sexta-feira, 5 de outubro de 2018

São Benedito


    Um recatado frade capuchinho, que era analfabeto, negro e filho de escravos, e no século XVI estaria fadado a fazer ordinários serviços, tornou-se um grande sinal de Deus para a humanidade.
    Humilde pastor de ovelhas na Sicília, tão somente pela fervorosa devoção de seus pais se fez, desde criança, um expoente de Sabedoria e santidade.
    Morreu no dia 4 de outubro, mas, no Brasil, graças à enorme devoção que tinha entre os escravos e propagou-se por seus descendentes, recebeu outra data de comemoração, o dia 5, para destacar-se do dia de São Francisco de Assis, uma canônica deferência concedida pela Santa Sé à CNBB.
    Seus pais, escravos de ascendência etíope, terra onde havia séculos era grande a presença judaica e cristã, praticavam abertamente, mesmo diante de seus senhores, o mais exemplar Catolicismo. Sua mãe era grande devota do Santíssimo Sacramento e muito caridosa com os mais pobres. Seu pai diariamente recitava o Rosário de Nossa Senhora e, sempre que o trabalho lhe permitia, ia à Santa Missa. Verdadeiramente religiosos, contraíram Matrimônio mas fizeram voto de castidade, para não expor seus filhos à escravidão. O senhor deles, ao saber de tão belo gesto, teve compaixão e prometeu que seus filhos seriam livres.
    Tão expressivo era o comportamento de seus pais, que uma neta deles, portanto sobrinha de São Benedito, também se tornou religiosa, da ordem fundada por Santa Clara. E recebeu do tio o hábito das clarissas, adotando o nome de irmã Benedita em homenagem a ele, pois à época sua santidade já era amplamente reconhecida. Ela viria a morrer em Palermo, onde ainda há muitos relatos de milagres atribuídos à sua intercessão.
    Desde os tempos de pastor na Sicília, o menino São Benedito já se entregava profundamente à oração e à contemplação. Seus amigos chamavam-no de 'nosso Santo mouro', pois um dia estranharam que ele sempre se afastasse demais com as ovelhas e trataram de segui-lo. Descobriram que ele buscava água e pasto abundantes, onde as ovelhas pudessem estar tranquilas, e assim dedicava mais tempo às práticas de fé: encontraram-no numa gruta, arrebatado em êxtase, olhando longa e fixamente para cima, como se visse o Céu.


    Aos 18 anos, São Benedito já estava totalmente decidido a seguir Jesus. Tocado pelo exemplo de sua mãe, com muito trabalho havia comprado uma junta de bois e vivia só para ajudar os mais pobres. Aos 21 anos, com pleno consentimento dos pais, seguiu um monge eremita da irmandade de São Francisco de Assis, Frei Jerônimo Lanza. Este tinha conseguido autorização do Papa Júlio III para viver a Regra Franciscana como eremita, acrescentando aos 3 votos tradicionais, de obediência, castidade e pobreza, o voto de vida quaresmal, que consiste em 3 jejuns por semana.
    Frei Jerônimo conheceu nosso Santo numa algazarra que viu, quando alguns jovens da cidade ridicularizavam-no e injuriavam-no por sua cor, mas ele não demostrava a menor contrariedade. Nem sequer esboçava reação! Ficou tão impressionado com sua Paz e humildade que o convidou para o eremitério de Santa Dominica. Entre eles, São Benedito levou uma vida modelar. Parecia que a ordem havia sido criada para ele. Era o sempre feliz e bem disposto cozinheiro, fidelíssimo às orações, e que, nas horas de descanso, saía do convento levando pães para os pobres, inclusive os que fingia comer durante suas refeições, escondendo-os sob o hábito.
    Sua santidade era evidente e os sinais que realizava a confirmavam. Mesmo sem ser Sacerdote, foi nomeado Mestre dos Noviços e, mais tarde, eleito Superior do Convento. Mas, com a morte de Frei Jerônimo e as reclamações de muitos monges contra os rigores do quarto voto, em 1562, quando nosso Santo contava 38 anos, o Papa Paulo IV extinguiu o eremitério e ordenou que os monges se recolhessem em algum convento franciscano regular. São Benedito ficou muito triste e foi chorar diante da imagem de Nossa Senhora, na Catedral de Palermo. É quando a Santíssima Mãe lhe fala: "Meu filho, é vontade de Deus que entres para a Ordem dos Frades Menores."


    Escolheu o Convento de Santa Maria de Jesus, também em Palermo, onde com grande alegria foi recebido pelos frades e vai ficar até o fim de seus dias. Era assediado por nobres, príncipes, Sacerdotes e até teólogos, que faziam questão de ouvir seus inspirados conselhos. Mesmo sem saber ler, tudo via com excepcional clareza e em profundidade conhecia os detalhes da Sã Doutrina. Aí também foi eleito Superior, mas enquanto todos vibravam de euforia com sua eleição quase por unanimidade, triste foi ele ao Padre Superior pedindo que o dispensasse, pois seria muito simples e ignorante para tal função. O Padre, porém, apenas consolou-o, prometendo toda assistência de que precisasse.
    No entanto, sua dedicação e simplicidade eram grandes exemplos, bastantes para tocar o coração de todos. E se enquanto Superior ele trabalhava como um serviçal, quem poderia furtar-se às obrigações? Contudo, realmente modesto, demonstrou mesmo incomum alegria quando acabou seu período, e enfim pôde voltar à cozinha. Ciosamente responsável pela alimentação de seus confrades, em sua perfeita Comunhão com Deus aí realizou grandes prodígios, fazendo aparecer comida em tempos de grande escassez e peixes em panelas que tinham apenas água. E como a gente do povo, a maioria deles camponeses e pescadores, para encontrá-lo fazia questão de entregar-lhe pessoalmente os donativos, mas nem sempre os tinha, alimentou trabalhadores quando a dispensa estava vazia, cozinhou sem acender o fogão e preparou banquetes para autoridades sem ir à cozinha.


    Segundo Frei Giacomo di Pazza, testemunha no processo de beatificação, São Benedito fazia milagre todo dia. Ressuscitou uma criança morta por asfixia apenas tomando-a nos braços, e logo em seguida entregou-a à mãe para que a amamentasse, fato largamente conhecido e representado como sua principal imagem. Curava cegos apenas fazendo o sinal da Cruz. Realmente compassivo, ressuscitou até o cavalo do convento, que caíra num abismo. Aos 65 anos, em leito por enfermidade, morreu durante uma visão enquanto exclamava: "Jesus! Jesus! Minha Mãe doce Maria! Meu pai São Francisco."
    A imagem no alto da página apresenta São Benedito com a Bíblia na mão, mas sabemos que assim fizeram para engrandecê-lo ou livrá-lo de preconceitos, numa época em que se pensava que ser iletrado era sinônimo de ignorância. Até tentaram clarear sua pele, representando-o 'mais moreninho' em algumas imagens. Mas a Verdade sempre prevalece, o que apenas torna a vida desse Santo ainda mais brilhante.
    Suas relíquias são guardadas no convento que escolheu para viver, em Palermo. Seu hábito está exposto na cela em que ele viveu, e, mais de 400 anos depois, seu corpo ainda não sofreu decomposição que o desfigurasse por completo.



    São Benedito, rogai por nós!