quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O Eterno Banquete


    Jesus refere-Se ao Céu, ou ao Reino de Deus, como a um feliz e eterno banquete, do qual participarão pessoas do mundo todo. No Evangelho Segundo São Mateus, quando Se admirou da grande fé de um centurião romano, Ele anunciou a universalidade da Igreja Apostólica e o fim dos judeus como o povo de Deus: "Eu digo-vos: muitos virão do Oriente e do Ocidente, e sentar-se-ão à mesa no Reino do Céu com Abraão, Isaac e Jacó, enquanto os filhos do Reino serão postos para fora..." Mt 8,11-12a
    Frequentemente usou dessa imagem em Suas parábolas, como nas Bodas do Filho do Rei, uma alusão à "Ceia das Núpcias do Cordeiro" (cf. Ap 19,9), que é o próprio Reino de Deus. Perante os chefes dos sacerdotes e fariseus no Templo de Jerusalém, Ele anunciou em Seus últimos dias, referindo-Se à persistência do Pai na Salvação do povo de Israel: "O Reino dos Céus é comparado a um Rei que celebrava as Bodas de Seu Filho. Enviou Seus servos para chamar os convidados, mas eles não quiseram vir. Ainda enviou outros, dizendo-lhes: 'Dizei aos convidados que já está preparado Meu banquete. Meus bois e Meus animais cevados estão mortos, tudo está preparado. Vinde às Bodas!'" Mt 22,2-4
    Também fala do imenso amor de Deus, em completa 'inversão os papéis', como Senhor que Se faz servo de Seus empregados, premiando àqueles que Lhe são fiéis. Ensinou-o a todos Seus seguidores, quando os alertou para Sua Volta Triunfal no fim dos tempos. É do Evangelho Segundo São Lucas: "Bem-aventurados os servos a quem o Senhor achar vigiando, quando vier! Na Verdade, digo-vos: cingir-Se-á, fá-los-á sentar à mesa e servi-los-á." Lc 12,37
    Ou fala de uma grande ceia dada pelo "Dono da Casa", que, diante da recusa dos convidados, de novo os judeus, vai encher Sua Casa, indicando a inevitável instauração do Reino de Deus, de ostensivo modo. Foi na casa de um dos chefes dos fariseus, que Lhe ofereceu uma refeição entre outros convivas: "Um Homem deu uma grande ceia e convidou muitas pessoas. O Senhor ordenou: 'Sai pelos caminhos e atalhos, e obriga todos a entrar para que Minha Casa se encha.'" Lc 14,16.23
    E ao contrário das práticas da boa vizinhança, a esse chefe dos fariseus recomendou que fizesse banquetes de caridade: "Quando deres alguma ceia, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem parentes, nem ricos vizinhos. Porque, por sua vez, eles te convidarão e assim te retribuirão. Mas quando deres uma ceia, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos. Serás feliz porque eles não têm com que te retribuir, mas sê-te-á retribuído na Ressurreição dos justos." Lc 14,12-14
    Pois foi isso que havia feito o inspirado rei Salomão após uma visão de Deus em sonho, quando não Lhe pediu nem riqueza nem a morte de seus inimigos, apenas Sabedoria para reinar sobre o povo de Israel. Lê-se no Primeiro Livro de Reis: "Voltando a Jerusalém, apresentou-se diante da Arca da Aliança do Senhor e ofereceu holocaustos e sacrifícios de comunhão. E deu um banquete a todos seus servos." 1 Rs 3,15b
    Já aos convidados, o Livro de Eclesiastes recomenda contrição: "Melhor é ir para a casa onde há luto que para a casa onde há banquete. Porque aí se vê o fim de todo homem, e assim os vivos refletirão." Ecl 7,2
    O Livro de Provérbios, sabendo que o banquete não vale por si mesmo, aconselha comedimento, advertindo para uma das consequências dos pecados capitais da vaidade e da embriaguez e gula: "Aquele que ama os banquetes será um indigente, aquele que ama o vinho e o azeite não enriquecerá." Pr 21,17
    Ademais, o Livro de Eclesiástico fala da virtude da temperança e de seus reflexos na saúde: "Nunca sejas guloso em banquete algum. Não te lances sobre tudo que se serve, pois o excesso no alimento é causa de doença, e a intemperança leva à cólica. Muitos morreram por causa de sua intemperança. O sóbrio homem, porém, prolonga sua vida." Eclo 27,32-34
    Exalta a modéstia, contra o insensato deslumbramento: "Mais vale o que um pobre come sob um teto de tábua, que um magnífico banquete em casa alheia para quem não tem domicílio." Eclo 29,29
    E nos banquetes, denuncia o poder de sedução do inimigo, que astutamente desvirtua os projetos de Deus em nossa alma, levando-nos pela escravidão à miséria moral: "Não te tornes amigo de um mais poderoso que tu. Que ligação pode haver entre um pote de barro e um pote de ferro? Quando houver choque, o de barro será quebrado. O rico comete uma injustiça, e em seguida põe-se a gritar. O pobre, ofendido, guarda silêncio. Enquanto lhe servires, ele empregá-te-á. Quando nada mais tiveres, ele abandoná-te-á. Se tens haveres, contigo ele banquetear-se-á, explorá-te-á e não cuidará de tua sorte. Se lhe fores útil, ele dominá-te-á. Com um sorriso te dará esperanças, com belas palavras te dirá: 'De que necessitas?' Confundi-te-á com seus banquetes até te despojar duas ou três vezes, e, por fim, zombará de ti. Depois, vendo-te, abandoná-te-á e abanará a cabeça, escarnecendo de ti." Eclo 13,2b-8
    Ora, vai ser numa ocasião assim que Herodes, mesmo temendo São João Batista, será enganado. O Evangelho Segundo São Marcos aponta: "Chegou, porém, um favorável dia em que Herodes, por ocasião de seu natalício, deu um banquete aos grandes de sua corte, a seus oficiais e aos principais de Galileia. A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e de seus convivas. Disse o rei à moça: 'Pede-me o que quiseres, e eu dá-te-ei.' E jurou-lhe: 'Tudo que me pedires, dá-te-ei, ainda que seja a metade de meu reino.' Ela saiu e perguntou a sua mãe: 'Que hei de pedir?' E a mãe respondeu: 'A cabeça de João Batista.'" Mc 6,21-24
    Jesus também apontou o banquete como símbolo dos pecados capitais do orgulho e da avareza: "Havia um rico homem que se vestia de púrpura e finíssimo linho, e todo dia se banqueteava e se regalava. Também havia um mendigo, por nome Lázaro, todo coberto de chagas, que vivia deitado à porta do rico, pois avidamente desejava matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do rico. Até os cães iam lamber-lhe as chagas. Ora, aconteceu morrer o mendigo, e ser levado pelos anjos ao seio de Abraão. Também morreu o rico e foi sepultado. E estando ele nos tormentos do inferno, levantou os olhos e viu, ao longe, Abraão e Lázaro em seu seio." Lc 16,19-23
    Mas como Ele mais usava essa imagem em positivo aspecto, como fez na casa do chefe dos fariseus que mencionamos, alguém entre eles passou a o desejar: "A estas palavras, um dos convidados disse a Jesus: 'Feliz daquele que se sentar à mesa no Reino de Deus!'" Lc 14,15
    Deus mesmo, no Livro de Deuteronômio, havia ordenado aos israelitas um banquete como ritual, tão logo tomassem posse da Terra Prometida: "É ali que fareis vossos sagrados banquetes em presença do Senhor, Vosso Deus, e gozareis, vós e vossas famílias, de todos bens que vossas mãos produzirem com a bênção do Senhor, Vosso Deus." Dt 12,8
    E com a ostensiva manifestação do Reino dos Céus, após o Juízo Final, ele será ofertado por Deus mesmo, como Jesus prometeu acima (cf. Lc 12,37). O Livro do Profeta Isaías anuncia, dizendo da Jerusalém Celestial, que será a plena realização da Santa Igreja Católica: "O Senhor dos Exércitos preparou para todos povos, nesse monte, um banquete de gordas carnes, um festim de velhos vinhos! De gordas e medulosas carnes, e de velhos e purificados vinhos! Nesse monte, tirará o véu que vela todos povos, a cortina que recobre todas nações, e para sempre fará desaparecer a morte." Is 25,6-8a
    Ora, o próprio Deus einfatizou esse convite, falando do Novo Testamento, pelo qual participamos da Ceia do Senhor, o Santíssimo Sacramento (cf. Lc 22,19) celebrado na Santa Missa (cf. At 2,42) pela Igreja de Deus Vivo (cf. 1 Tm 3,15): "Ó vós todos que estais com sede, vinde às águas. Vós que não tendes dinheiro, apressai-vos. Vinde e comei, vinde comprar sem dinheiro, tomar vinho e leite sem nenhuma paga. Por que gastar dinheiro com outra coisa que não o Pão, desperdiçar o salário senão com completa satisfação? Ouvi-Me com atenção, e comei o que é bom, para deleite e revigoramento de vosso corpo. Escutai-Me e vinde a Mim, ouvi-Me e haveis de viver. Farei uma Eterna Aliança, assegurando-vos os Graças prometidas a Davi." Is 55,1-3
    E Jesus literalmente descreve Seu Reino, que se instalou (cf. Lc 17,21) pela Igreja que Ele fundou (cf. Jo 21,15), como um banquete, como prometeu aos Apóstolos após a Santa Ceia: "... Eu, pois, disponho do Reino a vosso favor, assim como Meu Pai o dispôs a Meu favor, para que comais e bebais a Minha mesa em Meu Reino..." Lc 22,29-30
    Pois como aconteceu na primeira multiplicação dos pães e dos peixes, que Ele realizou num deserto lugar, lá não faltará o alimento: "Mandou, então, a multidão sentar-se na relva, tomou os cinco pães e os dois peixes e, elevando os olhos ao Céu, abençoou-os. Partindo em seguida os pães, deu-os a Seus discípulos, que os distribuíram ao povo. Todos comeram e ficaram fartos, e, dos pedaços que sobraram, recolheram doze cheios cestos. Ora, os convivas foram aproximadamente cinco mil homens, sem contar as mulheres e crianças." Mt 14,19-21
    E certos da presença de Nossa Senhora na assembleia dos justos (cf. Ap 12,1), também podemos afirmar que não faltará as melhores bebidas, como aconteceu nas Bodas de Caná. Aliás, mais um banquete do qual Nosso Senhor participou, pois não recusava aos bons. É leitura do Evangelho Segundo São João: "Ora, achavam-se ali seis talhas de pedra para as purificações dos judeus, que continham cada qual duas ou três medidas. Jesus ordena-lhes: 'Enchei as talhas de água.' Eles encheram-nas até em cima. 'Tirai agora' , disse-lhes Jesus, 'e levai ao chefe dos serventes.' E levaram. Logo que o chefe dos serventes provou da água tornada vinho... chamou o noivo e disse-lhe: 'É costume servir primeiro o bom vinho, e depois, quando os convidados já estão quase embriagados, servir o menos bom. Mas tu guardaste o melhor vinho até agora.'" Jo 2,6-9a.10
    Ora, Jesus, por Seus milagres, induz-nos a imaginar uma surpreendente fartura, como também se deu na segunda miraculosa pesca, dada após Sua Ressurreição: "Disse-lhes Ele: 'Lançai a rede ao lado direito da barca e achareis.' Lançaram-na, e já não podiam arrastá-la por causa da grande quantidade de peixes." Jo 21,6
    Contudo, enquanto ainda estamos na Terra, Ele avisou-nos de um Pão Especial, claramente a Santa Eucaristia, e exatamente após ter multiplicado pães e peixes pela primeira vez: "Trabalhai, não pela comida que perece, mas por aquela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará." Jo 6,27
    É o Pão da Vida Eterna, Seu próprio Corpo oferecido como alimento da Salvação, que definitivamente sacia todos que a Ele se achegam: "Eu sou o Pão da Vida! Aquele que vem a Mim não terá fome, e aquele que crê em Mim jamais terá sede." Jo 6,35
    Bem como ofereceu a Água Viva, explicando à samaritana junto ao poço de Jacó: "Todo aquele que beber desta água tornará a ter sede, mas aquele que beber da Água que Eu lhe der jamais terá sede. A Água que Eu lhe der virá a ser nele fonte de Água, que jorrará até a Vida Eterna." Jo 4,13b-14
    São Rafael Arcanjo, por exemplo, falou do especial alimento dos anjos, no Livro de Tobias: "Parecia-vos que eu comia e bebia convosco, mas meu alimento é um invisível manjar, e minha bebida não pode ser vista pelos homens." Tb 12,19
    Porque para que bem assimilássemos a importância do rito da Comunhão, Nosso Senhor ofereceu-nos o Pão do Céu na mesa da Ceia Pascal, na noite em que ia ser entregue: "Ao declinar da tarde, pôs-Se Jesus à mesa com os Doze discípulos. Durante a refeição, Jesus tomou o pão, benzeu-o, partiu-O e deu-O aos discípulos, dizendo: 'Tomai e comei, isto é Meu Corpo.' Depois tomou o cálice, rendeu graças e deu-lhO, dizendo: 'Bebei dele todos, porque isto é Meu Sangue, o Sangue da Nova Aliança, derramado em favor de muitos homens para a remissão dos pecados.'" Mt 26,20.26-28
    E São Lucas, que de longo convívio muito aprendeu de São Paulo, registrou mais estas palavras, deixando bem clara a instituição deste Sacramento, que é a razão de ser da Santa Madre Igreja (cf. Gl 4,26): "Fazei isto em memória de Mim." Lc 22,19b
    Enquanto alimento da Vida Eterna, portanto, a instituição da Eucaristia era o principal objetivo da Missão de Jesus, símbolo maior do Eterno Banquete: "Chegada que foi a hora, Jesus pôs-Se à mesa e Consigo os Apóstolos. Disse-lhes: 'Ardentemente tenho desejado convosco comer esta Páscoa, antes de sofrer. Pois vos digo: não tornarei a a comer até que ela se cumpra no Reino de Deus.'" Lc 22,14-16
    Porque, além da Salvação que é oferecida através de Seu Sacrifício, Ele só participará de uma nova ceia conosco quando o Reino de Deus for ostensivamente instaurado: "Digo-vos: doravante não beberei mais desse fruto da vinha, até o Dia em que de novo o beberei convosco no Reino de Meu Pai." Mt 26,29
    Ou seja, vivemos um tempo de jejum e de penitências, que é a marca dos tempos da Igreja Católica, como Nosso Senhor mesmo explicou aos seguidores de São João Batista, que já se abalançavam a O seguir: "Então os discípulos de João, dirigindo-se a Ele, perguntaram: 'Por que jejuamos nós e os fariseus, e Teus discípulos não?' Jesus respondeu: 'Podem afligir-se os amigos do Esposo enquanto o Esposo está com eles? Dias virão em que lhes será tirado o Esposo. Então eles jejuarão.'" Mt 9,14-15
    E em sinal da importância do Memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, que a Igreja Una (Jo 17,23) celebra na Santa Missa, Jesus mesmo realizou a primeira celebração da Eucaristia ainda no Domingo da Ressurreição, diante dos discípulos que partiram para Emaús: "Enquanto iam conversando e discorrendo entre si, o próprio Jesus aproximou-Se deles e caminhava com eles. Aproximaram-se da vila para onde iam, e Ele fez como se quisesse passar adiante. Mas eles forçaram-nO a parar: 'Fica conosco, já é tarde e o dia declina.' Entrou então com eles. Aconteceu que, estando com eles sentado à mesa, Ele tomou o pão, abençoou-O, partiu-O e serviu-lhO. Então se lhes abriram os olhos e reconheceram-nO. Mas Ele desapareceu." Lc 24,15.28-31


A ALEGRIA MAIOR

    Um banquete como imagem do Reino de Deus, portanto, não é nenhuma alegoria. Momentos antes do início de Sua Paixão, Jesus prometeu muita felicidade já nesta vida, àqueles que guardassem Sua Palavra: "Disse-vos essas coisas para que Minha alegria esteja em vós, e vossa alegria seja completa." Jo 15,11
    Sua Ressurreição, por si só, seria motivo de sobrenatural alegria para os Apóstolos, bem como para todos que em Si creem, como avisou: "Assim vós, sem dúvida, agora também estais tristes, mas hei de vos ver outra vez e vosso coração alegrar-se-á. E ninguém vos tirará vossa alegria." Jo 16,22
    As Graças alcançadas através de Seu Nome também são momentos de júbilo. Mesmo Se encaminhando para Sua Paixão, Ele afirmou: "Até agora não pedistes nada em Meu Nome. Pedi e recebereis, para que vossa alegria seja perfeita." Jo 16,24
    E nesta noite rezou ao Pai para que a alegria que Ele sentiria ao entrar em Sua Glória, pudesse ser sentida por nós: "Mas agora vou para junto de Ti. Dirijo-Te esta oração enquanto estou no mundo, para que eles tenham a plenitude de Minha alegria." Jo 17,13
    Foi essa satisfação que animou a fé de Abraão quando ele teve a visão do Dia da Glória de Jesus, como Nosso Salvador havia declarado aos judeus no Templo: "Abraão, vosso pai, exultou com o pensamento de ver Meu dia. Viu-o e ficou cheio de alegria." Jo 8,56
    São João Batista, enfim, exultou tão somente ao ter notícia do início do Ministério de Jesus, pois assim se cumpria sua missão. Foi seu último testemunho sobre Nosso Senhor: "Não sou o Cristo, mas fui enviado diante de Si. Nisso consiste minha alegria, que agora se completa." Jo 3,28b.29b
    E qual não deve ter sido a felicidade de Maria Santíssima ao saber que seria a Mãe do Salvador da humanidade? Em seu cântico, o Magnificat, ela louvou: "... meu espírito exulta de alegria em Deus, Meu Salvador..." Lc 1,47
    O próprio Jesus alegrou-Se com o sucesso dos 72 discípulos contra as forças do Mal, ao serem enviados na primeira missão. Era o início das vitórias da Igreja, ainda em fase embrionária: "Naquele mesma hora, Jesus exultou de alegria no Espírito Santo e disse: 'Pai, Senhor do Céu e da Terra, Eu dou-Te graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos." Lc 10,21a
    Pois a verdadeira vitória só se obtém pela humildade, como Ele ensinou sobre a postura que devemos adotar nos banquetes deste mundo: "Quando fores convidado às bodas, não te sentes no primeiro lugar, pois pode ser que seja convidada outra pessoa de mais consideração que tu, e vindo o que te convidou, te diga: 'Cede o lugar a este.' Então terias o constrangimento de dever ocupar o último lugar. Mas quando fores convidado, vai tomar o último lugar, para que, quando vier o que te convidou, te diga: 'Amigo, passa mais para cima!' Então serás honrado na presença de todos convivas. Porque todo aquele que se exaltar será humilhado, e todo aquele que se humilhar será exaltado." Lc 14,8-11
    Também foi o que São João Batista disse, quando seus discípulos lhe informaram que os discípulos de Jesus estavam batizando (cf. Jo 4,2): "Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do Céu." Jo 3,27
    Exemplo, aliás, dado por Nosso Senhor, que foi antecedido por tantos Santos homens. Na Carta aos Hebreus, os seguidores da tradição de São Paulo citaram versos de um sagrado autor e do rei Davi no Livro de Salmos, dizendo do Eterno Sacerdócio: "Ninguém se apropria desta honra, senão somente aquele que é chamado por Deus, como Aarão. Assim, Cristo também não atribuiu a Si mesmo a Glória de ser pontífice. Esta foi-Lhe dada por Aquele que Lhe disse: 'Tu és Meu Filho, hoje Eu Te gerei (Sl 2,7)', como também diz em outra passagem: 'Tu és eternamente Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec (Sl 109,4).'" Hb 5,4-5
    Ora, Jesus condenava não só a gula, mas igualmente a vaidade entre os religiosos. Perante todo povo, Ele disse aos discípulos dias depois de Sua entrada messiânica em Jerusalém, nosso Domingo de Ramos: "Guardai-vos dos escribas, que querem andar de compridas roupas, e gostam de saudações nas praças públicas, das primeiras cadeiras nas sinagogas e dos primeiros lugares dos banquetes. Que devoram as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Eles receberão mais rigoroso castigo." Lc 20,46-47
    Assim como condenava a falsa purificação! Ele aceitou uma farta ceia oferecido por São Mateus, o último dos Doze, que era cobrador de impostos, mas sinalizou para a presença de Deus à mesa, e assim para o Eterno Banquete, onde certamente haverá convertidos e reconvertidos: "Levi deu-Lhe um grande banquete em sua casa. Vários desses fiscais e outras pessoas estavam sentados à mesa com eles. Os fariseus e seus escribas puseram-se a criticar e a perguntar aos discípulos: 'Por que comeis e bebeis com os publicanos e pessoas de má vida?' Respondeu-lhes Jesus: 'Não são os homens de boa saúde que necessitam de médico, mas sim os enfermos. Não vim chamar os justos à conversão, mas sim os pecadores.'" Lc 5,29-32
    Pois o dia-a-dia de Jesus, sem ter "onde recostar a cabeça" (cf. Lc 9,58), e dos Apóstolos, era bem diferente: "Em dia de sábado, Jesus atravessava umas plantações. Seus discípulos iam colhendo espigas de trigo, debulhavam-nas na mão e comiam." Lc 6,1
    E se tinham alimento, não podiam comê-lo, tendo Nosso Senhor que intervir: "Ele disse-lhes: 'Vinde à parte, para algum deserto lugar, e descansai um pouco.' Porque eram muitos aqueles que iam e vinham, e nem tinham tempo para comer. Partiram na barca para um solitário lugar, à parte." Mc 6,31-32
    Isso já havia acontecido logo após a escolha dos Doze Apóstolos, quando Jesus voltou a Cafarnaum com eles, pois, a esse tempo, Ele já tinha como base a casa de São Pedro (cf. Mt 4,13 e Jo 2,12): "Dirigiram-se em seguida a Sua casa. Aí afluiu de novo tanta gente, que nem podiam tomar alimento." Mc 3,20
    Ademais, Nosso Salvador falava de outro 'alimento' desde o início. Quando voltavam da primeira visita a Jerusalém em Sua vida pública, de passagem por Samaria, eles pararam junto ao poço de Jacó: "Entretanto, os discípulos pediam-Lhe: 'Mestre, come.' Mas Ele disse-lhes: 'Tenho um alimento para comer que vós não conheceis.' Os discípulos perguntavam uns aos outros: 'Alguém Lhe teria trazido de comer?' Disse-lhes Jesus: 'Meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que Me enviou, e cumprir Sua obra.'" Jo 4,31-34
    Por isso, depois de anunciar Sua Paixão pela segunda vez aos Apóstolos, tratou de preparar todos Seus discípulos: "Não vos inquieteis com o que haveis de comer ou beber, e não andeis com vãs preocupações. Porque os homens do mundo é que se preocupam com todas estas coisas. Mas Vosso Pai bem sabe que precisais de tudo isso. Antes buscai o Reino de Deus e Sua Justiça, e todas estas coisas sê-vos-ão dadas por acréscimo." Lc 12,29-31
    Até evocou, antes do início de Sua Missão, uma expressiva passagem do Antigo Testamento, ao ser tentado pelo Demônio no deserto: "O tentador aproximou-se de Si e disse-Lhe: 'Se és Filho de Deus, ordena que estas pedras se tornem pães.' Jesus respondeu: 'Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda Palavra que procede da boca de Deus (Dt 8,3).'" Mt 4,3-4
    E no Pai Nosso ensinou-nos a pedir, além do diário Pão da Vida Eterna, alimento bastante tão somente para o presente dia: "O Pão Nosso de cada dia dai-nos hoje..." Mt 6,11
    Mas é realmente entre 'maus e bons' que Ele finaliza, diante da insensata e até pecaminosa recusa dos convites, por vezes seguida de violência, a parábola das Bodas do Filho do Rei: "Mas sem se importarem com aquele convite, foram-se, um a seu campo e outro para seu negócio. Outros lançaram mãos de Seus servos, insultaram-nos e mataram-nos. O Rei soube e ao extremo Se indignou. Enviou Suas tropas, matou aqueles assassinos e incendiou-lhes a cidade. Depois disse a Seus servos: 'O festim está pronto, mas os convidados não foram dignos. Ide às encruzilhadas e convidai para as Bodas todos quantos achardes.' Espalharam-se eles pelos caminhos e reuniram todos quantos acharam, maus e bons, de modo que a sala do Banquete ficou repleta de convidados." Mt 22,5-10
    Por isso, sabendo que não seria acolhido pelos principais dos judeus, como estava nas profecias, Jesus, referindo-Se ao Santíssimo Sacramento, sentenciou contra os rebeldes: "Pois vos digo: nenhum daqueles homens que foram convidados, provará Minha Ceia." Lc 14,24
    E se na Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo há pessoas indignas da Comunhão Eucatística, elas não passam despercebidas: a excomunhão existe. A Segunda Carta de São Pedro vaticina: "... é porque o Senhor sabe livrar das provações os piedosos homens, e reservar os ímpios para serem castigados no Dia do Juízo, principalmente aqueles que correm com impuros desejos atrás dos prazeres da carne e desprezam a autoridade. Audaciosos, arrogantes, não temem falar injuriosamente das Glórias... Mas estes, quais brutos destinados pela lei natural para a presa e para a perdição, injuriam o que ignoram, e assim da mesma forma perecerão. Este será o salário de sua iniquidade. Encontram suas delícias em se entregar em pleno dia a suas libertinagens. Pervertidos e imundos homens, sentem prazer em enganar enquanto se banqueteiam convosco. Têm os olhos cheios de adultério, e são insaciáveis no pecar. Seduzem por seus atrativos as inconstantes almas, têm o coração acostumado à cobiça, são filhos da maldição." 2 Pd 2,9-10.12-14
    Porém, também está claro que a Igreja Viva é duramente atingida por estes escândalos. Desde então profetizando o surgimento de falsos mestres, bem como multidões de cegos seguidores (cf. Mt 15,14), que serão a personificação da discórdia no mundo inteiro a causar descrença no Evangelho, nosso Primeiro Papa (cf. Jo 21,15s) havia dito: "Assim como entre o povo houve falsos profetas, entre vós também haverá falsos doutores que disfarçadamente introduzirão perniciosas seitas. Eles, assim renegando o Senhor que os resgatou, sobre si atrairão uma repentina ruína. Muitos segui-los-ão em suas desordens e, por causa deles, o Caminho da Verdade será caluniado." 2 Pd 2,1-2
    Por isso, a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios, mostrando firme pulso, não permitia liberalidade alguma para com falsos cristãos, muito menos à mesa: "Porém, não me referia de um modo absoluto a todos impudicos deste mundo, os avarentos, os ladrões ou os idólatras, pois neste caso deveríeis sair deste mundo. Mas eu simplesmente quis dizer-vos que não vos associeis àquele que, chamando-se irmão, é impuro, avarento, idólatra, difamador, beberrão, ladrão. Com tais indivíduos nem sequer deveis comer." 1 Cor 5,10-11
    Porque a obra de Deus, mesmo que fortemente atacada, é indestrutível, como Jesus disse quando o modesto pecador de Galileia, inspirado pelo Pai (cf. Mt 16,17), O reconheceu como o Messias: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    E todos aqueles que se insurgirem contra Deus na Grande e Final Batalha, mesmo os pequeninos, serão parte de outro 'banquete', segundo as últimas visões do Livro de Apocalipse de São João: "Então vi um anjo de pé sobre o sol, em alta voz a chamar todas aves que voam pelos céus: 'Vinde, reuni-vos para o grande banquete de Deus, para comerdes carnes de reis, carnes de generais e carnes de poderosos, carnes de cavalos e cavaleiros, carnes de homens, livres e escravos, pequenos e grandes.' E todas aves fartaram-se de suas carnes." Ap 19,17-18.21b
    Quanto aos humildes, como vimos, Ele 'chama mais para cima', prepara um lugar no Céu, como em despedida garantiu aos discípulos antes de Se retirarem para o Horto das Oliveiras: "Na Casa de Meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim, e Eu tê-vos-ia dito. Pois vou preparar-vos um lugar." Jo 14,2
    Aludindo à realidade da vitória sobre o pecado, já em últimas revelações ao Amado Discípulo, Ele prometeu a constante locução do Divino Paráclito às paróquias da Igreja Católica Apostólica Romana (cf. Ap 1,6), e assim um manjar: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: 'Ao vencedor darei de comer do fruto da Árvore da Vida, que se acha no Paraíso de Deus.'" Ap 2,7
    Porque mesmo nos sabendo pecadores, temos em Cristo nossa grande oportunidade através do Sacramento do Arrependimento, ou seja, do Sacramento da Confissão. A volta do filho pródigo, por exemplo, foi comemorada por seu pai de festivo modo, com um banquete, como Nosso Senhor narrou: "Também trazei um novilho gordo, e matai-o. Comamos e façamos uma festa! Este meu filho estava morto, e reviveu. Tinha-se perdido, e foi achado." Lc 15,23-24
    E a santa euforia toma conta dos Céus quando pecadores se submetem à penitência. Numa parábola sobre a Divina Misericórdia, Jesus disse: "Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador, que se arrepende, que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento." Lc 15,7
    São Paulo, entretanto, falando do Sacramento da Eucaristia, dá-nos um gravíssimo recado: "Não podeis participar ao mesmo tempo da mesa do Senhor e da mesa dos demônios." 1 Cor 10,21
    E para mais nos animar, das revelações que teve dos Céus, São João Evangelista registrou a Grande Festa que está para acontecer, o próprio Eterno Banquete que um anjo anunciou: "Escreve: 'Felizes os convidados para a Ceia das Núpcias do Cordeiro.'" Ap 19,9

    "Esperamos entrar na Vida Eterna!"