quinta-feira, 7 de março de 2019

Penitências


    Qualquer sensata pessoa sabe que não há como nos aproximarmos de Deus sem que antes reconheçamos, por força de Sua plena santidade, nossos pecados, e busquemos, de fato, purificar-nos. O salmista admitia: "Se não perdoardes nossas iniquidades, Senhor Javé, quem poderá subsistir diante de Vós?" Sl 129,3
    Noutras circunstâncias, ele já se havia perguntado: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer no Seu santo lugar? Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo. Este terá a bênção do Senhor, e a recompensa de Deus, Seu Salvador. Tal é a geração dos que O procuram, dos que buscam a face do Deus de Jacó." Sl 23,3-6
    Por isso, os seguidores da tradição de São Paulo recomendam os Sacramentos: "E dado que temos um Sumo-Sacerdote estabelecido sobre a Casa de Deus, a Ele acheguemo-nos com sincero coração, com plena firmeza da , o mais íntimo da alma isento de toda mácula de pecado e o corpo lavado com a purificadora Água do Batismo." Hb 10,21-22
    Não por acaso, tanto pela pecaminosidade do mundo quanto pela triunfante Graça da Divina Misericórdia, é tão concreta o que a Sã Doutrina ensina sobre o Purgatório. Registrou São Pedro: "Pois para isto o Evangelho também foi pregado aos mortos: para que, embora sejam condenados em sua humanidade na carne, vivam segundo Deus quanto ao espírito." 1 Pd 4,6
    Ora, ao iniciar Sua vida pública, as primeiras palavras de Jesus foram exatamente um convite à conversão, ou seja, a abandonar de uma vez o pecado, penitenciando-se por ele: "Desde então Jesus começou a pregar: "Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo." Mt 4,17
    Com idêntico propósito Ele enviou os Apóstolos, desde a primeira missão: "Então chamou os Doze e começou a enviá-los, dois a dois... Eles partiram e pregaram a penitência." Mc 6,7.12
    E tal e qual o batismo ministrado por São João Batista, que demandava prévia confissão de pecados, os Apóstolos também batizavam durante as pregações de Jesus: "Em seguida foi Jesus com Seus discípulos para os campos da Judeia e ali Se deteve com eles, e batizava. ... se bem que não era Jesus quem batizava, mas Seus discípulos..." Jo 3,22;4,2
    Pois como Jesus explicou-lhes no Domingo da Ressurreição, a missão da Igreja é trazer o povo de Deus à contrição espiritual: "E que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas nações, começando por Jerusalém." Lc 24,47
    Com efeito, antes mesmo de Jesus iniciar Sua Missão, era São João Batista que, revelando a vontade de Deus, exigia de todo povo uma sincera conversão: "Dai, pois, frutos de verdadeira penitência." Mt 3,8
    Exatamente como Jesus, foi o que fez desde o início de seu ministério: "Naqueles dias, apareceu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Dizia ele: 'Fazei penitência porque está próximo o Reino dos Céus.'" Mt 3,1-2
    Seu pai, o sacerdote Zacarias, profetizou ao seu nascimento: "E tu, menino, serás chamado Profeta do Altíssimo, porque precederás o Senhor e Lhe prepararás o Caminho, para dar ao Seu povo conhecer a Salvação, pelo perdão dos pecados." Lc 1,76-77
    Já adulto, São Lucas narrou seus primeiros passos: "... veio a Palavra do Senhor no deserto a João, filho de Zacarias. Ele percorria toda a região do Jordão, pregando o batismo de arrependimento para remissão dos pecados..." Lc 3,2b-3
    Assim faziam os próprios Profetas nos mais difíceis momentos da História de Israel: "Naquele tempo, eu, Daniel, fiz penitência durante três semanas. Não provei alimento delicado algum: não passou em minha boca nem carne nem vinho; absolutamente não me ungi de óleo durante o transcurso dessas três semanas." Dn 10,2-3
    Essa também era a missão dos líderes de Israel, como o rei Josias: "Foi divinamente destinado a levar o povo à penitência, e robusteceu a piedade numa época de pecado." Eclo 49,1
    Até mesmo São Paulo, e em nome de sua própria salvação: "Ao contrário, castigo meu corpo e mantenho-o em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de ter pregado aos outros." 1 Cor 9,27
    E Jesus assim descreveu o que a conversão de um pecador significa para Deus: "Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador que fizer penitência que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento." Lc 15,7
    O livro da Sabedoria já dizia que Deus pacientemente espera por nosso arrependimento: "... inspirastes a Vossos filhos a boa esperança de que, após o pecado, lhes dareis tempo para a penitência..." Sb 12,19
    E atesta: "Tendes compaixão de todos porque Vós podeis tudo. E para que se arrependam, fechais os olhos aos pecados dos homens." Sb 11,23
    Foi o mesmo que ensinou São Pedro: "O Senhor não retarda o cumprimento de Sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Ele não quer que alguém pereça. Ao contrário, quer que todos se arrependam." 2 Pd 3,9
    Pois a primeiríssima das penitências é afastar-se do pecado, como pregava São Paulo, a despeito de toda privação que tal postura represente para nosso corpo: "Mortificai vossos membros, pois, no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é uma idolatria." Cl 3,5
    Porque é Deus mesmo que nos estimula a uma verdadeira conversão, e de idosos a crianças como exortou o Profeta Joel ante o anúncio da Grande Tribulação: "'Agora, portanto' - Oráculo do Senhor -, 'voltai a Mim de todo vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos de luto. Rasgai vossos corações e não vossas vestes.' Voltai ao Senhor Vosso Deus, porque Ele é bom e compassivo, longânime e indulgente, e compadece-Se da desgraça. Tocai a trombeta em Sião: publicai o jejum, convocai a assembléia, reuni o povo; santificai a assembléia, agrupai os anciãos, congregai as crianças e os meninos de peito; saia o recém-casado de seus aposentos, e a esposa de sua câmara nupcial." Jl 2,12-13.15-16
    Pela indizível dádiva do Santo Paráclito, Ele colabora para a definitiva transformação de nossos corações, como prometeu através do Profeta Ezequiel ainda durante a escravidão da Babilônia: "Dar-vos-ei um novo coração e em vós porei um novo Espírito; tirar-vos-ei do peito o coração de pedra e dar-vos-ei um coração de carne." Ez 36,26
    Com efeito, a verdadeira penitência acontece em nosso íntimo, e assim reza o salmista: "Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar." Sl 50,19


ORAÇÃO, JEJUM E ESMOLA

    A Confissão, portanto, é uma das três etapas do Sacramento da Penitência, que por Jesus foi pessoalmente instituído. Por isso é insubstituível, uma indeclinável obrigação da Igreja. De fato, ao incumbir os Apóstolos do Ministério da Reconciliação logo em Sua primeira aparição, Ele deu-lhes este poder: "Disse-lhes outra vez: 'A Paz esteja convosco! Como o Pai Me enviou, também Eu vos envio.' Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados. Àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos." Jo 20,23
    Era o que fazia São Pedro, como vemos no dia do Pentecostes: "Ao ouvirem essas coisas, ficaram compungidos no íntimo do coração e indagaram de Pedro e dos demais apóstolos: 'Que devemos fazer, irmãos?' Pedro respondeu-lhes: 'Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em Nome de Jesus Cristo para remissão de vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois a promessa é para vós, para vossos filhos e para todos que de longe ouvirem o apelo do Senhor, Nosso Deus." At 2,37-39
    E também São Paulo: "Porque é Deus que, em Cristo, reconciliava Consigo o mundo, não mais levando em conta os pecados dos homens, e em nossos lábios pôs a mensagem da reconciliação. Portanto, desempenhamos o encargo de embaixadores em Nome de Cristo, e é Deus mesmo que por nosso intermédio exorta. Em Nome de Cristo, rogamo-vos: reconciliai-vos com Deus!" 2 Cor 5,19-20
    Há vários modos de cumprir a penitência que é estabelecida pelo Sacerdote, e assim obter de Deus o perdão dos pecados. Contudo, os padres mais frequentemente falam em oração, jejum e esmola, inspirados nas palavras do próprio Jesus, que recomenda:
    "Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra em teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai em segredo. E teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á." Mt 6,5-6
    "Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um abatido semblante para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava teu rosto." Mt 6,16-17
    "Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita." Mt 6,2-3
    O Arcanjo São Rafael já havia falado dessas práticas a Tobit e a Tobias: "Boa coisa é a oração acompanhada de jejum, e a esmola é preferível aos escondidos tesouros de ouro. Porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a Misericórdia e a Vida Eterna..." Tb 12,8-9
    E há vários exemplos de jejum, ou abstinência. Por primeiro, destaca-se São João Batista, que foi um penitente por vida: "O menino foi crescendo e fortificava-se em espírito, e viveu nos desertos até o dia em que se apresentou diante de Israel. João usava uma vestimenta de pelos de camelo e um cinto de couro em volta dos rins. Alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre." Lc 1,80; Mt 3,4
    Outro grande sinal foi a profetisa do Templo de Jerusalém, como vemos no dia da Apresentação do Menino Jesus: "Havia também uma profetisa chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; era de avançada idade. Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do Templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações. Chegando ela à mesma hora, louvava a Deus e falava de Jesus a todos aqueles que em Jerusalém esperavam a libertação." Lc 2,36-38
    E o próprio Jesus registrou o gesto de outra viúva no Templo, que cumpria fielmente os Mandamentos da Lei e vivia tão somente das Graças de Deus: "Jesus sentou-Se defronte do cofre de esmola e observava como o povo nele deitava dinheiro; muitos ricos depositavam grandes quantias. Chegando uma pobre viúva, lançou duas pequenas moedas, no valor de apenas um quadrante. Ele chamou Seus discípulos e disse-lhes: 'Em verdade, digo-vos: esta pobre viúva deitou mais do que todos que lançaram no cofre, porque todos deitaram do que tinham em abundância. Esta, porém, de sua indigência, pôs tudo que tinha para seu sustento.'" Mc 12,41-44
    Mas, ainda dos ensinamentos de Jesus, como forma de penitência também temos ouvir a Palavra, guardar oportuno silêncio, e praticar efetiva Misericórdia e ativa caridade:
    "Se vos falo a Verdade, por que Me não credes?" Jo 8,46b
    "O sumo sacerdote levantou-se no meio da assembléia e perguntou a Jesus: 'Nada respondes? O que é isto que dizem contra Ti?' Mas Jesus calava-Se e nada respondia." Mc 14,60-61a
    "Sede misericordiosos, como também Vosso Pai é misericordioso." Lc 6,36
    "... porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e acolhestes-Me; nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me; estava na prisão e viestes a Mim." Mt 25,35-36
    Por isso o Profeta Sofonias, que bem atinava para a gravidade do Juízo, com veemência exortava a todos: "Curvai-vos, curvai-vos, gente sem pudor, antes que nasça a sentença e o dia passe como a palha; antes que caia sobre vós o ardor da ira do Senhor; antes que caia sobre vós o Dia da indignação do Senhor! Buscai o Senhor, todos vós, humildes da terra, que observais Sua Lei; buscai a justiça e a humildade: talvez assim estareis ao abrigo no Dia da cólera do Senhor." Sf 2,1-3
    O Profeta Malaquias também se perguntava: "Quem estará seguro no Dia de Sua Vinda? Quem poderá resistir quando Ele aparecer? Porque Ele é como o fogo do fundidor, como a lixívia dos lavadeiros." Ml 3,2
    São Pedro, por sua vez, lembrando os Provérbios, exalta a excelência da caridade, seja material ou espiritual: "Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque ela cobre uma multidão de pecados." 1 Pd 4,8
    E aos fariseus, Jesus recomendou a caridade material como modo de purificação dos objetos de diário uso: "Antes dai esmola do que possuís, e todas coisas ser-vos-ão limpas." Lc 11,41

PEDIR E OFERECER PERDÃO

    Sem dúvida, Jesus demonstrou que nossas devoções nada representam para Deus sem que tenhamos a humildade de pedir desculpas a quem ofendemos, ou simplesmente a quem quer que se sinta ofendido por nós: "Se estás, portanto, para fazer tua oferta diante do altar e lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa lá tua oferta diante do altar e primeiro vai reconciliar-te com teu irmão. Só então vem fazer tua oferta." Mt 5,23-24
    Na parábola do filho pródigo, na cena de seu retorno à casa do pai, vemos uma sincera confissão de arrependimento, expressando o pecado em toda sua dimensão: "Meu pai, pequei contra o Céu e contra ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho." Lc 15,21
    De mesmo modo destaca-se a importância do perdão oferecido ao próximo, que, aliás, igualmente ensinado pelo próprio Jesus, é uma obrigação e também um modo de penitenciar-se: "Porque se perdoardes aos homens suas ofensas, Vosso Pai Celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco Vosso Pai vos perdoará." Mt 6,14-15
    Ele ainda ensinou que nosso perdão não pode ter limites: "Então Pedro aproximou-se d'Ele e disse: 'Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?' Respondeu Jesus: 'Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.'" Mt 18,21-22
    E deve ser oferecido antes de qualquer oração: "E quando vos puserdes de pé para orar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que também Vosso Pai, que está nos Céus, perdoe vossos pecados. Mas se não perdoardes, tampouco Vosso Pai que está nos Céus perdoará vossos pecados." Mc 11,25-26


VIGÍLIA DE ORAÇÃO

    A vigília é mais um modo de estreitar nossa relação com Deus. Jesus usou-a, por exemplo, antes de convocar Seus principais seguidores: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e aí passou toda noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e dentre eles escolheu Doze, que chamou de Apóstolos..." Lc 6,12-13
    Logo também é uma forma de penitência. Nosso Salvador, embora não tivesse de que se penitenciar, entrou em vigília pouco antes de ser preso no Jardim das Oliveiras, e convidou São Pedro, São João e São Tiago Maior para acompanhá-Lo: "Minha alma está numa tristeza mortal. Ficai aqui e vigiai." Mc 14,34
    E quando viu que não era auxiliado por São Pedro, reclamou de sua sonolência: "Simão, dormes? Não pudeste vigiar uma hora?" Mc 14,37
    Por fim, abertamente recomendou a vigília de oração contra as tentações: "Vigiai e orai, para que não entreis em tentação. Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca." Mc 14,38

INTERCESSÃO PELO PRÓXIMO

    Rezar pela Salvação do próximo é outra maneira de penitenciar-se, agora em conjunto, com todo corpo da Igreja, isto é, o Corpo Místico de Cristo. São Paulo exortava: "Intensificai vossas invocações e súplicas. Orai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos cristãos." Ef 6,18
    Jesus, ademais, pediu que rezássemos até mesmo por aqueles que nos perseguem: "Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem." Mt 5,44

COMPAIXÃO PELOS QUE SOFREM

    Jesus bem percebia as aflições do povo, principalmente a carência de esperança, causada por inúmeras faltas morais dos que lideram as nações: "Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e compadeceu-Se dela, porque era como ovelhas que não têm pastor. E começou a ensinar-lhes muitas coisas." Mc 6,34
    Por isso, mais que sacrifícios, Ele pedia misericórdia, e que a Ele nos juntássemos em busca das ovelhas perdidas. Perdição que às vezes se dá por falta de condescendência, de solidariedade espiritual, como Ele apontou: "Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a misericórdia e não o sacrifício' (Os 6,6). Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores." Mt 9,13

ACEITAR OS SOFRIMENTOS

    Muitos pecam por imaturas tentativas de fugir dos sofrimentos. Mas Jesus propôs exatamente o contrário, e segui-Lo com sinceridade é a maior das penitências: "Se alguém Me quer seguir, renuncie-se a si mesmo, tome sua Cruz e siga-Me." Mc 8,34
    Pois mesmo nas mais difíceis situações, Ele sempre buscou cumprir os desígnios de Deus: "Pai, se é de Teu agrado, afasta de Mim este cálice! Não se faça, todavia, Minha vontade, mas sim a Tua." Lc 22,42


ENFRENTAR AS INJUSTIÇAS

    Além de ícone de vida penitente, São João Batista também foi um poderoso Profeta, como está acima, e assim denunciou a situação de adultério em que vivia o rei Herodes, razão pela qual foi martirizado. Jesus destacou essa bem-aventurança, que é igualmente uma penitência: "Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!" Mt 5,10

PEREGRINAÇÕES

    Viagens por devoção também são obrigação religiosa e uma maneira de expiar pecados, como é da tradição dos judeus: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e de todo país muita gente subia a Jerusalém antes da Páscoa para purificar-se. Procuravam Jesus e falavam uns com os outros no Templo: 'Que vos parece? Achais que Ele não virá à festa?' Mas os sumos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem para que todo aquele que soubesse onde Ele estava, que O denunciasse, para prenderem-nO." Jo 11,55-57
    Esse preceito também cumpriam São José e Nossa Senhora: "Seus pais iam todos anos a Jerusalém para a festa da Páscoa." Lc 2,41
    E o próprio Jesus, depois de iniciada Sua vida pública: "Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém." Jo 2,13

QUARESMA

    Os 40 dias que antecedem a Páscoa, pois, é o tempo mais apropriado para as penitências, e a Igreja estabelece através de Seu quarto Mandamento: "Jejuar e abster-se de carne, conforme manda a Santa Mãe Igreja." No Brasil, isso se aplica a todas sextas-feiras da quaresma, à Quarta-Feira de Cinzas e à Sexta-Feira Santa.

CINZAS E TRADIÇÕES JUDAICAS

    No Antigo Testamento, vemos outras formas de penitência além de pôr cinzas sobre a cabeça, como fazemos na Quarta-Feira de Cinzas, que marca o início da Quaresma. É o rasgar as vestes e vestir-se de saco, que foi a penitência de Mardoqueu ao saber que o rei Assuero havia dado a Amã permissão para exterminar o povo judeu, enquanto estavam no Exílio da Babilônia: "Quando Mardoqueu soube o que se tinha passado, rasgou suas vestes, cobriu-se de saco e cinza, e percorreu a cidade, dando gritos de dor." Est 4,1
    Tamar também rasgou as vestes ao ser violentada e, em seguida, desprezada por Amnon, seu meio irmão: "Tamar então derramou cinza sobre a cabeça, rasgou seu longo vestido e, pondo a mão sobre a cabeça, afastou-se gritando." 2 Sm 13,19
    Esses costumes foram confirmados por Jesus: "Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e Sidônia tivessem sido feitos os prodígios que foram realizados em vosso meio, há muito tempo teriam feito penitência, cobrindo-se de saco e cinza." Lc 10,13

DIZ O CATECISMO:

    "A penitência interior é uma reorientação radical de toda a vida, um retorno, uma conversão para Deus de todo nosso coração, uma ruptura com o pecado, uma aversão ao mal e repugnância às más obras que cometemos. Ao mesmo tempo, é o desejo e a resolução de mudar de vida com a esperança da Divina Misericórdia e a confiança na ajuda de Sua Graça. Esta conversão do coração vem acompanhada de uma dor e uma tristeza salutares, chamadas pelos Padres de 'animi cruciatus (aflição do espírito)', 'compunctio cordis (arrependimento do coração)'." CIC § 1431
    "O pecado é antes de tudo uma ofensa a Deus, uma ruptura da Comunhão com Ele. Ao mesmo tempo é um atentado à Comunhão com a Igreja. Por isso, a conversão simultaneamente traz o perdão de Deus e a reconciliação com a Igreja, que é liturgicamente expresso e realizado pelo Sacramento da Penitência e da Reconciliação." CIC § 1440
    "O Sacramento da Penitência é constituído de três atos do penitente e da absolvição dada pelo Sacerdote. Os atos do penitente são o arrependimento, a Confissão ou manifestação dos pecados ao Sacerdote, e o propósito de cumprir a penitência e as obras de reparação." CIC § 1491
    "Se alguém tem consciência de ter pecado mortalmente, não deve comungar a Eucaristia sem previamente ter recebido a absolvição pelo Sacramento da Penitência." CIC § 1415

    "Recebe, ó Senhor, por Tuas mãos este sacrifício, para a Glória de Teu Nome, para nosso bem e de toda a Santa Igreja!"