segunda-feira, 28 de maio de 2018

As Cruzadas


    O correto entendimento sobre a razão de ser das Cruzadas aponta, inquestionavelmente, para a devoção e o zelo religioso popular. Apesar da quase exclusiva imagem de guerra que se faz destes históricos acontecimentos, dados entre 1096 e 1272, o certo é que as viagens de europeus à Terra Santa eram um frequente movimento, iniciado muitos séculos antes, e cujo motivo era tão somente peregrinação, tida quase como uma obrigação para os cristãos àquela época. Muitas das 'Cruzadas', portanto, menos que arregimentação para guerra, contavam principalmente com essa tradição popular para fazer número e enfrentar violentas invasões árabes que atacavam ordens religiosas e dominavam lugares sagrados, profanando e destruindo monumentos, símbolos religiosos e relíquias. Aliás, acreditar que a cristandade estava fazendo guerra para usurpar lugares pacificamente ocupados pelos verdadeiros donos daquelas terras é, na verdade, brutal desinformação, ou insana ingenuidade.
    Quanto à postura dos líderes da Igreja Católica, não foram apenas em assuntos relativos às Cruzadas, ou à Inquisição, que se questionou sua santidade. Durante toda Idade Média, quando eclodiam os centros urbanos e crescia a busca pelo conhecimento, também nasciam do religioso fervor popular as propostas de mudança de conduta e as fundações de novas ordens religiosas, que indiretamente propunham a 'renovação' da Igreja pela ótica do ativismo de então e revelaram-se muito intensas e combativas. Ou seja, eram os próprios fieis católicos, à época em número cada vez maior pelo expressivo crescimento populacional, que a questionavam. Na verdade, como sempre fizeram e ainda hoje fazem.
    E os papas, ao contrário do que se pretende fazer acreditar, não detinham nem o controle nem a unidade política e administrativa da Europa, se é que algum dia tal centralização existiu. A diversidade de nações e as remanescentes rusgas, de seculares conflitos entre povos de distintas culturas, faziam de algumas regiões do continente um enorme desafio para qualquer forma de governo. Isso valia também para a Igreja, que, como sempre, anunciava o Cristo e cuidava de sua própria sustentação. Os problemas de comunicação da época, como exemplo, são apenas uma dessas dificuldades.
    Insofismável contraponto, um sentimento comum dominava grande parte da Europa nesse período: as notícias de várias conquistas territoriais dos árabes no Oriente Médio, majoritariamente seguidores de Maomé, entre eles os guerreiros em retirada pelo avanço do Império Mongol. Isso trazia à lembrança os horrores do Império Muçulmano dos séculos VII e VIII, do qual na atualidade quase não se fala, gerando grande temor no continente e assim à cristandade. Como viver séculos nessa apreensão? Assim, a completa tomada da Terra Santa pelos muçulmanos, em meados do século XI, foi o apenas estopim de alguns levantes.


    A Europa vivia uma ordeira e silenciosa, mas notável pujança social, econômica e espiritual. Reis, rainhas e nobres abraçavam virtuosamente a vida piedosa e caritativa, tornando-se grandes Santos; a escravidão era totalmente abolida pela força moral do cristianismo; a pacificação dos povos favorecia o franco desenvolvimento do comércio; pequenas aldeias fortificadas expandiam-se para muito além de seus muros transformando-se em prósperas cidades; as corporações de trabalhadores elevavam a qualidade dos serviços urbanos a níveis modernos; belíssimas igrejas eram erguidas com as mais inovadoras técnicas, com os mais nobres materiais, sob a liderança de renomados mestres de ofícios e com a força da voluntária mão-de-obra de toda população; surgiam as primeiríssimas universidades pelas mãos de uma maioria de estudiosos da Igreja; o antigo Direto Romano estava sendo reestudado e aplicado no cotidiano das nações para promover a justiça. E apesar das disputas e guerras entre senhores feudais e reis, fatos que mantinham presente a atmosfera belicosa e o culto à figura de heroicos cavaleiros, o continente via-se unido pelos ideais cristãos.
    Soava então a prática pergunta: por que a Europa, tão organizada em seus meios de produção, haveria de viver sob a ameaça e o medo das invasões árabes e do islamismo, que assombrosamente crescia e quase sempre de modo beligerante? Questionava-se, com pertinência, se não seria mais prudente detê-lo antes de sua expansão até a Europa. Aliás, desde o século VIII Portugal já lutava para libertar-se da presença árabe em seu próprio território, sucesso que só alcançaria definitivamente no século XI, enquanto a Espanha vivia a plenitude de uma 'invasão branca', iniciada no século VII e só totalmente desfeita em 1492.


    Como dissemos, os próprios cruzados e seus pregadores católicos, muitos deles leigos, combatiam a postura da Igreja em seu 'conservadorismo' e 'pacifismo', ou mesmo no 'imobilismo' das ordens meramente contemplativas. Ora, são claras as evidências de que a incitação às Cruzadas vinham de fora do clero. Muitos jovens letrados e de ambos os sexos, de costumes já afeitos à vida urbana, tentavam protagonizar uma reforma doutrinária e moral no seio da Igreja aventada pelo 'humanismo', que viria a ser a raiz do calamitoso protestantismo. Mesmo que só idealisticamente, diga-se, e bem distantes dos exemplos de São Francisco de AssisSão Domingos e São Pedro Nolasco, esta ruidosa geração pressionava fortemente os religiosos por um suposto aperfeiçoamento espiritual, que na verdade não passava de mero voluntarismo.
    A Igreja, por sua vez, em sua constante missão de promover a Salvação das almas, para corrigir indecorosas condutas de alguns de seus membros e frear tal reformista sanha, instituía em definitivo a proibição de casamento para os Sacerdotes e vetava a fundação de novas ordens. E buscando o aperfeiçoamento de sua organização institucional, da releitura do Direito Romano nascia nesses tempos o Direito Canônico, que ainda hoje serve como base para ordenamentos jurídicos na maioria dos países e inspira regulamentos de muitíssimas instituições pelo mundo.
    Por outro lado, os reis guerreiros, no ardor de suas devoções ou sequiosos de poder e prestígio, não se reportavam ao Papa antes de levantar seus exércitos. Tampouco havia unidade entre os generais muçulmanos: eles eram apenas conquistadores natos, com grande ascendência sobre seu povo, e nem sempre imbuídos de difundir o Islã. Muitos queriam apenas riquezas e terras, o que conseguiam por meio de pilhagens e invasões. Por fim, o surgimento de novos burgos, agora pequenos postos de comércio pelas estradas da Europa, e que se tornariam novas e importantes cidades, era impulsionado pelo mercado em larga escala com as Índias. Esse intercâmbio passava pelo Oriente Médio e era alimentado pelas constantes peregrinações aos lugares santos, mas também fomentava a cobiça e os saques entre os árabes. Com isso, a mera sobrevivência desses novos centros e a continuidade do desenvolvimento da Europa estavam claramente em perigo, como se verá ainda em 1571, na decisiva Batalha de Lepanto, que necessitou dos prestimosos auxílios de Nossa Senhora do Rosário.


    Além de defender a Terra Santa e as peregrinações, portanto, é certo dizer que as Cruzadas foram fruto do idealismo de uma crescente população européia, principalmente de jovens religiosos de classe baixa e média, já mencionados, e eles não queriam apenas lutar, mas declaradamente permanecer no Oriente Médio, onde em Constantinopla ainda resistia o acalentado 'sonho' do Império Romano. Daí veio o 'alistamento' de todo e qualquer cristão que se dispusesse a viver na Terra Santa, de crianças a idosos.
    Uma das Cruzadas, por sinal, foi motivada pelo desespero de um imperador bizantino que temia a aproximação dos turcos a Constantinopla, e acabou pedindo ajuda militar ao Papa, contando com sua influência sobre reis, nobres e senhores feudais europeus. Ao que o Papa atendeu, fazendo exortação à toda cristandade, tanto por compaixão como por legítimo interesse em converter os ortodoxos gregos e bizantinos ao Catolicismo, como em contrapartida se comprometeram o imperador e o patriarca de Constantinopla.
    Ao longo desse período, porém, apenas três papas propuseram-se efetivamente a lançar mão de exércitos para libertar a Palestina, como nomearam a região os romanos. Até renomados santos estiveram envolvidos em algumas dessas campanhas: desde a simples exortação, como empreendeu Santa Catarina de Sena, passando pela criação de escoltas armadas para a proteção dos peregrinos, como fez São Bernardo, chegando à organização para batalhas, como procederam São Bernardo e Santo Alberto Magno, ou mesmo participar dos embates, como se lançou São Luís, rei da França.
    As Cruzadas, às quais tradicionalmente se refere, isto é, as atividades guerreiras, eram na verdade uma grande ilusão de alguns segmentos cristãos. Dados os interesses políticos de algumas nações, bem como dos nascentes burgos, muitas de suas coordenações eram motivadas por interesse econômico de negociantes europeus, que queriam rotas comerciais abertas, e pela oportunidade de reis e senhores europeus demonstrarem força e ampliarem suas influências políticas. E como a verdadeira origem dessas empreitadas, especificamente, temos os normandos, que, querendo garantir interesses comerciais, anteciparam o início das Cruzadas fazendo incursões naquelas terras quando diferentes grupos árabes ainda nem detinham linhas militares propriamente organizadas. Foi deles a ideia de que era possível reconquistar por batalhas Jerusalém e a Palestina.
    Mas as chances de realizar esse projeto, como pouco mais tarde se revelariam, eram apenas uma fantasia coletiva. As terras, muitas áreas de quase inóspitas, eram demasiadamente extensas para serem ocupadas e, mesmo que assim conseguissem manter aberto o caminho para as Índias, também muito pouco rentáveis para os padrões da Europa: sequer bastariam para a sobrevivência. A gente local e os recém-chegados maometanos eram de culturas absolutamente estranhas. Isto é, enquanto objetivo militar, era um gigantesco esforço. A simples entrada de um exército na Terra Santa, confrontando vários e estrategicamente inexpressivos inimigos, que nessas terras apenas se instalavam e logravam sobreviver, já significaria uma matança brutal e indiscriminada. E a manutenção de algumas cidades conquistadas seria extremamente dispendiosa, pois a fúria combativa dos exércitos muçulmanos era motivada pelo mais rude instinto conquistador: a própria sobrevivência! Isso os unia e fazia da defesa de seus novos domínios um capricho de honra. Por fim, a coordenação de forças entre os próprios cruzados, nem sempre tão amigos entre si, ou, em alguns casos, sequer aliados, e as diversas realidades de povos, línguas e culturas que encontravam pelo caminho, complicavam ainda mais essa meta.
    Na verdade, vários papas e religiosos logo perceberam a patente impossibilidade da reconquista dos lugares sagrados, e até tentaram impedi-la, tanto pela carnificina que ensejava como por ser apenas uma perigosa provocação ao numeroso e originalmente belicoso Islã. A Igreja, ali mesmo na Europa, em vários assuntos já tinha muitos opositores, fossem eles políticos, cismáticos ou não-cristãos. O clero já moderava históricas e 'naturais' rivalidades entre francos, ingleses, germânicos, lombardos, normandos e gregos, uma vez que todos se tornaram poderosos reinos e latentemente guerreiros. Os papas desse período, como São Silvestre, encarnando fielmente a tradição de seus antecessores, então remontando vários séculos, revelaram-se hábeis conciliadores entre reis e nobres em seus frequentes desentendimentos e disputas.


     Havia também contenciosas dissidências entre os próprios cruzados, como, para citar alguns, gregos contra romanos e francos contra normandos. Estes simplesmente não podiam participar de um exercício conjunto ou sequer encontrar-se a caminho da Terra Santa: esqueciam-se de todo e qualquer objetivo e irascivelmente voltavam-se uns contra os outros. Essas flagrantes divisões e o idealismo europeu só irritavam ainda mais os generais muçulmanos, que eram estrategistas por tradição e cultura. Desde a fundação do Islã, suas histórias remontavam séculos de longas batalhas por possessões. E por esses tempos também já era esperado que, mais cedo ou mais tarde, os otomanos tomassem definitivamente Constantinopla e pusessem fim ao Império Romano no Oriente, como de fato aconteceu em 1453. Era inevitável. Por fim, vieram as próprias avaliações militares resultantes das primeiras experiências: as Cruzadas não eram nem gloriosas, como se cantava na Europa, nem sequer minimamente eficazes para manter aberto o caminho à Terra Santa. Os Templários, honrosa ordem que surgiu no lugar do Templo de Jerusalém com o intento de proteger os peregrinos, a despeito do fervor religioso e do heroísmo, também logo desapareceria.
    Foram nove Cruzadas, ao todo. As três primeiras, e que tiveram envolvimento direto dos papas, foram movidas por puro entusiasmo, sem a menor possibilidade de sucesso. Os nobres, que vestiam armaduras e partiam, não podiam obrigar ninguém a ir à guerra, pois deixar suas terras imersas em intrigas não parecia uma boa estratégia para quem pretendia voltar nos braços da glória. Os reis germânicos eram os mais poderosos à época, e, cada um por si, tinham a declarada pretensão de restaurar o Império Romano do Ocidente. Usavam as Cruzadas como demonstração de poder, mas não percebiam a animosidade que contra si despertavam em vizinhos mais próximos, pois a restauração do Império também era a cobiça de outros reis europeus. E sem nenhum exagero, considerando questões de defesa, para todos eles a centralização do poder na Europa, mais que um desejo, era uma necessidade.
    O Papa Inocêncio IV, entretanto, de pronto rejeitou a ingerência do vigente Sacro Império Romano-Germânico nos assuntos do clero. E foi um grande feito: depois de vários momentos em que se verificou a influência externa, era definitivamente instituída a independência da Igreja frente a todo e qualquer poder político. E, de fato, esta autonomia consolidou-se e nenhum outro governante jamais voltou a pleitear qualquer autoridade sobre a Fé Católica. O papado foi fortalecido, enquanto o Sacro Império Romano-Germânico, o último do Ocidente, começava seu lento declínio. A Sicília, bem estruturada, ainda desafiou o poder papal pretendendo centralizar as forças da Europa, mas não teve o menor êxito.
    A Inglaterra, enquanto influente reino, também surgiu nessa época, quando alcançou grandes avanços políticos e econômicos graças à organização de seu governo e aos serviços de diplomacia, que prestavam entre reinos em conflitos. Essas funções hierárquicas, burocráticas e oficiais foram patentemente copiadas da Igreja, onde já eram usadas com sucesso por papas e bispos havia vários séculos. E muitos dos nobres ingleses tiveram a educação confiada a bispos, escolas religiosas ou mesmo universidades que estavam surgindo, como a de Bolonha, tida como a primeira do Ocidente, e a de Paris, onde a maior parte dos professores eram religiosos católicos.
    A administração da Bretanha, portanto, que mais tarde se revelou tão eficaz também em suas ex-colônias, deve-se aos modelos de registro, documentação e organização funcional criados pela Igreja. Tal e qual a obediência ao Papa, por exemplo, a fidelidade ao rei que aí se instituiu foi um precioso instrumento. Aliás, como já vinha sendo amplamente implementada entre os feudos franceses, que também imitavam a Igreja. Esse modelo sustentava-se graças a uma boa rede de informação, que levava tudo ao conhecimento da monarquia. Eram os 'olhos e ouvidos do rei'. Os reis germânicos, com terras tão vastas, não conseguiram a mesma coesão e eficácia.
    Contudo, para quem não conhece a História, as Cruzadas foram apenas uma flagrante incoerência de gente que se dizia religiosa, mas, por mera ambição e maldade, acabou pegando em armas e entregando-se a verdadeiros massacres de inocentes. Até parece que eles se davam contra os originários habitantes locais ou que os invasores árabes chegavam à Terra Santa de forma natural e ordeira, sem passar a fio de espada religiosos cristãos nem destruir históricos monumentos sagrados. Estes 'santos da modernidade' esquecem inclusive o direito de legítima defesa. Ou do mero direito de defesa, que em certos casos também se torna um dever moral, pois, para surpresa de muitos, a Igreja prevê sim uso de força militar entre nações quando houver dano grave e durável, quando os males de tal ação não gerarem um mal maior que o mal a ser eliminado, e quando houver reais condições de êxito. Claro, tudo isso após esgotadas todas as chances de acordos de paz.
    Quem não defenderia sua família, sua casa ou sua propriedade, onde quer que ela se localizasse, em caso de violenta agressão? Por que a Igreja não faria o mesmo durante a invasão muçulmana à Terra Santa, onde haviam muitos religiosos, igrejas e conventos, além de sede dos mais importantes lugares sagrados que deram origem à sua fé?
    Por fim, para quem não conhece os Evangelhos, e para que se tenha melhor ideia do que representam a pura realidade e a força das circunstâncias, temos algumas frases do próprio Jesus:
    - sobre os difíceis tempos do início da pregação do Evangelho: "... quem não tiver espada, venda o manto para comprar uma." Lc 22,36
    - sobre a ruptura com a cultura mundana: "Não julgueis que vim trazer a Paz à terra. Vim trazer não a Paz, mas a espada." Mt 10,34
    - sobre a perseguição aos profetas e aos justos: "Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?" Mt 23,33
    - sobre o fim dos tempos: "Quanto aos que Me odeiam, e que não Me quiseram por Rei, trazei-os e massacrai-os em Minha presença." Lc 19,27

    "Aceitai, ó Senhor, nossa oferta!"