sábado, 21 de abril de 2018

Fé e Razão


    Recordando algumas palavras do amado Papa São João Paulo II, temos uma boa ideia de sua Sabedoria, assim como da lucidez de sua . Homem de profundas reflexões, ele seguia fielmente uma recomendação de São Pedro: "Estai sempre prontos a responder, para vossa defesa, a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança, mas fazei-o com suavidade e respeito." 1 Pd 3,15
    Ele certamente não esquecia, como registrou São Paulo da atitude de seu colaborador Epafras, que a verdadeira fé só se alcança pela clareza de entendimento: "Ele não cessa de lutar por vós em suas orações, para que, numa perfeita e plena convicção, permaneçais plenamente submissos à divina vontade." Cl 4,12b
    Nem menospreza a construtiva a crítica que ele fez à passional religiosidade dos judeus, que seguiam renegando o Cristo: "Pois dou-lhes testemunho de que têm zelo por Deus, mas um zelo sem discernimento." Rm 10,2
    Autêntico pastor, o último Apóstolo dizia aos fiéis: "Tudo sofro para que seus corações sejam reconfortados e que, estreitamente unidos pela caridade, sejam enriquecidos de plenitude de inteligência para conhecerem o Mistério de Deus, isto é, Cristo, no Qual estão escondidos todos tesouros da Sabedoria e da ciência." Cl 2,2-3
    Também cobrava: "Despertai, como convém, e não pequeis! Porque alguns vivem na total ignorância de Deus - para vossa vergonha digo-o." 1 Cor 15,34
    E afirmava que esse entendimento se obtém pelo bem ouvir do autêntico Evangelho: "Logo, a fé provém da pregação, e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,17
    Pois Jesus determinou a transmissão da Palavra, em sua inteireza, às nações: "Ensinai-as a observar tudo que vos prescrevi." Mt 28,20a
    Na fulgurante encíclica 'Fé e Razão', nosso amado Papa argumentou com singular harmonia sobre essas duas grandes capacidades humanas: "Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a Verdade e, em última análise, de conhecê-Lo, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à plena Verdade sobre Si próprio."
    Falando sobre a inteligência, ele registrou que a busca da Verdade chegou a "resultados que levaram à elaboração de verdadeiros sistemas de pensamento... uma espécie de patrimônio espiritual da humanidade." Por isso, a Igreja "considera a filosofia uma indispensável ajuda para aprofundar a compreensão da fé."
    Lamenta, no entanto, o atual estágio em que ela se encontra: "... a busca da Verdade última aparece muitas vezes ofuscada. A filosofia moderna possui, sem dúvida, o grande mérito de ter concentrado sua atenção sobre o homem...", mas "... parece ter-se esquecido de que este é sempre chamado a voltar-se também a uma realidade que o transcende..."
    E apontou que o engano está em esquecer o ser humano e apegar-se a "... pragmáticos critérios baseados essencialmente sobre o dado experimental, na errada convicção de que tudo deve ser dominado pela técnica..." Pois não há como separar o homem daquilo que ele conhece, como fez a filosofia atual, que, em erro ainda mais grave, "esquecendo-se de orientar sua pesquisa para o ser, concentrou a própria investigação sobre o conhecimento humano. Daí provieram várias formas de agnosticismo e relativismo, que levaram a investigação filosófica a perder-se nas movediças areias de um ceticismo geral."
    Nesse conjunto de assuntos interdependentes, ele usou algumas palavras do Concílio Vaticano I para sustentar que precisamos do próprio Deus para compreender Seus mistérios: "... além das verdades que a razão natural pode compreender, é-nos proposto ver os mistérios escondidos em Deus, que só podem ser conhecidos se nos forem revelados do Alto." E afirma: "A fé... conta com a sobrenatural ajuda da Graça..."
    Citou também a Carta de São Paulo aos Efésios, para tratar da patente realidade que é a Divina Revelação: "Aprouve a Deus, em Sua bondade e Sabedoria, revelar-Se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da Sua vontade." Ef 1,9
    E completa: "Pela fé, o homem presta assentimento a este divino testemunho. Isto significa que reconhece plena e integralmente a Verdade de tudo o que foi revelado, porque é o próprio Deus que o garante..."
    Porque a fé é a mais elevada capacidade humana: "No acreditar é que a pessoa realiza o ato mais significativo da sua existência..."
    Lembra, contudo, que o ser humano não está sozinho nessa busca: "Em auxílio da razão, que procura a compreensão do mistério, também vêm os sinais presentes na Revelação... esses sinais dão maior força à razão, porque lhe permitem pesquisar dentro do mistério com seus próprios meios, de que ela justamente se sente ciosa, por outro lado, impelem-na a transcender sua realidade de sinais para apreender o ulterior significado de que eles são portadores. Portanto, já há neles uma verdade escondida..."
    Nesse sentido, ele menciona uma bela síntese da Missão do Messias: "Cristo Senhor, 'na própria revelação do mistério do Pai e do Seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe sua sublime vocação' (Gaudium et spes), que é participar no mistério da trinitária vida de Deus." E, oportunamente, cita o livro dos Provérbios: "O Senhor é Quem dirige os passos do homem. Como poderá o homem compreender seu próprio destino?" Pr 20,24
    Pois uma vez iniciada à busca do divino conhecimento, o ser humano não pode confranger-se aos limites da razão: "Sente-se isso mesmo, por exemplo, nas palavras com que o livro dos Provérbios denuncia o cansaço provado ao tentar compreender os misteriosos desígnios de Deus: 'Eu fatiguei-me por Deus, estou esgotado por Deus, eis-me entregue.'" Pr 30,1
    Para que se chegue ao auto-conhecimento, então, que abre caminho à Revelação, ele viu e resumiu o processo em três passos: "A primeira regra é ter em conta que o conhecimento do homem é um caminho que não permite descanso; a segunda nasce da consciência de que não se pode percorrer tal caminho com o orgulho de quem pensa que tudo seja fruto de conquista pessoal; a terceira regra funda-se no 'temor de Deus', de Quem a razão deve reconhecer tanto a soberana transcendência como o solícito amor no governo do mundo."
    Sem isso, diz, seríamos apenas insensatos: "É que o insensato ilude-se pensando que conhece muitas coisas, mas, de fato, não é capaz de fixar o olhar nas essenciais realidades..."
    E vai buscar as origens dos erros do racionalismo, ou seja, do excessivo e distorcido uso da razão na busca de tudo entender, que implica no arrogante despeito para com a fé: "O livro do Gênesis descreve de figurada maneira esta condição do homem, quando narra que Deus o colocou no jardim do Éden, tendo no centro 'a árvore da ciência do bem e do mal' (Gn 2,17). O símbolo é claro: o homem não era capaz de discernir e decidir, por si só, aquilo que era bem e o que era mal, mas devia apelar-se a um princípio superior..." Esse erro foi o que nosso Santo chamou de a "desobediência original."
    E, ao falar da insuficiência da razão, nosso amado papa cita mais uma vez São Paulo, quando parafraseou Aristóteles: "Deus escolheu, no mundo, aquelas coisas que nada são, para anular as que são." 1 Cor 1,28


    Por fim, mencionou também o discurso do Areópago, onde o Apóstolo dos Gentios afirma o sentido da vida de todo ser humano, enquanto obra de Deus: "Fez a partir de um só homem, todo o gênero humano, para habitar em toda a face da Terra; e fixou a sequência dos tempos e os limites para sua habitação, a fim de que os homens procurem a Deus e esforcem-se por encontrá-Lo, mesmo tateando, embora não Se encontre longe de cada um de nós." At 17,26-27


    São Tomé Apóstolo, após teimar durante uma semana recusando-se a acreditar na Ressurreição de Jesus, ao vê-Lo diante de si e tocar Suas feridas, foi ainda mais longe e reconheceu Sua divindade: "Meu Senhor e Meu Deus!" Jo 20,28


    São João Paulo II, rogai por nós!