sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Santa Gertrudes


    Freira beneditina alemã, havia sido confiada desde os 5 anos de idade ao mosteiro cisterciense de Helfta, erguido segundo a reforma de São Roberto Molesmes, que reorientou a Ordem baseando-se nas originais práticas de São Bento. Aí recebeu religiosa e secular formação. Tornou-se uma grande conhecedora de Literatura, Música, Filosofia e Teologia, e decididamente consagrou-se a vida religiosa.
    Teve o grande privilégio de conviver com a renomada mestra da mística católica, Matilde de Magdeburgo, que a iniciou, como a tantas outras jovens, nas práticas das mais profundas experiências espirituais. Matilde tinha por método escrever em poesias todas suas vivências místicas e contemplativas, que mais tarde se tornaram um livro de 6 volumes, cujo título também lhe foi revelado, 'A Luz que Emana da Divindade', muito aclamado pelos grandes místicos da Igreja. Dentre aquelas jovens, porém, iria destacar-se Santa Gertrudes, assim como a então veterana Santa Gertrudes de Hackeborn, que havia fundado o Mosteiro de Helfta e dele era abadessa.


    Em 1280, quase aos 25 anos, Santa Gertrudes veio a ter suas primeiras visões. Sem dúvida, apesar de sua já convicta religiosidade, elas mudaram profundamente sua vida. Se até então Deus era seu objeto de contemplação e de meditação intelectual, passou a ser Seu constante e fisicamente presente amigo.
    Em 'Revelações do Divino Amor', que escreveu em parceria com outras monjas, ela registrou: "Dou graças, onde e sempre que posso, à Tua infinita misericórdia. Com ela louvo e glorifico Tua generosa paciência com que encobriste todos anos de minha infância e meninice, adolescência e juventude, até perto dos vinte e cinco anos. Anos vividos com tão cega insensatez que, por pensamentos, atos e palavras, fazia sem remorsos, assim me parece agora, tudo que queria, onde quer que podia. Se não me prevenisse pelo inato horror ao mal e gosto pelo bem, pela exortação exterior das pessoas circunstantes, teria vivido como pagã entre os pagãos. Nunca teria, então, entendido que Tu, Meu Deus, recompensas o bem e castigas o mal. No entanto, desde a infância, isto é, os cinco anos, Tu tinhas-me escolhido para admitir-me entre os mais fiéis de Teus amigos na prática da santa religião."
    Ao intensificar suas orações, penitências e outras práticas religiosas, frequentemente entrava em êxtases e espirituais arrebatamentos. E entre tantas místicas experiências, teve uma visão de Jesus, que a convidou para reclinar a cabeça em Seu Peito e ouvir Seu Sagrado Coração, batendo no compasso do Divino Amor. Ela ouviu-O dizer: "Que a alma que é desejosa de avançar na perfeição apresse-se ao Meu Sagrado Coração."
    Por seu extremo zelo, e movida por essa indizível Graça, tornou-se uma grande incentivadora da devoção ao Sagrado Coração de Jesus. E escreveu: "Ainda desejastes introduzir-me na inestimável intimidade de Tua amizade, de diversos modos abrindo-me aquele nobilíssimo sacrário da Tua Divindade que é Teu Divino Coração..."


    Concentrou a maior parte de suas experiências no livro 'Mensageiro do Divino Amor', que é reconhecido, senão como o maior, como um dos mais importantes da teologia mística cristã. Também escreveu outra obra até hoje amplamente conhecida, 'Exercícios Espirituais', que Bento XVI chamou de 'uma rara joia da literatura mística medieval.'
    Durante a pregação de um frade na capela, ela ouviu: "O amor é um dardo de ouro. Se o homem o lança sobre qualquer outra pessoa, ele possuir-la-á de algum modo. Seria, pois, loucura usar o amor para os terrestres bens, mas negligenciá-lo aos celestes."
    E ela reagiu dizendo em pensamento ao Senhor: "Que me seja concedido este dardo! Então, sem esperar um segundo, eu esforçar-me-ia para transpassar-Vos com ele, a Vós, único bem-amado de minha alma, para sempre comigo Vos ter."
    E mal havia terminado quando viu o Senhor, que a mirava com uma flecha de ouro e dizia-lhe: "Tu planejas ferir-Me, caso possuísses uma flecha de ouro. Mas eis que sou Eu quem te tenho! Desejo com ela transpassar-te de tal modo que jamais poderás sarar."
    Ela narra, então, análogo fenômeno ao qual passaria Santa Teresa d'Ávila: "E era uma flecha com três curvaturas: no início, no meio e na extremidade. Assim se mostrava o tríplice efeito que esta flecha provocava na alma ferida. Quando a primeira curvatura penetra na alma, sua ferida torna-a semelhante a um enfermo, que sente somente desgosto pelos bens passageiros: não há coisa alguma neste mundo que lhe assegure prazer nem consolação. A segunda, ao penetrar na alma, fá-la parecer uma pessoa com alta febre que, exasperada pela dor, reclama pelo remédio com extrema impaciência. Assim é a alma nesta situação: o desejo que possui é tão intenso que, sem conseguir dominá-lo nem moderá-lo, arde por unir-se a Deus. E quando isto lhe parece impossível, se acaso ela não o experimenta, chega quase a perder o respiro. A terceira curvatura, enfim, quando penetra na alma, fá-la elevar-se a tão sublime altura que nenhum de nós pode imaginar. A tal ponto, que uma mínima descrição deste estado nos faria dizer que a alma – como se fosse separada de seu corpo – estivesse toda mergulhada em delícias, nas torrentes do néctar da divindade."
    De algum modo, porém, ela já havia sido preparada: "Eu recitava esta prece: 'Pelo Vosso transpassado Coração, ó amantíssimo Senhor, dignai-Vos transpassar meu coração com os dardos de Vosso amor, para que nada de terrestre nele permaneça e que seja repleto unicamente da virtude de Vossa Divindade.' Tendo assim rezado, bem depressa percebi – através de uma Graça interior e de um externo sinal que vi surgir sobre o crucifixo – que minha prece havia chegado a Vosso Coração. Com efeito, depois de receber o Sacramento da Vida, já de volta a meu lugar, pareceu-me ver partir do lado direito do crucifixo que está impresso em meu livro algo como um raio de sol, cuja extremidade tinha forma de uma flecha. Este raio vigorosamente emanava em minha direção. Conteve-se por um instante, depois novamente lançou-se e permaneceu fixo, atraindo toda minha afeição."
    Eleita abadessa, conduziu com fervorosa dedicação o Mosteiro de Helfta até o fim de sua curta vida, mesmo entre grandes dores, espirituais e físicas que duraram mais de 10 anos. Inconteste sinal, foi agraciada com os estigmas de Cristo: "Os estigmas de Tuas salutares chagas que me imprimistes, quase preciosas joias, no coração, e a profunda e salutar ferida de amor com que o assinalastes..."
    Ela registrou estes detalhes: "Naquela mesma hora, quando minha memória ainda se ocupava devotamente com tais pensamentos, senti que me estava sendo divinamente concedido – a mim, tão indigna que sou – aquilo mesmo que havia pedido na oração, isto é: no interior de meu coração, como sendo um lugar corpóreo, eu soube que tinham sido impressos os sinais de Tuas santíssimas chagas, dignas de respeito e adoração."
    Contudo, não deixava de agradecer por outro e muito especial presente que recebeu de Jesus: "A esse acúmulo de benefícios, somastes aquele de dar-me por Advogada a Santíssima Virgem Maria, Mãe Tua, e de frequentemente ter-me recomendado a seu afeto como o mais fiel dos esposos poderia recomendar à Sua mãe a Sua dileta esposa."
    Profunda conhecedora da Escrituras, reunia em suas anotações as mais importantes passagens para afastar qualquer cristão até dos menores erros contra a Sã Doutrina. E mesmo sem sair do mosteiro foi uma grande divulgadora da , pois profusamente escrevia e com maestria e extrema clareza discorria sobre os mais complexos assuntos. E explicava: "Ó Senhor, desejo louvar-Te e agradecer-Te porque, apesar de minha indignidade, mantiveste Tua transbordante ternura para comigo. Quero ainda Te louvar porque alguns, ao ler estas páginas, poderão saborear em intimidade de Teu Ser as mais elevadas experiências. De fato, por meio do alfabeto, alcançam a ciência da filosofia aqueles que querem estudar. Similarmente, por meio de sinais que, na verdade, são apenas figuras retratadas, os leitores destas páginas aprenderão a degustar dentro de si mesmos aquele maná escondido que não poderia ser associado a nenhuma mistura de corpóreas imagens, e de cujo sabor somente quem já experimentou sentirá fome."
    São mais palavras suas:
    "Os anjos constantemente guardam os devotos da Santíssima Virgem dos assaltos do inferno."
    "A aflição corporal e espiritual é o mais seguro sinal da divina predileção. A gratidão pelo sofrimento é uma preciosa joia para nossa celestial coroa... O homem deve sempre acreditar firmemente que Deus só envia a provação que é mais benéfica para ele."
    "É um terrível erro acreditar que, porque nossos desejos não se realizam, eles não poderiam prejudicar-nos."
    "Ó Sagrado Coração de Jesus, fonte da Vida Eterna, Teu Coração é um incandescente forno de Amor. Tu és meu refúgio e meu santuário."
    Meu adorável e amoroso Salvador, consome meu coração no fogo ardente com o qual o Teu está inflamado. Despeje em minha alma as Graças que fluem de Teu amor. Deixe meu coração estar unido ao Teu. Deixe minha vontade estar conforme a Tua em todas as coisas. Que Tua vontade seja a regra de todos meus desejos e ações. Amém."
    "Ó verdadeiro Fogo que tudo consome! Ó operante Fogo, cujo poder queima os vícios para manifestar à alma o suave vigor de Tua unção! Só em Ti nos é dada a força que restaura, reformando nosso ser segundo a original imagem e semelhança."
    "Eu entendo que, cada vez que contemplamos com desejo e devoção o ostensório no qual está escondido o Corpo Eucarístico de Cristo, aumentamos nossos méritos no Céu e garantimos especiais alegrias que mais tarde serão nossas na beatífica visão de Deus."
    "Toda vez que olhamos para o Santíssimo Sacramento, nosso lugar no Céu é criado para sempre."
    "Onipotente Deus e generoso Mestre de todo bem, digna-Te a sempre nos garantir este alimento enquanto caminhamos, em nosso exílio, na espera de que – contemplando com descoberto rosto a Glória do Cristo – sejamos transformados à Sua própria imagem, de luz em luz, como sob suavíssimo sopro."
    "Beber desta salvadora fonte significa a si restituir a própria Verdade, ofuscada pelo pecado, para recuperar a luminosidade dos originais inteligência e amor. Quem faz tal experiência reencontra o próprio coração, recriado no amor de Deus."
    "Ó Amor, mergulha meu espírito nas águas deste melífluo Coração, sepultando nas profundezas da Divina Misericórdia todo peso de minha iniquidade e de minha negligência. Restitui-me, em Cristo, uma luminosa inteligência e um puro afeto, para que – através de ti – eu possa ter um imune, desembaraçado e livre coração."
    "Eu louvo, adoro, abençoo e agradeço com o melhor de minha capacidade por Tua sábia Misericórdia e Tua misericordiosa Sabedoria! Pois Tu, Meu Criador e Meu Redentor, procuras conter minha teimosa obstinação sob Teu doce jugo, com o mais adequado remédio à minha enfermidade."
    "Suavize minha dura auto-opinião, que com tanta força se endureceu!"
    "Propriedade - quanto mais comum se torna, mais santa torna-se."
    "Deus, Meu Deus, porque Tu és meu, nada me falta."

    Faleceu em 1302, aos 46 anos. Por seu vasto conhecimento teológico e pelas heroicas virtudes com que viveu a fé, recebeu o título de 'A Grande'.

 

    O Mosteiro de Santa Maria de Helfta, em Eisleben, que havia sido expropriado e declarado bem público durante o governo comunista da Alemanha Oriental, entrou em ruínas. Em anos recentes, aproveitou-se três paredes de um antigo prédio para erguer a capela atualmente dedicada à nossa Santa. Boa parte do mosteiro já foi restaurada.


     Santa Gertrudes, rogai por nós!