quarta-feira, 5 de março de 2025

A Quarta-Feira de Cinzas


    A quarta-feira de cinzas é o primeiro dia da Quaresma, corrutela de Quadrigéssima, que são os quarenta dias, sem contar os domingos, que vão até o Sábado de Aleluia, véspera do Domingo de Páscoa. Para os cristãos, esse é o propício período para arrependimento, penitência e conversão, rememorando os quarenta dias que Jesus passou no deserto, e assim de preparação para a Páscoa.
    Na Santa Missa dessa quarta-feira, o padre marca a testa dos fiéis fazendo uma Cruz com cinzas, que só devem ser lavadas após o pôr do sol. Também é dia de jejum.
    A tradição de cobrir-se de cinzas é um antigo rito de penitência, um pedido de Misericórdia no qual a humanidade se faz consciente da efemeridade da terrena vida, evocando o castigo que Deus impôs a Adão, no Livro de Gênesis, após o pecado da desobediência: "... porque és pó, e pó hás de tornar-te." Gn 3,19
    Coisa que os sagrados autores jamais esqueceram, como o Livro de Eclesiástico diz: "O sol contempla a multidão dos astros do céu, enquanto que todos homens são apenas terra e cinza." Eclo 17,31
    Aliás, o primeiro e grande patriarca dos israelitas admitia exatamente essa condição perante Deus, enquanto tentava defender a cidade de Sodoma: "Abraão continuou: 'Eu atrevo-me a falar a Meu Senhor, embora eu seja pó e cinza.'" Gn 18,27
    Desde muitos séculos, portanto, temos registros da prática desse gesto de pelo povo hebreu, como uma forma de rogar clemência a Deus. No Livro de Jó, este paciente personagem não hesitou quando foi gravemente ferido: "Satanás retirou-se da presença do Senhor e feriu Jó com uma lepra maligna, desde a planta dos pés até o alto da cabeça. E Jó tomou um caco de telha para coçar-se, e assentou-se sobre a cinza." Jó 2,7-8
    Até estrangeiros assim se curvavam perante o Deus de Israel, pela pregação de um de Seus Profetas, como no Livro de Jonas apontou: "O fato chegou também ao conhecimento do rei de Nínive. Ele levantou-se do trono, tirou o manto, vestiu um pano de saco e sentou-se em cima da cinza." Jn 3,6
    No Livro de Ester, foi o que fez Mardoqueu, homem de Deus, primo de Ester e irmão do rei Saul, assim como todo povo exilado, quando Assuero, o rei da Pérsia, decretou o extermínio dojudeus: "... Mardoqueu rasgou as vestes, cobriu-se com pano de saco e espalhou cinzas na cabeça. Nas províncias, à medida que o decreto real era publicado, os judeus ficavam desolados: faziam jejum, choravam e ficavam de luto. O pano de saco e as cinzas tornaram-se a cama de muitos." Est 4,1.3
    E como Assuero não retrocedia em seus planos, a própria Ester, rainha do povo hebreu, adotou essas penitências: "Tomada de mortal angústia, a rainha Ester também procurou refúgio no Senhor. Deixou as roupas de luxo, vestiu-se com roupas de miséria e luto. Em lugar de finos perfumes, cobriu a cabeça com cinzas e poeira." Est 4,17a
    Assim também fez Tamar, filha do rei Davi, após ser abusada por seu meio-irmão, Amnon. Está no Segundo Livro de Samuel: "Então Tamar derramou cinza sobre a cabeça, rasgou seu longo vestido..." 2 Sm 13,19
    Igualmente, no Livro de Judite, fez todo povo de Jerusalém, temendo a ameaça de saques e a profanação do Templo de Jerusalém por parte de Holofernes, o general de Nabucodonosor II, rei de Babilônia: "Aqueles que viviam em Jerusalém, inclusive mulheres e crianças, prostraram-se diante do Templo com cinzas na cabeça, e estenderam as mãos diante do Senhor. O povo jejuou por seguidos dias em toda Judeia e em Jerusalém, diante do Templo do Senhor Todo-poderoso. O sumo sacerdote Joaquim, junto a todos sacerdotes e ministros do culto do Senhor, ofereciam o diário holocausto, as ofertas e os voluntários dons do povo. Vestidos com panos de saco e com cinza sobre os turbantes..." Jt 4,11.13b-15a
    Eles reforçaram a prática quando esse general encampou seus soldados para a invasão: "Quando os israelitas viram aquela multidão, prostraram-se por terra e cobriram de cinzas suas cabeças, comunitariamente rezando ao Deus de Israel para que fizesse Misericórdia a Seu povo." Jt 7,4
    O mesmo fez Judite, religiosa, viúva e heroína, pedindo a Deus que abençoasse seus planos para defender o povo de Israel contra esse inimigo: "Tendo eles partido, Judite entrou em seu oratório, pôs seu cilício, cobriu a cabeça com cinzas e, prostrando-se diante do Senhor, rezou dizendo: 'Senhor, Deus de meu pai Simeão, que lhe destes a espada para vingar-se dos estrangeiros... vinde, eu peço-vos, ó Senhor Meu Deus, e socorrei esta viúva." Jt 9,1-2a.3b
    E foi a recomendação no Livro do Profeta Jeremias às mulheres de Israel, quando ele predisse os castigos de Deus, que permitiu que Israel caísse em mãos de violentos inimigos de Babilônia: "Ó filha de meu povo, veste o saco, revolve-te nas cinzas. Cobre-te de luto como se fora por um único filho, e ecoem teus amargos gemidos, porquanto de repente sobre nós vai cair o devastador." Jr 6,26
    No Livro do Profeta Daniel, já durante o exílio em Babilônia, este grande Profeta também se angustiou ao perceber que as ruínas de Jerusalém ainda durariam por décadas: "Voltei meu olhar para o Senhor Deus, procurando fazer preces e súplicas com jejum, vestido de pano de saco e coberto de cinza. Então, fiz uma oração ao Senhor Deus, confessando e dizendo: 'Ah! Senhor, imenso e terrível Deus, cumpridor da Aliança e do amor para com os que Vos amam e observam Vossos Mandamentos! Pecamos, praticamos crimes e impiedades, fomos rebeldes e desviamo-nos de Vossos Mandamentos e de Vossas sentenças.'" Dn 9,3-5
    Tempos mais tarde, Judas Macabeu e seus companheiros também adotaram esse rito quando Jerusalém foi despovoada e o Templo foi pisoteado por Apolônio, governador da Samaria, do Império Selêucida. "Nesse dia, eles jejuaram, vestiram-se de luto, puseram cinza na cabeça e rasgaram as roupas." 1 Mc 3,47
    E usaram do mesmo rito para purificar o Templo, após a reconquista de Jerusalém: "Judas e seus companheiros fizeram esta proposta: 'Agora que derrotamos o inimigo, vamos purificar e consagrar o Templo.' O exército inteiro reuniu-se e subiu o monte Sião. Aí viram o Santuário abandonado, o altar profanado, as portas incendiadas, o mato crescendo nos pátios, como se fosse em campo aberto ou nas montanhas, e os aposentos destruídos. Então rasgaram as roupas e fizeram grande luto, jogando cinza na cabeça e prostrando-se por terra." 1 Mc 4,36-,4
    As penitências em Israel, pois, envolviam toda população, até mesmo idosos e lactentes. É o que se vê no Livro do Profeta Joel, quando depois do convite de Deus, ele convocou todo povo a clamar por libertação de uma praga de gafanhotos, da invasão de um exército inimigo, talvez assírio, e do próprio Dia do Juízo: "'Agora, portanto,' Oráculo do Senhor, 'voltai a Mim de todo vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos de luto. Rasgai vossos corações e não vossas vestes.' Voltai ao Senhor Vosso Deus, porque Ele é bom e compassivo, longânime e indulgente, e compadece-Se da desgraça. Tocai a trombeta em Sião: publicai o jejum, convocai a assembleia, reuni o povo; santificai a assembleia, agrupai os anciãos, congregai as crianças e os meninos de peito. Saia o recém-casado de seus aposentos, e a esposa, de sua câmara nupcial." Jl 2,12-13.15-16
    Vemos, por fim, que Jesus corroborou a penitência feita com cinzas, mencionando-a como eficaz mortificação no Evangelho segundo São Mateus: "Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Se em Tiro e Sidônia se tivessem realizado os milagres feitos no meio de vós, há muito tempo teriam demonstrado arrependimento, vestindo-se de saco e cobrindo-se de cinza." Mt 11,21
     E quanto às demais formas de penitência, como o jejum, de suma importância nesses dias de hedonismo, Ele deixou claro que abominava a hipocrisia, desde o início de Suas pregações: "Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um abatido semblante para manifestar aos homens que jejuam. Em Verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava teu rosto. Assim não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a Teu Pai que está presente ao oculto. E Teu Pai, que vê em oculto lugar, recompensá-te-á." Mt 6,16-18
    Aliás, a penitência sempre foi uma determinação durante Sua Missão, e já nas primeiras palavras: "Desde então Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    Também era o que pregavam os Apóstolos, como se lê no Evangelho segundo São Marcosdesde a primeira missão que Jesus lhes deu: "Eles partiram e pregaram a penitência." Mc 6,12
    E assim Ele instruiu que fizesse a Santa Igreja Católica, quando explicou a razão de Sua Paixão em primeira aparição ao Colégio dos Apóstolos, dizendo em terceira Pessoa no texto do Evangelho segundo São Lucas: "Assim é que está escrito, e assim era necessário que o Cristo padecesse, mas que ressurgisse dos mortos ao terceiro dia. E que em Seu Nome se pregasse a penitência e a remissão dos pecados a todas nações, começando por Jerusalém." Lc 24,46-47
    A Carta de São Paulo a São Tito, em bela síntese, diz que Jesus quer tirar-nos da irreligiosidade: "Veio ensinar-nos a renunciar à impiedade e às mundanas paixões, e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade..." Tt 2,12
    Por isso, a Carta de São Paulo a São Timóteo recomenda afastamento de certos assuntos: "Procura esquivar-te das frívolas conversas dos mundanos, que só contribuem para a impiedade. As palavras dessa gente destroem como a gangrena." 2 Tm 2,16-17a
    Pois a falta de religiosidade nada mais é que renegar a Verdade, sonegar testemunho das coisas de Deus, como está na Carta de São Paulo aos Romanos: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade." Rm 1,18
    E assim, ainda segundo o Apóstolo dos Gentios, será a divisão de ovelhas e cabritos no Juízo Final (cf. Mt 25,32): "Então Israel em peso será salvo, como está escrito: 'Virá de Sião o Libertador, e apartará de Jacó a impiedade.'" Rm 11,26
    A Carta de São Judas, pois, citando um apócrifo livro, diz que a não reverência a Deus e a profanação foram as próprias causas do Dilúvio: "Henoc, que foi o oitavo patriarca depois de Adão, também profetizou a respeito deles, dizendo: 'Eis que veio o Senhor, entre milhares de Seus santos, para julgar a todos e confundir todos ímpios, por causa das obras de impiedade que praticaram e por causa de todas injuriosas palavras que eles, ímpios, têm proferido contra Deus." Jd 14-15


    As cinzas usadas pelo Sacerdote nesse ritual são obtidas pela queima dos ramos do Domingo de Ramos do ano anterior, com os quais se aclama a entrada de Jesus em Jerusalém, no domingo que antecede o Domingo de Páscoa.

    "Santificai-nos pelo dom de Vosso Espírito!"