sábado, 19 de maio de 2018

Comunhão com os Pobres


    As ações de caridade devem ser levadas muito mais a sério. Se buscamos a Comunhão com Deus, portanto também com nossos irmãos, devemos compreender o que ela significa e sua dimensão, porque é evidente a preferência do Pai pelo socorro dos mais pobres. O salmista canta: "Entretanto, Vós vedes tudo: observais os que penam e sofrem, a fim de tomar a causa deles em Vossas mãos. É a Vós que se abandona o infortunado, sois Vós o amparo do órfão." Sl 9,35
    Em síntese, a comunhão é a união de comuns, união de iguais. E assim, se buscamos comungar com Deus, estar unidos a Ele, estamos pedindo que Ele conosco partilhe Sua santidade, Sua divindade. Pode parecer absurdo, mas é isso mesmo: a vontade de Deus é oferecer-nos Suas qualidades, oportunidade de recuperarmos Sua semelhança. São Pedro testemunha: "... temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina..." 2 Pd 1,4
    Os seguidores de São Paulo disseram algo análogo: "Nossos pais humanos, por pouco tempo, corrigiam-nos como melhor lhes parecia. Deus, porém, corrige-nos para nosso bem, a fim de que sejamos participantes de Sua própria santidade." Hb 12,10
    Essa era a missão dos Apóstolos e continua sendo a da Igreja: através dos Sacramentos, levar as pessoas à Comunhão com a Santíssima Trindade. Diz São João Evangelista: "... o que vimos e ouvimos nós anunciamo-vos, para que também vós tenhais Comunhão conosco. Ora, nossa Comunhão é com o Pai e com o Seu Filho Jesus Cristo." 1 Jo 1,3
   Mas ressalta que ao seguir Jesus também entramos em Comunhão entre nós mesmos aqui na Terra, e só assim somos perdoados: "Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, temos Comunhão recíproca uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,7
    Desta forma, se aos pobres negamos atenção também lhes negamos a Comunhão, pois colocamo-nos acima deles, não em condição de iguais. E assim não pode haver Comunhão, não há Eucaristia. Isso é gravíssimo! Estamos negando o próprio testemunho da Encarnação de Cristo, e que foi possível Sua entrega de amor, quando Ele pede exatamente o contrário: "Isto é Meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de Mim." Lc 22,19
    Se Deus veio na Pessoa de Jesus para fazer-Se igual a nós, o que nos impede de nos fazermos iguais aos necessitados? Por que razão Ele Se tornou humano senão para conosco comungar? Seu exemplo vale para todos, sem exceção. Não só os Santos devem empenhar-se na comunhão do amor. Jesus fez-Se igual a nós, amou-nos e pediu-nos que dedicássemos uns aos outros um amor igual ao que Ele demonstrou: "Como Eu vos tenho amado, também deveis amar-vos uns aos outros." Jo 13,34b
    Essa é Sua mais ardorosa recomendação: "Este é Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12
    Essa é a verdadeira Comunhão. Negar que somos capazes desse amor é acusar Jesus de propor uma utopia, é negar a Vinda do Salvador. E negar esse amor aos pobres é negá-lo ao próprio Jesus, é condenar-se: "Em verdade, Eu declaro-vos: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer." Mt 25,45
    Pela mesma razão, a Salvação será dada àqueles que têm o coração aberto para os que sofrem, em cujas pessoas Jesus nos implora caridade: "... porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e acolhestes-Me; nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me; estava na prisão e viestes a Mim." Mt 25,35-36
    Foi esta a confirmação que Ele deu aos seguidores de São João Batista. De tão vacilantes, o Batista mandou-os perguntar ao próprio Jesus se Ele era realmente o Messias. E como resposta Ele usou de um sinal: fez menção às Escrituras, que João muito bem conhecia, deixando bem claro a quem se dirige a mensagem de esperança dada por Deus: "Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e o Evangelho é anunciado aos pobres..." Mt 11,4-5
    O próprio São João Batista havia escolhido uma vida de pobreza: "João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Mt 3,4
    E pregava a radical prática da partilha: "Quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo." Lc 3,11
    Não por acaso, no discurso inaugural de Sua Missão, Nosso Redentor havia lido no livro de Isaías exatamente a passagem com a qual responderia aos discípulos de São João Batista. Nela está a especial atenção que Deus quer que tenhamos para com os pobres: "O Espírito do Senhor está sobre Mim, porque Me ungiu. E enviou-Me para anunciar a Boa Nova aos pobres..." Is 61,1
    A Igreja, então na pessoa de São Pedro e dos Apóstolos, seguia fielmente esta diretriz, como vemos no momento em que instruíram São Barnabé e São Paulo, ainda no começo de seu ministério, segundo seu próprio relato: "Tiago, Pedro e João, que são considerados as colunas... Recomendaram-nos apenas que nos lembrássemos dos pobres, o que era precisamente a minha intenção." Gl 2,9-10
    E o último dos Apóstolos, no mesmo sentido, vai instruir São Timóteo: "Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos desejos insensatos e nocivos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição. Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança em volúveis riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas fruirmos." 1 Tm 6,9.17
    Sem dúvida, Deus sempre dedicou especial atenção aos mais carentes. Tanto que, através do Profeta Amós, chegou a decretar uma grave sentença contra toda nação de Israel: "Ouvi isto, vós que engolis o pobre, e fazeis perecer os humildes da terra, dizendo: 'Quando passará a lua nova, para vendermos nosso trigo, e o sábado, para abrirmos nossos celeiros, diminuindo a medida e aumentando o preço, e falseando a balança para defraudar? Compraremos os infelizes por dinheiro e os pobres por um par de sandálias. Venderemos até o refugo do trigo.' O Senhor jurou por causa da soberba de Jacó: 'Não esquecerei jamais nenhum de seus atos.'" Am 8,4-7
    Pois Ele mesmo determinou ainda a Moisés como deveria ser entre os judeus: "Não deverá haver pobres no meio de ti, porque o Senhor, Teu Deus, certamente abençoar-te-á na terra que te dá como posse hereditária. Se houver no meio de ti um pobre entre teus irmãos, em uma de tuas cidades, na terra que te dá o Senhor, Teu Deus, não endurecerás teu coração e não fecharás a mão diante de teu irmão pobre; mas abrir-lhe-ás a mão e emprestar-lhe-ás segundo as necessidades de sua indigência." Dt 15,4.7-8
    Como punição, por causa da desobediência, Israel padeceria miséria da Palavra de Deus: "Virão dias - Oráculo do Senhor Javé - em que enviarei fome sobre a terra, não uma fome de pão, nem uma sede de água, mas fome e sede de ouvir a Palavra do Senhor. Andarão errantes de um mar a outro, vaguearão do norte ao Oriente; correrão por toda parte buscando a Palavra do Senhor, e não a encontrarão." Am 8,11-12
    Com toda propriedade, portanto, São João Evangelista vai perguntar: "Quem possuir bens deste mundo e vir seu irmão sofrer necessidade, mas fechar-lhe seu coração, como pode estar nele o amor de Deus?" 1 Jo 3,17
    Mais grave ainda é a situação do avarento, que angariou sua riqueza por vias da injustiça! Na parábola do infiel administrador, Jesus vai aconselhar: "Eu digo-vos: fazei-vos amigos com a injusta riqueza, para que, no dia em que ela vos faltar, eles recebam-vos nos eternos tabernáculos." Lc 16,9
    Pois ninguém está oculto aos olhos de Deus, tampouco nossa índole, como atestam os Salmos: "Sim, excelso é o Senhor! Ele vê o humilde e de longe percebe os soberbos." Sl 137,6
    E já deu vários e gritantes exemplos nesse sentido: "Ele levanta do pó o indigente e tira o pobre do monturo, para entre os príncipes fazê-lo sentar, junto aos grandes de Seu povo." Sl 112,7-8
    Por isso, São Tiago Menor denuncia deploráveis imposturas dentro da própria Igreja: "Meus irmãos, em vossa fé em Nosso Glorioso Senhor Jesus Cristo, guardai-vos de toda consideração de pessoas. Suponde que entre em vossa reunião um homem com anel de ouro e ricos trajes, e entre também um pobre com trajes gastos; se atenderdes ao que está magnificamente trajado e disserdes: 'Senta-te aqui, neste lugar de honra', e disserdes ao pobre: 'Fica ali de pé', ou: 'Senta-te aqui junto ao estrado de meus pés', não é verdade que fazeis distinção entre vós, e que sois juízes de iníquos pensamentos? Mas vós desprezastes o pobre! Não são porventura os ricos os que vos oprimem e arrastam aos tribunais? Não blasfemam eles o belo nome que trazeis?" Tg 2,1-4.6-7
    E provoca: "Ouvi, meus caríssimos irmãos: porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino, prometido por Deus aos que O amam?" Tg 2,5
    Afirmativamente, o Salvador assinalou na primeira missão dos Apóstolos: "Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: 'Pai, Senhor do Céu e da terra, Eu dou-Te graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e revelaste-as aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-Te porque assim foi de Teu agrado." Lc 10,21
    O Eclesiástico já o havia dito: "Muitos são altaneiros e ilustres, mas é aos humildes que Ele revela Seus mistérios. Pois grande é o poder do Senhor, mas Ele é glorificado pelos humildes." Eclo 3,20b-21
    E Tobit ensinou a Tobias, seu filho: "Dá esmola de teus bens, e não te desvies de nenhum pobre, pois, assim fazendo, tampouco Deus se desviará de ti. Sê misericordioso segundo tuas posses. Se tiveres muito, dá abundantemente; se tiveres pouco, dá desse pouco de bom coração. Assim acumularás uma boa recompensa para o dia da necessidade, porque a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma de cair nas trevas. Para todos que a praticam, a esmola será um motivo de grande confiança diante do Deus Altíssimo." Tb 4,7-12
    Santo Agostinho inspiradamente ensina que os pobres são os fiscais de Deus, que estão aí para cobrar-nos os impostos que devemos ao Pai, de tantas e tão grandes dádivas que Ele nos concede. Quanto ao que possuímos em excesso ou por injustos meios, deveríamos diligentemente agir como Zaqueu, que prometeu diante de Jesus: "Senhor, vou dar a metade de meus bens aos pobres e, se tiver defraudado alguém, restituirei o quádruplo." Lc 19,8
    Mas ainda mais forte é o exemplo da pobre viúva, observado por Jesus, que voluntariamente vivia a plena pobreza evangélica: "Em verdade, digo-vos: esta pobre viúva pôs mais que os outros. Pois todos aqueles lançaram nas ofertas de Deus do que lhes sobra; esta, porém, deu, de sua indigência, tudo que lhe restava para o sustento." Lc 21,3-4
    Ora, ao enviar os Apóstolos em primeira missão, Jesus recomendou austera simplicidade: "Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão; pois o operário merece seu sustento." Mt 10,9-10
    E tempos mais tarde, sem distinguir entre Apóstolos e seguidores, Ele vai determinar: "Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo que possui não pode ser Meu discípulo." Lc 14,33
    Pois Ele mesmo vivia assim, como afirmou: "As raposas têm covas e as aves do céu, ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça." Lc 9,58
    E a pobreza como estado de espírito, que nos permite estar em Comunhão com os pobres, é uma das virtudes que Ele declarou no Sermão das Bem-Aventuranças: "Bem-aventurados os que têm um coração de pobre, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,3
    Essa era a condição recomendada pelo Profeta Sofonias: "Curvai-vos, curvai-vos, gente sem pudor, antes que nasça a sentença e o dia passe como a palha. Antes que caia sobre vós o ardor da ira do Senhor. Antes que caia sobre vós o Dia da indignação do Senhor! Buscai o Senhor, vós todos, humildes da terra, que observais Sua Lei. Buscai a justiça e a humildade: talvez assim estareis ao abrigo no Dia da cólera do Senhor." Sf 2,1-3
    O Eclesiástico anotou: "A oração do humilde penetra as nuvens." Eclo 35,21a
    E o salmista cantava: "Ó vós, humildes, olhai e alegrai-vos! Vós que buscais a Deus, reanime-se vosso coração porque o Senhor ouve os necessitados..." Sl 68,33-34a
    Jesus, enfim, ensinou a vivermos na humildade, sem ambições nem preocupações mundanas, a agradecermos pelo que já recebemos e a confiarmos na Divina Providência: "Portanto, eis que vos digo: não vos preocupeis por vossa vida, pelo que comereis, nem por vosso corpo, pelo que vestireis. A vida não é mais do que o alimento e o corpo não é mais que as vestes?" Mt 6,25
    Demonstrou que a avareza é um pecado mortal: "E propôs-lhe esta parábola: 'Havia um homem rico cujos campos produziam muito. E ele refletia consigo: Que farei? Porque não tenho onde recolher minha colheita. Disse então ele: Farei o seguinte: derrubarei meus celeiros e construirei maiores; neles recolherei toda minha colheita e meus bens. E direi à minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Deus, porém, disse-lhe: Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão? Assim acontece ao homem que entesoura para si mesmo e não é rico para Deus." Lc 12,16-21
    Denunciou a vaidade, principalmente entre religiosos, o que é um verdadeiro acinte diante da miséria de tantos: "Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés. Fazem todas suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas em seus mantos. Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados de rabi pelos homens." Mt 23,2.5-7
    E igualmente a gula, também entre religiosos, que é um pecado ainda mais sério num mundo de milhões de famintos: "... que devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Eles receberão mais rigoroso castigo." Lc 20,47
    Não estaria a razão do desprezo pelos pobres precisamente na aversão às penitências, que, aliás, foi o primeiro Sacramento recomendado por Jesus? "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    De fato, muita gente acha-se muito correta diante de Deus, mas sabemos que ainda falta uma coisa, e alguns nos conventos e nas paróquias estão tentando cumprir esse preceito. Foi o próprio Jesus que fez essa proposta a um jovem que se julgava justo: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!" Lc 19,21
    Para nossa mais profunda reflexão, temos uma triste profecia renovada por Jesus, que põe por terra todas nossas pretensões de soluções materialistas e alerta para obrigação de constante busca de Comunhão com os necessitados: "Pois convosco sempre tereis os pobres..." Jo 12,8
    Ela havia sido proferida por Deus, quando determinou ao povo de Israel através de Moisés: "Nunca faltarão pobres na terra, e por isso dou-te esta ordem: abre tua mão ao teu irmão necessitado ou pobre que vive em tua terra." Dt 15,11


    "Santificai e reuni Vosso povo!"