quarta-feira, 28 de outubro de 2020

São Judas Tadeu, Apóstolo


    Foi um dos mais reservados Apóstolos, de quem ficaram poucos registros, mas nem por isso se pode deduzir que tenha sido menos ativo. As várias regiões que visitou depois da Ascensão de Jesus, assim como suas frequentes viagens, desfazem a impressão de mero contemplativo, que alguns inferem tão somente pelas poucas citações de seu nome na Bíblia.
    De fato, não é muito mencionado. Aparece nas listas dos Apóstolos nos Evangelhos de São Mateus, São Marcos e São Lucas:
    - "Eis os nomes dos Doze Apóstolos: o primeiro, Simão, chamado Pedro; depois André, seu irmão. Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão. Filipe e Bartolomeu. Tomé e Mateus, o publicano. Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu. Simão, o cananeu, e Judas Iscariotes, que foi o traidor." Mt 10,2-4
    - "Escolheu estes Doze: Simão, a quem pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão, aos quais pôs o nome de Boanerges, que quer dizer Filhos do Trovão. Ele também escolheu André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Tadeu, Simão, o zelota; e Judas Iscariotes, que O entregou." Mc 3,16-19
    - "Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e escolheu Doze dentre eles, que chamou de Apóstolos: Simão, a quem deu o sobrenome de Pedro; André, seu irmão; Tiago, João, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu; Simão, chamado Zelota; Judas, irmão de Tiago; e Judas Iscariotes, aquele que foi o traidor." Lc 6,13-16
    Ele é citado como um dos 'irmãos' de Jesus nos Evangelhos de São Mateus e São Marcos:
    - "Não é este o Filho do carpinteiro? Não é Maria Sua mãe? Não são Seus irmãos Tiago, José, Simão e Judas?" Mt 13,55
    - "Não é Ele o carpinteiro, o Filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?" Mc 6,3
    É São Judas que questiona Jesus, no Evangelho de São João, quanto à Sua maneira de manifestar-Se pessoa a pessoa, pois gostaria de vê-Lo manifestando-Se o quanto antes ao mundo todo, de forma gloriosa e em definitivo. Nessa passagem, fica evidente o respeito com que ele trata Jesus, chamando-O de Senhor, detalhe que também desmistifica a ideia de que seria Seu irmão, como pretendem alguns, e assim simplesmente pela absoluta falta de intimidade: "Pergunta-Lhe Judas, não o Iscariotes: 'Senhor, por que razão hás de manifestar-Te a nós e não ao mundo?' Respondeu-lhe Jesus: 'Se alguém Me ama, guardará Minha Palavra e Meu Pai amá-lo-á. E Nós viremos a ele, e nele faremos Nossa morada.'" Jo 14,22-23


    Ele ainda tem seu nome nas listas dos Onze presentes no Cenáculo, pouco antes da vinda do Espírito Santo por ocasião do Pentecostes, conforme o livro dos Atos dos Apóstolos, onde mais uma vez São Lucas exclusivamente o indica como irmão de São Tiago Menor, não de Jesus: "Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o zelota, e Judas, irmão de Tiago." At 1,13
    Por fim, ele assina uma epístola na qual providencialmente se identifica com irmão de São Tiago Menor, assim como São Lucas o identificou na lista dos Doze. Essa passagem deixa ainda mais claro que ele não era irmão de Jesus, nem filho de Nossa Senhora ou sequer de São José. Como ele mesmo faz questão de apresentar-se, talvez justamente para esclarecer esse assunto, diz-se irmão de Tiago, filho da Maria esposa de Cleófas, ou Alfeu, seu equivalente hebraico, e parenta de Maria Santíssima. Ele não se identifica como irmão de Jesus, como seguramente faria se o fosse, mas como Seu servo: "Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago..." Jd 1,1
    Os chamados 'irmãos de Jesus', na verdade apenas parentes, e assim designados pela inexistência da palavra 'primo' na língua aramaica, aparecem ainda mais claramente como filhos de Maria de Cleófas nos Evangelhos de São Mateus, de São Marcos e de São Lucas:
    - "Entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago e de José, e a mãe dos filhos de Zebedeu." Mt 27,56
    - "Ali também estavam algumas mulheres, olhando de longe. Entre elas Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de José, e Salomé." Mc 15,40
    - "Maria Madalena e Maria, mãe de Joset, observavam onde Ele era colocado." Mc 15,47
    - "Passado o sábado, Maria Madalena e Maria, a mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para embalsamar o Corpo de Jesus." Mc 16,1
    - "Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago." Lc 24,10
    Sabemos que essa Maria era a esposa de Cleófas, e parenta de Nossa Senhora, porque essas cenas narram precisamente a Crucificação e o Sepultamento de Jesus, e São João Evangelista, que também as descreveu, deixou-nos o nome de seu esposo: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé Sua mãe e a irmã de Sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena." Jo 19,25
    A Carta de São Judas também não é extensa. Ele justifica-a apenas para corroborar o que 'os Apóstolos' ensinavam, como se não fosse um deles, para deixar seu testemunho sobre o Cristo e já alertar das correntes heresias, exortando os fiéis a não desanimarem com o escárnio que sofriam. Por fim, deixa um importante registro de que a Revelação já estava encerrada, chamando-a de '': "Caríssimos, estando eu muito preocupado em escrever-vos a respeito de nossa comum Salvação, senti a necessidade de dirigir-vos esta carta para exortar-vos a pelejar pela fé, de uma vez para sempre confiada aos Santos. Pois certos ímpios furtivamente introduziram-se entre nós, os quais desde muito tempo estão destinados para este Julgamento. Eles transformam em dissolução a Graça de Nosso Deus, e negam Jesus Cristo, Nosso único Mestre e Senhor. Mas vós, caríssimos, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: 'No fim dos tempos virão impostores, que viverão segundo suas ímpias paixõesHomens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito Santo.'" Jd 1,3-4.17-19
    Nela, demonstrando o mesmo respeito que se viu no Evangelho de São João, por seis vezes ele menciona o Nome de Jesus, e em todas chama-O de Cristo. E, como visto, também O chama de 'Nosso único Mestre e Senhor', ou seja, nenhum resquício de familiar intimidade, muito menos de sanguínea irmandade.
    A confusão com Judas Iscariotes teria dificultado em muito a divulgação de seu nome, de sua história e a devoção que certamente lhe é devida. Isso explica porque, desde o início, São Marcos e São Mateus já o apresentavam com o nome de Tadeu, um apelido íntimo, com a clara intenção de diferenciá-lo do infame traidor.


    Ele começou a evangelizar em sua própria terra, na Galileia, para onde foram alguns Apóstolos após a perseguição iniciada com o apedrejamento de Santo Estevão. Depois esteve por algum tempo na Samaria, de onde partiu para a Síria, Idumeia (atual Jordânia), Líbia Antiga, Armênia e Pérsia, e aí lhe teria vindo ao encontro São Simão, o zelota.
    Em sua companhia, percorreram as 12 províncias que compunham o antigo Império Persa, fazendo muitos milagres e convertendo muita gente, mas, por despertarem ciúmes de influentes sacerdotes, foram brutalmente assassinados num mesmo dia. Segundo a Sagrada Tradição e apócrifos, São Judas Tadeu foi morto a golpes de machado na cabeça, e São Simão, serrado ao meio.
    Após séculos de isolamento, que foi agravado pelo surgimento do Islamismo, a devoção a ele só voltou a crescer, e dessa vez a partir da Europa, graças à aparição de Jesus a Santa Gertrudes, no século XIII, recomendando os socorros de São Judas para as causas impossíveis, como ela deixou escrito em sua biografia. É a partir desse momento que com frequência se passa a empregar a alcunha de São Judas Tadeu, juntando os nomes atribuídos a ele nos diferentes Evangelhos.
    Nosso Santo também é retratado como aquele que levou o Cristianismo a Armênia, então província romana, quando ainda viajava em companhia de São Bartolomeu. De fato, atendendo a um chamado do rei, levou-lhe a famosa 'imagem de Edessa', a mais antiga pintura de Cristo de que se tem notícia. Relatos dão conta que esse rei teria enviado uma carta a Jesus, ainda nos tempos de Sua vida pública, convidando-O à sua corte, mas Ele apenas respondeu dizendo que no futuro um de Seus Apóstolos iria ter com ele.


    Ainda hoje estes mártires da fé são cultuados como Santos Padroeiros da Igreja Apostólica Armênia, pois a São Judas Tadeu foi dedicado um mosteiro, no norte do Irã, e outro a São Bartolomeu, no sul da Turquia, quando essas duas regiões ainda formavam aquela antiga província do Império Romano.
    Há notícias de que ele esteve no Primeiro Concílio, de Jerusalém, e também exerceu sua missão em Beirute e em Edessa, no norte da Mesopotâmia, hoje terras da Turquia, onde teria confeccionado a pintura que levou ao rei da Armênia.
    Seus restos mortais foram guardados no Oriente Médio por vários séculos, depois foram levados a França e posteriormente a Roma, onde foram sepultados sob o Altar de São José, na Basílica de São Pedro.


    São Judas Tadeu, rogai por nós!