quarta-feira, 29 de junho de 2016

São Pedro


    São Pedro é o único dos 12 Apóstolos de quem se tem uma história nas Sagradas Escrituras. Só de Jesus e de São João Batista têm-se relatos mais completos ou mais informações. São Paulo, apesar de não ser dos 12, acompanha-o de perto graças às informações contidas nos Atos dos Apóstolos, embora seu perfil seja sobejamente complementado por força de seus próprios escritos. Entre os Apóstolos que Jesus convocou ainda em vida, no entanto, a São Pedro é dado um lugar de incomparável destaque, ao passo que os demais recebem apenas circunstanciais citações.
    São Mateus, o mais judeu e conservador dos Apóstolos, de uma tradição que trouxera no sangue a indicação do sumo sacerdote, a dos levitas, ao mencionar a lista dos Apóstolos não vacila em declarar que São Pedro era o primeiro: "Eis os nomes dos doze apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4
    Nosso Santo foi o único Apóstolo a quem Jesus atribuiu um novo nome, tradição iniciada por Deus com Abrão, que recebeu o nome de Abraão, passou por Jacó, que tornou-se Israel, e inclui o próprio Saulo de Tarso, que após converter-se adotou o nome de Paulo. E é importante notar que, segundo o Evangelho de São João, que foi privilegiada testemunha ocular, isso aconteceu já em seu primeiro encontro com Jesus, dois dias após Seu Batismo por São João Batista, quando lhe disse: "Tu és Simão, filho de João; serás chamado Cefas (que quer dizer pedra)." Jo 1,42
    Além do nome de seu pai, que certamente por especial deferência foi mencionado por Jesus, sabemos que era um fiel cumpridor das Sagradas Escrituras, como vemos em sua declaração sobre a estrita alimentação dos judeus, quando de uma visão que teve: "De nenhum modo, Senhor, pois nunca entrou em minha boca coisa profana ou impura." At 11,8
    Ele era sempre o primeiro do grupo mais próximo de Jesus, que se compunha com São Tiago Maior e São João Evangelista. E como vai citar em sua carta, ele viu Sua Transfiguração, o que foi um indizível privilégio, pois aí Cristo lhes revelava antecipadamente Sua Glória. Ou seja, após declarar que Jesus era o Messias, São Pedro obteve essa prova material como confirmação; já não dependia de um milagre, de um testemunho ou das Escrituras para atestá-lo: ele mesmo O viu: "Seis dias depois, Jesus tomou Consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha. Lá Se transfigurou na presença deles: Seu rosto brilhou como o sol, Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura. E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com Ele." Mt 17,1,3
    Como parte deste seleto grupo, São Pedro viu também a ressurreição da filha de Jairo: "Ainda falava, quando chegaram alguns da casa do chefe da sinagoga, dizendo: 'Tua filha morreu. Por que perturbas ainda o Mestre?' Jesus, porém, tendo ouvido a palavra que acabava de ser pronunciada, disse ao chefe da sinagoga: 'Não temas; crê somente.' E não permitiu que ninguém O acompanhasse, senão Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago." Mc 5,35-37
    E enquanto líder natural entre os 12, é ele que vai advogar pelos Apóstolos quando Jesus perguntou se eles também não gostariam de abandoná-Lo, pois muitos escandalizaram-se ao vê-Lo oferecer Sua Carne e Seu Sangue como alimento da Vida Eterna. E ainda mais forte que a declaração descrita por São Mateus, como veremos, aqui São João retrata São Pedro chamando Jesus de o Santo de Deus! Com efeito, as Escrituras dizem que só Deus é Santo: "Então Jesus perguntou aos Doze: 'Quereis vós também retirar-vos?' Respondeu-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da Vida Eterna. E nós cremos e sabemos que Tu és o Santo de Deus!'" Jo 6,67-69
    Aliás, tão clara era sua ciência da santidade de Jesus, e desde os primeiros dias em Sua companhia, que também à frente dos Apóstolos e de todos nosso Santo vai ser o primeiro a lançar mão da Confissão perante Ele, o que viria a tornar-se Sacramento: "Vendo isso, Simão Pedro caiu aos pés de Jesus e exclamou: 'Retira-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador." Lc 5,8
    E com a mesma desenvoltura de protagonista, sempre muito cioso de cada detalhes dos ensinamentos de Jesus, ao ouvir d'Ele a profecia sobre a destruição do Templo de Jerusalém, interrogou-O quando isso aconteceria: "E estando sentado no monte das Oliveiras, defronte do Templo, perguntaram-Lhe à parte Pedro, Tiago, João e André: 'Dize-nos, quando hão de suceder essas coisas? E por que sinal se saberá que tudo isso se vai realizar?'" Mc 13,3-4
    Estava intimamente presente num dos momentos mais difíceis para Jesus, durante a agonia no Monte das Oliveiras, na última noite antes da crucificação: "Levou Consigo Pedro, Tiago e João; e começou a ter pavor e a angustiar-Se. Disse-lhes: 'A Minha alma está numa tristeza mortal; ficai aqui e vigiai.'" Mc 14,33
    E é único mencionado quando o anjo manda um recado por Santa Maria Madalena, no episódio do túmulo vazio: "Entrando no sepulcro, viram, sentado do lado direito, um jovem, vestido de roupas brancas, e assustaram-se. Ele lhes falou: 'Não tenhais medo. Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui. Eis o lugar onde O depositaram. Mas ide, dizei a Seus discípulos e a Pedro que Ele vos precede na Galileia. Lá O vereis como vos disse.'" Mc 16,5-7
    Inspirado por Deus Pai, São Pedro foi o primeiro a afirmar com plena convicção Quem era Jesus: "Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!" Mt 16,16
    Inspiração, aliás, que o próprio Jesus confirmou: "Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus." Mt 16,17
    Por ser portador de divinas revelações, São Pedro ouviu de Jesus a declaração de sua Primazia na Igreja, que o próprio Cristo constrói, garantindo a vitória contra o Maligno: "E Eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    Essa liderança e destaque desde sempre foi respeitada pelos demais Apóstolos, como atestou São Mateus. Mas, humildemente, em sua carta ele partilha com todos nós a responsabilidade de ser Igreja: "... e quais outras pedras vivas, vós também vos tornais os materiais deste edifício espiritual, um sacerdócio santo..." 1 Pd 2,5
    São Paulo, reverente a essa hierarquia, também convidava os fiéis para tomar parte nessa edificação, mas deixava evidente que a Igreja tem os Apóstolos como alicerce: "Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus." Ef 2,19-20
    É São Pedro, portanto, o fiel administrador a quem Jesus confiou Sua Igreja, o solícito encarregado de distribuir o Pão da Vida ao povo de Deus: "'Estai, pois, preparados, porque, à hora em que não pensais, virá o Filho do Homem.' Disse-lhe Pedro: 'Senhor, propões esta parábola só a nós ou também a todos?' O Senhor replicou: 'Qual é o administrador sábio e fiel que o Senhor estabelecerá sobre os Seus operários para lhes dar a seu tempo a sua medida de trigo? Feliz daquele servo que o Senhor achar procedendo assim, quando vier! Em verdade vos digo: confiar-lhe-á todos os Seus bens.'" Lc 12,40-44
    Desde os tempos de Moisés, de fato, Deus havia instituído um sumo sacerdote entre os israelitas, posto que de início coube a Aarão, bisneto de Levi, e cuja tradição foi rigorosamente mantida até a destruição de Jerusalém, no ano 70, a quem cabia fazer a oferta do sacrifício no altar: "Este será um direito perpétuo devido a Aarão e seus filhos pelos israelitas; esta é uma oferta reservada – aquela que os israelitas terão de tomar de seus sacrifícios pacíficos –, uma reserva que devem ao Senhor. Os ornamentos sagrados de Aarão servirão para seus filhos depois dele, que os vestirão quando se lhes der a unção e forem empossados. Aquele dentre os seus filhos que for sumo sacerdote em seu lugar, e que penetrar na Tenda de Reunião para o serviço do santuário, os levará durante sete dias." Ex 29,28-30
    E como prescrito também por Deus, a primazia do sumo sacerdote é perfeitamente clara: "O sumo sacerdote, superior a seus irmãos, sobre cuja cabeça se derramou o óleo de unção, e que foi estabelecido para revestir as vestes sagradas, não descobrirá a sua cabeça, e não rasgará as suas vestes." Lv 21,10
    Ainda nos primeiros séculos do cristianismo, a favor da Primazia de São Pedro na Igreja testemunharam inspirações da grandeza de São Clemente, Santo Irineu e São Nicolau Magno, além de, pouco mais tarde, excepcionais teólogos como Santo Ambrósio, Santo Atanásio, São João Crisóstomo e Santo Agostinho.
    E a clara prova de sua inquestionável importância para a Igreja é que Jesus, prevendo as tentações do inimigo contra os Apóstolos, e assim contra Seu Evangelho e a Igreja, optou por reforçar a de São Pedro. Ora, como Apóstolo mais próximo de Cristo ele não podia falhar: a credibilidade da Igreja e do cristianismo estavam em suas mãos. Por isso Jesus rezou ao Pai expressamente por ele, pedindo-lhe que ajudasse os demais Apóstolos, discípulos e fiéis: 'Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas Eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos.'" Lc 22,32
    Em Sua Divina Sabedoria, Jesus o escolhia com perfeição, pois São Pedro era o Apóstolo que mais O amava. É o que vemos quando Jesus o inqueriu, mais uma vez e pertinentemente invocando a pessoa de seu pai, como a um sinal de juramento: "... 'Simão, filho de João, amas-Me mais do que estes?' Ele Lhe respondeu: "Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo.'" Jo 21,15


    Assim ele recebeu a missão de apascentar todo Seu rebanho, de fiéis a sacerdotes: "Apascenta os Meus cordeiros... Apascenta Minhas ovelhas." Jo 21,15.17
    Para tanto, o poder dado por Jesus a São Pedro aqui na terra, para decidir a respeito de assuntos da Doutrina e da Comunhão, era total: "... tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,19b
    Não por acaso, ele foi o único Apóstolo a receber de Jesus as Chaves dos Céus, ou seja, as palavras-chaves nas Escrituras que apontam a verdadeira vontade de Deus: "Eu te darei as Chaves do Reino dos Céus..." Mt 16,19a
    Chaves, aliás, que estiveram nas mãos dos fariseus, ainda que não integralmente, pois lhes faltava a manifestação do Cristo. Mas eles usaram-nas tão somente para manter o povo refém de suas consultas, não franqueando a entrada nos Céus nem deixando os demais entrarem. Jesus acusou-os: "Ai de vós, doutores da Lei, que tomastes a chave da ciência, e vós mesmos não entrastes e impedistes aos que vinham para entrar." Lc 11,52
    Abrindo caminho para a sucessão apostólica, ademais, e portanto para a sua própria como Papa, foi ele que propôs e liderou a substituição de Judas Iscariotes para recompor o Colégio dos Doze. E para isso ele inspiradamente evoca as Escrituras: "Num daqueles dias, levantou-se Pedro no meio de seus irmãos, na assembléia reunida que constava de umas cento e vinte pessoas, e disse: 'Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na Escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. Pois está escrito no livro dos Salmos: 'Fique deserta a sua habitação, e não haja quem nela habite'; e ainda mais: 'Que outro receba o seu cargo.' (Sl 68,26; 108,8) Convém que destes homens que têm estado em nossa companhia todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do Batismo de João até o dia em que do nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha de Sua Ressurreição.'" At 1,15-16.20-22
    Desde então vamos ver São Pedro sempre tomando a palavra, à frente do Colégio dos Apóstolos. É ele quem preside a reunião de Pentecostes, quando Deus Espírito Santo instituiu a Igreja: "Pedro então, pondo-se de pé em companhia dos Onze, com voz forte lhes disse: 'Homens da Judeia e vós todos que habitais em Jerusalém: seja-vos isto conhecido e prestai atenção às minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, visto não ser ainda a hora terceira do dia. Mas cumpre-se o que foi dito pelo profeta Joel: Acontecerá nos últimos dias - é Deus Quem fala -, que derramarei do Meu Espírito sobre todo ser vivo: profetizarão os vossos filhos e as vossas filhas. Os vossos jovens terão visões, e os vossos anciãos sonharão.'" At 2,14-17
    É ele quem fala ao paralítico no Templo de Jerusalém, quando o curou: "Pedro, porém, disse: 'Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em Nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda!' E tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente os pés e os tornozelos se lhe firmaram. De um salto pôs-se de pé e andava." At 3,6-7
    É ele quem responde com autoridade aos principais dos judeus em todas ocasiões. Ao justificar o milagre do paralítico, por exemplo: "Então Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu-lhes: 'Chefes do povo e anciãos, ouvi-me: se hoje somos interrogados a respeito do benefício feito a um enfermo, e em que Nome foi ele curado, ficai sabendo todos vós e todo o povo de Israel: foi em Nome de Jesus Cristo Nazareno, que vós crucificastes, mas que Deus ressuscitou dos mortos. Por Ele é que esse homem se acha são, em pé, diante de vós.'" At 4,8-10
    O mesmo acontece quando questionaram as ordens dos religiosos do Templo: "Responderam-lhes Pedro e João: 'Julgai-o vós mesmos se é justo diante de Deus obedecermos a vós mais do que a Deus. Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido.'" At 4,19-20
    E após serem capturados no Templo enquanto anunciavam o Cristo, de novo ele contesta os superiores dos judeus: "Pedro e os Apóstolos replicaram: 'Importa obedecer antes a Deus do que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-O num madeiro. Deus elevou-O pela mão direita como Príncipe e Salvador, a fim de dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem.'" At 5,29-32
    É ele quem defende os bens da Igreja quando os cristãos possuíam tudo em comum. E nessa ocasião ele revela-se em perfeita unidade com o Divino Espírito Santo: "Pedro, porém, disse: 'Ananias, por que tomou conta Satanás do teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e enganasses acerca do valor do campo? Acaso não o podias conservar sem vendê-lo? E depois de vendido, não podias livremente dispor dessa quantia? Por que imaginaste isso em teu coração? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus.'" At 5,3-4


    Como se poderia supor, São Pedro era ungido por Deus também com poder. Bastava sua sombra para curar enfermos: "Cada vez mais aumentava a multidão dos homens e mulheres que acreditavam no Senhor. De maneira que traziam os doentes para as ruas e punham-nos em leitos e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos a sua sombra cobrisse alguns deles. Também das cidades vizinhas de Jerusalém afluía muita gente, trazendo os enfermos e os atormentados por espíritos imundos, e todos eles eram curados." At 5,14-16
    Ele tinha plena consciência da função missionária da Igreja, deixando Jerusalém aos cuidados de São Tiago Menor e partindo para ungir com o Espírito Santo os primeiros cristãos na Samaria: "Os Apóstolos que se achavam em Jerusalém, tendo ouvido que a Samaria recebera a Palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João. Estes, assim que chegaram, fizeram oração pelos novos fiéis, a fim de receberem o Espírito Santo, visto que não havia descido ainda sobre nenhum deles, mas tinham sido somente batizados em Nome do Senhor Jesus. Então os dois Apóstolos lhes impuseram as mãos e receberam o Espírito Santo." At 8,14-17
    E foi aonde pôde para instaurar a Igreja: "A Igreja gozava então de Paz por toda a Judeia, Galileia e Samaria. Estabelecia-se ela caminhando no temor do Senhor, e a assistência do Espírito Santo a fazia crescer em número. Pedro, que caminhava por toda parte, de cidade em cidade, desceu também aos fiéis que habitavam em Lida." At 9,31-32
    Curou também Eneias, de Lida, que era paralítico: "Ali achou um homem chamado Eneias, que havia oito anos jazia paralítico num leito. Disse-lhe Pedro: 'Eneias, Jesus Cristo te cura: levanta-te e faze tua cama.' E levantou-se imediatamente. Viram-no todos os que habitavam em Lida e em Sarona, e converteram-se ao Senhor." At 9,33-35
    E por grande Graça, operou uma ressurreição. Foi Tabita, também chamada de Dorcas, uma caridosa cristã: "Ora, como Lida fica perto de Jope, os discípulos, ouvindo dizer que Pedro aí se encontrava, enviaram-lhe dois homens, rogando-lhe: 'Não te demores em vir ter conosco.' Pedro levantou-se imediatamente e foi com eles. Logo que chegou, conduziram-no ao quarto de cima. Cercavam-no todas as viúvas, chorando e mostrando-lhe as túnicas e os vestidos que Dorcas lhes fazia quando viva. Pedro então, tendo feito todos sair, pôs-se de joelhos e orou. Voltando-se para o corpo, disse: 'Tabita, levanta-te!' Ela abriu os olhos e, vendo Pedro, sentou-se. Ele a fez levantar-se, estendendo-lhe a mão. Chamando os irmãos e as viúvas, entregou-lha viva. Este fato espalhou-se por toda Jope e muitos creram no Senhor." At 9,38-42
    É muito provável que ele tenha estado também em Antioquia, que junto a Roma e Alexandria eram as maiores cidades do Império Romano, e ainda na primeira dispersão após o assassinato de Santo Estevão, embora aí deva ter pregado somente aos judeus: "Entretanto, aqueles que foram dispersados pela perseguição que houve no tempo de Estêvão chegaram até a Fenícia, Chipre e Antioquia, pregando a Palavra só aos judeus." At 11,19
    Ele certamente esteve em Corinto e fez muitos fiéis, bem antes de São Paulo, que registrou a preferência de alguns por seu carisma: "Pois acerca de vós, irmãos meus, fui informado pelos que são da casa de Cloé, que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de que entre vós se usa esta linguagem: 'Eu sou discípulo de Paulo; eu, de Apolo; eu, de Cefas; eu, de Cristo.'" 1 Cor 1,11-12
    Não é justa, portanto, a rudeza que atribui-se à sua pessoa, como se assim devessem ser todos os pescadores apenas por força do ofício. A inspiração de São Pedro, como atestou o próprio Jesus, era absolutamente invulgar. E sua santidade, já como líder da Igreja, era amplamente reconhecida. Suas reflexões e mística, pois, por tudo que viu e ouviu do Cristo, devem mesmo ter alçado dos mais altos voos, coisa de sábio e grande santo. Em carta a ele atribuída, temos registro do que pode ter sido o caminho ascético por ele adotado, cujos graus de espiritualidade de cada um dos dons são mesmo impreteríveis: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade. Se estas virtudes se acharem em vós abundantemente, elas não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque quem não tiver estas coisas é míope, cego: esqueceu-se da purificação dos seus antigos pecados." 2 Pd 1,5-9
    Foi São Pedro o primeiro a levar o Espírito Santo aos não judeus, fato que o faz também o fundador da Igreja 'Católica', que em grego significa 'Universal': "Estando Pedro ainda a falar, o Espírito Santo desceu sobre todos os que ouviam a Palavra. Os fiéis da circuncisão, que tinham vindo com Pedro, profundamente se admiraram, vendo que o dom do Espírito Santo era derramado também sobre os não judeus." At 10,44-45
    São Paulo cita-o respeitosamente pelo nome de ofício, como ele era chamado na Igreja, conforme o nome que lhe atribuiu o próprio Jesus: "Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas..." Gl 2,9
    Com efeito, após sua conversão, logo que pôde São Paulo fez questão de ir conhecer e estar com São Pedro. E para tanto expôs-se a risco de morte indo a Jerusalém, pois era procurado pelos judeus: "Três anos depois subi a Jerusalém para conhecer Cefas, e fiquei com ele quinze dias." Gl 1,18
    E buscou seu apoio em Jerusalém para dirimir a primeira grande controvérsia doutrinária da Igreja, ocorrida em Antioquia: "Alguns homens, descendo da Judeia, puseram-se a ensinar aos irmãos o seguinte: 'Se não vos circuncidais, segundo o rito de Moisés, não podeis ser salvos.' Originou-se então grande discussão de Paulo e Barnabé com eles, e resolveu-se que estes dois, com alguns outros irmãos, fossem tratar desta questão com os Apóstolos e os anciãos em Jerusalém." At 15,1-2
    São Pedro, que já havia batizado não judeus, de fato, não o desapontou, e com seu voto decidiu o Primeiro Concílio da Igreja, realizado em Jerusalém: "Ao fim de uma grande discussão, Pedro levantou-se e lhes disse: 'Irmãos, vós sabeis que já há muito tempo Deus me escolheu dentre vós, para que da minha boca os pagãos ouvissem a Palavra do Evangelho e cressem. Ora, Deus, que conhece os corações, testemunhou a seu respeito, dando-lhes o Espírito Santo, da mesma forma que a nós. Nem fez distinção alguma entre nós e eles, purificando pela fé os seus corações. Por que, pois, provocais agora a Deus, impondo aos discípulos um jugo que nem nossos pais nem nós pudemos suportar? Nós cremos que pela Graça do Senhor Jesus seremos salvos, exatamente como eles.' Toda a assembléia o ouviu silenciosamente." At 15,7-12
    São Pedro, enfim, foi a Roma e lá fundou o bispado mais importante, que após a destruição de Jerusalém tornou-se a Sede da Igreja, como citou em sua carta: "A igreja escolhida de Babilônia saúda-vos, assim como também Marcos, meu filho." 1 Pd 5,13
    Como seu irmão, ele era da Betsaida, povoado no norte de Israel cujo nome significa 'casa da pesca': "Filipe era natural de Betsaida, cidade de André e Pedro." Jo 1,44
    Mas depois de contrair Matrimônio foi morar em Cafarnaum, levando consigo seu irmão. Mas não temos informação de sua esposa ou de possíveis filhos após começarem a seguir Jesus: "Dirigiram-se para Cafarnaum. Assim que saíram da sinagoga, dirigiram-se com Tiago e João à casa de Simão e André. A sogra de Simão estava de cama, com febre; e sem tardar, falaram-Lhe a respeito dela. Aproximando-Se Jesus, tomou-a pela mão e levantou-a; imediatamente a febre a deixou e ela pôs-se a servi-los." Mc 1,21a.29-31
    São Paulo registrou uma mulher que o acompanhava em suas missões, embora não se saiba ao certo se se tratava de sua esposa, de sua filha ou simplesmente de uma mera ajudante, como tantas que seguiram Jesus, pois o Apóstolo de Tarso argumentava tão somente sobre custos: "Acaso não temos nós direito de deixar que nos acompanhe uma mulher cristã, a exemplo dos outros Apóstolos e dos irmãos do Senhor e de Cefas?" 1 Cor 9,5
    Certamente deve ter sido apenas uma ajudante, pois logo após Jesus desafiar o jovem rico a deixar tudo para segui-Lo, nosso Santo, mais uma vez falando em nome dos Apóstolos, vai alegar: "Pedro começou a dizer-Lhe: 'Eis que deixamos tudo e Te seguimos.'" Mc 10,28
    Segundo São Lucas, esta demonstração de fidelidade se deu logo após a pesca miraculosa: "E atracando as barcas à terra, deixaram tudo e O seguiram." Lc 5,11
    E é impossível que o Príncipe dos Apóstolos não tenha observado uma das mais importantes recomendações de Jesus. De fato, ao desaprovar a carta de divórcio tolerada por Moisés e reafirmar a indissolubilidade do Matrimônio, Nosso Salvador vai exaltar o celibato entre os que se dedicam às coisas de Deus: "Seus discípulos disseram-Lhe: 'Se tal é a condição do homem a respeito da mulher, é melhor não se casar!' Respondeu Ele: 'Nem todos são capazes de compreender o sentido desta Palavra, mas somente aqueles a quem foi dado. Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda.'" Mt 19,10-12
    Por fim, muito se fala de que ele tenha negado Jesus, afetadamente até usam dizer que ele 'O traiu', mas não se observa as circunstâncias em que tudo se deu nem a motivação com que agia. De fato, se O negou com palavras, com atitudes expressava exatamente o contrário: todo seu incondicional amor pelo Mestre. Que dizer de sua coragem para entrar no pátio da casa sumo sacerdote? E ele havia recém-decepado a orelha de um de seus guardas! Em sua estratégia, portanto, estaria apenas usando de dissimulação, como no caso em que lhe censurou São Paulo em Antioquia. E maior é a desinformação dos que o acusam de covardia, pois, com a mesma prontidão com que prometia seguir Jesus até a morte, ele reagiu no Horto das Oliveiras, e só se deteve porque Jesus assim ordenou: "Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou dela e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. (O servo chamava-se Malco.) Mas Jesus disse a Pedro: 'Enfia a tua espada na bainha! Não hei de beber Eu o cálice que o Pai Me deu?'" Jo 18,10-11
    Aliás, instantes antes, o próprio Jesus já havia pedido aos guardas que O prendiam que dispensassem os Apóstolos: "'Se é, pois, a Mim que buscais, deixai ir estes.' Assim se cumpriu a Palavra que disse: 'Dos que Me deste não perdi nenhum' (Jo 17,12)." Jo 18,8b-9
    Mais: fora São João Evangelista, que sabidamente não corria nenhum perigo, talvez por ser filho de um sacerdote, São Pedro foi o único Apóstolo a acompanhar de perto o pré-julgamento de Jesus feito pelos membros do Sinédrio, quando o galo cantou três vezes: "Simão Pedro seguia Jesus, e mais outro discípulo. Este discípulo era conhecido do sumo sacerdote e entrou com Jesus no pátio da casa do sumo sacerdote, porém Pedro ficou de fora, à porta. Mas o outro discípulo (que era conhecido do sumo sacerdote) saiu e falou à porteira, e esta deixou Pedro entrar." Jo 18,15-16
    Segundo São Mateus, ele usava desta artimanha para ver o que aconteceria ao Mestre: "Entrou e sentou-se junto aos criados para ver como terminaria aquilo." Mt 26,58b
    O Evangelho de São Marcos, em conclusão, pode ser considerado o Evangelho de São Pedro, como afirmou Santo Irineu, pois é composto em maior parte segundo seus relatos. Sua extrema simplicidade e objetividade são tocantes retratos da pureza da alma do pescador da Galileia. E se São Marcos não lhe atribui nenhum grande destaque, foi justamente porque São Pedro nunca o suscitou, nem o permitiria.
    Assim como Jesus, São Pedro também morreu de forma brutal. A Sagrada Tradição conta que, ao saber que ia ser crucificado, em sua sincera humildade não se permitiu morrer como Jesus. Não se achava digno. Pediu que o crucificassem de cabeça para baixo. Tão grande era a perseguição naqueles tempos, e tão desnorteada ficou a comunidade cristã pelo amor que lhe tinha, que nenhum registro escrito foi feito imediatamente após seu martírio.
    Mas não é necessário recorrer a Sagrada Tradição para ter certeza desses fatos. Basta lembrar que sua crucificação foi predita pelo próprio Jesus, após Sua Ressurreição: "'Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais moço, cingias-te e andavas aonde querias. Mas, quando fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres.' Por estas palavras, Ele indicava o gênero de morte com que havia de glorificar a Deus. E depois de assim ter falado, acrescentou: 'Segue-Me!'" Jo 21,18-19
    E São Pedro sabia muito bem do que Jesus estava falando. Eles já haviam conversado sobre isso na noite da Santa Ceia: "Perguntou-Lhe Simão Pedro: 'Senhor, para onde vais?' Jesus respondeu-lhe: 'Para onde vou, não podes seguir-Me agora, mas seguir-Me-ás mais tarde.' Jo 13,36


    Na rádio-mensagem de Natal de 1950, após minuciosos exames científicos, o venerável Papa Pio XII anunciou a confirmação de que o túmulo de São Pedro, assim como alguns de seus ossos, estão realmente sob o Altar da Basílica de São Pedro, diante de sua Cátedra. De fato, entre outros antiquíssimos escritos na lápide consta: "Pedro está aqui."


    São Pedro, rogai por nós!