sexta-feira, 30 de março de 2018

A Sexta-Feira Santa

    São Mateus descreve assim as últimas horas de Jesus:

'PERANTE PILATOS'


    "Chegando a manhã, todos os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se no Conselho para entregar Jesus à morte. Ligaram-nO e levaram-nO ao governador Pilatos. Judas, o traidor, vendo-O então condenado, tomado de remorsos, foi devolver aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos as trinta moedas de prata, dizendo-lhes:
    - Pequei, entregando o Sangue de um Justo.
    Responderam-lhe:
    - Que nos importa? Isto é contigo!
    Ele então jogou no Templo as moedas de prata, saiu e foi enforcar-se. Os príncipes dos sacerdotes tomaram o dinheiro e disseram:
    - Não é permitido lançá-lo no tesouro sagrado, porque se trata de preço de Sangue.
    Depois de haverem deliberado, compraram com aquela soma o campo do Oleiro, para que ali se fizesse um cemitério de estrangeiros. Esta é a razão porque aquele terreno é chamado, ainda hoje, Campo de Sangue. Assim se cumpriu a profecia do Profeta Jeremias: 'Eles receberam trinta moedas de prata, preço d'Aquele Cujo valor foi estimado pelos filhos de Israel; e deram-no pelo campo do Oleiro, como o Senhor me havia prescrito.'
    Jesus compareceu diante do governador, que O interrogou:
    - És o Rei dos judeus?
    - Sim, respondeu-lhe Jesus.
    Ele, porém, nada respondia às acusações dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos. Perguntou-Lhe Pilatos:
    - Não ouves todos os testemunhos que levantam contra Ti?
    Mas, para grande admiração do governador, Ele não quis responder a nenhuma acusação. Era costume que o governador soltasse um preso a pedido do povo em cada festa de Páscoa. Ora, havia naquela ocasião um prisioneiro famoso, chamado Barrabás. Pilatos dirigiu-se ao povo reunido:
    - Qual quereis que eu vos solte: Barrabás ou Jesus, que Se chama Cristo?
    Ele sabia que tinham entregue Jesus por inveja. Enquanto estava sentado no tribunal, sua mulher mandou dizer-lhe:
    - Nada faças a esse Justo! Hoje fui atormentada por um sonho que Lhe diz respeito.
    Mas os príncipes dos sacerdotes e os anciãos persuadiram o povo que pedisse a libertação de Barrabás, e que fizesse morrer Jesus. O governador então tomou a palavra:
    - Qual dos dois quereis que eu vos solte?
    Responderam:
    - Barrabás!
    Pilatos perguntou:
    - Que farei então de Jesus, que é chamado o Cristo?
    Todos responderam:
    - Seja crucificado!
    O governador tornou a perguntar:
    - Mas que mal fez Ele?
    E gritavam ainda mais forte:
    - Seja crucificado!
    Pilatos viu que nada adiantava, mas que, ao contrário, o tumulto crescia. Fez com que lhe trouxessem água, lavou as mãos diante do povo e disse:
    - Sou inocente do Sangue deste Homem. Isto é convosco!
    E todo o povo respondeu:
    - Caia sobre nós Seu Sangue e sobre nossos filhos!
    Assim, ele libertou Barrabás, mandou açoitar Jesus e entregou-O para ser crucificado.

'A FLAGELAÇÃO'


    Os soldados do governador conduziram Jesus para o pretório e rodearam-nO com todo o pelotão. Arrancaram-Lhe as vestes e colocaram-Lhe um manto escarlate. Depois, trançaram uma coroa de espinhos, meteram-Lha na cabeça e puseram-Lhe na mão uma vara. Dobrando os joelhos diante d'Ele, diziam com escárnio:
    - Salve, Rei dos judeus!
    Cuspiam-Lhe no rosto e, tomando da vara, davam-Lhe golpes na cabeça. Depois de escarnecerem d'Ele, tiraram-Lhe o manto e entregaram-Lhe as vestes. Em seguida, levaram-nO para crucificá-Lo.

'A CRUCIFICAÇÃO'


    Saindo, encontraram um homem de Cirene, chamado Simão, a quem obrigaram a levar a Cruz de Jesus. Chegaram ao lugar chamado Gólgota, isto é, lugar do crânio. Deram-Lhe de beber vinho misturado com fel. Ele provou, mas recusou-Se a beber.
    Depois de haverem-nO crucificado, dividiram Suas vestes entre si, tirando a sorte. Cumpriu-se assim a profecia do Profeta: 'Repartiram entre si Minhas vestes e sobre Meu manto lançaram a sorte' (Sl 21,19).
    Sentaram-se e montaram guarda. Por cima de Sua cabeça penduraram um escrito, trazendo o motivo de Sua crucificação: 'Este é Jesus, o Rei dos judeus'. Ao mesmo tempo, foram crucificados com Ele dois ladrões, um à Sua direita e outro à Sua esquerda.
    Os que passavam injuriavam-nO, sacudiam a cabeça e diziam:
    - Tu, que destróis o Templo e o reconstróis em três dias, salva a Ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da Cruz!
    Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam d'Ele:
    - Ele salvou a outros e não pode salvar a Si mesmo! Se é Rei de Israel, que desça agora da Cruz e nós creremos n'Ele!
    - Confiou em Deus, Deus livre-O agora, se O ama, porque Ele disse: 'Eu sou o Filho de Deus!'
    E os ladrões, com Ele crucificados, também O ultrajavam. Desde o meio-dia até às três da tarde, cobriu-se toda a terra de trevas.

'A MORTE'


    Próximo das três da tarde, Jesus exclamou em forte voz:
    - Eli, Eli, lammá sabactáni? - que quer dizer: Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste?
    A estas palavras, alguns dos que lá estavam diziam:
    - Ele chama por Elias.
    Imediatamente um deles tomou uma esponja, embebeu-a em vinagre e apresentou-Lha na ponta de uma vara, para que bebesse. Os outros diziam:
    - Deixa! Vejamos se Elias virá socorrê-Lo.
    Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma.
    E eis que o véu do Templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas. Os sepulcros abriram-se e os corpos de muitos justos ressuscitaram. Saindo de suas sepulturas, entraram na Cidade Santa depois da Ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas.
    O centurião e seus homens, que montavam guarda a Jesus, diante do estremecimento da terra e de tudo que se passava, disseram entre si, possuídos de grande temor:
    - Verdadeiramente, este Homem era Filho de Deus!
    Havia ali também algumas mulheres que de longe olhavam; tinham seguido Jesus desde a Galileia para servi-Lo. Entre elas achavam-se Maria Madalena e Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu.

'O SEPULTAMENTO'


    Ao entardecer, um rico homem de Arimateia, chamado José, que era também discípulo de Jesus, foi procurar Pilatos e pediu-lhe o Corpo de Jesus. Pilatos cedeu-O. José tomou o Corpo, envolveu-O num lençol branco e depositou-O num novo sepulcro, que tinha mandado talhar para si na rocha. Depois rolou uma grande pedra à entrada do sepulcro, e foi-se embora.
    Maria Madalena e a outra Maria ficaram lá, sentadas defronte do túmulo."
                                                  Mt 27,1-61

    Diferente de São Mateus (Mt 27,44), São Lucas apontou que um dos ladrões não O insultava. Ao contrário, defendeu-O dos ultrajes e, realmente arrependido, fez-Lhe um sincero e tocante pedido por sua alma. E ouviu uma extasiante promessa: "Um dos malfeitores, ali crucificados, blasfemava contra Ele: 'Se és o Cristo, salva a Ti mesmo e a nós!' Mas o outro repreendeu-o: 'Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo: recebemos o que mereceram nossos crimes, mas Este não fez mal algum.' E acrescentou: 'Jesus, lembra-Te de mim quando tiveres entrado no Teu Reino!' Jesus respondeu-lhe: 'Em verdade, digo-te: hoje estarás Comigo no Paraíso.'" Lc 23,39-43
    Sobre este dia, São João Evangelista registrou importantes informações, como o nome da prima de Nossa Senhora, mãe dos chamados 'irmãos' de Jesus, e quando Ele fez de Maria Nossa Mãe, representados que fomos por seu dilato seguidor, e ela foi morar com um discípulo simplesmente porque não tinha outros filhos: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu Sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à Sua mãe: 'Mulher, eis aí teu filho.' Depois disse ao discípulo: 'Eis aí tua mãe.' E dessa hora em diante o discípulo levou-a para sua casa." Jo 19,25-27
    Ao narrar esta mesma cena, também São Marcos, como fizera São Mateus (Mt 27,56), nomina os 'irmãos' de Jesus como filhos desta senhora: "Achavam-se ali também umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José, e Salomé, que O tinham seguido e haviam-nO assistido quando Ele estava na Galileia. E muitas outras que juntamente a Ele haviam subido a Jerusalém." Mc 15,40-41
    São Lucas ainda acrescenta a generalizada comoção entre todos presentes, que se viu na dispersão ao final: "E toda a multidão dos que assistiam a este espetáculo e viam o que se passava, voltou batendo no peito." Lc 23,48
    E fala do tradicional funeral judeu que as seguidoras de Jesus pretendiam dar a Seu Corpo após o sábado, pois, como já terminava o dia, foi sepultado às pressas: "Elas viram o túmulo e o modo como o Corpo de Jesus ali fora depositado. Elas voltaram e prepararam aromas e bálsamos. No dia de sábado, observaram o preceito do repouso." Lc 23,55a-56


    O amado discípulo anotou uma ligeira querela sobre o Titulus Crucis: "Pilatos redigiu também uma inscrição e fixou-a por cima da Cruz. Nela estava escrito: 'Jesus de Nazaré, Rei dos judeus.' Muitos dos judeus leram essa inscrição, porque Jesus foi crucificado perto da cidade e a inscrição era redigida em hebraico, em latim e em grego. Os sumos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: 'Não escrevas: Rei dos judeus, mas sim: Este homem disse ser o rei dos judeus.' Respondeu Pilatos: 'O que escrevi, escrevi.'" Jo 19,19-22
    E narrou mais alguns detalhes da crucificação: é a mais importante parte da história de São Longuinho, por este evangelista tratado como um soldado, mas seria o centurião romano encarregado da crucificação, segundo São Marcos (Mc 15,39), São Lucas (Lc 23,47) e São Mateus (Mt 27,54), como vimos, que reconheceu Jesus como o Filho de Deus: "Os judeus temeram que os corpos ficassem nas cruzes durante o sábado, porque já era a Preparação e esse sábado era particularmente solene. Rogaram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. Vieram os soldados e quebraram as pernas do primeiro e do outro, que com Ele foram crucificados. Chegando, porém, a Jesus, como O vissem já morto, não Lhe quebraram as pernas, mas um dos soldados abriu-Lhe o lado com uma lança e, imediatamente, saiu Sangue e Água." Jo 19,31-34
    Sua estátua, como testemunha da crucificação, é uma das quatro, junto às de Santa Helena, Santa Verônica e Santo André, que ficam de frente para o Altar Papal na Basílica de São Pedro.


    Segundo a Sagrada Tradição, ele tinha uma grave enfermidade num dos olhos, que foi imediatamente curada por respingos do Sangue e da Água que saíram do lado de Jesus. Convertido, ele abandonou o exército romano e tornou-se evangelista na Cesareia Marítima, região da então Samaria, e na Capadócia, que fica na atual Turquia. Aí, por seu constante e destemido testemunho, ele foi torturado, teve os dentes arrancados e a língua cortada, e assim morto, portanto reconhecido como mártir.
    A lança usada por São Longuinho, séculos mais tarde revestida com uma lâmina de ouro, é venerada em Viena, na Áustria. É mais uma relíquia que prova que Jesus não foi mitificado, processo que certamente teria levado algumas décadas, mas prontamente reconhecido como o Messias, pois desde sempre foi dado a este artefato a devida importância.


    As pedras que sustentaram a Santa Cruz, assim como a lápide sobre a qual o Corpo de Cristo foi rapidamente ungido antes de ser posto no túmulo, são veneradas na Basílica do Santo Sepulcro, em Jerusalém, que foi construída por ordem e sob os cuidados de Santa Helena, sobre o local do Seu sepultamento.


    "Pela Vossa dolorosa Paixão, tende Misericórdia de nós e do mundo inteiro!"