quinta-feira, 18 de outubro de 2018

São Lucas Evangelista


    São Lucas, como lemos nas entrelinhas de São Paulo na Carta aos Colossenses, não era judeu: "Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, e Marcos, primo de Barnabé. A respeito de Marcos, recebestes instruções. Se ele for ter convosco, acolhei-o. Também Jesus, chamado Justo, saúda-vos. Dentre os judeus, somente estes três trabalham comigo pelo Reino de Deus." Cl 4,10-11
    Mas percebendo desde o início a importância do Apóstolo dos Gentios, que por erudição e profunda espiritualidade brilhava cada vez mais em suas missões, este evangelista, que também era estudioso, tornou-se um de seus mais íntimos colaboradores no anúncio da Boa Nova. Está na saudação da Carta a Filemon: "Epafras, meu companheiro de prisão por Cristo Jesus, saúda-te. Igualmente, Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus colaboradores." Fm 1,23-24
    Além de São Paulo, São Lucas conheceu e também conviveu com alguns ou mesmo todos demais Apóstolos, dos quais obteve privilegiadas informações. Por isso, resolveu escrever seu Evangelho em concorrência com tantos outros, inclusive aqueles que mais tarde viriam a ser apenas apócrifos: "Muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram aqueles que desde o princípio foram testemunhas oculares e que se tornaram ministros da Palavra. Também a mim bem pareceu, depois de diligentemente haver investigado tudo desde o princípio, escrevê-los para ti segundo a ordem, excelentíssimo Teófilo, para que conheças a solidez daqueles ensinamentos que tens recebido." Lc 1,1-4
    Essas mesmas linhas desfazem uma hipótese que se levanta sobre São Lucas, apontando-o como um dos setenta e dois discípulos de Jesus, uma vez que ele não se inclui entre as testemunhas oculares, nem entre os ministros da Palavra. Mas a verdade é que, apesar de tudo que escreveu, temos pouca informação sobre sua pessoa.
    Ele também registrou os primeiros capítulos da História da Igreja, o fundamental livro dos Atos dos Apóstolos, onde temos importantíssimos detalhes sobre os ensinamentos de Jesus e o nascimento da Tradição Cristã: "Em minha primeira narração, ó Teófilo, contei toda sequência das ações e dos ensinamentos de Jesus, desde o princípio até o dia em que, depois de ter dado pelo Espírito Santo Suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu. E a eles manifestou-Se vivo depois de Sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus. E comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem o cumprimento da promessa de Seu Pai, 'que ouvistes', disse Ele, 'de Minha boca. Porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui há poucos dias.'" At 1,1-5
    Nesse livro, São Lucas várias vezes inclui-se na narrativa, pois de fato tomou parte de um longo período da vida e das viagens de São Paulo. Segundo Santo Irineu, na viagem a Macedônia eles teriam-se encontrado pela primeira vez, por volta do ano 51 da nossa era: "Assim que teve essa visão, procuramos partir para a Macedônia, certos de que Deus nos chamava a pregar-lhes o Evangelho." At 16,10
    Dadas as controvérsias e confusões, e a quantidade de discípulos de São Paulo, depois de uma breve separação voltou a encontrar-se com ele em Trôade, na costa oeste da atual Turquia: "Depois que cessou o tumulto, Paulo convocou os discípulos. Fez-lhes uma exortação, despediu-se e pôs-se a caminho para ir a Macedônia. Percorreu aquela região, exortou os discípulos com muitas palavras e chegou a Grécia, onde se deteve por três meses. Como os judeus lhe armassem ciladas no momento em que ia embarcar para a Síria, tomou a resolução de voltar pela Macedônia. Acompanharam-no Sópatro de Bereia, filho de Pirro, e os tessalonicenses Aristarco e Segundo, Gaio de Derbe, Timóteo, Tíquico e Trófimo, da Ásia. Estes foram na frente e esperaram-nos em Trôade. Nós, só depois da festa de Páscoa é que navegamos de Filipos. E cinco dias depois fomos ter com eles em Trôade, onde ficamos uma semana." At 20,1-6
    Nova separação teve fim em Assos, na mesma região, um pouco mais ao sul: "Nós tínhamos-nos adiantado e navegado para Assos, para ali recebermos Paulo. Ele mesmo assim o havia disposto, preferindo fazer a viagem a pé." At 20,13
    E daí partiram na última visita do Apóstolo a Jerusalém: "À nossa chegada em Jerusalém, os irmãos receberam-nos com alegria. No dia seguinte, Paulo dirigiu-se conosco à casa de Tiago, onde todos Anciãos reuniram-se." At 21,17-18
    São Lucas acompanhou São Paulo em viagem a Roma, já sob custódia da guarda imperial, onde seria julgado por César: "Logo que foi determinado que embarcássemos para a Itália, Paulo foi entregue com outros presos a um centurião da coorte augusta, chamado Júlio." At 27,1
    Sofreu com ele o naufrágio no mar da pequena Ilha de Malta, ao sul da Sicília: "No navio, éramos ao todo duzentas e setenta e seis pessoas. Mas deram numa língua de terra, e o navio aí encalhou. A proa, encalhada, permanecia imóvel, ao mesmo tempo que a popa se abria com a força do mar. Os soldados tencionavam matar os presos, por temerem que algum deles fugisse a nado. O centurião, porém, querendo salvar Paulo, impediu que o fizessem e ordenou que aqueles que pudessem nadar fossem os primeiros a lançar-se ao mar e alcançar a terra. Os demais, uns atingiram a terra em tábuas, outros em cima dos destroços do navio. Desse modo, todos conseguiram chegar à terra, sãos e salvos. Estando já salvos, então soubemos que a ilha se chamava Malta." At 27,37.41-44; 28,1
    Ele entrou com São Paulo em Roma: "Os irmãos de Roma foram informados de nossa chegada e vieram ao nosso encontro até o Foro de Ápio e as Três Tavernas. Ao vê-los, Paulo deu graças a Deus e sentiu-se animado." At 28,15
    E quando São Paulo se viu preso pela primeira vez, São Lucas era seu companheiro fiel: "Só Lucas está comigo." 2 Tm 4,11
    Na Carta aos Colossenses, São Paulo, pouco tempo antes de seu martírio, diz-nos a profissão de São Lucas, que agora o acompanhava em sua segunda prisão: "Saúdam-vos, enfim, Lucas, o querido médico..." Cl 4,14
    Podemos dizer que São Lucas é o Evangelista do Espírito Santo, pois vai mencioná-Lo mais que os outros evangelistas juntos: são 14 vezes. E nos Atos dos Apóstolos, início do tempo da Igreja, fica clara a importância que São Lucas Lhe confere: são 39 menções, quando com nitidez vemos que o Divino Espírito é Deus e francamente põe-Se à frente da Igreja. Aliás, como Jesus havia predito.
    Da mesma forma, pode-se dizer que São Lucas é o Evangelista de Nossa Senhora. Por não ser judeu, e assim em mais abrangente perspectiva contemplar a tradição deles, refere-se à Santíssima Virgem por 12 vezes, quer dizer, também mais que os outros evangelistas juntos. E se não é possível dizer que a tenha conhecido, certamente conheceu gente que a venerava, pois registra a expressão "desde agora", ou seja, o nascimento de uma devoção que se confunde com o próprio estabelecimento da Igreja: "Por isto, desde agora todas gerações proclamar-me-ão bem-aventurada." Lc 1,48b
    E este entre de tantos outros detalhes que nos informa, como a Anunciação, a visita a Santa Isabel, as palavras de Seu Magnificat e fatos da infância de Jesus. Anotou, ademais, a expressiva formação religiosa da Mãe de Deus, como sua natural reação à aparição do Arcanjo Gabriel, e registros dão conta de que ele mesmo pintou o quadro que deu origem ao ícone abaixo, de Nossa Senhor do Perpétuo Socorro. O original, infelizmente, perdeu-se.


    Um documento antigo, prólogo do Evangelho de São Lucas, muito provavelmente escrito no século II, dá-nos as seguintes informações: "Lucas é um sírio de Antioquia, sírio pela raça, médico de profissão. Tornou-se discípulo dos Apóstolos e mais tarde seguiu a Paulo até seu martírio. Tendo com perseverança servido ao Senhor, solteiro e sem filhos, cheio da Graça do Espírito Santo, morreu aos 84 anos de idade."
    São Jerônimo, Historiador e Doutor da Igreja, que é do século IV, disse a seu respeito: "Era discípulo e inseparável companheiro de São Paulo; nasceu em Antioquia, exercia a profissão de médico; ao mesmo tempo, cultivava as letras e chegou a ser muito versado em língua e literatura gregas. Seu gosto literário ressalta nessa preciosa História (Atos dos Apóstolos) que nos deixou da origem do cristianismo, mais completa em muitíssimos pontos que a dos demais evangelistas, melhor ordenada e de mais agradável leitura."
    São Lucas morreu na região da Bitínia, costa do Mar Negro, na atual Turquia, mas ainda em 357 suas relíquias foram levadas para Constantinopla pelo Imperador Constâncio, filho de Constantino, e depositadas na Igreja dos Santos Apóstolos, junto às relíquias de Santo André e São Timóteo. São Gregório Magno, um dos Padres Latinos e quarto Doutor da Igreja, levou-as a Itália ao fim de sua nunciatura, e depositou-as na Igreja do Mosteiro de Santo André, que ele havia fundado no Monte Célio, próximo a Roma.
    Atualmente encontram-se em Pádua, na Basílica de Santa Justina, onde recentemente tiveram a autenticidade reconhecida. Seu esqueleto está miraculosamente bem preservado.


    São Lucas, rogai por nós!