relíquia a Bagnoregio, e atualmente encontra-se na concatedral desta cidade, ereta em devoção à Nossa Senhora das Neves, mas que passou a homenagear a ele, São Nicolau (Papai Noel) e São Donato. E assim esta relíquia se tornou a única restante, porque em 1562 seu túmulo foi profanado pelos huguenotes, franceses seguidores de Calvino, durante a 'Reforma Protestante'.




    São Boaventura, rogai por nós!