quarta-feira, 25 de abril de 2018

São Marcos Evangelista


    A primeira menção bíblica a São Marcos é quando São Pedro, libertado por seu Anjo da Guarda da prisão imposta por Herodes, vai deixar um recado numa casa em Jerusalém: "Refletiu um momento e dirigiu-se para a casa de Maria, mãe de João, que tem por sobrenome Marcos, onde muitos se tinham reunido e faziam oração." At 12,12


    Segundo antiga tradição da Igreja Ortodoxa Síria, essa casa foi reerguida após a destruição de Jerusalém para ser um monastério, pois também aí havia sido o Cenáculo, onde Jesus instituiu a Eucaristia entre os Apóstolos, pouco antes de ser entregue por Judas. Assim, embora esta última informação seja carente de boas provas, São Marcos conhecia todos os Apóstolos, inclusive Jesus, embora não tive idade nem discernimento bastantes. Em sentido contrário, porém, há importantes registros sustentando que ele não conheceu Jesus.
    É certo, no entanto, que São Barnabé e São Paulo já o levavam consigo desde as primeiras missões: "Tendo Barnabé e Saulo concluído sua missão, voltaram de Jerusalém (para Antioquia), levando consigo João, que tem por sobrenome Marcos." At 12,25
    São Marcos, pois, estava com eles quando partiram de Antioquia para o Chipre, sob as diretrizes do Divino Paráclito: "Enquanto celebravam o Culto do Senhor, depois de terem jejuado, disse-lhes o Espírito Santo: 'Separai-Me Barnabé e Saulo para obra a que os tenho destinado.' Chegados a Salamina, pregavam a Palavra de Deus nas sinagogas dos judeus. Tinham com eles João para auxiliá-los." At 13,2.5
    E foi na região da Panfília que São Marcos, por injustificável motivo segundo São Paulo, abandonou-os: "Paulo e seus companheiros navegaram de Pafos e chegaram a Perge, na Panfília, de onde João, apartando-se deles, voltou a Jerusalém." At 13,13
    Logo após o Concílio de Jerusalém e a apresentação de sua resolução na cidade de Antioquia, dizendo não ser necessário circuncidar os cristãos, São Paulo queixou-se a São Barnabé da atitude de São Marcos e não mais o queria consigo em missão. Tal fato causou uma momentânea ruptura entre os 'Apóstolos', mas, como desígnio de Deus, acabou aumentando em muito a área que eles serviam, e São Paulo passou a acompanhar-se de São Silas, ou Silvano: "Ao termo de alguns dias, disse Paulo a Barnabé: 'Tornemos a visitar os irmãos por todas as cidades onde temos pregado a Palavra do Senhor, para ver como estão passando.' Barnabé queria levar consigo também João, que tinha por sobrenome Marcos. Paulo, porém, achava que não devia ser admitido quem se tinha separado deles na Panfília e não os havia acompanhado no ministério. Houve tal discussão que se separaram um do outro, e Barnabé, levando consigo Marcos, navegou para Chipre. Paulo, porém, tendo escolhido Silas, e depois de ter sido recomendado pelos irmãos à Graça do Senhor, partiu. Ele percorreu a Síria, a Cilícia, confirmando as comunidades." At 15,36-40
    São Marcos era primo de São Barnabé, um discípulo tão querido e tão cheio do Espírito Santo que São Paulo e São Lucas chamavam-no de Apóstolo. E não foi à toa que estes primos seguiram para o Chipre. Segundo São Jerônimo, eles eram judeus cipriotas e também levitas, ou seja, sacerdotes por descendência, e moravam numa colônia cipriota em Jerusalém.
    Ficou claro, entretanto, que a desavença entre São Paulo e São Marcos foi resolvida, pois na Carta aos Colossenses ele recomenda-o, deixando um registro de que nosso Santo lhe servia enquanto esteve preso pela primeira vez. Certamente, cabia-lhe a função de divulgar as prédicas do Apóstolo dos Gentios e manter seu contato com os cristãos de Roma, que viviam a na clandestinidade mas ajudavam a suprir suas necessidades: "Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, e Marcos, primo de Barnabé, a respeito do qual já recebestes instruções. Se este for ter convosco, acolhei-o bem." Cl 4,10
    Na Segunda Carta a São Timóteo, São Paulo, talvez já bem próximo à sua morte, dá um bom testemunho de São Marcos e pede que o traga para os serviços da Igreja, seguramente da Palavra: "Só Lucas está comigo. Toma contigo Marcos e traze-o, porque me é bem útil para o ministério." 2 Tm 4,11
    Na Carta a Filemon, provavelmente quando da sua segunda prisão em Roma, pois nela são apresentados os mesmos colaboradores da Carta aos Colossenses, São Paulo põe São Marcos como primeiro da lista: "Enviam-te saudações Epafras, meu companheiro de prisão em Cristo Jesus, assim como Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus colaboradores." Fm 1,23-24
    Contudo, o registro mais importante sobre São Marcos, por ajudar a identificá-lo como o escritor do 'Evangelho Segundo São Pedro', está na primeira carta do Príncipe dos Apóstolos. Nela São Pedro fala de Roma, seu bispado, e refere-se a São Marcos com especial carinho: "A igreja escolhida de Babilônia saúda-vos, assim como também Marcos, meu filho." 1 Pd 5,13
    Há ainda dois outros importantes testemunhos a favor dessa tradição. Primeiro, São Justino, teólogo, que viveu do ano 100 a 165 e registrou que o Evangelho de São Marcos eram as "Memórias de Pedro". Depois Santo Irineu, que foi Padre Grego, teólogo e escritor cristão, viveu do ano de 130 a 202, e deixou escrito: "Depois da morte de Pedro e Paulo, Marcos, discípulo e intérprete de Pedro, transmitiu-nos por escrito o que ele havia pregado."
    Alguns pretendem que São Marcos já teria idade bastante durante a instituição da Eucaristia, e estaria entre os 72 discípulos enviados por Jesus, conforme apontamento de São Lucas, logo após o episódio da Transfiguração: "Depois disso, designou o Senhor ainda setenta e dois outros discípulos e mandou-os, dois a dois, adiante de Si, por todas as cidades e lugares para onde Ele tinha que ir." Lc 10,1
    Também afirmam que mais tarde ele teria abandonado Jesus, após ouvi-Lo anunciar que Sua carne é o Pão do Céu a ser comido por aqueles que desejam a Salvação, como registrou São João Evangelista: "Desde então, muitos de Seus discípulos se retiraram e já não andavam com Ele." Jo 6,66
    Ainda dizem os defensores dessa tese que São Pedro o teria reconvertido tempos depois, levando-o consigo em suas viagens e até Roma. Mas não há nenhum sério registro a favor desses relatos, a não ser uma lista dos '70 discípulos' de Santo Hipólito, obra pouco consistente escrita entre os séculos II e III, segunda a qual, talvez por falta de nomes para completar o rol, haveria três Marcos: o Evangelista, o João Marcos e o Marcos, primo de Barnabé.
    Ademais, a mesma tradição, que aponta a casa de Maria como o Cenáculo, indica o Jardim das Oliveiras como sua propriedade, e identifica o jovem, que fugiu nu quando Jesus foi preso, como São Marcos, o que o coloca bem próximo aos Apóstolos e explicaria sua familiaridade com São Pedro. Está em seu Evangelho: "Seguia-o um jovem coberto somente de um pano de linho; e prenderam-no. Mas, lançando ele de si o pano de linho, escapou-lhes despido." Mc 14,51-52


    O Evangelho de São Marcos é pontual, truncado, nervoso, e, dada a autoridade de São Pedro, foi usado para complementar ou mesmo embasar os Evangelhos de São Mateus, a priori, e de São Lucas. Este último chega a usar frases inteiras de São Marcos, repetindo inclusive seus vários erros na língua grega, quando nosso médico a dominava tão bem. Nisso deve ser vista uma profunda reverência ao Príncipe dos Apóstolos, além da extrema fidelidade de São Lucas à Palavra.
     É o mais usado pela Igreja depois do de São Mateus. De fato, seu vocabulário é pobre, tem erros gramaticais e apresenta apenas dois discursos de Jesus, mas é prático e realista, e dá detalhes bem verossímeis, como duas frases de Jesus em aramaico, que só São Mateus usou. São Marcos, enfim, é o único que apresenta Jesus como: '... o filho de Maria...' Mc 6,3
     Fiel espelho da humildade de São Pedro, ele não menciona as honras nem o destaque que lhe foi dado por Jesus, mas dá pormenores das três negações como nenhum Evangelho, o que comprova o Príncipe dos Apóstolos como sua fonte de informação e dá indícios do quanto que este fato pesou na consciência do grande pescador de almas.
    Batizado e ordenado bispo por São Pedro, suas missões encheram de orgulho o Bispo de Roma, que, confiante em sua inspiração, mandou-o ao Egito. Aí ele obteve grande sucesso e foi homenageado, pela Igreja Ortodoxa Copta, com uma catedral no Cairo, a maior de toda a África, cujas fundações contam mais de 1900 anos.


    Após o martírio de São Pedro, tratou de erigir-lhe uma igreja na cidade de Alexandria, onde foi o primeiro bispo segundo registros de São Jerônimo e Eusébio. Nesses termos, pode-se dizer que São Marcos foi o fundador do cristianismo na África. Por sinal, vários aspectos da liturgia da Igreja Ortodoxa Copta são atribuídos a ele, sem que tenha havido controvérsias.
    Em Alexandria, então a segunda maior cidade do Império Romano, menor apenas para a própria Roma, na Páscoa do ano de 68 São Marcos foi martirizado por pagãos que cultuavam deuses gregos, pois a cultura helenística aí ainda predominava, além de várias regiões do Oriente Médio. Uma tradição diz que lhe amarram um corda ao pescoço e arrastaram-no pelas ruas. Outra, que ele foi morto no altar, enquanto celebrava a Eucaristia.
    Em 828, seus restos mortais foram roubados da Alexandria por mercadores venezianos, pois temiam que fossem violados por atos de vandalismo no repentino 'crescimento' do Islamismo, na verdade imposto por força da espada. Eles esconderam essas relíquias entre a carne de porco, para que os muçulmanos não inspecionassem a carga. Em Veneza, por fim, foi-lhes construída a Basílica de São Marcos, onde se encontram sob o altar.


    São Marcos, rogai por nós!