sábado, 31 de maio de 2025

A Santíssima Trindade


    Temos, de fato, um só Deus, mas, não há como negar, que Se revelou Três Pessoas. A despeito de qualquer estranheza que essa informação possa causar, foi assim que as revelações se deram e é assim que temos que acolhê-las, por mero amor à Verdade. Antes que algo por demais complexo, ou mesmo inconcebível a nosso intelecto, esse é apenas mais um mistério a respeito do Todo Poderoso. Com efeito, e sem nos deixar seduzir por grosseiras simplificações, verdadeiras tentações contra a humildade e a prudência, tal constatação é absolutamente notória no Livro Sagrado.
    Ainda no Livro de Gênesis, a Abraão foi dada essa contemplação, mas, após registros no singular e no plural, o sagrado autor acaba por apontar dois destes 'Homens' apenas como anjos: "Naqueles dias, o Senhor apareceu a Abraão junto ao carvalho de Mambré, quando ele estava sentado à entrada de sua tenda, no maior calor do dia. Levantando os olhos, Abraão viu Três Homens de pé, perto dele. Assim que Os viu, correu a Seu encontro e prostrou-se por terra. E disse: 'Meu Senhor, se ganhei Tua amizade, peço-Te que não prossigas viagem, sem parar junto a mim, Teu servo. Mandarei trazer um pouco de água para lavar-Vos os pés, e descansareis debaixo da árvore. Farei servir um pouco de pão para refazerdes Vossas forças, antes de continuar a viagem. Pois foi para isso mesmo que Vos aproximastes de Vosso servo.' Eles responderam: 'Faze como disseste.' Eles perguntaram-lhe: 'Onde está Sara, tua mulher?' 'Está na tenda', respondeu ele. E um deles disse: 'Voltarei, sem falta, no ano que vem, por este tempo, e Sara, tua mulher, já terá um filho.' Os Homens partiram, pois, na direção de Sodoma, enquanto Abraão ficou na presença do Senhor. Pela tarde, chegaram os dois anjos a Sodoma. Lot, que estava assentado à porta da cidade, ao vê-los, levantou-se e foi-lhes ao encontro, prostrando-se com o rosto por terra." Gn 18,1-6.9-10a.22;19,1
    Contudo, no Antigo Testamento não é raro vermos Deus confundir-Se com Seu anjo. Aconteceu com Agar, que de Abraão concebeu Ismael e provocou ciúmes em Sara: "O anjo do Senhor, encontrando-a no deserto junto a uma fonte que está no caminho de Sur, disse-lhe: 'Agar, escrava de Sarai, de onde vens? E para onde vais?' 'Eu fujo de Sarai, minha senhora', respondeu ela. 'Volta para tua senhora', tornou o anjo do Senhor, 'e humilha-te diante dela.' Agar deu ao Senhor, que lhe tinha falado, o nome: 'Vós sois El-Roí, porque', dizia ela, 'não vi eu, aqui mesmo, o Deus que me via?'" Gn 16,7-9.13
    E aconteceu com o próprio Abraão, quando aceitou o pedido de Deus para sacrificar Isaac e estava para executá-lo: "Pela segunda vez chamou o anjo do Senhor a Abraão, do Céu, e disse-lhe: 'Juro por Mim mesmo', diz o Senhor: 'porque fizeste isto, e não Me recusaste teu filho, teu filho único, Eu abençoar-te-ei.'" Gn 22,15-16
    Aliás, bem antes de tudo isso já estava nas primeiras linhas da Bíblia um expressivo diálogo, que os Padres da Igreja sempre entenderam como dado entre a Trindade Santa: "Então Deus disse: 'Façamos o homem a nossa imagem e semelhança.'" Gn 1,26a
    Assim também depois que Eva e Adão comeram da árvore da ciência do bem e do mal, o que Deus havia proibido a Adão (cf. Gn 2,17). Aí o Criador diz da Unidade entre Eles, "Nós", mas também da Pessoalidade de cada Um, "Um de Nós": "E o Senhor Deus disse: 'Eis que o homem se tornou como Um de Nós, conhecedor do bem e do mal. Agora, pois, cuidemos que ele não estenda sua mão e também tome do fruto da árvore da Vida e o coma, e viva eternamente.'" Gn 3,22
    E na aparição do Livro do Profeta Isaías, Deus significativamente é três vezes saudado pela mais alta ordem dos anjos: "No ano da morte do rei Ozias, eu vi o Senhor sentado num muito elevado trono; as franjas de Seu manto enchiam o Templo. Os serafins mantinham-se junto d'Ele. Cada um deles tinha seis asas; com um par de asas velavam a face; com outro cobriam os pés; e, com o terceiro, voavam. Suas vozes revezavam-se e diziam: 'Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus do Universo! A Terra inteira proclama Sua Glória!' A este brado as portas estremeceram em seus gonzos e a casa encheu-se de fumo. 'Ai de mim', gritava eu. 'Estou perdido porque sou um homem de impuros lábios, habito com um povo também de impuros lábios, e, entretanto, meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!'" Is 6,1-5
    A mesma tripla saudação a Deus é vista no Livro de Apocalipse de São João, quando aparecem os quatro querubins que são símbolos dos Evangelhos, e vinte e quatro anjos que representam nossos Sacerdotes. E tal visão tanto diz de Cristo, que voltará, como do Pai, o Criador: "Ainda havia diante do trono um límpido mar, como cristal. Diante do trono e ao redor, quatro animais vivos cheios de olhos na frente e atrás. Não cessavam de clamar dia e noite: 'Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus, o Dominador, o que é, o que era e o que deve voltar.' ... os vinte e quatro anciãos profundamente inclinavam-se diante d'Aquele que estava no trono, prostravam-se diante d'Aquele que vive pelos séculos dos séculos e depunham suas coroas diante do trono, dizendo: 'Vós sois digno Senhor, Nosso Deus, de receber a honra, a Glória e a majestade, porque criaste todas coisas, e por Vossa vontade é que existem e foram criadas.'" Ap 4,6.8b.10
    Mas a primeira cena bíblica que menciona as Três Pessoas da Santíssima Trindade é no Novo Testamento, que é propriamente o ápice da Revelação, quando se lê a Anunciação do Arcanjo São Gabriel a Maria Santíssima. Está no Evangelho Segundo São Lucas: "O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo envolvê-te-á com Sua sombra. Por isso, o Santo que nascer de ti será chamado Filho de Deus." Lc 1,35
    E a primeira cena de manifestação das Três Pessoas de Deus dá-se imediatamente após o Batismo do Senhor por São João Batista. O Evangelho Segundo São Mateus apontou : "Depois que Jesus foi batizado, logo saiu da água. Eis que os Céus se abriram e se viu descer sobre Ele, em forma de pomba, o Espírito de Deus. E do Céu baixou uma voz: 'Eis Meu Amado Filho, em Quem ponho Minha afeição.'" Mt 3,16-17
    Já no Evangelho Segundo São João, quando profetiza o Pentecostes, o próprio Jesus menciona as Três Pessoas da Santíssima Trindade: "Quando vier o Paráclito, que Vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade... Ele dará testemunho de Mim." Jo 15,26
    Por fim, se não fossem Três distintas Pessoas, por que Nosso Salvador deixaria expressamente ordenado que o Sacramento do Batismo se fizesse em Nome d'Eles Três? "Ide, pois, e ensinai a todas nações. Batizai-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo." Mt 28,19


DEUS PAI

    Que Deus é Pai, temos do inquestionável ensinamento do próprio Jesus, que disse a Santa Miaria Madalena logo que lhe apareceu pós ressuscitar, mandando um recado aos Apóstolos: "Subo a Meu Pai e Vosso Pai, a Meu Deus e Vosso Deus." Jo 20,17b
    Aliás, Ele tinha ensinado a rezar desde o início de Sua Missão, indicando a Quem e como devemos nos dirigir: "Pai Nosso que estais nos Céus..." Mt 6,9b
    Pois 700 anos antes, Isaías, proeminente personagem, já havia percebido: "Olhai do alto do Céu e vede de Vossa santa e gloriosa morada: que foi feito de Vosso ciumento amor e de Vosso poder, e da emoção de Vosso coração? Dai livre expansão a Vossa ternura, porque sois Nosso Pai." Is 63,15-16a
    Até lembrou a Criação: "E, no entanto, Senhor, Vós sois Nosso Pai. Nós somos a argila da qual Vós sois o Oleiro: todos nós fomos modelados por Vossas mãos." Is 64,8
    E no Livro de Tobias, seu pai Tobit reafirma essa realidade: "Exaltai-O na presença de todos seres vivos, pois Ele é Nosso Senhor, Ele é Nosso Deus, Ele é Nosso Pai, Ele é Deus por todos séculos!" Tb 13,4b
    Além da figura de um Ancião, vista por Daniel no relato mais abaixo, a Pessoa de Deus Pai distintamente apareceu no Livro do Profeta Ezequiel, que foi um grande místico, embora claramente tenha dito que se tratava apenas de uma imagem de Sua Glória: "Acima dessa abóbada havia uma espécie de trono, semelhante a uma pedra de safira, e, bem no alto dessa espécie de trono, uma Humana Silhueta. Vi que Ela possuía um vermelho fulgor, como se houvesse sido banhada em fogo, desde o que parecia ser Sua cintura, para cima, enquanto que, para baixo, vi algo como fogo que esparzia clarões por todos lados. Como o arco-íris que aparece nas nuvens em dias de chuva, assim era o resplendor que A envolvia. Era esta visão a imagem da Glória do Senhor." Ez 1,26-28


     A primeira e mais evidente manifestação de Jesus, enquanto Segunda Pessoa de Deus, aparece ainda no Antigo Testamento, no Livro do Profeta Daniel. Ele surge distintamente numa cena com o Pai: "Continuei a olhar, até o momento em que foram colocados os tronos e um Ancião chegou e sentou-Se. Brancas como a neve eram Suas vestes, e tal como a pura lã era Sua cabeleira; Seu trono era feito de chamas, com rodas de fogo ardente. Saído de diante d'Ele, corria um rio de fogo. Milhares e milhares serviam-nO, dezenas de milhares assistiam-nO! O tribunal deu audiência e os livros foram abertos. Olhando sempre a noturna visão, vi um Ser, semelhante ao Filho do Homem, vir sobre as nuvens do Céu: dirigiu-Se para o lado do Ancião, diante de Quem foi conduzido. A Ele foram dados império, Glória e realeza, e todos povos, todas nações e povos de todas línguas serviram-nO. Seu domínio será eterno, nunca cessará, e Seu Reino jamais será destruído." Dn 7,9-10.13-14
    E por São João Evangelista, que é mais teólogo que narrador, com ainda mais evidência vemos Jesus como Deus Filho, quase que a despeito da didática que Ele empregou ao revelar-Se pouco a pouco durante os mais de três anos que esteve entre os Apóstolos. Ao atestar Sua clarevidência, logo após ser batizado por São João Batista, São Bartolomeu vai declará-Lo Rei de Israel, mas Ele promete muito mais que manifestação de poderes: a própria realização do sonho de Jacó (cf. Gn 28,12), a conexão entre o Céu e a Terra: "Falou-Lhe Natanael: 'Mestre, Tu és o Filho de Deus, Tu és o Rei de Israel.' Jesus replicou-lhe: 'Porque Eu te disse que te vi debaixo da figueira, crês! Verás coisas maiores do que esta.' E ajuntou: 'Em Verdade, em Verdade, digo-vos: vereis o Céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.'" Jo 1,50-51
    Na passagem adiante, ainda que apenas indiretamente afirmando Sua onipotência, que é atributo exclusivo de Deus, Jesus diz que Ele mesmo, e não o Pai, realizará a Ressurreição dos Mortos: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair. E Eu hei de ressuscitá-lo no Último Dia." Jo 6,44
    Realmente igualava-Se a Deus nesse quesito: "Com efeito, como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá Vida, assim o Filho também dá Vida a quem Ele quer." Jo 5,21
     Ele será ainda mais explícito quando diz aos religiosos judeus, no Templo de Jerusalém: "Vós sois cá de baixo, Eu sou lá de cima. Vós sois deste mundo, Eu não sou deste mundo." Jo 8,23
    Noutra passagem, atestando Sua Divindade, Comunhão e Unidade com o Pai, Ele afirma: "Eu e o Pai somos Um." Jo 10,30
    Sem dúvida, só Deus colocaria a Si mesmo como centro de todas coisas, e Jesus peremptoriamente disse aos Apóstolos: "... sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,5
    São Mateus também registrou flagrantes do Jesus Essencial, Absoluto, como quando Ele disse de Si e não do Pai: "Quem não está Comigo está contra Mim..." Mt 12,30
    Amado Discípulo, aliás, já começa seu Evangelho afirmando que a Palavra de Deus era o próprio Deus: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus." Jo 1,1
    Ele confirma o Verbo, ou seja, a Palavra de Deus, como sendo Jesus: "E o Verbo fez-Se Carne e habitou entre nós, e vimos Sua Glória, a Glória que o Filho Único recebe de Seu Pai, cheio de Graça e de Verdade." Jo 1,14
    E diante da samaritana, no poço de Jacó, o próprio Jesus vai declarar-Se o Salvador, ou seja, Deus: "Respondeu a mulher: 'Sei que deve vir o Messias (que se chama Cristo); pois quando vier, Ele fá-nos-á conhecer todas coisas.' Disse-lhe Jesus: 'Sou Eu, Quem fala contigo.'" Jo 4,25-26
    Como Aquele que havia de vir, também Se declarou, através de seguidores, a São João Batista, que parece ter estranhado Sua profunda humanidade: "E João chamou dois de seus discípulos e enviou-os a Jesus, perguntando: 'És Tu Aquele que há de vir ou devemos esperar por outro?' Ora, naquele momento Jesus havia curado muitas pessoas de enfermidades, de doenças e de espíritos malignos, e dado a vista a muitos cegos. Ele respondeu-lhes: 'Ide anunciar a João o que tendes visto e ouvido: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, aos pobres é anunciado o Evangelho. E bem-aventurado é aquele para quem Eu não for ocasião de queda!'" Lc 7,19.21-23
    Ao redor d'Ele, segundo o Amado Médico, desde Seus primeiros milagres o povo já sentia fortemente a presença de Deus, e afirmava: "Deus veio visitar Seu povo." Lc 7,16
    E por força das maravilhas que realizava, no episódio da tormenta, como se lê no Evangelho Segundo São Marcos, os Apóstolos ainda incertos começaram a perguntar-se: "Quem é Este, a Quem até o vento e o mar obedecem?" Mc 4,41
    Afirmando mais uma vez Sua onipotência, Ele deixou explícito que não precisa evocar o Pai para libertar a humanidade: "... todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo. Portanto, se o Filho vos libertar, sereis verdadeiramente livres." Jo 8,34.36
    Em diálogo com São Filipe, e já se aproximando a hora de Sua Paixão, não escondeu Sua identidade: "Disse-Lhe Filipe: 'Senhor, mostra-nos o Pai e isso nos basta.' Respondeu Jesus: 'Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe? Aquele que Me viu, também viu o Pai.'" Jo 14,8-9
    Ele proclamava-Se o Filho do Homem, um enigmático título que talvez apenas afirme Sua natureza também humana, mas o título de Senhor é exclusivo de Deus, e Ele sentenciou: "Porque o Filho do Homem é Senhor também do sábado." Mt 12,8
    E na cena do lavas-pés, Ele foi ainda mais explícito: "Vós Me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque EU SOU." Jo 13,13
    Esse titulo, até então usado por apenas Deus, Ele havia empregado perante os judeus, entre outras vezes: "Por isso, disse-vos: morrereis no vosso pecado. Porque se não crerdes que EU SOU, morrereis em vosso pecado." Jo 8,24
    São Tomé, enfim, após duvidar de Sua Ressurreição por uma semana, vai proclamá-Lo Senhor e Deus: "Meu Senhor e Meu Deus!" Jo 20,28
    A Carta de São Paulo aos Filipenses também deixa muito claro Quem é o Senhor: "Por isso, Deus soberanamente exaltou-O e outorgou-Lhe o Nome que está acima de todos nomes, para que ao Nome de Jesus se dobre todo joelho no Céu, na Terra e nos infernos. E toda língua confesse, para a Glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é o Senhor." Fl 2,9-11
    E recitando o Hino Cristológico, disse de Sua Divindade: "Sendo Ele de condição divina, não Se prevaleceu de Sua igualdade com Deus..." Fl 2,6
    Carta de São Paulo aos Colossenses chegou mesmo a apontá-Lo como o Visível do Invisível Deus, plena Encarnação de Deus: "Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda Criação. Porque aprouve a Deus fazer n'Ele habitar toda plenitude e por Seu intermédio reconciliar Consigo todas criaturas..." Cl 1,15.19-20
    Apesar de ciente que o Pai e o Filho são Um só, num 'lapso' ele diz que Deus mesmo derramou Seu sangue pela Santa Igreja Católica, e não Jesus. É do Livro de Atos dos Apóstolos, enquanto se despedia dos anciãos da cidade de Éfeso: "Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com Seu próprio Sangue." At 20,28
    E a Carta de São Paulo a São Tito terminou por afirmar textualmente: "Veio para ensinar-nos a renunciar à impiedade e às mundanas paixões, e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade, na expectativa de nossa feliz esperança, a Gloriosa Aparição de Nosso Grande Deus e Salvador, Cristo Jesus..." Tt 2,12-13
    Com suas convicções já muito bem refletidas, a Primeira Carta de São João atesta quase expressamente que Jesus é Deus: "Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em Seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a Vida Eterna." 1 Jo 5,20



    Tal qual a Divindade de Jesus, o reconhecimento do Espírito Santo como a Terceira Pessoa de Deus não foi imediato. Mas as Sagradas Escrituras já O mencionam logo nas primeiríssimas palavras: "No princípio, Deus criou os céus e a Terra. A Terra estava informe e vazia as trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus pairava sobre as águas." Gn 1,1-2
    A Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios, no mesmo sentido, também dava o título de Senhor ao Santo Paráclito, anotando Sua autonomia para libertar-nos do pecado: "Ora, o Senhor é o Espírito, e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade." 2 Cor 3,17
    Em distinção ao Antigo, a Carta de São Paulo aos Romanos diz de Seu Ministério pelo Novo Testamento: "A Lei do Espírito de Vida libertou-me, em Jesus Cristo, da Lei do pecado e da morte." Rm 8,2
    E a Carta de São Paulo aos Gálatas aponta-O como Guia da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Porém, se deixai-vos guiar pelo Espírito, não estais sob a Lei." Gl 5,18
    A Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios igualmente afirmou Sua onisciênciaatributo exclusivo de Deus: "Assim também as coisas de Deus: ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus." 1 Cor 2,11
    Ora, foi através de Seu poder que Nossa Senhora concebeu Jesus: "... ela concebeu por Virtude do Espírito Santo." Mt 1,18
    E desde o Primeiro Concílio da Igreja, dado em Jerusalém por meio de Apóstolos e anciãos, é sempre o Espírito Santo Quem elucida as questões da Sã Doutrina. São Tiago Menor, então bispo da Cidade Santa, fez registrar na carta à igreja de Antioquia, após o inspirado e determinante voto de São Pedro (cf. At 15,7s): "Com efeito, bem pareceu ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do indispensável seguinte..." At 15,28
    É Ele Quem investe os bispos, como vimos São Paulo afirmar aos anciãos de Éfeso: "Cuidai de vós mesmos e de todo rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastorear a Igreja de Deus..." At 20,28
    Era Ele, por Sua total independência, Quem enviava Apóstolos e discípulos, como São Lucas registrou: "Enquanto celebravam o culto do Senhor, depois de terem jejuado, disse-lhes o Espírito Santo: 'Separai-Me Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho destinado.' Enviados assim pelo Espírito Santo, foram a Selêucia e dali navegaram para a ilha de Chipre." At 13,2.4
    Como claramente já havia feito com o diácono São Filipe: "Ora, um etíope, eunuco, ministro da rainha Candace, de Etiópia, e superintendente de todos seus tesouros, tinha ido a Jerusalém para adorar. Voltava sentado em seu carro, lendo o Profeta Isaías. O Espírito disse a Filipe: 'Aproxima-te para bem perto deste carro.'" At 8,27b-29
    Ou impedia o anúncio do Evangelho em determinadas áreas: "Chegou a Derbe e depois a Listra. Havia ali um discípulo, chamado Timóteo, filho de uma judia cristã, mas de pai grego... Paulo quis que ele fosse em sua companhia. Atravessando em seguida Frígia e a província de Galácia, foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a Palavra de Deus na província de Ásia." At 16,1.3a.6
    É Ele Quem distribui os divinos dons, como Apóstolo dos Gentios atesta: "Mas um e o mesmo Espírito distribui todos estes dons, repartindo a cada um como Lhe apraz." 1 Cor 12,11
    Foi Ele que confirmou a divina filiação de Jesus: "... que, segundo o Espírito de Santidade, foi estabelecido Filho de Deus no poder por Sua Ressurreição dos Mortos." Rm 1,4
    Porque é o Espírito Santo que, após a Ascensão de Jesus, dá testemunho de Sua Missão, conforme São João Apóstolo: "E o Espírito é Quem dá testemunho d'Ele, porque o Espírito é a Verdade." 1 Jo 5,6b
    Aliás, como Jesus mesmo havia previsto: "Entretanto, digo-vos a Verdade: convém a vós que Eu vá! Porque, se Eu não for, o Paráclito não virá a vós. Mas se Eu for, enviá-Lo-ei. E, quando Ele vier, convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do Juízo. Convencerá o mundo a respeito do pecado, que consiste em não crer em Mim. Convencê-lo-á a respeito da justiça, porque Eu vou para junto de Meu Pai e vós já não Me vereis. Convencê-lo-á a respeito do Juízo, que consiste em que o príncipe deste mundo já está julgado e condenado." Jo 16,7-11
    E velando por Seu Glorioso Ministério enquanto inspirador da Igreja, por sete vezes determinou, repetindo a cada uma das sete dioceses de Ásia de então, no Apocalipse: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." Ap 2,7.11.17.29;3,6.13.22
    Ademais, ainda nos primeiros anos da Igreja, São Pedro diz que mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus: "Ananias, por que Satanás tomou conta do teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus." At 5,3-4
    E d'Ele mesmo ouviu a ordem que o levou a presenciar o 'Pentecostes dos Gentios', quando batizaria o primeiro grupo de não cristãos: "Enquanto Pedro refletia sobre a visão, disse-lhe o Espírito: 'Eis aí três homens que te procuram. Levanta-te! Desce e vai com eles sem hesitar, porque sou Eu Quem os enviou.'" At 10,19-20
    Ora, é o Espírito Santo que pode restituir-nos a semelhança divina, como São Paulo argumenta: "Mas todos nós temos o rosto descoberto, refletimos como num espelho a Glória do Senhor e vemo-nos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor." 2 Cor 3,18
    Enfim, só sob Sua moção é-nos revelado que Jesus é Deus: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3
     Pois Ele é o Autor da Graça, como os seguidores da tradição de São Paulo anotaram na Carta aos Hebreus: "Quanto pior castigo julgais que merece quem calcar aos pés o Filho de Deus, profanar o Sangue da Aliança, em que foi santificado, e ultrajar o Espírito Santo, Autor da Graça!" Hb 10,29
    Por isso, Jesus até admitia a 'ambiguidade' de Sua manifestação humana como um empecilho à , mas não admitia ofensas ao Santo Paráclito, as quais não terão perdão se não houver as devidas penitências: "Todo aquele que tiver falado contra o Filho do Homem será perdoado. Se, porém, falar contra o Espírito Santo, não alcançará perdão nem neste nem no vindouro século." Mt 12,32

O PAI EM JESUS

     Na oração que faz ao Pai, pedindo pela Unidade da Igreja, Jesus refere-Se a Sua Comunhão com Ele, que é parte da Trindade Santa, como modelo para nós: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam Um, como Nós somos Um: Eu neles e Tu em Mim, para que sejam perfeitos na Unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Pediu aos judeus em Jerusalém durante a Festa da Dedicação, quando evocou Seus milagres como testemunho de Deus e de Sua Divindade: "Se Eu não faço as obras de Meu Pai, não Me creiais. Mas se as faço, e se não quiserdes crer em Mim, crede em Minhas obras para que saibais e reconheçais que o Pai está em Mim e Eu no Pai." Jo 10,37-38
    Assim explicou como podia fazê-las: "Mas o Pai, que em Mim permanece, é que realiza Suas próprias obras.'"Jo 14,10b
    E pediu a todos nós, dizendo aos Apóstolos: "Crede-Me: Eu estou no Pai, e o Pai em Mim." Jo 14,11
    Disse do poder de Sua Ressurreição, que atestaria a Comunhão dos Santos: "Naquele dia conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e Eu em vós." Jo 14,20
    Esse era o poder de Sua Palavra: "E, se julgo, Meu julgamento é conforme a Verdade, porque não estou sozinho, mas Comigo está o Pai que Me enviou." Jo 8,16
     De fato, por suas fortes vivências espirituais, São Paulo deu esse testemunho sobre Jesus, acima anotado: "Porque aprouve a Deus fazer n'Ele habitar toda plenitude..." Cl 1,19
    
O ESPÍRITO SANTO EM JESUS

    O Espírito de Deus sempre esteve com Jesus, como vimos durante Seu Batismo e continuará logo após, quando foi tentado: "Cheio do Espírito Santo, voltou Jesus do Jordão e pelo Espírito foi levado ao deserto..." Lc 4,1
    Pois assim era o cumprimento de uma profecia de Isaías, declarada por Jesus em Nazaré ainda no início de Sua Missão: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu. E enviou-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres, para sarar os contritos de coração..." Lc 4,18
    Era o Espírito de Deus que Lhe dava poder: "Mas, se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    E foi Ele Quem arrematou os últimos capítulos da Revelação, iniciados por Cristo, que nestes termos atestou a Comunhão da Santíssima Trindade, na última noite entre os Apóstolos: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas agora não podeis suportá-las. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensiná-vos-á toda Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir e anunciá-vos-á as coisas que virão. Ele glorificá-Me-á, porque receberá do que é Meu, e anunciá-vos-á. Tudo que o Pai possui é Meu. Por isso, Eu disse: 'Há de receber do que é Meu, e anunciá-vos-á.'" Jo 16,12-15


TRÊS PESSOAS EM PERFEITA COMUNHÃO

    Entre Eles, é mais que certo que existe uma relação de amor. Jesus afirmou: "O Pai ama-Me porque dou Minha Vida para retomá-la." Jo 10,17
    E disse pouco antes do início de Sua Paixão: "O mundo, porém, deve saber que amo o Pai e procedo como o Pai Me ordenou." Jo 14,31a
    Versando sobre nossa aptidão para a caridade, São Paulo completa: "Porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado." Rm 5,5
    Sem dúvida, o Ministério dos Três é perfeitamente coincidente, como Jesus disse: "Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu Nome, ensiná-vos-á todas coisas e recordá-vos-á tudo que vos tenho dito." Jo 14,26
    Citando a Unção que recebemos no Sacramento da Crisma, São João Evangelista fala da Comunhão que é característica do Ministério do Espírito Santo, e é só mantida pela fidelidade ao Evangelho, que ele identifica como a Sagrada Tradição: "Vós, porém, tendes a Unção do Santo e sabeis todas coisas. Que permaneça em vós o que tendes ouvido desde o princípio. Se em vós permanecer o que ouvistes desde o princípio, também permanecereis vós no Filho e no Pai. E não tendes necessidade de que alguém vos ensine, mas, como Sua Unção vos ensina todas coisas, assim é ela verdadeira e não mentira. Permanecei n'Ele, como ela vos ensinou." 1 Jo 2,20.24.27b
    E aqui temos mais um exemplo do entendimento entre Eles. Jesus diz: "Pois o Pai ama o Filho e mostra-Lhe tudo que faz." Jo 5,20a
    Exemplo do poder que compartilham: "Pois como o Pai tem a Vida em Si mesmo, assim também deu ao Filho ter a Vida em Si mesmo, e conferiu-Lhe o poder de julgar, porque é o Filho do Homem." Jo 5,26-27
    Do acesso a Deus: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim." Jo 14,6
    Exemplo de colaboração: "Jesus tomou a palavra e disse-lhes: 'Em Verdade, em Verdade, digo-vos: de Si mesmo o Filho não pode fazer coisa alguma. Ele só faz o que vê o Pai fazer. E tudo que o Pai faz, semelhantemente faz o Filho.'" Jo 5,19
    De testemunho: "... porque as obras que Meu Pai Me deu para executar, essas mesmas obras que faço, testemunham a Meu respeito que o Pai Me enviou." Jo 5,36a
    Aí incluso o testemunho do Santo Espírito: "Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim." Jo 15,26
    Exemplo de fidelidade à Palavra de Deus: "Em Verdade, não falei por Mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Ele mesmo prescreveu-Me o que devo dizer e o que devo ensinar. E Eu sei que Seu Mandamento é Vida Eterna. Portanto, o que digo, digo-o como Me falou o Pai." Jo 12,49-50
    Exemplo da total sintonia entre Eles: "Esta é a vontade de Meu Pai: que todo aquele que vê o Filho e n'Ele crê, tenha a Vida Eterna. E Eu ressuscitá-lo-ei no Último Dia." Jo 6,40    
    Ele expressava-a como Sua fonte de Vida: "Disse-lhes Jesus: 'Meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou e cumprir Sua obra.'" Jo 4,34
    E em estrita obediência, mesmo nos instantes que antecederam Sua prisão: "Adiantou-Se um pouco e, prostrando-Se com a face por terra, assim rezou: 'Meu Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice! Todavia não se faça o que Eu quero, mas sim o que Tu queres.'" Mt 26,39
    Além do momento do Batismo, o próprio Pai também expressou essa Comunhão no dia da Transfiguração do Senhor: "E daquela Nuvem fez-se ouvir uma voz que dizia: 'Eis Meu Amado Filho, em Quem pus toda Minha afeição. Ouvi-O!'" Mt 17,5
    Bem como no Domingo de Ramos, enquanto Jesus rezava ao ver chegada Sua Hora: "'Pai, glorifica Teu Nome!' Nisto veio do Céu uma voz: 'Já O glorifiquei e tornarei a glorificá-Lo.' Ora, a multidão que ali estava, ao ouvir isso, dizia ter havido um trovão. Outros replicavam: 'Um anjo falou-Lhe.' Jesus disse: 'Essa voz não veio por Mim, mas sim por vossa causa. Agora é o Juízo deste mundo; agora será lançado fora o príncipe deste mundo.'" Jo 12, 28-31
    Como vimos, Ele também ordenou o Batismo em Nome das Três Pessoas de Deus: "Ide, pois, e ensinai a todas nações. Batizai-as em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo." Mt 28,19
    São João Batista, por sua vez, assim explicou o Batismo que se realizaria pelo poder de Jesus: "Ele batizá-vos-á no Espírito Santo..." Mt 3,11
    E por mais de uma vez Jesus falou de duas outras Pessoas de Deus: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    Ora, a alegria de Jesus era sentida através do Divino Paráclito. Foi o que se deu quando os 72 discípulos voltaram vitoriosos nos embates contra malignos espíritos: "Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: 'Pai, Senhor do Céu e da Terra, Eu dou-Te graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos.'" Lc 10,21
    Segundo São João, um 'pré-Pentecostes' teria acontecido pelas mãos do próprio Jesus, já em Sua primeira aparição ao Colégio dos Apóstolos: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo.'" Jo 20,22
    E a Primeira Carta de São Pedro atribuía a cada Um d'Eles uma específica função, dizendo que os cristãos eram "... eleitos segundo a presciência de Deus Pai, e santificados pelo Espírito, para obedecer a Jesus Cristo..." 1 Pd 1,2
    São Paulo, para melhor explicar a ação de Deus, também menciona as Três Pessoas: "Ora, Quem confirma a nós e a vós em Cristo, e nos consagrou, é Deus. Ele marcou-nos com Seu selo e a nossos corações deu o penhor do Espírito." 2 Cor 21-22
    De fato, não podemos chegar ao Pai sem a ajuda do Filho, como Jesus mesmo afirmou: "... ninguém conhece o Filho, senão o Pai, e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-Lo." Mt 11,27
    Nem podemos chegar a Jesus sem a ajuda do Pai, ainda segundo Nosso Senhor, como citamos acima: "Ninguém pode vir a Mim se o Pai, que Me enviou, não o atrair." Jo 6,44a
    Ou sequer perceber que Jesus é Deus sem a ajuda do Espírito Santo, como vimos São Paulo asseverar: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3
    Aliás, foi o próprio Deus Pai Quem revelou a São Pedro que Jesus era o Cristo. Nosso Salvador aí reconheceu Sua ação: "Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus." Mt 16,17


A TRINDADE SANTA QUER HABITAR EM NÓS

    Jesus ainda prometeu que, se fôssemos verdadeiramente fiéis a Sua Palavra, Ele e o Pai viriam fazer morada em nós: "Se alguém Me ama, guardará Minha Palavra e Meu Pai amá-lo-á. E Nós viremos a ele e nele faremos Nossa morada." Jo 14,23
    Pois a moção do Santo Paráclito, Ele já havia assegurado: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dá-vos-á outro Paráclito, para que convosco fique eternamente. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,16-17
    E assim é, através do Espírito Santo, que nos tornamos a Igreja Católica, conforme a Carta de São Paulo aos Efésios: "E vós também sois integrados nesta construção, para tornarde-vos morada de Deus pelo Espírito." Ef 2,22
    Porque, ainda segundo este Santo, podemos concluir que o Divino Espírito também vem para habitar em nós: "Ou não sabeis que vosso corpo é Templo do Espírito Santo, que em vós habita, o Qual recebestes de Deus e que, por isso mesmo, já não vos pertenceis?" 1 Cor 6,19
    No mesmo sentido, Nosso Senhor havia dito da Santa Eucaristia: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue permanece em Mim e Eu nele." Jo 6,56
    Porém, como inicialmente só a divindade do Pai era conhecida, para não confundir e assim deixar que as divinas revelações se dessem por si mesmas, Jesus só mencionava Sua Unidade com Ele, como vimos: "Eu e o Pai somos Um." Jo 10,30
    Tanto que São João Evangelista, ao falar sobre a Comunhão, também mencionou apenas o Pai e o Filho: "... o que vimos e ouvimos, nós anunciamos-vos, para que vós também tenhais Comunhão conosco. Ora, nossa Comunhão é com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,3
    Mas, mais à frente, ele vai completar sua formulação: "Se mutuamente nos amarmos, Deus permanece em nós e Seu amor em nós é perfeito. Nisto é que conhecemos que estamos n'Ele e Ele em nós, por Ele ter-nos dado Seu Espírito." 1 Jo 4,12-13
    Por fim, é de São Paulo esta inspiração que retrata as Três Pessoas de Deus naquelas que seriam Suas mais características manifestações, repetida como oração inicial pelo Sacerdote na Santa Missa: "A Graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e a Comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós!" 2 Cor 13,13
    Fica-nos na memória, pois, esta singela mas também esplendorosa visão da Santíssima Trindade que Santa Margarida-Maria Alacoque teve: "Apareceram-me sob a forma de três jovens vestidos de branco, todos resplandecentes de Luz, da mesma idade, estatura e beleza."

    "Santo, Santo, Santo, Senhor, Deus do universo! O Céu e a Terra proclamam Vossa Glória. Hosana nas alturas! Bendito O que vem em Nome do Senhor! Hosana nas alturas!"

Nossa Senhora da Visitação


    Assim a Visitação de Maria Santíssima a Santa Isabel foi narrada o Evangelho Segundo São Lucas, no qual a Anunciação do Senhor é datada a partir do dia em que esta sua parenta concebeu São João Batista:

    "No sexto mês, o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade de Galileia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem que se chamava José, da casa de Davi, e o nome da virgem era Maria. Entrando, o anjo disse-lhe:
    - Ave, cheia de Graça, o Senhor é contigo!
    Perturbou-se ela com estas palavras, e pôs-se a pensar o que significaria tal saudação. O anjo disse-lhe:
    - Não temas, Maria, pois encontraste Graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um Filho, e Lhe porás o Nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus dá-Lhe-á o trono de Seu pai Davi. Ele reinará eternamente na Casa de Jacó, e Seu Reino não terá fim.
    Maria perguntou ao anjo:
    - Como se fará isso, pois não conheço homem?
    Respondeu-lhe o anjo:
    - O Espírito Santo descerá sobre ti, e a força do Altíssimo envolvê-te-á com Sua sombra. Por isso, o Santo Ente que nascer de ti será chamado Filho de Deus. Isabel, tua parenta, também concebeu um filho em sua velhice. E já está no sexto mês aquela que é tida por estéril, porque a Deus nenhuma coisa é impossível.
    Então disse Maria:
    - Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo tua palavra.
    E o anjo afastou-se dela.
    Naqueles dias, Maria levantou-se e às pressas foi às montanhas, a uma cidade de Judá. Entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.
    Ora, Isabel apenas ouviu a saudação de Maria e a criança estremeceu em seu seio. Isabel ficou cheia do Espírito Santo, e exclamou em alta voz:
    - Bendita és tu entre as mulheres, e bendito é o fruto de teu ventre! De onde me vem esta honra? De vir a mim a Mãe de Meu Senhor? Pois assim que a voz de tua saudação chegou a meus ouvidos, a criança estremeceu de alegria em meu seio. Bem-aventurada és tu que creste, pois da parte do Senhor hão de cumprir-se as coisas que te foram ditas!
    E Maria disse:

    - Minha alma glorifica ao Senhor,
    meu espírito exulta de alegria em Deus, Meu Salvador,
    porque olhou para sua pobre serva.
    Por isto, desde agora todas gerações
    proclamá-me-ão bem-aventurada,
    porque em mim realizou maravilhas Aquele que é poderoso.
    Seu Nome é Santo,
    e Sua Misericórdia estende-se de geração em geração
    sobre os que O temem.
    Manifestou o poder de Seu braço,
    desconcertou os corações dos soberbos.
    Derrubou do trono os poderosos
    e exaltou os humildes.
    Saciou de bens os indigentes
    e despediu de mãos vazias os ricos.
    Acolheu a Israel, Seu servo,
    lembrado de Sua Misericórdia,
    conforme prometera a nossos pais,

    Maria ficou com Isabel cerca de três meses. Depois voltou para casa." 
                                                 Lc 1,26-56


NOSSA MÃE EM VISITAÇÃO POR MUNDO TODO

    Avisada pelo Arcanjo São Gabriel da gravidez de sua parenta, Maria viajou aproximadamente 100 quilômetros em companhia de São José para visitá-la, numa cidade das montanhas de Judá. Ou seja, além da radiante alegria que por tão grandes Graças partilhavam entre si, mesmo durante a gravidez que traria ao mundo o Salvador ela não poupou esforços para servir a quem precisava. Ciosa dos cuidados da casa de Santa Isabel em tão especial momento, Nossa Senhora aí ficou até o Nascimento de São João Batista e sua circuncisão.
    Mas as visitações de Nossa Senhora não parariam por aí. Nem seus primorosos auxílios. Recordando o casamento em Caná de Galileia, Maria estava lá com Jesus e Seus discípulos. E sempre muito atenciosa e prestativa, Nossa Mãe percebeu que o vinho tinha acabado e avisou a Jesus, o único que poderia evitar uma vexaminosa situação para a família dos noivos. Como Deus, Ele já sabia do embaraço, mas não planejava manifestar-Se publicamente ali, e chegou a alegar que Sua hora ainda não havia chegado.
    Maria, entretanto, por compaixão à família amiga não media esforços. E instou que Jesus usasse de Seus divinos dons, com os quais ela já estava bem acostumada. Nesses dias falava alto seu coração de Mãe, não somente do Messias, mas, em seus primeiros raios, Mãe de toda humanidade. Sem dúvida, após o Batismo por São João no rio Jordão, ela sabia que a vida pública de Seu Filho já havia iniciado, e por isso não se demoveu com a explicação dada por Ele: tratou de avisar os serviçais.
    Por tão especial que era a natureza humana de Jesus, os noivos e seus familiares deveriam ser Seus potenciais seguidores, pois fizeram questão de tê-Lo presente mesmo com quase todos Doze Apóstolos, a exceção de São Mateus. E como Maria, além de Perfeita Mãe, era a primeiríssima seguidora de Jesus, lá estava ela, silente, ouvindo cada palavra do Salvador, embora sempre igualmente atenta às alheias dificuldades.
    Ou se os noivos e familiares apenas eram íntimos amigos da Sagrada Família, pois Caná ficava a apenas 8 km de Nazaré, por certo fizeram questão da presença de Maria, atitude que é para todos nós um belo exemplo. Além da harmoniosa e santa interação ente ela e Seu Filho, eles já tinham uma razoável ideia de quem seria aquela flor, a Bem Aventurada, como dissera Santa Isabel.
    Na terceira, e mais provável, hipótese, o maior vínculo desta família seria mesmo com Nossa Senhora, por estar em Nazaré havia mais tempo, pela santa história e labuta de São José e por alguma reserva de Jesus antes de começar Sua vida pública. Isso explica porque o Evangelho Segundo São João a registrou como convidada antes de Jesus. Ele data a festa como do sexto dia após o Batismo do Senhor: "Três dias depois, celebravam-se bodas em Caná de Galileia, e achava-se ali a mãe de Jesus. Também foram convidados Jesus e Seus discípulos." Jo 2,1-2
    Nossa Mãe Celeste, contudo, foi muito além em suas visitações. Bem mais que as peregrinações junto a Seu Filho em Sua Missão (cf. Jo 2,12), ou junto aos Apóstolos, após Sua Ascensão (cf. At 1,14), que inicialmente se detiveram em Jerusalém.
    Ela já visitou todos continentes por meio de esplendorosas manifestações que são suas Aparições. Aonde pelo mundo foram seus laboriosos filhos, os Sacerdotes, lá ela aparecia para ajudá-los na conversão e Salvação das almas. Veio a México nos primeiros anos do descobrimento da América, pela Aparição de Guadalupe, estabelecer contato com os indígenas, assim como a Equador, pela Aparição de Quito, ainda nos anos de 1500, para alertar-nos dos difíceis séculos que se seguiriam.
    A Europa já é um privilegiado lugar com tantas visitas. Também apareceu em África, especialmente em Zeitoun, bairro de Cairo, Egito, e na Aparição de Ruanda, quando tentou evitar o recente e terrível genocídio. Esteve, da mesma forma, na Ásia e na Oceania.
    Seus constantes cuidados, porém, terminam por 'atordoar' os religiosos que precisam dar a palavra final da Santa Igreja Católica a respeito da veracidade das Aparições. Por todo mundo, são listadas mais de 400 só no século passado. Por isso, na década de 1960, diante de tão frequentes afagos da Mãe do Céu, as autoridades eclesiais viram-se na obrigação de simplesmente autorizar a peregrinação e o culto em todos locais onde houver relatos de Aparição, apenas bastando que as mensagens a ela atribuídas não estejam em discordância com a Revelação, com os ensinamentos da Santa Igreja.
    É muito séria e complexa a tarefa de confirmação das aparições, e de cada uma de suas mensagens. O certo é que temos muito especial e extremamente benevolente Mãe, correndo o mundo em socorro de seus filhos. E como se pode imaginar, nem todas aparições trazem novas revelações em suas mensagens, mas, mais frequentemente, trata-se de manifestações locais, com específicos objetivos para aquelas pessoas, história e época.
    Das mais recentes, entretanto, junto à Aparição de Međugorje uma das mais importantes é Aparição de Akita, no Japão, em 1973, cuja mensagem teve aprovação da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo e é uma evidente continuação da Aparição de Fátima, como a vidente, Irmã Agnes Sasagawa, testemunhou:


    O próprio Bispo de Niigata, Dom Johannes Shojiro Ito, antes de aposentar-se, viu-se obrigado a deixar seu relato, que pode ser visto neste sítio: https://www.adf.org.br/home/aparicoes-de-nossa-senhora-em-akita-i/
    Assim é Nossa Senhora da Visitação, Nossa Mãe sempre tão ativa e presente, requisitada a cada instante por todos cantos do mundo. Esses fenômenos são muito mais que simples maternal carência de humildes pessoas, como pretendem incrédulos. A gritante Verdade é que boa parte da humanidade claramente percebe seus sobrenaturais cuidados. A quantidade de relatos é praticamente infindável.
    Mas nós podemos e devemos adiantar-nos e poupar-lhe algum esforço. Basta que obedeçamos a Seu Amado Filho, como ela mesma pediu, dizendo aos servos das bodas de Caná: "Fazei tudo que Ele vos disser." Jo 2,5b
    E ajudemos a cuidar de nossos mais necessitados irmãos (cf. Mt 25,40), seus filhos, e que, em agradecimento por seus silenciosos e constantes cuidados, diariamente dirijamos a ela nossas preces para manifestar-lhe amor. Pois com tantos e tão carentes filhos para cuidar, é muito favorável que ela não tenha que se preocupar também conosco.
    Ainda podemos, e também devemos, imitá-la em seu maior exemplo como Filha de Deus, oferecendo-nos para mais intensamente trabalhar nas obras do Reino de Seu Filho. Após o anjo ter-lhe anunciado a Concepção do Messias em seu ventre, ela prontamente respondeu com seu obediente e prestativo amor, como visto acima: "Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo tua palavra." Lc 1,38

    Nossa Senhora da Visitação, rogai por nós!

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Santa Joana d'Arc


    Nossa Santa viveu as últimas décadas da Guerra dos Cem Anos, dada entre França e Inglaterra. Filha de camponeses, era pastora e não foi alfabetizada. Nascida em 1412, na vila de Domrémy, região de Lorena, nordeste de França, seu pai, Jacques d'Arc, era agricultor e sua mãe, Isabelle Romée, ensinou-lhe domésticos afazeres, que à época incluíam fiar lã e costurar. Tinha três irmãos e uma irmã. Sempre foi muito religiosa: gostava de rezar e assiduamente ia à Santa Missa. Muitas vezes confiantemente entregava o rebanho à Divina Providência e ia à igreja da cidade, onde passava horas em orações.
    Ainda aos 13 anos começou a ter místicas experiências: de longe ouviu vozes que vinham da igreja que frequentava. Elas provocavam uma inexplicável claridade a sua volta, fenômeno que chegava a repetir-se até três vezes por semana. Mais tarde, ela identificou-as como as vozes de São Miguel Arcanjo, Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida de Antioquia, avisando da importância de firmemente perseverar na oração, pois Deus lhe reservava uma difícil missão: haveria de expulsar os ingleses da região da cidade de Orleans.


    Em 1428, aos 16 anos, recebeu mais específicas mensagens: deveria ir ao encontro do comandante do exército, Robert de Baudricourt, numa cidade vizinha, e pedir uma escolta que a conduzisse ao rei de França. Seu tio levou-a, mas o comandante riu de suas motivações e das previsões que fazia sobre uma batalha que ocorreria nas proximidades de Orleans, no seguinte ano. Quando elas se cumpriram, porém, e com exatidão como Santa Joana d'Arc havia previsto, o comandante pessoalmente encaminhou-a com toda segurança ao rei. Viajou disfarçada de escudeiro, vestida de armadura como os soldados franceses, por sugestão das vozes que ouvia, artifício que acabou adotando em todas batalhas que liderava.
    Em Chinon, ao sul de Paris, onde o rei estava refugiado, ela reconheceu-o entre vários nobres sem nunca o ter visto, pois ele se disfarçava por conta dos riscos que corria. Numa repleta sala, ela diretamente caminhou até ele e disse: "Senhor, vim conduzir seus exércitos à vitória!" Foi um grande sinal e muito impressionou o rei, mas ele foi convencido a entregá-la para ser examinada pelas autoridades eclesiásticas de Poitiers, que exaustivamente a interrogaram até convencerem-se de que suas mensagens, de fato, tinham origem divina.
    Ao retornar ao rei, mais uma vez causou-lhe profunda admiração ao demonstrar que conhecia segredos das forças armadas francesas. Absolutamente consciente que ela era inspirada por Deus, em suas mãos entregou um grupamento de 4 mil homens para que libertasse Orleans, conforme lhe pediam as vozes. E mesmo posicionando-se em meio à batalha, sempre presente onde era mais intenso o combate e com frequência permanecendo em linha de frente, comandando e incentivando os soldados franceses, os ingleses miraculosamente não a atacavam. Mas, enquanto segurava seu estandarte na trincheira, foi ferida por uma flecha entre o pescoço e o ombro, porém, realmente dotada de grande vigor físico e coragem, logo voltou ao fronte para encorajar os combatentes. Por fim, após dez dias de batalha, Orleans foi reconquistada. A despeito das pinturas que a retratam, como arma ela apenas empunhava uma branca bandeira em que ostentava a Cruz, o Nome de Jesus e o Nome de Maria.


    A vitória em Orleans, após tantas e frustradas tentativas, reergueu o moral das tropas e do povo francês, e foi o início da virada. A fama de Santa Joana correu toda França e muitos combatentes franceses, que até então lutavam a favor de Inglaterra, passaram a temê-la e mudaram de lado. Os ingleses estavam assombrados com os relatos a seu respeito.


    A cerimônia de coroação de Carlos VII, na cidade de Reims, após uma arriscada viagem praticamente circundando toda Paris, que estava dominada, passando por várias áreas do exército inimigo, é um exemplo de como os caminhos se abriram para ela e para o rei, que fielmente acatava suas instruções. Várias autoridades que viajaram até Reims também tiveram suas passagens liberadas.
    Grande estrategista graças à divina inspiração, pois seguia tendo visões de São Miguel Arcanjo, com as grandes vitórias nas batalhas das cidades de Orleans, Meung-sur-Loire, Beaugency, Jargeau, Patay, Gien, Auxerre, Troyes e Montépilloy, os ingleses esperavam que ela atacasse Paris, mas Santa Joana, sempre inspirada, convenceu o rei a firmar posição em Rouen, mais uma vez circundando Paris e cruzando com o exército francês algumas posições do invasor.


    Embora já tivesse cumprido sua missão, que era libertar Orleans, a pedido do rei e por própria vontade Santa Joana d'Arc também foi a campo na batalha pela reconquista de Paris, onde foi ferida na perna por um virote, espécie de dardo disparado por uma besta. Ela bravamente resistiu, escondendo-se em uma trincheira abaixo das muralhas da cidade até que o resgate chegasse, após o anoitecer. O rei, batendo em retirada, abandonou-a.
    Sozinha, mas ainda com o exército solícito a seu comando, ela mudou de estratégia e, depois de retomar a cidade de Saint-Pierre-le-Moûtier, não vencer em La-Charité-sur-Loire e conquistar Lagny-sur-Marne, atacou o acampamento inimigo em Margny, a nordeste de Compiègne, uma pequena cidade ao norte de Paris, porém fracassou e traiçoeiramente foi aprisionada por nobres da região, que se opunham ao rei de França.
    Como os soldados franceses não a esqueciam e iriam fazer de tudo para resgatá-la, pois ela corajosamente sempre tentava fugir, chegando a pular da janela da torre de um castelo, quando caiu num fosso seco e se feriu, os ingleses anteciparam-se e pagaram 10 000 libras tournois para obter sua guarda. Mas, como não podiam matá-la, porque era prisioneira de guerra, eles resolveram entregá-la a um bispo francês, traidor da pátria, que, simulando uma inquisição, a julgou como herege, movida por demoníacas visões. Em sua defesa, Santa Joana apenas dizia que suas visões a instruíam a derrotar os ingleses.
    'Desiludido' com a derrota na batalha de Paris, o rei Carlos VII, mesmo informado de tudo, sequer tentou salvá-la.
    Aos 19 anos, depois de receber a Comunhão Eucarística, Santa Joana d'Arc foi levada à fogueira, onde padeceu seu martírio murmurando os nomes de Jesus e Maria. Era 30 de maio de 1431, na Praça Vermelha, em Rouen, no noroeste de França.
    Enquanto alguns gritavam 'bruxa', 'feiticeira', uma multidão de pobre gente comovidamente acompanhou seu sacrifício, que ela enfrentou com impressionante . Suas cinzas foram jogadas no Rio Sena, para que não fossem veneradas.
 

    Vinte anos mais tarde, por falta dos mais elementares fundamentos, o Papa Calisto III considerou inválido o processo de seu julgamento e reabilitou-a como perfeita cristã. No século XVI, contra a 'reforma protestante' sua memória foi invocada como símbolo pela Liga Católica, e em 1803 foi declarada símbolo de França pelo infame Napoleão Bonaparte. Enfim, foi beatificada em 1909 por nosso amado São Pio X, como havia muito já pedia o simples e devoto povo de seu país e de tantos outros lugares, pois sua história varreu o planeta. E em 1920, o Papa Bento XV canonizou-a e deu-lhe o título de Padroeira de França, que já tinha outros sete. E apesar de ter combatido os ingleses, ela também é venerada como Santa pela igreja anglicana.
    O nome da vila em que nasceu passou a ser Domrémy-la-Pucelle, por causa do famoso título que lhe deram ainda a seu tempo: 'la pucelle d'Orléans', a donzela de Orleans. E pela grande gratidão que lhe tem o bom povo francês, sua casa desde sempre foi preservada, atualmente com ligeiras e essenciais reformas.


    No lugar onde nossa Santa ouvia as primeiras vozes, enquanto pastoreava em Domrémy, foi erguida a partir de 1881 a Basílica de Bois-Chenu, nome do lugar, originalmente dedicada a São Miguel Arcanjo, mas que ficou conhecida como Basílica de Santa Joana d'Arc desde sua beatificação. Aí se tem uma imagem de Notre-Dame de Bermont, invocação à qual nossa Santa costumava rezar, e as imagens de São Gabriel Arcanjo no domo e no pátio, onde é ladeado por Santa Catarina de Alexandria e Santa Margarida de Antioquia.


    Santa Joana d'Arc tem imagens e estátuas nas principais catedrais do país, bem como em ruas de muitas cidades. Representada de muitas formas, abaixo temos sua mais antiga gravura, num manuscrito de 1429, ou seja, dois anos antes de seu martírio. Nossa Santa é uma das pessoas mais estudadas da Idade Média.


    Além de muitas igrejas e monumentos por toda França, o local de seu martírio, em Rouen, foi preservado e uma moderna igreja, dessas mórbidas inovações, foi construída em sua homenagem.    


    Santa Joana d'Arc, rogai por nós!