quarta-feira, 13 de novembro de 2019

São Nicolau Magno


    Para que se tenha ideia de sua importância para a Igreja, depois dele, que viveu no século IX, nenhum outro Papa recebeu o título de Magno.
    Nascido em Roma em 815, de nobre e influente família, seu pai era Defensor romano. Foi educado no mosteiro beneditino de Latrão, e é tido pela Igreja e pela História como um personagem de conduta moralmente irretocável. Era um intransigente defensor da primazia do Bispado de Roma, fundado por São Pedro, e da autonomia da Igreja, que jamais pode submeter-se a qualquer poder mundano.
    Dedicadamente serviu à Cúria Romana por 15 anos, sendo indicado subdiácono pelo Papa Sérgio II, e diácono, pelo Papa Leão IV. Foi conselheiro do Papa Bento III e, após sua morte em 858, aclamado seu sucessor. Já então era muito estimado pelo francês Luís II, sacro imperador romano-germânico, que foi coroado pelas mãos do Papa Sérgio II.
    Mas desde a total derrocada de Roma como capital do Império, em 476, em contraposição à ascensão de Bizâncio, também chamada de Constantinopla, atual Istambul, vez e outra viu-se fragilizada a unidade da Igreja, pois, entre líderes políticos e heresiarcas, muitos questionaram e até puseram em cheque a autoridade do Papa.
    Em 860, no Sínodo de Milão, São Nicolau teve que convencer algumas autoridades eclesiásticas a reconhecer a supremacia do Bispado Roma. João, o Arcebispo de Ravena, Itália, ainda resistiu, e São Nicolau Magno teve que o obrigar, sob pena de excomunhão.
    Em 861, também teve que fazer Incmar, o Arcebispo de Reims, França, desistir de suas ideias de que a igreja naquele país tinha total poder sobre seus fiéis, ou seja, independente das diretrizes de Roma.
    O Bispo de Soissons, na França, aliado de Incmar, foi igualmente persuadido a reconhecer a autoridade de nosso Santo, enquanto Papa, como absoluto superior da Igreja. Em 865, no entanto, em mais uma rigorosa medida disciplinar, São Nicolau resolveu depô-lo, levando de volta a este posto o bispo Rothad II, que havia sido afastado por influência de Incmar.
    Sua influência também era luminosa entre nobres e reis. Em 863, por exemplo, com a ajuda de São Cirilo e São Metódio, missionários gregos, São Nicolau converteu Bóris, rei da Bulgária, que mais tarde abandonaria o poder para tornar-se monge e adotaria outro nome, Miguel. Décadas depois, seria reconhecido como São Miguel da Bulgária, e seu filho, que tinha sido enviado a Roma para maior aproximação diplomática e acabou recebendo de São Nicolau um valioso tesouro em Sabedoria, conselhos e sugestões de leis para bem governar, por muitos anos promoveu boas relações internacionais e a prosperidade entre seu povo.


CONTRA REIS E IMPERADORES

    Não bastantes os frequentes problemas no seio da Igreja, São Nicolau teve que enfrentar o próprio imperador bizantino Miguel III, o ébrio, que num convento queria internar suas filhas e sua mãe Teodora, mesmo contra suas vontades.
    Em 858, este imperador havia desposto Inácio, Patriarca de Constantinopla, posto equivalente ao Bispado, apesar de ser muito estimado por sua mãe, Teodora, uma autêntica devota cristã. Inácio entrara em conflito com o clero de Constantinopla, pois posicionou-se contra vários religiosos que haviam apoiado uma massiva destruição de imagens. Para seu posto foi indicado Fócio, um leigo erudito que, graças às inspiradas missões de São Cirilo e São Metódio, havia ajudado o imperador a suplantar o crescimento do judaísmo em regiões hoje correspondentes a partes da Rússia e da Chéquia.
    Fócio foi elevado patriarca principalmente pelas manipulações de Bardas, irmão de Teodora, portanto tio do imperador Miguel. Ele estava enfurecido e envergonhado porque o Patriarca Inácio lhe havia repreendido e proibido de entrar na Catedral de Santa Sofia, em Constantinopla, por viver um incestuoso relacionamento com sua nora, Eudóxia, após ela ter enviuvado.
    Aí começava um lamentável capítulo que em 1054 culminaria no Cisma do Oriente, ou seja, parte da Igreja vai afastar-se de Roma e intitular-se 'ortodoxa'. Apesar de toda habilidade de São Nicolau, desses movimentos políticos que acintosamente afrontavam a Sã Doutrina, e assim o próprio Papa, surgiria a primeira das grandes rupturas: o Cisma de Fócio.
    São Nicolau Magno inicialmente enviou seus emissários para convencer Fócio a renunciar, e reconduzir Inácio ao Patriarcado, mas esses emissários, seduzidos pela riqueza e pelo poder de Constantinopla, terminaram aderindo às suas tresloucadas ideias, verdadeiras heresias. Foi quando em 863, no Sínodo de Latrão, em Roma, após vários debates e unânime decisão, mais uma vez São Nicolau mostrou a virtude da fortaleza ao abertamente enfrentar o ébrio mas poderoso imperador bizantino, e proclamou Inácio como o legítimo Patriarca de Constantinopla. Também declarou, nesta ocasião, a excomunhão dos emissários que haviam abraçado a heresia de Fócio.
    Noutra questão, ainda em 855, Lotário II, rei da região que equivale a atual Lorena, na França, havia abandonado a esposa para casar-se como a amante. Quando assumiu o papado, em 858, São Nicolau não reconheceu o Matrimônio. Entretanto, em 862, bispos reunidos no Sínodo de Aachem, na atual Alemanha, validaram o 'novo' casamento do rei.
    Descontente, porém prudenteem julho 863 São Nicolau convocou o Sínodo de Metz, França, para tratar do assunto. Lotário II, porém, sabendo que sua situação era insustentável, com subornos e ameaças subverteu os legados papais e conseguiu a confirmação do Sínodo de Aachem. Com muitas razões para desconfiar, São Nicolau habilidosamente convocou um novo Sínodo de Metz, em outubro do mesmo ano, e nele o Sínodo de Aachem foi dissolvido, destituindo os 3 bispos que participaram dele e do de julho, em Metz, entre eles João de Ravena, aos quais ordenou penitência sob pena de excomunhão.
    Revoltado, o rei Lotário II pediu os auxílios de seu irmão Luís II, sacro imperador romano-germânico, e saíram em defesa dos bispos destituídos desafiando diretamente São Nicolau, usando seus exércitos para sitiar Roma e confinando o papa na sede do pontificado. São Nicolau Magno, porém, corajosamente resistiu e não cedeu em nada, nem resposta lhe enviou. Ao fim de dois dias, sem nenhum apoio do povo cristão, o imperador e seu irmão caíram em si, suspenderam o cerco e retiraram suas tropas.
    Mas, por essa vitória, restou a São Nicolau um preço a pagar: teve que resistir aos provocativos e sistemáticos levantes de insatisfação dos membros da corte carolíngia, ou seja, francesa, que por espúrios interesses manifestamente visavam minar seu prestígio. Ao final de algum tempo, com serenidade e imbatíveis argumentos de razão e de fé, São Nicolau Magno soube conquistar o apoio dos bispos da França e desarticular a querela. Prova disso é que pouco mais tarde nosso papa organizaria a defesa de Roma contra a invasão dos sarracenos, e para tanto conseguiria ajuda dos exércitos do próprio sacro imperador Luís II.


A QUESTÃO TEOLOGAL DO CISMA DO ORIENTE

    Apoiado pelo imperador bizantino e ignorando a ordem papal, Fócio manteve-se no Patriarcado de Constantinopla e em 867 'excomungou' São Nicolau, acusando-o de defender, como acreditava a grande maioria dos teólogos e bispos da Igreja, que o Espírito Santo procedia do Pai e do Filho. Para Fócio e alguns teólogos orientais, o Espírito Santo não procederia do Filho, mas apenas do Pai. Era a subjacente, e viria a ser ruinosa, Questão 'Filioque', termo que em latim quer dizer 'e (do) Filho'. Os argumentos iam radicalizar-se, causando acirrado afastamento entre religiosos do Oriente e a Igreja, e, pouco mais de um século depois, consolidariam o Cisma do Oriente, dando origem à igreja ortodoxa.
    Para ainda mais agravar a situação, cedendo às seduções da corte local e arrogando-se maiores poderes por intenções notoriamente políticas, Fócio também declarou a independência do Patriarcado de Constantinopla frente à Igreja, atacando com malícia o ponto central de todo trabalho de São Nicolau Magno. Nunca buscou, de fato, alguma Comunhão. Apenas perniciosamente arrancava para si, valendo-se de apoio político, uma considerável extensão do rebanho do Cristo.
    Contudo, Basílio I, o Macedônio, que em 866 assassinaria Miguel III, assumindo o poder do Império Bizantino, definitivamente afastou Fócio em 867, devolvendo a Inácio a sede do Patriarcado. Tal decisão foi ratificada no IV Concílio Ecumênico de Constantinopla, em 869, que foi convocado por São Nicolau, mas ao qual não chegou a estar presente, pois, extenuado pelo zelo da Igreja e por práticas de rigoroso ascetismo, veio a falecer.
    Uma frase sua, porém, repercute pelos séculos: "Desde o momento em que a religião cristã começou a espalhar-se, ela manteve-se imutável e incorruptamente ensinou em todo mundo as doutrinas que recebeu de uma vez por todas de seu patrono e fundador, São Pedro."
    Entre os papas, São Nicolau Magno é considerado um dos mais vigorosos guardiões da Igreja na Idade Média. Com destemor e desvelo de si, defendeu a moralidadeas leis e as tradições da Igreja. Exemplo de vigilância também pela oração, de todo clero exigia séria, íntegra e inatacável conduta. Era muito amado pelas pessoas que o cercavam, e muito estimado por todos cidadãos de Roma.
    Pessoalmente era um asceta, vivia para a devoção e para rigorosas virtudes do auto-abandono. Reformou várias igrejas e fundou mosteiros e conventos. Era um grande incentivador da vida religiosa.
    Depois do Papa São Gelásio, que também fervorosamente havia defendido a superioridade da Sé de Roma sobre os demais bispados pelo mundo, bem como sua autonomia frente a todos mundanos poderes, São Nicolau foi o principal articulador dessa causa, consolidando a autoridade da Cátedra de São Pedro e vedando por completo qualquer ingerência de imperadores, reis e qualquer poder temporal dentro da Igreja. Graças a papas com ele, a Igreja só deve obediência a Deus.
    A bela e milenar igreja de Salve, em Lecce, no extremo leste da Itália, é dedicada a nosso grande Santo.


    São Nicolau Magno, rogai por nós!