terça-feira, 19 de março de 2019

São José


    Logo após explicar a concepção de Cristo pelo Divino Espírito, São Mateus deixou um simples, breve, mas veemente testemunho sobre o pai adotivo de Jesus: "José, seu esposo, era justo..." Mt 1,19
    Ser chamado de justo não é algo muito frequente nas Escrituras. Ao contrário, entre guerras e exílios, o Profeta Miqueias reclamava da generalizada corrupção em Israel: "Não há sequer um justo em nosso país, nenhum íntegro homem." Mq 7,2
    Ao sustentar que nada nos foi dado por merecimento, mas tão somente pela Graça de Deus, São Paulo buscou uns versos dos Salmos para dizer o mesmo: "Não há nenhum justo, nem um sequer (Sl 14,3b)." Rm 3,10
    E São Tiago Menor dá-nos uma ideia das Graças que um tal homem alcançava, a quem Jesus e Maria, duas preciosíssimas joias de Deus, foram confiados: "A oração do justo tem grande eficácia." Tg 5,16a
    Os quatro Evangelhos, porém, não nos deixaram muita informação sobre São José. Evidentemente muito se tinha que falar do Salvador, foco de todas atenções, e, admitamos, tal tarefa já era complicada o bastante. Em tão grandiosos anos, todos estavam absolutamente atônitos com a Pessoa de Jesus. O próprio povo dizia: "... Deus veio visitar Seu povo." Lc 7,16b
    Por esses tempos, São João Batista já havia anunciado o Salvador, e neste termos: "Aquele que vem de cima é superior a todos. Aquele que vem da terra é terreno e fala de coisas terrenas. Aquele que vem do Céu é superior a todos. Ele testemunha as coisas que viu e ouviu, mas ninguém recebe Seu testemunho. Aquele que recebe Seu testemunho confirma que Deus é verdadeiro." Jo 3,31-33
    Sabemos que José era natural de Belém e descendente da tribo do rei Davi: "José também subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, a Judeia, à Cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi... " Lc 2,4
    Igualmente não existe sombra de dúvida sobre sua profissão, por lembrança de sua expressiva caridade. De fato, quando o povo começou a admirar a Sabedoria e os poderes de Seu Filho, costumava perguntar-se: "Não é este o Filho do carpinteiro?" Mt 13,55a
    Nem de seu renome: "E perguntavam: 'Porventura não é Ele Jesus, o filho de José, Cujo pai e mãe conhecemos?'" Jo 6,42a
    Aliás, foi através da boa e respeitosa consideração que o povo tinha por Seu pai terreno que os primeiros Apóstolos identificaram Sua Pessoa: "Filipe encontra Natanael e diz-lhe: 'Achamos Aquele de Quem Moisés escreveu na Lei e que os Profetas anunciaram: é Jesus de Nazaré, filho de José.'" Jo 1,45

A GRAVIDEZ DE MARIA

    Os relatos bíblicos que contam a história de José, começam aqui: "Ora, a origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, Sua Mãe, estava prometida em casamento a José e, antes de passarem a conviver, ela encontrou-se grávida pela ação do Espírito Santo." Mt 1,18
    Contrita, Maria não tinha como explicar sua gravidez a José, e prudentemente esperou que Deus cuidasse do possível 'embaraço' que essa gestação causaria. De fato, ao perceber sua gravidez, ele, homem de extrema correção, não quis julgá-la. A traição conjugal àquele tempo era punida com apedrejamento: "José, seu esposo, sendo justo e não querendo publicamente denunciá-la, pensou em despedi-la de secreto modo. Mas, ao assim pensar, em sonho apareceu-lhe um anjo do Senhor, que lhe disse: 'José, filho de Davi, não tenhas receio de receber Maria, tua esposa! Aquele que nela foi gerado vem do Espírito Santo. Ela dará à luz um Filho, e tu dar-Lhe-ás o Nome de Jesus, pois Ele vai salvar Seu povo de seus pecados.'" Mt 1,19-21


    Portanto, este anjo, seu Anjo da Guarda, incumbiu São José da paternidade de Jesus e de pôr-Lhe o Nome, funções que ele iria cumprir com absoluta obediência, que lhe era característica: "Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor tinha mandado e em sua casa acolheu sua esposa." Mt 1,24

O NASCIMENTO DO SALVADOR E A FUGA PARA O EGITO

    Santo homem que despertou o puríssimo amor de Maria, José não teve nenhuma dificuldade para manter-se em celibato, condição que certamente havia muitos anos já abraçava: "E sem que tivessem mantido relações conjugais, ela deu à luz o Filho. E ele pôs-Lhe o Nome de Jesus." Mt 1,25
    Humilde, mas sereno e confiante, São José não se perturbou quando em Belém não encontrou acomodação para sua esposa, já no último mês de gravidez: "E deu à luz Seu filho primogênito, e, envolvendo-O em faixas, reclinou-O num presépio, porque não havia lugar para eles na sala." Lc 2,7
    E noite adentro velou junto a Maria o Natal de Jesus. Os pastores, que foram avisados por anjos, testemunharam: "Foram com grande pressa e acharam Maria e José, e o Menino deitado na manjedoura." Lc 2,16
    Os reis magos que vieram adorar o Messias, confiaram preciosos presentes a São José, que de tudo cuidava: "Entrando na casa, acharam o Menino com Maria, Sua mãe. Prostrando-se diante dele, adoraram-nO. Depois, abrindo seus tesouros, como presentes ofereceram-Lhe ouro, incenso e mirra." Mt 2,11
    E encarregado por Deus da guarda de Seu Filho e da Santíssima Maria, assumiu uma difícil missão: "Depois de partida deles, um anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e foge para o Egito! Fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o Menino para matá-Lo.'" Mt 2,13
    Abraçou-a, pois, com santa prudência e disposição: "José levantou-se durante a noite, tomou o Menino e Sua mãe e partiu para o Egito. Ali permaneceu até a morte de Herodes, para que se cumprisse o que o Senhor dissera pelo Profeta: 'Do Egito Eu chamei Meu Filho' (Os 11,1)." Mt 2,14-15
    É certo, porém, que, confiantes em Deus e obedientes à Lei, José e Maria primeiro tenham passado por Jerusalém para cumprir os preceitos da Purificação de Maria e da apresentação do primogênito, mesmo sob os gravíssimos riscos da perseguição perpetrada por Herodes. E por precaução ocultando os caros e inesperados presentes doados pelos Santos Reis, fizeram a apresentação em sua real condição, ou seja, de pobreza, como comprova o pequeno valor das aves oferecidas em sacrifício. É o que São Lucas nos conta: "Completados que foram os oito dias para ser circuncidado o Menino, foi-Lhe posto o Nome de Jesus, como Lhe tinha chamado o anjo antes de ser concebido no seio materno. Concluídos os dias da sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para apresentá-Lo ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor' (Ex 13,2), e para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos." Lc 2,21-24


NOVA ESCOLHA, DE NOVO NAZARÉ

    Assim como São José do Egito, um dos patriarcas judeus, São José tinha grandes privilégios perante Deus. Seus sonhos eram repletos de anjos e divinas revelações, detalhes que bem demonstram sua santidade.
    E embora quisesse oferecer uma cômoda infância a Jesus em Belém, ou mesmo em Jerusalém, o que sua valorosa profissão e estável parentela possibilitariam, por mais uma divina intervenção acabou retornando ao pacato povoado de Nazaré, lugar que havia sido escolhido pela Santíssima Virgem e Santa Ana após a morte de São Joaquim, para estarem perto de sua parentela: "Com a morte de Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egito, e disse: 'Levanta-te, toma o Menino e Sua mãe e retorna à terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a Vida do Menino.' José levantou-se, tomou o Menino e Sua mãe e foi para a terra de Israel. Ao ouvir, porém, que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de seu pai Herodes, não ousou ir para lá. Divinamente avisado em sonhos, retirou-se para a província da Galileia e veio habitar na cidade de Nazaré, para que se cumprisse o que foi dito pelos Profetas: 'Será chamado Nazareno.'" Mt 2,19-23
    São João Evangelista, de fato, fala de uma 'irmã' de Nossa Senhora, na verdade sua prima, também chamada Maria e que era casada: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe, a irmã de Sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena." Jo 19,25
    Ao descrever esta mesma cena, São Marcos diz que essa senhora é a mãe dos chamados 'irmãos de Jesus': "Ali também se achavam umas mulheres, observando de longe, entre as quais Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, o Menor, e de José." Mc 15,40
    Foi este evangelista, aliás, que deu o nome deles todos, também falando em 'irmãs': "Não é Ele o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? Não vivem aqui entre nós também Suas irmãs?" Mc 6,3b
    O próprio Jesus fará referências a esses parentes, quando voltou à Nazaré: "Depois, Ele partiu dali e foi para Sua pátria, seguido de Seus discípulos. Quando chegou o dia de sábado, começou a ensinar na sinagoga. E ficaram perplexos a Seu respeito. Mas Jesus disse-lhes: 'Um Profeta só é desprezado em sua pátria, entre seus parentes e em sua própria casa.' Ali não pôde fazer milagre algum. Apenas curou alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos." Mc 6,1-2.3b-5
    São João Evangelista também registrou este conflito, entres os quais não estavam São Tiago Menor e São Judas Tadeu, que se tornaram Seus Apóstolos: "Depois disso, Jesus percorria a Galileia. Ele não queria deter-Se na Judeia, porque os judeus procuravam tirar-Lhe a vida. Aproximava-se a festa dos judeus chamada dos Tabernáculos. Seus irmãos disseram-Lhe: 'Parte daqui e vai para a Judeia, a fim de que também Teus discípulos vejam as obras que fazes.' Com efeito, nem mesmo Seus irmãos acreditavam n'Ele." Jo 7,1-3.5
    São Lucas já apontava estes parentes desde Sua infância: "Tendo Ele atingido doze anos, subiram a Jerusalém, segundo o costume da festa. Acabados os dias da festa, quando voltavam, ficou o Menino Jesus em Jerusalém sem que Seus pais o percebessem. Pensando que Ele estivesse com Seus companheiros de comitiva, andaram caminho de um dia e buscaram-nO entre os parentes e conhecidos." Lc 2,42-44

SUA INTIMIDADE COM JESUS

    Em seu tempo de convívio, apenas menor que o da Mãe Celeste, São José usufruiu de grande intimidade com o Filho de Deus, que carinhosamente lhe correspondia em cada gesto. O povo estava acostumado a vê-los sempre juntos, fato que deu ao Nazareno Sua primeira identidade: "Quando Jesus começou Seu Ministério, tinha cerca de trinta anos, e era tido por filho de José..." Lc 3,23


    Aliás, a profissão que Jesus escolheu bem ilustra o amor que tinha por Seu pai terreno. É de Sua admirada gente que sabemos o que Ele fez durante toda adolescência, juventude e vida adulta, afastando qualquer desrazoada especulação a respeito do que teria feito antes de começar a pregar: "Não é Ele o carpinteiro?..." Mc 6,3
    E quando as pessoas de Sua terra viram brilhar as primeiras luzes do Salvador, com respeito e doçura ainda lembravam de Seu amoroso tutor: "Todos Lhe davam testemunho e admiravam-se das palavras de Graça que procediam de Sua boca, e diziam: 'Não é este o Filho de José?'" Lc 4,22


DIVINO PAI

    Há claros indícios nas Escrituras, e confirmados pela Sagrada Tradição, de que São José já tinha falecido bem antes do início da vida pública de Jesus. Nessa passagem narrada por São Marcos, de fatos acontecidos quando já estava pregando, Ele vai ser identificado apenas por sua profissão e como Filho de Maria: "Não é Ele o carpinteiro, o Filho de Maria?..." Mc 6,3
    Com efeito, o último registro que temos de São José é de quando Jesus, aos doze anos, por três dias ficou sozinho em Jerusalém, após a festa da Páscoa. Por certo não esperavam que ainda tão novo Ele começasse a tratar dos assuntos de Seu Pai Celeste. Humilde, sabendo muito bem guardar seu lugar, São José esperou que Maria se dirigisse a Ele. Mas ela não ocultou as preocupações de Seu pai terreno, sempre tão cioso de suas obrigações para com Seu Filho e Salvador: "Meu Filho, que nos fizeste?! Eis que Teu pai e eu andávamos à Tua procura, cheios de aflição." Lc 2,48
    Homem escolhido por Deus, ímpar exemplo de santidade e celibato, São José foi castíssimo. E é patente que este voto é muito apreciado por Deus, como Jesus disse: "Porque há eunucos que o são desde o ventre de suas mães, há eunucos tornados tais pelas mãos dos homens e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda." Mt 19,12
    Porque essa é a antecipação de uma condição que no Céu se viverá, segundo Sua Palavra: "Na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos, mas serão como os anjos de Deus no Céu." Mt 22,30
    E São João Evangelista já testemunhou uma multidão de pessoas nos Céus: "Estes são os que não se contaminaram com mulheres, pois são virgens. São eles que acompanham o Cordeiro por onde quer que Ele vá. Foram resgatados dentre os homens como primícias oferecidas a Deus e ao Cordeiro. Em sua boca não se achou mentira, pois são irrepreensíveis." Ap 14,4-5
    Pois São José desposou Maria como Jesus desposa a Igreja. São Paulo prega: "Maridos, amai vossas mulheres como Cristo amou a Igreja e Se entregou por ela..." Ef 5,25
    Foi o que atestou São João Evangelista, nas visões do Apocalipse: "Eu vi descer do Céu, de junto de Deus, a Cidade Santa, a Nova Jerusalém, como uma esposa ornada para o Esposo." Ap 21,2
    E como sinal da maior das festas que se conhecia, ele ouviu: "Escreve: 'Felizes os convidados para a Ceia das Núpcias do Cordeiro.'" Ap 19,9b
    Cristo referiu-Se a esse enlace ao falar sobre penitências: "Jesus respondeu-lhes: 'Podem porventura jejuar os convidados das Núpcias, enquanto com eles está o Esposo? Enquanto consigo têm o Esposo não lhes é possível jejuar. Dias virão, porém, em que o Esposo lhes será tirado, e então jejuarão.'" Mc 2,19-20
    E também São João Batista, que foi outro grande exemplo de celibatário: "Aquele que tem a Esposa é o Esposo. O amigo do Esposo, porém, que está presente e O ouve, sobremodo regozija-se com a voz do Esposo." Jo 3,29a
    Sem dúvida, São José foi um exemplo de Sacerdote, como o foi o próprio São Paulo. Ele diz aos coríntios: "Eu consagro-vos um santo carinho e amor, porque vos desposei a Único Esposo, Cristo, a Quem desejo apresentar-vos como pura virgem." 2 Cor 11,2
    E mesmo sendo apenas humano, com muita propriedade e justiça nosso Santo é chamado de Pai Divino: "Eis que sucumbe aquele que não tem íntegra alma, mas o justo vive da ." Hab 2,4
    Perfeito Guarda da Sagrada Família, é o Santo Protetor da família, e Pio IX declarou-o Patrono da Igreja Universal, mas também é muito conhecido como Patrono da Boa Morte, porque teve a indizível Graça de morrer nos braços e sob as orações de Jesus e de Maria Santíssima.
    A seguir transcrevemos uma antiga oração a ele, que é conhecida por nunca ter falhado:

    "Ó São José, cuja proteção é tão grande, tão forte e tão imediata diante do trono de Deus, a vós confio todas minhas intenções e desejos.
    Ajudai-me, São José, com vossa poderosa intercessão, a obter todas bênçãos espirituais por intercessão do Vosso Adotivo Filho, Jesus Cristo Nosso Senhor, de modo que, ao confiar-me aqui na terra ao vosso celestial poder, tribute-vos meu agradecimento e homenagem.
    Ó São José, eu nunca me canso de contemplar-vos com Jesus adormecido em vossos braços. Não ouso aproximar-me enquanto Ele repousa junto a vosso coração. Abraçai-O em meu nome, beijai por mim seu delicado rosto e pedi-Lhe que me devolva esse beijo quando eu exalar meu último suspiro.
    São José, padroeiro das almas que partem, rogai por mim! Amém."


    São José, rogai por nós!