quinta-feira, 3 de maio de 2018

São Tiago Menor, Apóstolo


    São Tiago Menor era parente próximo de Jesus, pois era filho de Maria, a esposa de Cleófas e parenta da Nossa Senhora. Essa informação vem de duas narrativas. A primeira está no Evangelho de São João, na cena da crucificação: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua Mãe, a irmã de Sua Mãe, Maria, mulher de Cleófas, e Maria Madalena." Jo 19,25
    A segunda trata da mesma cena, mas narrada por São Marcos. Esta Maria, 'irmã de Sua Mãe', na verdade apenas uma parente, é claramente identificada como a mãe Tiago e de José, dois dos chamados 'irmãos' de Jesus. É também nessa passagem que temos o apelido que distinguiu São Tiago, filho de Maria de Cleófas, do outro São Tiago, irmão de São João Evangelista, mais tarde chamado de 'Maior': "Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José..." Mc 15,40
    Também São Mateus, ao narrar a cena da crucificação, apontou esta Maria como mãe de São Tiago Menor e de José: "Entre elas achavam-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Mt 24,56
    São Lucas relata esta 'tia' de Jesus, e mãe de São Tiago Menor, como presente também na visita ao túmulo no Domingo da Ressurreição: "Eram elas Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago. As outras suas amigas relataram aos Apóstolos a mesma coisa." Lc 24,10
    A passagem que indica São Tiago como suposto irmão de Jesus está no Evangelho de São Marcos. Tal registro deu-se porque o idioma aramaico não tem a palavra primo, aliás como o próprio inglês e o alemão que só em tempos recentes a adotaram do francês. Diz assim: "Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?" Mc 6,3
    Outra passagem que dá essa informação está no Evangelho de São Mateus: "Não é este o Filho do carpinteiro? Não é Maria Sua Mãe? Não são Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?" Mt 13,55
    Em São Marcos, por sinal, vê-se outro nome do pai de São Tiago Menor, Alfeu, ao invés de Cleófas, uma variação do grego para o aramaico: "Escolheu estes Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele escolheu também André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o Zelota; e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 3,16-19
    O mesmo acontece no Evangelho de São Mateus: "Eis os nomes dos Doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor. " Mt 10,2-4
    São Lucas dá idêntica informação e ainda esclarece que São Judas Tadeu, outro Apóstolo, é irmão de São Tiago Menor, pois ambos são filhos de Alfeu, e assim elucida quem seria Judas, o terceiro dos 'irmãos' de Jesus apontado nas narrativas de São Marcos e São Mateus, como visto acima: "Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelota; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,14-16
    E como bem convém às coisas de Deus, que sempre versam pela Verdade, São Judas Tadeu, para o mais perfeito desembaraço, vai providencialmente identificar-se como irmão de São Tiago Menor logo no início de sua carta, e não como irmão de Jesus. Ele diz-se Seu servo: "Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago..." Jd 1,1
    Por fim, o próprio São Lucas distingue São Tiago Menor e São Judas Tadeu dos 'irmãos' de Jesus, ao dar a lista dos Onze Apóstolos e demais seguidores que foram a Jerusalém para receber a 'força do alto', derramada no Pentecostes: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelota, e Judas, irmão de Tiago. Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente às mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos d'Ele." At 1,13-14
    Dois outros registros, ademais, desfazem estes vis ataques às Glórias de Deus, mostrando claramente que Nossa Mãe Celeste não teve outros filhos além de Jesus. O primeiro, de São Lucas, que tão bem se informou do nascimento da veneração à Maria, atestando que a Sagrada Família era composta apenas de Jesus, Maria e José: "Tendo Ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o Menino Jesus em Jerusalém, sem que Seus pais o percebessem. Pensando que Ele estivesse com Seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e buscaram-nO entre parentes e conhecidos. Mas, não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à Sua procura. Três dias depois acharam-nO no Templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os e interrogando-os. Todos que O ouviam estavam maravilhados da Sabedoria de Suas respostas. Quando eles O viram, ficaram admirados. E Sua mãe disse-Lhe: 'Meu Filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e Eu andávamos à Tua procura, cheios de aflição.'" Lc 2,42-48
    O segundo foi feito pelo próprio Apóstolo São João, outro evangelista 'tardio', cuja permeabilidade às manifestações do Espírito Santo e à devoção à Maria é bem maior que os dois primeiros. Aos pés da Santa Cruz, ele viu Jesus apontar Maria como a Nova Eva, mãe de todos Seus discípulos, e se a levou para sua casa foi exatamente porque ela não tinha outros filhos: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.' E dessa hora em diante, o discípulo levou-a para sua casa." Jo 19,25-27
    Não por acaso, foi este evangelista e íntimo Apóstolo o agraciado com a visão da 'Mulher Vestida de Sol', cujos verdadeiros filhos, que são a própria Igreja, o Corpo Místico de Cristo, vão ser perseguidos pelo demônio. Ele testemunhou: "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente. Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de sua descendência, aos que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,13-14.17


    Não é São Tiago Menor, enfim, um dos três mais íntimos Apóstolos, que com frequência são convidados por Jesus para estar à Sua volta. Este é São Tiago Maior, irmão de São João Evangelista, como se vê no dia da Transfiguração: "Seis dias depois, Jesus tomou Consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha." Mt 17,1
    Isso se repetiu quando Jesus ressuscitou a filha de Jairo, um chefe de sinagoga: "E não permitiu que ninguém O acompanhasse, senão Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago." Mc 5,37
    E ainda no Jardim das Oliveiras: "Retirou-Se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: 'Assentai-vos aqui, enquanto Eu vou orar.' E tomando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-Se e a angustiar-Se." Mt 26,36-37
    São Tiago Maior, o primeiro mártir entre os Apóstolos, foi brutalmente assassinado por Herodes ainda nos primeiros anos da Igreja: "Por aquele mesmo tempo, o rei Herodes mandou prender alguns membros da Igreja para maltratá-los. Assim foi que matou à espada Tiago, irmão de João." At 12,1-2
    São Tiago Menor, ao contrário, vai assumir uma função extremamente importante para a hierarquia e estruturação da Igreja, para que ele pudesse cruzar os séculos, como previu Jesus falando sobre as nações: "Ensinai-as a observar tudo que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos." Mt 28,20
    Pois quando São Pedro fugiu da prisão com a ajuda de seu Anjo da Guarda, e a partir de então vai levar uma vida de missionário até fixar-se em Roma, é a São Tiago Menor que ele manda avisar. Com esse gesto, o Príncipe dos Apóstolos entregava-lhe em definitivo a liderança, ou melhor, o bispado da comunidade de Jerusalém: "Ele, acenando-lhes com a mão que se calassem, contou como o Senhor o havia livrado da prisão, e disse: 'Comunicai-o a Tiago e aos irmãos'. Em seguida, saiu dali e retirou-se para outro lugar." At 12,17
    Com efeito, assumindo São Pedro muitos anos de missões apostólicas, ou seja, longos períodos fora de Jerusalém, é São Tiago Menor que fica à frente da igreja de lá. E é ele que, claramente investido desta função, vai dar, após a decisiva argumentação de São Pedro, a palavra final no Primeiro Concílio da Igreja, realizado na Cidade Santa, quando se decidiu pela não obrigatoriedade da circuncisão para os não judeus que se convertessem: "Depois de terminarem, Tiago tomou a palavra: 'Irmãos, ouvi-me', disse ele. 'Simão narrou como Deus começou a olhar para as nações pagãs para tirar delas um povo que trouxesse Seu Nome. Ora, com isto concordam as palavras dos Profetas, como está escrito...'" At 15,13-15
    Era em 'sua casa' que o 'novo conselho' se reunia, como vemos numa cena anos mais tarde: "No dia seguinte, Paulo dirigiu-se conosco à casa de Tiago, onde todos os anciãos se reuniram." At 21,18
    Não por acaso, em suas cartas São Paulo segue chamando-o pelo nome que evidenciava sua familiar proximidade a Jesus, para corroborar sua autoridade frente aos judeus e também atestar aos não judeus quão concreta foi a Encarnação do Cristo: "Dos outros Apóstolos não vi mais nenhum, a não ser Tiago, irmão do Senhor." Gl 1,19
    Ainda apontam o bispado de São Tiago Menor na igreja de Jerusalém as palavras de São Paulo na Carta aos Gálatas. Ao relatar seu encontro com as 'colunas da Igreja', ele corretamente põe São Tiago à frente de São Pedro, pois havia alguns anos que em Jerusalém, onde a igreja era essencialmente composta de judeus convertidos, ele era respeitado com autoridade máxima, o Bispo: "Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas, reconhecendo a Graça que me foi dada, deram as mãos a mim e a Barnabé em sinal de pleno acordo..." Gl 2,9
    Mais sério do que parece, essa demarcação de área era muito respeitada pelos Apóstolos, como disse São Paulo na Segunda Carta aos Coríntios: "Assim esperamos levar o Evangelho aos países que ficam além de vós, sem nos gloriarmos das obras realizadas por outros dentro do domínio reservado a eles." 2 Cor 10,16
    Ele mencionou-a outra vez na própria Carta aos Romanos, ou seja, escrevendo àqueles da sede do Bispado de São Pedro: "E empenhei-me por anunciar o Evangelho onde ainda não havia sido anunciado o Nome de Cristo, pois não queria edificar sobre fundamento lançado por outro." Rm 15,20
    Foi São Tiago Menor, pois, que escreveu a Epístola que leva seu nome. Uma belíssima exortação: simples mas firmemente irredutível como deve ser a postura de um Bispo. Cioso da fiel obediência ao Evangelho e da missão que lhe foi confiada por Jesus, ele fazia da Igreja sua vida. Recomendava aos cristãos que sempre se mantivessem unidos à Barca de Pedro, enfrentando todas dificuldades. E como não admitia que os Sacramentos fossem ministrados por pessoas alheias à Igreja, dizia expressamente: "Chame os Sacerdotes da Igreja..." Tg 5,14
    Corretíssima, essa também era a postura adotada por São Paulo. O último Apóstolo não admitia nem mesmo pequenas consultas fora da Igreja: "Quando algum de vós tem litígio contra outro, como é que se atreve a pedir justiça perante os injustos, em vez de recorrer aos santos irmãos? Não sabeis que os Santos julgarão o mundo? E se o mundo há de ser julgado por vós, seríeis indignos de julgar os processos de mínima importância? Não sabeis que julgaremos os anjos? Quanto mais as pequenas questões desta vida! No entanto, quando tendes contendas desse gênero, escolheis para juízes pessoas cuja opinião é tida em nada pela Igreja." 1 Cor 6,1-4
    Não por acaso, São Tiago Menor foi privilegiado por uma particular aparição de Jesus. Sério e discreto, porém, nosso Apóstolo não deve ter divulgado maiores detalhes deste singular episódio, que apenas brevemente foi citado por São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios: "... depois apareceu a Tiago..." 1 Cor 15,7
    Certamente tratou de sua permanência em Jerusalém até a completa destruição da cidade pelos romanos, o que veio a acontecer décadas depois, no ano 70 de nossa era, como Nosso Salvador profetizou: "Ao sair do Templo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e fizeram-nO apreciar as construções. Jesus, porém, respondeu-lhes: 'Vedes todos estes edifícios? Em verdade, declaro-vos: aqui não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído." Mt 24,1-2
    É possível que nessa ocasião Ele também o tenha informado de seu martírio, como avisou a São Pedro do seu: "'Em verdade, em verdade, digo-te: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas quando fores velho, estenderás tuas mãos e outro te cingirá e te levará para onde não queres.' Por estas palavras, Ele indicava o gênero de morte com a qual havia de glorificar a Deus." Jo 21,18-19a
    Com efeito, diferente dos demais Apóstolos que partiriam em missões pelo 'mundo' de então, ele jamais deixou Jerusalém, o que vai custar-lhe a vida. Morreu espancado e apedrejado pelos judeus, após ser atirado do alto do Templo por não renegar que Jesus era o Cristo, fato que significativamente evoca uma das três tentações de Nosso Senhor por Satanás: o inimigo mais uma vez e maliciosamente atingia o próprio Senhor, agora através de seus laços familiares.
    Seu martírio deu-se poucos anos antes da destruição de Jerusalém, quando a comunidade-mãe da Igreja vai desaparecer em definitivo, já sob o bispado de seu substituto, São Simão de Jerusalém, seu irmão e o quarto dos 'irmãos' de Jesus nos relatos de São Mateus e São Marcos, que também terminou sacrificado.
    Suas relíquias foram transportadas para a Basílica dos Santos Apóstolos, em Roma, e depositadas junto às de São Filipe Apóstolo, um testemunho perpetuado pela Sagrada Tradição da grande amizade que havia entre eles, antes, durante e depois da passagem do Salvador entre nós.
    Sem dúvida, sempre foi, assim como São Filipe, um homem de piedade, um dos poucos parentes que não se escandalizou como a revelação de Jesus como o Cristo. São João Evangelista ainda registrou numa tardia Festa dos Tabernáculos: "Com efeito, nem mesmo Seus irmãos acreditavam n'Ele." Jo 7,5
    Ele estava com Jesus desde o milagre da transformação da água em vinho, nas bodas de Caná, quando o colégio dos Apóstolos já parecia formado, à exceção de São Mateus: "Manifestou Sua Glória, e Seus discípulos creram n'Ele." Jo 2,11b
    E logo partiu de Nazaré com o Mestre em Suas Missões: "Depois disso, desceu para Cafarnaum com Sua mãe, Seus irmãos e Seus discípulos, e ali só demoraram poucos dias." Jo 2,12


    São Tiago Menor, rogai por nós!