segunda-feira, 6 de novembro de 2017

As Imagens


    Assim como precisamos de metáforas e símbolos comunicar os valores que são difíceis de exprimir, usamos também das imagens para representar o que vemos ou imaginamos. Assim, as imagens de anjos, de Jesus, de Maria e dos mais antigos Santos são retratos falados, que a Tradição da Igreja guardou, ou descrições de visões. E, seja como símbolo ou como a própria representação da realidade, não é difícil imaginar a importância que através dos tempos tem a imagem do Cristo na Cruz, tanto para as pessoas iletradas como letradas.
    E, convenhamos, Jesus bem sabia que Seu rosto seria desenhado, pintado e esculpido. Era simplesmente humano que isso acontecesse, e Ele nunca o proibiu.
    Que mal haveria nelas, afinal? Imagens de Jesus ou de Santos nunca foram colocadas no lugar de Deus, como fizeram os israelitas com o bezerro de ouro. Elas são o que são: imagens. A palavra 'ídolo', em grego, quer dizer 'falso deus'. Idolatria, portanto, é adorar um falso deus. Na Igreja, além de não as adorar, não temos imagens de falsos deuses, mas de Santos verdadeiramente Santos, e como meras imagens elas são tratadas, mesmo quando as veneramos.
    É fato que nos primórdios Deus proibiu o uso de imagens, mas o fez claramente para vedar qualquer culto a outros deuses que não Ele mesmo, como acontecia na época do paganismo. Ou seja, Ele não quer que nada ocupe Seu lugar. A condição de Deus é só e exclusivamente d'Ele, e por isso nos determinou: "Não terás outros deuses diante de Minha face. Não farás para ti escultura, nem figura alguma do que está em cima, nos Céus, ou embaixo, sobre a terra, ou nas águas, debaixo da terra. Não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto." Ex 20,3-5a
    Esse mesmo preceito de exclusividade está expresso nesses termos: "Ouve, ó Israel! O Senhor, Nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor, Teu Deus, com todo teu coração, com toda tua alma e com todas tuas forças." Dt 6,4-5
    Uma imagem, portanto, só representa um mal quando é tratada como o próprio Deus, posta em Seu lugar. Se a imagem representasse um mal em si mesma, Ele não teria ordenado a confecção de querubins para a Arca da Aliança, como vemos no livro do Êxodo: "Farás dois querubins de ouro; e os farás de ouro batido, nas duas extremidades da tampa, um de um lado e outro de outro, fixando-os de modo a formar uma só peça com as extremidades da tampa. Terão esses querubins suas asas estendidas para o alto, e protegerão com elas a tampa, sobre a qual terão a face inclinada." Ex 25,18-20
    Por isso, São Paulo denuncia as coisas que verdadeiramente são colocadas no lugar de Deus, deixando claro o que de fato é a idolatria, essa corrupção encravada na alma e que é larga e abertamente cultuada pelo mundo afora. E, como definitiva solução, ele recomenda penitências aos colossenses: "Mortificai vossos membros, pois, no que têm de terreno: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a cobiça, que é idolatria." Cl 3,5
    Lembrando os castigos sofridos pelo povo de Deus, enquanto cruzava o deserto, o Apóstolo dos Gentios vê idolatria essencialmente na ambição e na busca de mundanos prazeres, frívolas ilusões a que se entregam até mesmo muitos que se dizem religiosos. Está na Primeira Carta aos Coríntios: "Estas coisas aconteceram para servir-nos de exemplo, a fim de não cobiçarmos más coisas, como eles as cobiçaram. Não vos torneis idólatras, como alguns deles, conforme está escrito: 'O povo sentou-se para comer e para beber, e depois levantou-se para se divertir (Ex 32,6).' Nem nos entreguemos à fornicação como alguns deles se entregaram... " 1 Cor 10,6-8a
    E na Primeira Carta a São Timóteo, acenando para a maior das idolatria, ele vai ser ainda mais claro: "Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da e enredaram-se em muitas aflições." 1 Tm 6,10


    Quanto às imagens de Jesus, especificamente, devemos ter presente que Ele é a plena manifestação de Deus, Revelação que vai muito além das palavras que a descrevem. Afirmativamente, Ele é o próprio Deus em Pessoa, dando-Se a conhecer à humanidade, e não apenas uma representação de Deus Pai. Temos, assim, baseado em relatos das pessoas que O viram, a real e fidedigna imagem de Deus, e não de ‘outros deuses’ como proíbe o primeiro Mandamento. Ele mesmo disse a São Filipe Apóstolo: "Há tanto tempo que estou convosco e não Me conheceste, Filipe! Aquele que Me viu, viu também o Pai. Como, pois, dizes: Mostra-nos o Pai?..." Jo 14,9
    Falando sobre Sua condição divina, São Paulo foi ainda mais direto: "... Jesus é o Senhor..." Rm 10,9
    Portanto, para os que realmente creem em Jesus, Deus revelou-Se à humanidade, o véu já foi retirado. Dizem os seguidores da tradição de São Paulo: "Por esse motivo, irmãos, temos ampla confiança de poder entrar no santuário eterno, em virtude do Sangue de Jesus, pelo novo e vivo caminho que nos abriu através do véu, isto é, o caminho de Seu próprio Corpo." Hb 10,19-20
    São Mateus até o registrou em seu Evangelho, no momento da morte de Jesus na Cruz: "Jesus de novo lançou um grande brado, e entregou a alma. E eis que o véu do Templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas." Mt 2,50-51
    E é Palavra Sua: "Quando tiverdes levantado o Filho do Homem, então conhecereis Quem EU SOU..." Jo 8,28a
    São Paulo diz com todas as letras: "Pois n'Ele habita corporalmente toda plenitude da divindade." Cl 2,9
    Sem dúvida, Cristo é Deus revelado e modelo nosso, no qual todos os cristãos devemos nos tornar. E é sempre bom que lembremos: nós fomos feitos à imagem de Deus! E através da prática da obediência a Ele, como ele escreveu aos coríntios, recuperaremos cada vez mais Sua semelhança, perdida por causa do pecado: "Mas todos nós temos o rosto descoberto, refletimos como num espelho a Glória do Senhor e vemos-nos transformados nesta mesma imagem, sempre mais resplandecentes, pela ação do Espírito do Senhor." 2 Cor 3,18
    Diz igualmente aos colossenses: "Vós despistes-vos do velho homem com seus vícios, e revestistes-vos do novo, que constantemente vai restaurando-se à imagem d'Aquele que o criou, até atingir o perfeito conhecimento." Cl 3,9-10
    São João Evangelista falou da conclusão deste processo: "Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é." 1 Jo 3,2
    Assim a imagem do Cristo serve de inspiração e comunica o inefável, o que as palavras não conseguem expressar. Não é apenas um modelo visual, mas o modelo de vida para os filhos de Deus, como o último Apóstolo escreve na Carta aos Romanos: "Os que Ele distinguiu de antemão, também os predestinou para serem conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Este seja o Primogênito entre uma multidão de irmãos." Rm 8,29
    E mais uma vez, perante os coríntios, ele insiste no fato de que já nos foi dada a perfeita imagem de Deus Pai através da Glória de Cristo: "... para os incrédulos, cujas inteligências o deus deste mundo obcecou a tal ponto que não percebem a Luz do Evangelho, onde resplandece a Glória de Cristo, que é a imagem de Deus." 2 Cor 4,4
    Ele diz expressamente: "Ele é a imagem de Deus invisível, o Primogênito de toda a Criação." Cl 1,15
    É o que dizem também os seguidores de sua tradição: "Esplendor da Glória de Deus e imagem do Seu ser, Ele sustenta o universo com o poder da Sua Palavra. Depois de ter realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos Céus..." Hb 1,3
    Por isso, São Paulo cobra dos gálatas uma consciência digna da Pessoa de Jesus, Deus Encarnado, Cuja imagem já lhes havia sido apresentada: "Ó insensatos gálatas! Quem vos fascinou a vós, ante cujos olhos foi apresentada a imagem de Jesus Cristo crucificado?" Gl 3,1
    Em crítica àqueles que seguiam exigindo a circuncisão, disse algo muito sério aos que fazem uma leitura fundamentalista do Antigo Testamento: "Já estais separados de Cristo, vós que procurais a justificação pela Lei. Decaístes da Graça. Quanto a nós, é espiritualmente, da fé, que aguardamos a esperada justiça." Gl 5,4-5
    Ele lembra que já vivemos o ministério do Espírito Santo: "Depois de terdes começado pelo Espírito, quereis agora acabar pela carne?" Gl 3,3b
    E diz: "Nossa capacidade vem de Deus. Ele é que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica. Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, revestiu-se de tal Glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face (embora transitório), quanto mais glorioso não será o ministério do Espírito!" 2 Cor 3,5b-8
    Assim também seus seguidores exortam ao culto ao Deus Vivo, em detrimento do antigo culto judeu. Se tínhamos imagens baseadas em um modelo, hoje prestamos culto ao próprio Deus em Pessoa, que esteve entre nós: Jesus. Se cultuávamos apenas sombras, hoje temos mais que sombras, mais que imagens, temos a própria Luz: "O culto que estes celebram é, aliás, apenas a imagem, sombra das realidades celestiais, como foi revelado a Moisés quando estava para construir o tabernáculo: 'Olha, foi-lhe dito, faze todas as coisas conforme o modelo que te foi mostrado no monte (Ex 25,40).'" Hb 8,5
    Para eles, e perceberam bem, a própria Lei foi apenas uma imagem do que Jesus representaria: "A Lei, por ser apenas a sombra dos bens futuros, não sua expressão real, é de todo impotente para aperfeiçoar aqueles que assistem aos sacrifícios que se renovam indefinidamente cada ano." Hb 10,1
    Aliás, o próprio Templo de Jerusalém era uma representação dos Céus! Mas diante de Cristo nós estamos diante da própria face de Deus: "Se os meros símbolos das realidades celestes exigiam uma tal purificação, necessário tornava-se que as realidades mesmo fossem purificadas por sacrifícios ainda superiores. Eis porque Cristo entrou, não em santuário feito por mãos de homens, que fosse apenas figura do verdadeiro santuário, mas no próprio Céu, para agora apresentar-Se a nosso favor ante a face de Deus." Hb 9,23-24


    São João Damasceno, que viveu entre 675 e 749, escreveu belíssimas reflexões sobre esse tema.

    "A todos saciai com Vossa Glória!"