terça-feira, 21 de abril de 2020

O Pequeno Resto


    Deus sempre Se valeu de pequenos grupos, às vezes até mesmo de uma só pessoa, para realizar Seus projetos entre nós, e assim salvar nossas almas. Assim foi com Noé e um reduzido grupo de pessoas, ao reiniciar a povoação da terra, estabelecendo uma Aliança. São Pedro observa: "... não poupou o mundo antigo, e só preservou oito pessoas, dentre as quais Noé, esse pregador da justiça, quando desencadeou o dilúvio sobre um mundo de ímpios..." 2 Pd 2,5


    Assim foi ao fundar a nação que se tornaria Israel, o povo escolhido para levar ao mundo a mensagem do Deus Único, que começou com três protagonistas: "Abrão partiu como o Senhor lhe tinha dito, e Lot foi com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos, quando partiu de Harã. Tomou Sarai, sua mulher, e Lot, filho de seu irmão, assim como todos bens que possuíam e os escravos que tinham adquirido em Harã, e partiram para a terra de Canaã." Gn 12,4-5
    Assim foi quando Deus adiou a destruição de Sodoma e Gomorra, por causa de apenas dez justos que viviam em Sodoma: "Abraão replicou: 'Que o Senhor não Se irrite se falo ainda uma última vez! Que será, se lá forem achados apenas dez?' E Deus respondeu: 'Não a destruirei por causa desses dez.'" Gn 18,32
    Assim foi com Moisés, que quase sozinho guiou o povo durante o Êxodo do Egito, e, como ele mesmo previu, também após a Diáspora, pois um pequeno grupo daí restante tornaria a buscar o Senhor: "Quando tiverdes filhos e netos, e, depois de terdes-vos envelhecido nessa terra, corromperdes-vos e fabricardes alguma imagem esculpida do que quer que seja, fazendo o que é mau aos olhos de Vosso Deus e assim provocando Sua ira, pois hoje tomo os Céus e a terra como testemunhas contra vós, certamente não tardareis a desaparecer da terra cuja possessão ides tomar agora, depois de atravessado o Jordão. Não prolongareis nela vossos dias, mas sereis exterminados. O Senhor espalhá-vos-á entre todos povos, e restareis poucos entre as nações aonde vos conduzirá o Senhor. Lá adorareis deuses feitos pela mão do homem, deuses de madeira e de pedra, que não podem ver, nem ouvir, nem comer, nem sentir. Então procurarás o Senhor, Teu Deus, e encontrá-Lo-ás, contanto que O busques de todo teu coração e de toda tua alma." Dt 4,25-29
    Assim foi quando Deus libertou os israelitas que sobreviveram ao jugo dos assírios, como profetizou Isaías: "Naquele tempo, o restante de Israel e os remanescentes da Casa de Jacó deixarão de apoiar-se naquele que os fere, mas com confiança apoiar-se-ão no Senhor, o Santo de Israel. Um resto voltará, um resto de Jacó, para o Deus forte. Ainda que teu povo fosse inumerável como a areia do mar, dele só voltará um resto. A destruição está resolvida, a justiça vai tirar a desforra." Is 10,20-22
    São Paulo, para explicar a futura participação dos não judeus nos planos de Deus, fez menção às tribulações deste período, que também quase dizimaram Seu próprio povo: "E ainda como predisse Isaías: 'Se o Senhor dos Exércitos não nos tivesse deixado um rebento, ficaríamos como Sodoma, seríamos como Gomorra (Is 1,9).'" Rm 9,29
    Promessa, aliás, muito parecida com a que foi feita por Deus através de Jeremias, que predisse a queda de Jerusalém e o exílio na Babilônia: "Reunirei o que restar de Minhas ovelhas, espalhadas pelos países em que as exilei, e trá-las-ei para as pastagens em que hão de multiplicar-se. Eu estabelecerei pastores para elas, que as apascentarão..." Jr 23,3
    E tal situação será quase uma constante nas revelações feitas aos Profetas, como Deus sentenciou através de Ezequiel: "Em todo lugar onde vos fixardes hão de ser despovoadas vossas cidades, e devastados os altos lugares, de sorte que vossos altares serão saqueados, vossos ídolos, demolidos, quebrados, suprimidos, vossos obeliscos, despedaçados, vossas obras, aniquiladas. No vosso meio tombarão homens traspassados de golpes, e sabereis que sou Eu o Senhor. Todavia, Eu deixá-vos-ei um resto quando vos tiver dispersado entre as nações. Os sobreviventes que escaparem ao massacre recordar-se-ão de Mim em meio dos gentios, para onde tiverem sido deportados. Quebrantarei seu coração que longe de Mim se prostituiu, e seus olhos que com ídolos se prostituíram. Eles cairão em si, desgostosos de suas abomináveis práticas. Compreenderão que sou Eu o Senhor e não é em vão que os tenho ameaçado com essas calamidades." Ez 6,6-10
    Assim será depois dos dias da Grande Tribulação, como o Profeta Joel anunciou: "O sol converter-se-á em trevas e a lua, em sangue, ao aproximar-se o grandioso e temível Dia do Senhor. Mas todo aquele que invocar o Nome do Senhor será poupado, porque, sobre o monte Sião e em Jerusalém, haverá um resto, como o Senhor disse, e entre os sobreviventes estarão aqueles que o Senhor tiver chamado." Jl 3,4-5
    Assim seria após a destruição de Jerusalém, isto é, com a nascente Igreja, como Isaías havia predito: "O que restar de Sião, os sobreviventes de Jerusalém, serão chamados Santos, e todos que estiverem computados entre os vivos em Jerusalém." Is 4,3
    Pois a essência desse pequeno grupo seria os seguidores de Jesus, o Verdadeiro Libertador: "Um Renovo sairá do tronco de Jessé, e um Rebento brotará de suas raízes. Sobre Ele repousará o Espírito do Senhor, Espírito de Sabedoria e de entendimento, Espírito de prudência e de coragem, Espírito de ciência e de temor ao Senhor. Naquele tempo, o Senhor novamente levantará a mão para resgatar o resto de Seu povo, os sobreviventes da Assíria e do Egito, (de Patros, da Etiópia, de Elão, de Senaar, de Emat e das ilhas do mar). Levantará Seu estandarte entre as nações, reunirá os exilados de Israel e dos quatros cantos da terra recolherá os dispersos de Judá." Is 11,1-2.11-12
    O Profeta Amós previu os castigos de Deus contra o reino do norte, e que 'um resto' seguiria a caminhada do povo de Deus e reconstruiria Israel: "Eis que os olhos do Senhor Javé estão fixos no reino pecador: 'Eu fá-lo-ei desaparecer da face da terra, mas não destruirei completamente a Casa de Jacó', Oráculo do Senhor. 'Naquele dia, levantarei a cabana arruinada de Davi, repararei suas brechas, levantarei suas ruínas, e reconstruí-la-ei como nos antigos dias, para que herdem o que resta de Edom e de todas nações sobre as quais Meu Nome foi invocado', Oráculo do Senhor, que executará estas coisas." Am 9,8.11-12
    Ao Profeta Abdias foi concedida a visão da restauração dos áureos tempos de Israel, em sucessão ao 'tempo das nações', ou seja, já na iminência do fim dos tempos: "Porque o Dia do Senhor está próximo para todas nações. Como tiveres feito, assim se fará contigo. Carregarás sobre a cabeça o peso de teus atos. Assim como bebestes em Meu Santo Monte, assim as nações beberão sem cessar; beberão, sorverão, e virão a ser como se nunca tivessem sido. Mas sobre o Monte Sião haverá sobreviventes. Será um santo lugar, e a Casa de Jacó recuperará suas possessões." Ab 15-17
    O Profeta Miqueias, também falando por Deus, chama de 'resto' os judeus espalhados pelo mundo que seguirão o Salvador, o nascido da Santíssima Virgem: "'Mas tu, Belém-Efrata, tão pequena entre os clãs de Judá, é de ti que para Mim sairá Aquele que é chamado a governar Israel. Suas origens remontam aos antigos tempos, aos dias do longínquo passado.' Por isso, Deus deixá-los-á até o tempo em que der à luz aquela que há de dar à luz. Então o resto de Seus irmãos voltará para junto dos filhos de Israel. Ele levantar-Se-á para apascentá-los com o poder do Senhor, com a majestade do Nome do Senhor, Seu Deus. Os Seus viverão em segurança, porque Ele será exaltado até os confins da terra." Mq 5,1-3
    Sem dúvida, os planos de Deus cumprir-se-iam a todo custo, ainda que fosse num 'Rebento' de Davi, como reafirmou o Eclesiástico: "Mas Deus não esqueceu Sua Misericórdia, não destruiu nem aniquilou Suas obras; não arrancou pela raiz a posteridade de Seu eleito, não exterminou a raça daquele que ama o Senhor. Ao contrário, deixou um resto a Jacó, e a Davi um Rebento de sua raça. E Salomão teve um fim semelhante ao de seus pais." Eclo 47,24-26
    O Profeta Sofonias vê nesse pequeno grupo os menos validos: "Procurai Javé, todos pobres da terra! Vós que obedeceis a Seus Mandamentos, procurai a justiça, procurai a pobreza. Talvez assim acheis refúgio no Dia da ira de Javé." Sf 2,3
    Mas profetiza que eles representarão o ressurgimento de Israel após a derrota dos inimigos do Ocidente, com a devastação de Canaã pela mão do Senhor: "Com efeito, Gaza tornar-se-á um deserto, e Ascalon uma solidão. Os habitantes de Azot serão expulsos em pleno meio-dia, e os de Acaron serão exterminados. Ai dos habitantes da costa do mar! Ai do povo dos cretenses! A Palavra do Senhor foi pronunciada contra vós, Canaã, terra dos filisteus: 'Destruí-te-ei de tal forma que não haverá mais habitantes.' A região do mar servirá de pasto para os pastores e de aprisco para os rebanhos. Esta casa pertencerá ao resto da casa de Judá. Ali eles apascentarão seus rebanhos. À noite descansarão nas casas de Ascalon, porque o Senhor, Seu Deus, visitá-los-á e restabelecê-los-á." Sf 2,4-7
    E assim como a derrota dos inimigos do Oriente, de avassaladora maneira: "'Ouvi os insultos de Moab e os ultrajes dos amonitas, que saciaram Meu povo de injúrias e tomaram uma insolente atitude contra sua terra. Por isso, juro por Minha Vida', Oráculo do Senhor dos Exércitos, o Deus de Israel, 'Moab será como Sodoma, e os amonitas, como Gomorra: um campo de urtigas, uma região de sal, um eterno deserto. Os sobreviventes de Meu povo saqueá-los-ão, os que restarem de Minha gente serão seus herdeiros.' Tal será o preço de seu orgulho, por terem alardeado grandeza e insolência com o povo do Senhor dos Exércitos." Sf 2,8-10
    Por tamanha benção, este Profeta vê a santidade emergir entre o povo, expressa pelo amor à Verdade: "Em meio a ti deixarei subsistir um humilde e modesto povo, que porá sua confiança no Nome do Senhor. Aqueles que restarem de Israel abster-se-ão do mal, e não proferirão a mentira. Não mais se achará em sua boca enganosa língua, porque serão apascentados e repousarão sem haver quem os inquiete." Sf 3,12-13
    O Profeta Zacarias, já falando dos tempos finais, como Abdias, anuncia uma terrível aniquilação de dois terços da humanidade e a purificação dos sobreviventes. Certamente uma menção à Grande Tribulação: "'Em toda a terra,' Oráculo do Senhor, 'dois terços dos habitantes serão exterminados e um terço subsistirá. Mas pelo fogo farei passar este terço, purificá-lo-ei como se purifica a prata, prová-lo-ei como se prova o ouro.'" Zc 13,8-9a
    Menciona, ademais, a própria solidão em que Jesus se veria: "'Espada, levanta-te contra Meu Pastor, contra o Homem, Meu Aliado,' Oráculo do Senhor dos Exércitos. 'Fere o Pastor, que as ovelhas sejam dispersas. Voltarei Minha mão até mesmo contra os pequenos.'" Zc 13,7
    Por fim, e também se referindo a um holocausto que precede os últimos dias, São João Evangelista diz que a terça parte da humanidade será destruída pelos próprios anjos do Apocalipse: "Então foram soltos os quatro Anjos que se conservavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano da matança da terça parte dos homens... E uma terça parte dos homens foi morta por esses três flagelos: fogo, fumaça e enxofre..." Ap 9,15.18
    Mas fazendo recordar a purificação dos sobreviventes da profecia de Zacarias, São João registra que eles não se arrependerão por si mesmos: "Mas o restante dos homens, que não foram mortos por esses três flagelos, não se arrependeu das obras de suas mãos." Ap 9,20
    Tal situação parece conduzir ao extremo da ordem dada por Deus a Isaías: "'Vai, pois, dizer a esse povo', disse Ele: 'Escutai, sem chegar a compreender, olhai, sem chegar a ver.' Obceca o coração desse povo, ensurdece-lhe os ouvidos, fecha-lhe os olhos, de modo que não veja nada com seus olhos, não ouça com seus ouvidos, não compreenda nada com seu espírito. E não se cure de novo. 'Até quando, Senhor?' perguntei eu. E Ele respondeu: 'Até que as cidades fiquem devastadas e sem habitantes, as casas, sem gente, e a terra, deserta. Até que o Senhor tenha banido os homens, e grande seja a solidão na terra. Se restar um décimo da população, ele será lançado ao fogo, como o terebinto e o carvalho, cuja linhagem permanece quando são abatidos. Sua linhagem é um santo germe.'" Is 6,9-13
    E falava o mesmo quanto ao fim do mundo: "Eis que o Senhor devasta a terra e torna-a deserta, transtorna sua face e dispersa seus habitantes. Isso acontece ao sacerdote como ao leigo, ao senhor como ao escravo, à senhora como à serva, ao vendedor como ao comprador, ao que empresta como ao que toma emprestado, ao credor como ao devedor. A terra será totalmente devastada, inteiramente pilhada, porque o Senhor assim decidiu. A terra está na desolação, murcha; o mundo definha e esmorece, e os chefes do povo estão aterrados. A terra foi profanada por seus habitantes, porque transgrediram as leis, violaram as regras e romperam a Eterna Aliança. Por isso, a maldição devora a terra e seus habitantes expiam suas penas; os habitantes da terra são consumidos, um pequeno número de homens sobrevive." Is 24,1-7


DO PEQUENO RESTO, A SALVAÇÃO

    Por vezes, como dito, os projetos de Deus são levados a cabo por apenas uma pessoa. É o que se viu nos casos de Sansão, Davi, Isaías, Ester, entre tantos outros Santos. Foi o que passou Elias, que teve que refugiar-se no Monte Horeb: "Ali chegando, passou a noite numa caverna. Então a Palavra do Senhor lhe foi dirigida: 'Que fazes aqui, Elias?' Ele respondeu: 'Estou devorado de zelo pelo Senhor, o Deus dos Exércitos. Porque os israelitas abandonaram Vossa Aliança, derrubaram Vossos altares e passaram Vossos Profetas a fio da espada. Só eu fiquei, e querem tirar-me a vida.'" 1 Rs 19,9-10


    Essencialmente assim foi com o Cristo, e logo em seguida com São Pedro, que Ele colocou à frente dos Apóstolos. Pouco antes de ser crucificado, Ele confiou a Igreja em suas mãos: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para peneirar como o trigo. Mas Eu roguei por ti, para que tua confiança não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma teus irmãos." Lc 22,31-32
    Ora, Nosso Salvador já tinha alertado Apóstolos e discípulos para esse agir de Deus: "Não tenhas medo, pequeno rebanho, porque Vosso Pai tem prazer em dar-vos o Reino." Lc 12,32
    Ele ensinava que a renovação do mundo começava com muito pouco, como uma pitada de sal na comida: "Vós sois o sal da terra." Mt 5,13
    Ou como um reflexo d'Ele mesmo, como uma pequena vela na escuridão: "Vós sois a Luz do mundo." Mt 5,14
    Por isso, dizia: "... não se acende uma vela para colocá-la debaixo de um caixote, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe para todos que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem Vosso Pai que está nos Céus." Mt 5,15-16
    E usou de alegorias assim para explicar a instauração do Reino de Deus: "Ainda disse Jesus: 'A que é semelhante o Reino de Deus, e a que o compararei? É semelhante ao grão de mostarda que um homem tomou e semeou em sua horta, e que cresceu até se fazer uma grande planta e as aves do céu vieram fazer ninhos em seus ramos.'" Lc 13, 18-19
    Também o comparou ao fermento: "É semelhante ao fermento que uma mulher tomou e misturou em três medidas de farinha, e toda massa ficou levedada." Lc 13,21
    Ao falar da Palavra da Salvação, e de sua poderosa fecundidade, Jesus aponta a mesma desproporção: são 3 situações em que ela se perde, e só uma em que vinga: "O semeador semeia a Palavra. Alguns se encontram à beira do caminho, onde ela é semeada. Apenas a ouvem, vem Satanás tirar a Palavra neles semeada. Outros recebem a semente em pedregosos lugares. Quando a ouvem, recebem-na com alegria, mas não têm raiz em si, são inconstantes, e assim que se levanta uma tribulação ou uma perseguição por causa da Palavra, eles tropeçam. Outros ainda recebem a semente entre os espinhos. Ouvem a Palavra, mas as preocupações mundanas, a ilusão das riquezas, as múltiplas cobiças sufocam-na e tornam-na infrutífera. Aqueles que recebem a semente em boa terra, porém, escutam a Palavra, acolhem-na e dão fruto, trinta, sessenta e cem por um." Mc 4,14-20
    Isto quer dizer, apesar do alcance de Sua Palavra, que só uns poucos se mostrariam realmente dignos do Reino de Deus: "Porque muitos são os chamados, e poucos os escolhidos." Mt 22,14
    E Deus, pela Divina Providência, continua agindo através dos mais humildes: "Por aquele tempo, Jesus pronunciou estas palavras: 'Eu bendigo-Te, Pai, Senhor do Céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos.'" Mt 11,25
    Jesus deu detalhes da 'grande aflição', pela qual a terra passará antes do Juízo Final. E, outra vez, um pequeno resto seria incumbido de seguir testemunhando a Salvação: "Se esses dias não fossem abreviados, criatura alguma escaparia. Mas, por causa dos escolhidos, eles serão encurtados." Mt 24,22
    São Paulo bem percebeu esse pequeno grupo de resistência, e fez um paralelo com a situação de Elias. Falava da Igreja, a barca de Salvação sustentada pela Divina Graça: "Desconheceis o que narra a Escritura, no episódio de Elias, quando este se queixava de Israel a Deus? 'Senhor, mataram vossos Profetas, destruíram vossos altares. Fiquei apenas eu, e ainda procuram tirar-me a vida (I Rs 19,10).' Que lhe respondeu a divina voz? 'Reservei para mim sete mil homens, que não dobraram o joelho diante de Baal (I Rs 19,18).' É o que continua a acontecer no tempo presente: subsiste um resto, segundo a eleição da Graça." Rm 11,2b-5
    No mesmo sentido, a profetisa Ana, que presenciou a Apresentação do Menino Jesus no Templo de Jerusalém, divulgou a chegada da Salvação apenas entre 'os que esperavam': "Também havia uma profetisa chamada Ana... e falava do Menino a todos que esperavam a Libertação de Jerusalém." Lc 2,36.38
    Contudo, longe de promover individualistas ou rebeldes projetos, Deus assim apenas demonstra Seu absoluto poder mesmo nas maiores adversidades, típicas das cegueiras coletivas, exemplarmente representadas pela horda que condenou Jesus à Cruz. Portanto, e como no próprio exemplo de submissão dado pelo Cristo, que nós não acreditemos estar no comando de coisa alguma. Nem do contrário! Também não somos meros espectadores! E caso nos achemos desolados ou que nossa oração de nada vale, São Tiago Menor tem uma palavra bem ao modo do pequeno resto: "A oração feita por um justo tem grande eficácia." Tg 5,16
    Falando do poder das pequenas obras, ele lembra o leme de uma embarcação: "Também vede os navios: por grandes que sejam e mesmo agitados por impetuosos ventos, são governados com um pequeno leme à vontade do piloto." Tg 3,4
    Invocou o poder do fogo: "Igualmente, a língua é um pequeno membro, mas pode gloriar-se de grandes coisas. Considerai como uma pequena chama pode incendiar uma grande floresta!" Tg 3,5
    Ecoa em nossos ouvidos, pois, uma observação de São Paulo: "... o que é vil e desprezível no mundo, Deus escolheu-o, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são." 1 Cor 1,28

    Por uníssona, podemos incluir aqui uma profecia do amado Papa Bento XVI, quando ainda era padre perito em Teologia, proferida em 1969, em meio a cinco homilias radiofônicas que mais tarde se tornaram um livro: "Fé e Futuro". Ele previu, além de mais um pequeno resto, a solidão de um mundo sem Deus, da vida estritamente regida por fatores econômicos, seja pelo comunismo seja pelo materialismo. Disse: "A Igreja diminuirá de tamanho. Mas dessa provação sairá uma Igreja que terá extraído uma grande força do processo de simplificação que atravessou, da renovada capacidade de olhar para dentro de si. Porque os habitantes de um mundo rigorosamente planificado sentir-se-ão indizivelmente sós. E descobrirão, então, a pequena comunidade de fiéis como algo completamente novo, como uma esperança que lhes cabe, como uma resposta que sempre secretamente procuraram."
    Contudo, embora Jesus tenha declarado que "as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (cf. Mt 16,18), a Igreja, se não será vencida, também nunca vencerá definitivamente o mal que existe no mundo. O Catecismo ensina: "A Igreja só entrará na Glória do Reino por meio desta derradeira Páscoa, em que seguirá Seu Senhor em Sua Morte e Ressurreição. Portanto, o Reino não se realizará por um histórico triunfo da Igreja, por meio de um ascendente progresso, mas por uma vitória de Deus sobre o último desencadeamento do Mal, que fará Sua Esposa descer do Céu. O triunfo de Deus sobre a revolta do Mal assumirá a forma do Juízo Final, depois do derradeiro abalo cósmico deste mundo que passa." CIC § 677

    "Concedei-nos o convívio dos eleitos!"