sexta-feira, 20 de abril de 2018

A Paciência

    Uma das grandes qualidades do cristão deve ser a paciência. Vivemos uma longa espera, e algumas situações são tão impactantes que o chão parece se abrir sob nossos pés, ficamos como que flutuando no vazio, sentindo-nos ou totalmente impotentes, na iminência do desespero, ou, no extremo oposto, cegos de raiva, a ponto de agredir.


    A paciência de Jó, ainda que uma alegoria, tornou-se emblemática para todos que creem em Deus, embora este personagem também tenha chegado a momentos de tocante desespero, desejando a própria morte: "Que Deus consinta em esmagar-me, que deixe Suas mãos cortarem meus dias! Pois, que é minha força para que eu espere? Qual é meu fim, para portar-me com paciência? Será que tenho a fortaleza das pedras, e será de bronze minha carne?" Jó 6,9.11-12
    Inspiradamente, São Paulo colocou nesses termos nossa expectativa pela Redenção como filhos de Deus: "Pois sabemos que toda a Criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção de nosso corpo." Rm 8,22-23
    E não desenganava quanto à longa espera: "No que se refere à Vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e à nossa união com Ele, nós vos pedimos, irmãos: não deixeis tão facilmente transtornar vossa cabeça, nem vos alarmeis por causa de alguma revelação, ou carta atribuída a nós, afirmando que o Dia do Senhor está próximo." 2 Ts 2,1-2
    No entanto, ainda segundo o último Apóstolo, temos o amparo da , que em si traz a esperança: "Nós que esperamos o que não vemos, e é em paciência que o aguardamos." Rm 8,25
    E pela obediência e pela constante oração são-nos concedidos o conhecimento da Palavra, a Consolação e a Comunhão com o Pai, que nos permitem perseverar: "Por isso... não cessamos de orar por vós e pedir a Deus para que vos conceda pleno conhecimento da Sua vontade, perfeita Sabedoria e penetração espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, procurando agradar-Lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus. Para que, em tudo confortados pelo Seu glorioso poder, tenhais a paciência de tudo suportar com longanimidade." Cl 1,9-11
    Essa paciência vem da certeza de que é Deus mesmo que tudo realiza por meio de Cristo: "N'Ele é que fomos escolhidos, predestinados segundo o desígnio d'Aquele que tudo realiza por um ato deliberado de Sua vontade, para servirmos à celebração de Sua Glória, nós que desde o começo voltamos nossas esperanças para Cristo." Ef 1,11-12
    Pois pelo Evangelho, e principalmente pelo Espírito de Deus sobre nós derramado, temos a Vida Eterna: "N'Ele (Cristo) também vós, depois de terdes ouvido a Palavra da Verdade, o Evangelho de vossa Salvação no qual tendes crido, fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor de nossa herança, enquanto esperamos a completa Redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor de Sua Glória." Ef 1,13-14
    Segundo São Pedro, a paciência é uma inalienável etapa do desenvolvimento espiritual, pelo qual se obtém a verdadeira e definitiva purificação do coração: "Por estes motivos, esforçai-vos quanto possível por unir à vossa fé a virtude, à virtude a ciência, à ciência a temperança, à temperança a paciência, à paciência a piedade, à piedade o amor fraterno, e ao amor fraterno a caridade. Se estas virtudes se acharem abundantemente em vós, elas não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Porque quem não tiver estas coisas é míope, cego: esqueceu-se da purificação de seus antigos pecados." 2 Pd 1,5-9
    É nesse compasso, portanto, entre a oração e o perfeito culto ao Santíssimo Sacramento, que devemos levar a vida. São Tiago Menor via no enfrentar das provações um exercício para alcançar essa virtude: "... sabendo que a prova de vossa fé produz a paciência." Tg 1,3
    E, de fato, pelas mãos de Deus tudo tem sua razão de ser: "Mas é preciso que a paciência efetue sua obra, a fim de serdes perfeitos e íntegros, sem fraqueza alguma." Tg 1,4
    Pois assim viveram os antigos destinatários da promessa, que foram dignos de Deus: "Tomai, irmãos, por modelo de paciência e de coragem os Profetas, que falaram em Nome do Senhor." Tg 5,10
    Esse foi o exemplo dado por Tobit, pai de Tobias, qua ao fim acabou sendo curado: "Deus permitiu que lhe acontecesse essa prova para que sua paciência, como a do santo homem Jó, servisse de exemplo à posteridade. Como sempre havia temido a Deus desde sua infância, e guardado Seus Mandamentos, ele não se afligiu nem murmurou contra Deus por ter sido atingido pela cegueira. Mas perseverou firme no temor de Deus, e continuou a dar-Lhe graças em todos os dias de sua vida." Tb 2,12-14
    Bem como o dos próprios membros da Igreja, já ao tempo dos seguidores de São Paulo: "Desejamos, apenas, que ponhais todo empenho em guardar intata vossa esperança até o fim, e que, longe de tornardes-vos negligentes, sejais imitadores daqueles que pela fé e paciência se tornam herdeiros das promessas." Hb 6,11-12


DEUS TAMBÉM ESPERA

    Contudo, não estamos sós nessa espera. Deus também aguarda com longanimidade por nossos gestos de efetiva caridade, seja material, seja espiritual. Esse proceder, como diz São Pedro aos fiéis, é prova de Sua intenção de a todos dar oportunidade de conversão: "O Senhor não retarda o cumprimento de Sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Não quer que alguém pereça; ao contrário, quer que todos se arrependam." 2 Pd 3,9
    O sagrado autor do livro da Sabedoria diz ao Senhor: "Tendes compaixão de todos, porque Vós tudo podeis. E para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens." Sb 11,23
    De fato, o tempo que nos é dado é de suma importância, pois, a despeito de quando se dará o Juízo Final, logo após a morte cada um de nós enfrentará o Juízo Particular: "Como está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o Juízo..." Hb 9,27
    A São João Evangelista, por sinal, foi revelado que os perseverantes só serão premiados na hora realmente oportuna: "Porque guardaste a Palavra de Minha paciência, também Eu te guardarei da hora da provação, que está para sobrevir ao mundo inteiro, para provar os habitantes da terra." Ap 3,10
    E para momentos de provação, ele apontou os Santos como melhores exemplos: "Eis o momento para apelar para a paciência dos Santos, dos fiéis, aos Mandamentos de Deus e à fé em Jesus." Ap 14,12
    Foi, aliás, nessa condição de fidelidade e santidade que ele recebeu grandes revelações: "Eu, João, vosso irmão e companheiro nas tribulações, na realeza e na paciência em união com Jesus, estava na ilha de Patmos por causa da Palavra de Deus e do testemunho de Jesus. Num domingo, fui arrebatado em êxtase, e ouvi, por trás de mim, forte voz como de trombeta, que dizia: 'O que vês, escreve-o num livro...'" Ap 1,9-11a
    São Paulo, no mesmo sentido, não com palavras mas atitudes, mostrou-nos os sinais para que reconhecêssemos um autêntico representante de Cristo: "Os sinais distintivos do verdadeiro Apóstolo realizaram-se em vosso meio através de uma paciência a toda prova..." 2 Cor 12,12
    Ele distinguia procederes no trato com cada fiel, porém pedia especificamente um deles para com todos: "Pedimo-vos, porém, irmãos, corrigi os desordeiros, encorajai os tímidos, amparai os fracos e tende paciência para com todos." 1 Ts 5,14
    Por isso, vai pedir o mesmo a São Timóteo: "Eu conjuro-te em presença de Deus e de Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, por Sua aparição e por Seu Reino: prega a Palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir." 2 Tm 4,1-2
    Dá importantes instruções sobre essa batalha espiritual: "Rejeita as tolas e absurdas discussões, visto que geram contendas. Não convém a um servo do Senhor altercar. Bem ao contrário, seja ele condescendente com todos, capaz de ensinar, paciente em suportar os males. É com brandura que deve corrigir os adversários, na esperança de que Deus lhes conceda o arrependimento e o conhecimento da Verdade, e voltem a si, uma vez livres dos laços do Demônio, que os mantém cativos e submetidos aos seus caprichos." 2 Tm 2,23-26
    Em especial, dirigindo-se aos efésios, pedia pelos irmãos: "Exorto-vos, pois, - prisioneiro que sou pela causa do Senhor -, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda humildade e amabilidade, com grandeza de alma, suportando-vos mutuamente com caridade. Sede solícitos em conservar a Unidade do Espírito no vínculo da Paz." Ef 4,1-3
    Pediu também aos colossenses: "Portanto, como eleitos de Deus, santos e queridos, revesti-vos de entranhada misericórdia, de bondade, humildade, doçura, paciência. Suportai-vos uns aos outros e mutuamente perdoai-vos, toda vez que tiverdes queixa contra outrem. Como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós." Cl 3,12-13
    Pediu ainda maior amor para com os Sacerdotes da Igreja, escrevendo aos tessalonicenses: "Assim, pois, consolai-vos mutuamente e edificai-vos uns aos outros, como já o fazeis. Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para dirigir-vos no Senhor e admoestar-vos. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a Paz entre vós." 1 Ts 5,11-13
    E aos colossenses recomenda alguns cuidados a mais com quem não é da Igreja: "Procedei com Sabedoria no trato com os de fora. Sabei aproveitar todas circunstâncias. Que vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal, e sabei responder devidamente a cada um." Cl 4,5-6
    Chegou a sintetizar uma bela fórmula, ao dirigir-se aos romanos: "Sede alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração." Rm 12,12
    Pois via em sua própria história um grande exemplo da paciência de Jesus, sinalizando que qualquer um, independente do pecado que cometeu, pode alcançar a Salvação: "Eis uma verdade absolutamente certa e merecedora de fé: Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o primeiro. Se encontrei Misericórdia, foi para que primeiro em mim Jesus Cristo manifestasse toda Sua longanimidade e eu servisse de exemplo para todos que, a seguir, n'Ele crerem, para a Vida Eterna." 1 Tm 1,15-16
    E deixou a simplicidade, o manso tocar do cotidiano como a grande marca de vida na fé: "Procurai viver com serenidade, ocupando-vos de vossas próprias coisas e trabalhando com vossas mãos, como vo-lo temos recomendado." 1 Ts 4,11
    Sobre esse aspecto, no livro dos Provérbios encontramos uma pérola da Sabedoria. Não teria sido esse o exemplo do Cristo? Diz assim: "Mais vale a paciência que o heroísmo, mais vale quem domina o coração que aquele que conquista uma cidade." Pr 16,32
    Sem dúvida, na grande maioria dos casos, nem a ira nem a violência são as reações que Deus espera de nós, como diz São Tiago menor: "Já o sabeis, meus diletíssimos irmãos: todo homem deve ser pronto para ouvir, porém tardo para falar e tardo para irar-se. Porque a ira do homem não cumpre a justiça de Deus." Tg 1,19-20
    São Pedro detalha: "Caríssimos: se suportais com paciência aquilo que sofreis por terdes feito o bem, isto vos torna agradáveis diante de Deus. De fato, para isto fostes chamados. Também Cristo sofreu por vós deixando-vos um exemplo, a fim de que sigais Seus passos. Ele não cometeu pecado algum, mentira nenhuma foi encontrada em Sua boca. Quando injuriado, não retribuía as injúrias; atormentado, não ameaçava; antes, colocava Sua causa nas mãos d'Aquele que julga com justiça." 1 Pd 2,19.21-23
    Realmente, Jesus ensinou-nos a resignação perante a vontade de Deus: "Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã. O dia de amanhã terá suas preocupações próprias. A cada dia basta seu mal." Mt 6,34
    E muito mais que resignação. Tomando a paciência do próprio Pai como exemplo, falou de amor aos inimigos: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Se amais somente os que vos amam, que recompensa tereis? Não fazem assim os próprios publicanos? Se saudais apenas vossos irmãos, que fazeis de extraordinário? Não fazem isto também os pagãos? Portanto, sede perfeitos, assim como Vosso Pai celeste é perfeito." Mt 5,43-48
    Dias antes de morrer, falando das perseguições que sofreriam os primeiros cristãos, da destruição de Jerusalém, da violência, das incompreensões do mundo materialista e das tribulações do fim dos tempos, Ele deixou uma simples receita, que deve ser uma constante em nosso comportamento: "Na vossa paciência, possuí vossas almas." Lc 21,19
    Também foi o que recomendou São João Evangelista, ao falar dos poderes do inimigo em tempos especialmente difíceis: "Foi-lhe dado, também, fazer guerra aos Santos e vencê-los. Recebeu autoridade sobre toda tribo, povo, língua e nação, e hão de adorá-la todos habitantes da terra, cujos nomes não estão escritos desde a origem do mundo no livro da Vida do Cordeiro Imolado. Quem tiver ouvidos, ouça! Quem procura prender, será preso. Quem matar pela espada, pela espada deve ser morto. Esta é a ocasião para a constância e a confiança dos Santos!" Ap 13,7-10
    Poias mesmo alertando para tantas e tão grandes contrariedades, inclusive Sua própria crucificação, Jesus garantiu: "Referi-vos essas coisas para que tenhais a Paz em Mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    Fica, portanto, a lembrança do temor dos Apóstolos durante a tempestade no Mar da Galileia. Navegamos na frágil barca de Pedro, que é a Igreja, mas, por mais difícil que seja a situação, não podemos desesperar-nos: estamos com Jesus. E mesmo que Ele pareça dormir, devemos estar certos que Ele detém o controle de tudo: "De repente, desencadeou-se sobre o mar uma tempestade tão grande que as ondas cobriam a barca. Ele, no entanto, dormia. Os discípulos achegaram-se a Ele e acordaram-nO, dizendo: 'Senhor, salva-nos! Nós perecemos!' E Jesus perguntou: 'Por que este medo, gente de pouca fé?' Então, levantando-Se, deu ordens aos ventos e ao mar, e fez-se uma grande calmaria. Admirados, diziam: 'Quem é este homem a quem até os ventos e o mar obedecem?'" Mt 8,24-27

    "Esperamos, ó Cristo, Vossa vinda gloriosa!"