quarta-feira, 13 de março de 2019

Os Sete Pecados Capitais


    O Catecismo da Igreja Católica ensina: "O pecado mortal destrói a caridade no coração do homem por uma grave infração à lei de Deus; desvia o homem de Deus, que é seu fim último e sua bem-aventurança, preferindo um bem inferior." CIC § 1855
    Dá detalhes: "A matéria grave é precisada pelos Dez Mandamentos, segundo a resposta de Jesus ao rico jovem: 'Não mates, não cometas adultério, não roubes, não levantes falso testemunho, não defraudes ninguém, honra teu pai e tua mãe' (Mc 10,19)." CIC § 1858
    E explica: "O pecado mortal é uma radical possibilidade da liberdade humana [livre arbítrio], como o próprio amor. Acarreta a perda da caridade e a privação da graça santificante, isto é, do estado de Graça. Se este estado não for recuperado mediante o arrependimento e o perdão de Deus, causa a exclusão do Reino de Cristo e a morte eterna no inferno, já que nossa liberdade tem o poder de fazer opções para sempre, sem regresso. No entanto, mesmo podendo julgar que um ato é em si falta grave, devemos confiar o julgamento sobre as pessoas à justiça e à Misericórdia de Deus." CIC § 1861
    São João Evangelista apresenta as propensões que levam aos pecados em três grandes grupos: "Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas do mundo." 1 Jo 2,16
    São Tiago Menor diz que essas fraquezas são como o germe da própria morte em vida: "A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado. E o pecado, uma vez consumado, gera a morte." Tg 1,15
    E diz que elas são auto-ilusões: "Cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e alicia." Tg 1,14
    Seriam, portanto, notórias carências da Palavra de Deus, pois segundo São João Evangelista "... a Graça e a Verdade vieram por Jesus Cristo." Jo 1,17
    Por isso, São Paulo advogava pelo anúncio do Evangelho: "Logo, a fé provém da pregação e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,17
    De fato, Jesus afirmou aos Apóstolos: "Vós já estais puros pela Palavra que vos tenho anunciado." Jo 15,3
    E Ele mesmo sentenciou: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida." Jo 14,6a
    São Tomás de Aquino listou os mais graves pecados:


    Também conhecido como o pecado do orgulho ou, mais apropriadamente, da soberba. É o doentio anseio de destacar-se perante os demais, seja menosprezando-os, exibindo-se, vangloriando-se ou atribuindo excessivo valor a si mesmo ou a vãs coisas, como na ostentação de bens ou qualidades. O termo 'vaidade', aliás, intrinsecamente tem esse sentido, pois vem do latim 'vanitatis', relativo a 'vanus', que quer dizer vazio ou vão.
    Das vãs coisas, o jogo da aparência é o mais conhecido. A desmedida importância dada ao corpo, ao vestir, ao pentear, à maquiagem e à perfumaria demonstra carência de valores realmente dignificantes. E ao culto à aparência invariavelmente junta-se o orgulho do que se imagina de si, das coisas possui, do cargo ou da posição social que ocupa. Nota-se uma atenção incomodamente centrada em si mesmo, só capaz de enxergar suas supostas vantagens. Com frequência, esse pecado manifesta-se associado à inveja e à avareza.
    Ensinamentos de Jesus: "E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo. Não trabalham nem fiam. Entretanto, Eu digo-vos que o próprio Salomão no auge de sua glória não se vestiu como um deles. Se Deus assim veste a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca ?" Mt 6,28-30
    "Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés. Fazem todas suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas em seus mantos. Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados rabi pelos homens." Mt 23,2.5-7
    A virtude que se opõe à vaidade é a humildade: "Não leveis nem ouro, nem prata, nem dinheiro em vossos cintos, nem mochila para a viagem, nem duas túnicas, nem calçados, nem bastão, pois o operário merece seu sustento." Mt 10,9-10

A INVEJA

    Pecado comumente expresso pela cobiça, dos desvios de conduta é o mais facilmente reconhecidos. Na realidade, é o mais claro sinal do sentimento de inferioridade ou da real incapacidade de desenvolver habilidades e qualidades.
    É gerada pelo egocentrismo, e o invejoso sente-se arrasado diante do sucesso alheio. Denuncia uma radical impotência de distinguir pessoas de pertences, de posições sociais ou de atribuições pessoais. Deriva do não descobrimento dos próprios talentos, talvez conscientemente sabotados, mas sempre indicando uma perigosa falha no processo de autoconhecimento e de amadurecimento. É comum que esse pecado se associe à ira e à preguiça.
    Ensinamentos de Jesus: "Porque é do interior do coração dos homens que procedem as más intenções: ... cobiças... inveja... Todos estes vícios procedem de dentro e tornam impuro o homem." Mc 7,21-23
    "Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe de ti: é melhor entrares na Vida cego de um olho que seres jogado com teus dois olhos no fogo da geena." Mt 18,9
    A virtude que se opõe à inveja é a compaixão: "... porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e acolhestes-Me; nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me; estava na prisão e viestes a Mim." Mt 25,35-36

A IRA

    Pecado fruto do indiscriminado ódio, que veladamente pode expressar-se através da agressividade ou de mais evidente modo pela violência, que quase sempre é um deplorável recurso, mas ainda muito presente no convívio humano.
    Em geral é motivado por profunda incompreensão, dificuldade de perdoar, rancor, mútuas ofensas e desejo de vingança. É o decaimento à brutal animalidade como forma de solução de conflitos, e assim o pecado que motiva injúria, calúnia, escárnios, torturas, assassinatos, chacinas, guerras e genocídios. Cúmulo inverso do incondicional amor. Com grande probabilidade, vem associado à vaidade e à inveja.
    Ensinamentos de Jesus: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente'. Eu, porém, digo-vos: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa." Mt 5,38-40
    "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos." Mt 5,43-45
    A virtude que se opõe à ira é o amor: "Este é Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12

A PREGUIÇA

    Inicialmente, esse pecado só se referia a preguiça espiritual, manifesto contra as atividades religiosas. Até tinha um específico nome, acídia, mas não demorou a ser observado como abominável comportamento também em relação às demais atividades do cotidiano.
    Está maliciosamente dissimulado na relapsa, morosa ou negligente mentalidade. Muita incompreensão, mau juízo e falso testemunho partem dessa índole. Egoísta e insensível para com os alheios esforços, por vezes tiranicamente manipulando a compaixão de quem está ao redor, o preguiçoso detesta ou esquiva-se de alguns trabalhos e obrigações morais, conforme seus interesses. Pecado frequentemente associado à luxúria e à gula.
    Ensinamentos de Jesus: "Vigiai, porque não sabeis a hora em que virá o Senhor." Mt 24,42
    "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois n'Ele Deus Pai imprimiu Seu sinal." Jo 6,27
    A virtude que se opõe à preguiça é a perseverança: "Por acaso não fará Deus justiça a Seus escolhidos, que por Ele estão clamando dia e noite?" Lc 18,7

A AVAREZA

    Exacerbado apego a bens materiais e ao dinheiro. Mórbido traço de personalidade que padece de doentios ciúme e guarda de valores, pertences e propriedades, em total desprezo por relacionamentos e pessoas de seu convívio. Tão fútil, não se basta com o que já possui e facilmente cede à ganância e à cobiça.
    Tal comportamento é absolutamente incompatível com o amar a Deus sobre todas coisas. Bem ao contrário do primeiro Mandamento, caracteristicamente é o próprio arrebatamento pela material idolatria. Corriqueiramente está associado à inveja e à gula.
    Ensinamentos de Jesus: "Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam." Mt 6,19
    "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me!" Mt 19,21b
    A virtude que se opõe à avareza é a piedade: "Antes buscai o Reino de Deus e Sua justiça, e todas estas coisas ser-vos-ão dadas em acréscimo." Mt 6,33

A GULA

    Pecado de comer e beber com os olhos, além das reais necessidades, ou igualmente entregar-se ao álcool e às drogas. Descontrole do apetite ou do equilíbrio dos sentidos como forma de saciação.
    Há ligeiras controvérsias, dando outras razões como causas, mas são absolutamente inescusáveis as atitudes contrárias à partilha ou à alienação da realidade. As vísceras ou os sentidos não podem dominar, escravizar a alma humana. Via de regra, esse pecado surge associado à avareza e à inveja.
    Ensinamentos de Jesus: "A vida vale mais que o alimento... Considerai os corvos: eles não semeiam, nem ceifam, nem têm despensa, nem celeiro. Entretanto, Deus alimenta-os. Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber, não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas estas coisas." Lc 12,23a.24a.29-30
    "Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um abatido semblante para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade, digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, perfuma tua cabeça e lava teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a Teu Pai que está presente ao oculto. E Teu Pai, que vê num oculto lugar, recompensar-te-á." Mt 6,16-18
    A virtude que se opõe à gula é a generosidade: "Mas, quando deres uma ceia, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir, e ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos." Lc 14,13-14

A LUXÚRIA

    Embora seja mais conhecida como desenfreada busca pelo prazer venéreo, é mais propriamente a conduta de quem submete o semelhante à condição de objeto, resultante de excessos de pervertidas paixões. No entanto, acaba escravizando e desmoralizando o próprio ser humano que dela faz uso.
    Manifesta-se, entre outros meios, pela promiscuidade, pornografia, quiromania, prostituição, sodomia, masoquismo, sadismo, zoofilia, pedofilia e incesto. Ou seja, leva à bestialização das relações humanas. Pecado costumeiramente associado à vaidade e à preguiça.
    Ensinamentos de Jesus: "Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: 'Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher, e os dois formarão uma só carne'? Assim, já não são dois, mas uma só carne. Portanto, não separe o homem o que Deus uniu." Mt 19,4-6
    "Eu, porém, digo-vos: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." Mt 5,28
    A virtude que se opõe à luxúria é a castidade: "... há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por amor do Reino dos Céus. Quem puder compreender, compreenda." Mt 19,12


APÊNDICE

    Segundo a Psicologia, alguns desses pecados seriam eclosões de um mecanismo da psique chamado compulsão, especificamente a vaidade, a inveja, a gula, a luxúria e a avareza, acionado por deturpados processos de individuação. Pelos mesmos motivos, a ira seria uma negativa e desproporcional resposta aos mecanismos da repressão, muito importantes para a formação da boa conduta, e a preguiça, um sorrateiro artifício da tirania afetiva. De toda forma, em qualquer amadurecido e saudável ambiente todos estes desvios claramente denunciam-se, deles tornando conscientes seus pacientes, se ainda não o forem por força de isolados ou mesmo teóricos exemplos.

    "Glória e louvor ao Pai, que em Cristo nos reconciliou!"