terça-feira, 6 de novembro de 2018

As Imagens


    Assim como precisamos de metáforas e símbolos para comunicar valores que são difíceis de exprimir, também usamos das imagens para representar o que vemos, imaginamos ou inspira-nos. Desta forma, as imagens de anjos, de Jesus, de Maria e dos mais antigos Santos são retratos falados, que a Tradição da Igreja guardou, ou descrições de visões. E, seja como símbolo ou representação da própria realidade, não é difícil imaginar a importância que através dos tempos tem a imagem do Cristo na Cruz, por exemplo, tanto para pessoas iletradas como letradas.
    Convenhamos, Jesus bem sabia que Seu rosto seria desenhado, pintado e esculpido. Era simplesmente humano que isso acontecesse, e Ele nunca o proibiu. Ao contrário, até assegurou que Sua imagem era a imagem do Pai, como veremos.
    Que mal haveria nelas, afinal? Imagens de Jesus ou de Santos nunca foram usadas para usurpar o lugar de Deus, como fizeram os israelitas com o bezerro de ouro. Elas são o que são: imagens. A palavra 'ídolo', em grego, quer dizer 'falso deus'. Idolatria, portanto, é adorar um falso deus. Na Igreja, além de não as adorar, não temos imagens de falsos deuses, mas de Jesus, verdadeiro Deus, e de Santos verdadeiramente Santos, e como meras imagens elas são tratadas, mesmo quando as veneramos.
    É fato que nos primórdios Deus proibiu o uso de imagens, mas o fez claramente para vedar qualquer culto a outros deuses que não a Ele mesmo, como acontecia na época do paganismo. Ou seja, Ele não quer que nada ocupe Seu lugar. A condição de Deus é só e exclusivamente d'Ele, e por isso determinou: "Não terás outros deuses diante de Minha face. Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos Céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto." Ex 20,3-5a
    Esse mesmo preceito de exclusividade está expresso nesses termos: "Ouve, ó Israel! O Senhor, Nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, Teu Deus, com todo teu coração, com toda tua alma e com todas tuas forças." Dt 6,4-5
    Uma imagem, portanto, só representa um mal quando é tratada como o próprio Deus, posta em Seu lugar. Se a imagem representasse um mal em si mesma, Ele não teria ordenado a confecção de querubins para a Arca da Aliança, como vemos no livro do Êxodo: "Farás dois querubins de ouro. E fa-los-ás de ouro batido, nas duas extremidades da tampa, um de um lado e outro de outro, fixando-os de modo a formar uma só peça com as extremidades da tampa. Terão esses querubins suas asas estendidas para o alto, e protegerão com elas a tampa, sobre a qual terão a face inclinada." Ex 25,18-20
    Também mandou fazer a serpente de bronze, para curar as pessoas do acampamento: "E o Senhor disse a Moisés: 'Faze para ti uma ardente serpente e mete-a sobre um poste. Todo aquele que for mordido, olhando para ela, será salvo.' Moisés fez, pois, uma serpente de bronze, e fixou-a sobre um poste. Se alguém era mordido por uma serpente e olhava para a serpente de bronze, conservava a vida." Nm 21,8-9
    Jesus até vai invocar essa imagem como prefigura de Sua Crucificação: "Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim deve ser levantado o Filho do Homem, para que todo homem que n'Ele crer tenha a Vida Eterna." Jo 3,14-15
    Por isso, ao construir o Templo de Jerusalém, Salomão permitiu-se incluir imagens, o que jamais foi contestado, seja pelos religiosos, seja por Deus mesmo: "Fez no Santuário dois querubins de pau de oliveira, que tinham dez côvados de altura. Cada uma das asas dos querubins tinha cinco côvados, o que fazia dez côvados da extremidade de uma asa à extremidade da outra. O segundo querubim tinha também dez côvados; os dois tinham a mesma forma e as mesmas dimensões. Um e outro tinham dez côvados de altura. Salomão pô-los no fundo do Templo, no santuário. Tinham as asas estendidas, de sorte que uma asa do primeiro tocava uma das paredes e uma asa do segundo tocava a outra parede, enquanto as outras duas asas se encontravam no meio do Santuário. Também revestiu de ouro os querubins. Nos painéis enquadrados de molduras, havia leões, bois e querubins, assim como nas travessas. Por cima e por baixo dos leões e dos bois pendiam grinaldas, em forma de festões." I Rs 6,23-28; I Reis 7,29
    São Paulo, por sua vez, denuncia as coisas que realmente são colocadas no lugar de Deus, deixando claro o que de fato é a idolatria, essa corrupção encravada na alma e que é larga e abertamente cultuada pelo mundo afora. E como definitiva solução, ele recomenda penitências aos colossenses: "Mortificai vossos membros, pois, no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é idolatria." Cl 3,5
    Lembrando os castigos sofridos pelo povo de Deus, enquanto cruzava o deserto, o Apóstolo dos Gentios vê idolatria essencialmente na ambição e na busca de mundanos prazeres, frívolas ilusões a que se entregam até mesmo muitos que se dizem religiosos. Está na Primeira Carta aos Coríntios: "Estas coisas aconteceram para servir-nos de exemplo, a fim de não cobiçarmos más coisas, como eles as cobiçaram. Não vos torneis idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: 'O povo sentou-se para comer e para beber, e depois levantou-se para divertir-se (Ex 32,6).' Nem nos entreguemos à fornicação, como alguns deles se entregaram... " 1 Cor 10,6-8a
    E na Primeira Carta a São Timóteo, acenando para a maior das idolatria, ele vai ser ainda mais claro: "Porque a raiz de todos males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da e enredaram-se em muitas aflições." 1 Tm 6,10


    Quanto às imagens de Jesus, especificamente, devemos ter presente que Ele é a plena manifestação de Deus, Revelação que vai muito além das palavras que a descrevem. Afirmativamente, Ele é o próprio Deus em Pessoa, dando-Se a conhecer à humanidade, e não apenas uma representação de Deus Pai. Temos, assim, baseado em relatos das pessoas que O viram, a real e fidedigna imagem de Deus, e não de ‘outros deuses’ como proíbe o primeiro Mandamento. Ele mesmo disse a São Filipe Apóstolo: "Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe! Aquele que Me viu, também viu o Pai. Como, pois, dizes: 'Mostra-nos o Pai?'..." Jo 14,9
    Falando sobre Sua divina condição, São Paulo foi ainda mais direto: "... Jesus é o Senhor..." Rm 10,9
    Para aqueles que realmente creem em Jesus, portanto, Deus revelou-Se à humanidade, o véu já foi retirado. Dizem os seguidores da tradição de São Paulo: "Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no Eterno Santuário, em virtude do Sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que nos abriu através do véu, isto é, o caminho de Seu próprio Corpo." Hb 10,19-20
    São Mateus até registrou-o em seu Evangelho, no momento de Sua Morte na Cruz: "Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma. E eis que o véu do Templo se rasgou em duas partes, de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas." Mt 2,50-51
    E é Palavra Sua: "Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis Quem EU SOU..." Jo 8,28a
    São Paulo diz com todas letras: "Pois n'Ele corporalmente habita toda plenitude da divindade." Cl 2,9
    Sem dúvida, Cristo é Deus revelado e modelo nosso, no qual todos cristãos devemos tornar-nos. E é sempre bom que lembremos: nós fomos feitos à imagem de Deus! E através da prática da obediência a Ele, como ele escreveu aos coríntios, cada vez mais recuperaremos Sua semelhança, perdida por causa do pecado: "Mas todos nós temos o rosto descoberto, refletimos como num espelho a Glória do Senhor e vemos-nos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor." 2 Cor 3,18
    Diz igualmente aos colossenses: "Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    São João Evangelista falou da conclusão deste processo: "Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é." 1 Jo 3,2
    Assim a imagem do Cristo serve de inspiração e comunica o inefável, o que as palavras não conseguem expressar. Não é apenas um modelo visual, mas o modelo de vida para os filhos de Deus, como o último Apóstolo escreve na Carta aos Romanos: "Aqueles que Ele de antemão distinguiu, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o Primogênito entre uma multidão de irmãos." Rm 8,29
    E mais uma vez, perante os coríntios, ele insiste no fato de que, através da Glória de Cristo, já nos foi dada a perfeita imagem de Deus Pai: "... para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus." 2 Cor 4,4
    Ele diz expressamente: "Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda Criação." Cl 1,15
    É o que dizem também os seguidores de sua tradição: "Esplendor da Glória de Deus e imagem do Seu Ser, Ele sustenta o universo com o poder de Sua Palavra. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade, no mais alto dos Céus..." Hb 1,3
    Por isso, São Paulo cobra dos gálatas uma consciência digna da Pessoa de Jesus, Deus Encarnado, Cuja imagem já lhes havia sido apresentada: "Ó insensatos gálatas! Quem vos fascinou, ante cujos olhos foi apresentada a imagem de Jesus Cristo crucificado?" Gl 3,1
    Ora, nem mesmo o rosto dos anjos era um mistério a esse tempo, como se atestou quando Santo Estevão foi apresentado como um blasfemo perante o Sinédrio: "Nele fixando os olhos, todos membros do Grande Conselho viram seu rosto semelhante ao de um anjo." At 6,15


    Não por acaso, o próprio São Lucas pintou a primeira imagem de Nossa Senhora, intitulada de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, cuja antiquíssima cópia vemos acima.
    Em crítica àqueles que seguiam exigindo a circuncisão, São Paulo disse algo muito sério aos que fazem rasa leitura do Antigo Testamento: "Já estais separados de Cristo, vós que procurais a justificação pela Lei. Decaístes da Graça. Quanto a nós, é espiritualmente, da fé, que aguardamos a esperada justiça." Gl 5,4-5
    Ele lembra que já vivemos o Ministério do Espírito Santo: "Depois de terdes começado pelo Espírito, quereis agora acabar pela carne?" Gl 3,3b
    E explica: "Nossa capacidade vem de Deus. Ele é que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica. Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, revestiu-se de tal Glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face (embora transitório), quanto mais glorioso não será o Ministério do Espírito!" 2 Cor 3,5b-8
    Seus seguidores também exortam ao culto ao Deus Vivo, em detrimento do antigo culto judeu. Se tínhamos imagens baseadas em um modelo, hoje prestamos culto ao próprio Deus em Pessoa, que esteve entre nós: Jesus. Se cultuávamos apenas sombras, hoje temos mais que sombras, mais que imagens, temos a própria Luz: "O culto que estes celebram é, aliás, apenas a imagem, sombra das celestiais realidades, como foi revelado a Moisés quando estava para construir o tabernáculo: 'Olha, foi-lhe dito, faze todas coisas conforme o modelo que te foi mostrado no monte (Ex 25,40).'" Hb 8,5
    Para eles, e perceberam bem, a própria Lei foi apenas uma imagem do que Jesus representaria: "A Lei, por ser apenas a sombra dos futuros bens, não sua expressão real, é de todo impotente para aperfeiçoar aqueles que assistem aos sacrifícios que indefinidamente se renovam cada ano." Hb 10,1
    O próprio Templo de Jerusalém era uma representação dos Céus"Se os meros símbolos das celestes realidades exigiam uma tal purificação, necessário tornava-se que as próprias celestiais realidades fossem purificadas por ainda superiores sacrifícios. Eis porque Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do Verdadeiro Santuário, mas no próprio Céu, para agora a nosso favor Se apresentar ante a face de Deus." Hb 9,23-24
    Aliás, era a representação do Corpo Místico de Cristo, que desde o Pentecostes é a própria Igreja: "Respondeu-lhes Jesus: 'Destruí vós este Templo, e em três dias Eu reerguer-lo-ei.' Os judeus replicaram: 'Em quarenta e seis anos foi edificado este Templo, e Tu hás de levantá-lo em três dias?!' Mas Ele falava do Templo de Seu Corpo." Jo 2,19-21


    São João Damasceno, que viveu entre 675 e 749, escreveu belíssimas reflexões sobre esse tema.

    "A todos saciai com Vossa Glória!"