quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Os Anjos do Apocalipse


    O livro do Apocalipse abre nossa percepção para o efetivo Reino de Deus, por suma importância comunicando ora 'momentos' da eternidade, ora divinas intervenções no mundo, ainda que estas últimas sejam passíveis de mais amplas leituras. Alguns estudiosos veem apenas simbologias, como se suas figuras valessem mais pelo que representam que por si mesmas, mas isso é tão somente um modo, reducionista e pouco venturoso, de colocá-las acima de supostas ambiguidades ou incoerências. Vinculam-nas a visões do Antigo Testamento, como se o Apóstolo João não as tivesse visto, apenas copiado, forjando revelações, o que seria uma capciosa acusação, típica da pobreza materialista.
    Suas mensagens têm sim visíveis componentes histórico-religiosos, por vezes literais, mas isso não desfaz a vivacidade de suas verdades de , que são até mais ricas de significados. A própria palavra apocalipse, do grego, hoje usada como sinônimo de fim do mundo, quer dizer tão somente Revelação, embora também inclua revelações sobre o fim dos tempos.
    A grande marca deste livro é a intensa participação dos anjos nas visões que teve São João Evangelista. E é igualmente tão grandiosa que às vezes se confunde com a manifestação do próprio Cristo, como acontece, aliás, com o próprio Deus Pai em várias passagens do Antigo Testamento. É o que vemos logo nas primeiras linhas: "Revelação de Jesus Cristo, que Lhe foi confiada por Deus para manifestar a Seus servos o que em breve deve acontecer. Ele, por Sua vez, por intermédio de Seu anjo, comunicou a Seu servo João, o qual atesta, como Palavra de Deus, o testemunho de Jesus Cristo e tudo que viu. Num domingo, fui arrebatado em êxtase..." Ap 1,1-2.10
    Tão expressivo sinal indica que também é intensa a participação deles em nossas vidas, mesmo que nós, cegos pelas coisas desse mundo, não a percebamos. É precisamente este o caso de nosso Anjo da Guarda, e, como ensina o Apocalipse, vemos que cada igreja, seja paróquia ou diocese, tem seu anjo. Diz Jesus: "Eis o mistério das sete estrelas que viste em Minha mão direita e dos sete candelabros de ouro: as sete estrelas são os anjos das sete igrejas, e os sete candelabros, as sete igrejas." Ap 1,20
    Tanto que São João, que para isso foi convocado, passou a escrever as mensagens que lhe eram ditadas não diretamente às igrejas, mas primeiro a seus anjos. Tal detalhe, entretanto, revela que eles não sabem de tudo. Jesus ordenou-lhe: "Ao anjo da igreja de Éfeso, escreve..." Ap 2,1
    É um anjo de Deus, da mesma forma, e este especificamente vigoroso, que vai dar ensejo à última e definitiva manifestação de Jesus, o Leão de Judá, o Cordeiro de Deus: "Eu também vi, na mão direita d'Aquele que estava assentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora, selado com sete selos. Então vi um poderoso anjo, que clamava em alta voz: 'Quem é digno de abrir o livro e desatar seus selos?'" Ap 5,1-2
    E além dos quatro imponentes querubins, chamados de Seres, e dos 24 Anciãos, certamente criaturas angelicais (serafins?) que representam nossos Sacerdotes, são muitos, muitos os anjos que já O adoram no Céu: "Em minha visão também ouvi, ao redor do trono, dos Seres e dos Anciãos, a voz de muitos anjos, em número de milhares de milhares e de milhões de milhões, bradando em alta voz: 'Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a Sabedoria, a força, a Glória, a honra e o louvor.'" Ap 5,11-12
    Também são anjos que detêm o poder dos ventos, numa evidente referência ao controle de Deus sob forças da natureza: "Depois disso, vi quatro anjos que se conservavam em pé nos quatro cantos da terra, detendo os quatro ventos da terra, para que nenhum vento soprasse sobre a terra, sobre o mar ou sobre árvore alguma." Ap 7,1
    Estes obedecem ao comando de outro anjo, revelando a hierarquia entre eles, anjo esse que tem uma tarefa bem específica: zelar pelo divino ministério do Batismo: "Ainda vi outro anjo subir do Oriente. Trazia o selo de Deus Vivo, e pôs-se a clamar com retumbante voz aos quatro anjos, aos quais fora dado danificar a terra e o mar, dizendo: 'Não danifiqueis a terra, nem o mar, nem as árvores, até que tenhamos assinalado os servos de Nosso Deus em suas frontes.'" Ap 7,3-2
    E ante a presença dos Santos, todos eles se juntam para louvar a Deus, que é o ritual celeste de onde temos nossa Santa Missa: "Depois disso, vi uma grande multidão, que ninguém podia contar, de toda nação, tribo, povo e língua. Conservavam-se em pé diante do trono e diante do Cordeiro, de brancas vestes e palmas na mão, e bradavam em alta voz: 'A Salvação é obra de Nosso Deus, que está assentado no trono, e do Cordeiro.' E todos anjos estavam ao redor do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres prostravam-se de face em terra diante do trono e adoravam a Deus, dizendo: 'Amém, louvor, Glória, Sabedoria, ação de graças, honra, poder e força ao Nosso Deus pelos séculos dos séculos! Amém.'" Ap 7,9-12
    Os anjos que assistem diretamente a Deus, pertencentes a outra hierarquia, têm como missão anunciar com trombetas os castigos que vão assolar a Terra: "Eu vi os sete anjos que assistem diante de Deus. Foram-lhes dadas sete trombetas." Ap 8,2
    Eles apresentam-se de forma muito especial: "Diante do trono ardiam sete tochas de fogo, que são os sete espíritos de Deus." Ap 4,5b
    Estão a serviço do Cristo: "Ao anjo da igreja de Sardes, escreve: 'Eis o que diz Aquele que tem os sete espíritos de Deus e as sete estrelas.'" Ap 3,1a
    Aliás, em visão ainda mais mística, ele são apontados como parte dos atributos do Cordeiro, em vigília por todo mundo: "Tinha Ele sete chifres e sete olhos, que são os sete espíritos de Deus, enviados por toda terra." Ap 5,6b


OS SETE CASTIGOS

    Tais castigos, porém, são precedidos pelo sinal de um turíbulo cheio de brasas, que vem pela mão de um anjo de outra hierarquia, a do Altar Celestial. É um instrumento pelo qual os Santos clamam por justiça, mas também de grandes forças da natureza: "Adiantou-se outro anjo e pôs-se junto ao Altar, com um turíbulo de ouro na mão. Foram-lhe dados muitos perfumes, para que os oferecesse com as orações de todos os Santos no Altar de ouro, que está adiante do trono. A fumaça dos perfumes subiu da mão do anjo com as orações dos Santos, diante de Deus. Depois disso, o anjo tomou o turíbulo, encheu-o de brasas do Altar e lançou-o por terra. E houve trovões, vozes, relâmpagos e terremotos." Ap 8,3-5
    E assim vêm os castigos, que lembram as pragas do Egito, onde o sangue significa morte. O primeiro altera de drástico modo a amenidade do clima, destruindo boa parte de nossa capacidade de produção de alimentos: "Então os sete anjos, que tinham as trombetas, prepararam-se para tocar. O primeiro anjo tocou: saraiva e fogo, misturados com sangue, foram lançados à terra. E queimou-se uma terça parte da terra, uma terça parte das árvores e toda erva verde." Ap 8,6-7
    O segundo aponta para um grande desastre ecológico nos oceanos, também sinalizado pela morte, que, além do clima, afeta o equilíbrio deste bioma, a pesca e o transporte internacional: "O segundo anjo tocou: então caiu no mar como que uma grande montanha, ardendo em fogo, e transformou-se em sangue uma terça parte do mar, morreu uma terça parte das criaturas que estavam no mar e pereceu uma terça parte dos navios." Ap 8,8-9
    O terceiro castigo letalmente atinge um expressivo manancial de nossa água potável: "O terceiro anjo tocou a trombeta: caiu do Céu uma grande estrela, a arder como um facho. Caiu sobre a terça parte dos rios e sobre as fontes. O nome da estrela era Absinto. Assim, uma terça parte das águas transformou-se em absinto e muitos homens morreram por ter bebido dessas águas envenenadas." Ap 8,10-11
    O quarto castigo indica um cataclismo cósmico, provocando o escurecimento global: "O quarto anjo tocou: então foi atingida uma terça parte do sol, da lua e das estrelas, de modo que se obscureceram em um terço. E o dia perdeu um terço da claridade, bem como a noite. A esta altura de minha visão, eu ouvi uma águia que voava pelo meio dos céus, clamando em alta voz: 'Ai, ai, ai dos habitantes da terra, por causa dos restantes sons das trombetas dos três anjos que ainda vão tocar.'" Ap 8,12-13
    O quinto castigo diz de uma enfermidade não mortal, mas causadora de agonizantes dores. A estrela cadente é o próprio Diabo, que vai libertar os anjos decaídos, cujas armas provocam tormentos físicos e psicológicos a quem não está sob a Graça: "O quinto anjo tocou a trombeta: vi uma estrela cair do céu na terra, e foi-lhe dada a chave do poço do abismo. Ela abriu-o e saiu do poço uma fumaça como a de uma grande fornalha. O sol e o ar obscureceram-se com a fumaça do poço. Da fumaça saíram gafanhotos pela terra, e foi-lhes dado poder semelhante ao dos escorpiões da terra. Porém, foi-lhes dito que não causassem dano à erva, verdura, ou árvore alguma, mas somente aos homens que não têm o selo de Deus na fronte. Foi-lhes ordenado que não os matassem, mas os afligissem por cinco meses. Seu tormento era como o da picada do escorpião. Naqueles dias, os homens buscarão a morte e não a conseguirão, desejarão morrer, e a morte fugirá deles. O aspecto desses gafanhotos era o de cavalos aparelhados para a guerra. Têm eles por rei o anjo do abismo; chama-se em hebraico Abadon, e em grego, Apolion." Ap 9,1-7a.11
    O sexto castigo é aterradoramente mortal, lembra o ataque dos exércitos de uma nação inimiga chefiada por generais que se portam como facínoras, e a morte que causam só é comparável às agonias do inferno. Contudo, mesmo diante de imensa tragédia, a maioria das pessoas insistirá em suas perversões: "Assim terminado o primeiro ai, eis que, depois dele, vêm ainda dois outros. O sexto anjo tocou a trombeta: ouvi uma voz que vinha dos quatro cantos do Altar de ouro, que está diante de Deus, e que dizia ao sexto anjo que tinha a trombeta: 'Solta os quatro anjos que estão acorrentados à beira do grande rio Eufrates.' Então foram soltos os quatro anjos que se conservavam preparados para a hora, o dia, o mês e o ano da matança da terça parte dos homens... O número de soldados desta cavalaria era de duzentos milhões. Eu ouvi seu número. E uma terça parte dos homens foi morta por esses três flagelos (fogo, fumaça e enxofre) que lhes saíam das narinas. Mas o restante dos homens, que não foram mortos por esses três flagelos, não se arrependeu das obras de suas mãos." Ap 9,12-16.18.20
    Outro anjo, que também se confunde com o Cristo por aparência e poder, clama e a voz de Deus faz-se ouvir através de trovões, mas tal mensagem é um segredo. É quando ele entrega a São João o Evangelho, que é doce de ser anunciado, mas acarretará grandes sofrimentos aos que o divulgarem. No entanto, tal missão é imperativa e urgente: "Então vi outro poderoso anjo descer do Céu, revestido de uma nuvem e com o arco-íris em torno da cabeça. Seu rosto era como sol, e suas pernas como colunas de fogo. Segurava na mão um pequeno livro aberto. Pôs o pé direito sobre o mar, o esquerdo sobre a terra e começou a clamar em alta voz, como um leão que ruge. Quando clamou, os sete trovões ressoaram. Quando cessaram de falar, dispunha-me a escrever, mas ouvi uma voz do Céu que dizia: 'Sela o que falaram os sete trovões e não o escrevas.' E o anjo, que eu vira de pé sobre o mar e a terra, levantou a mão direita para o Céu e jurou por Aquele que vive pelos séculos dos séculos, que criou o Céu e tudo que nele há, a terra e tudo que ela contém, o mar e tudo que ele encerra: 'Já não haverá mais tempo! Porém, nos dias em que soar a trombeta do sétimo anjo, cumprir-se-á o mistério de Deus, de acordo com a Boa Nova que confiou a Seus servos, os Profetas.' Então a voz que ouvi do Céu falou-me de novo, e disse: 'Vai e toma o pequeno livro aberto da mão do anjo, que está em pé sobre o mar e a terra.' Fui eu, pois, ter com o anjo, dizendo-lhe que me desse o pequeno livro. E ele disse-me: 'Toma e devora-o! Ele ser-te-á amargo nas entranhas, mas, na boca, doce como o mel.' Tomei, então, o pequeno livro da mão do anjo e comi-o. De fato, em minha boca tinha a doçura do mel, mas depois de tê-lo comido, amargou-me nas entranhas. E foi-me explicado: 'Urge que de novo ainda profetizes a numerosas nações, povos, línguas e reis.'" Ap 10,1-11
    São Pedro e São Paulo, insignes profetas da Boa Nova, tiveram o martírio como sentença da Fera de então, que era Roma, mas foram vitoriosamente elevados aos Céus. No entanto, seu testemunho, ou de um repetitivo par profetas, traz o sétimo castigo, com a morte de um incontável número de pessoas. E evidencia-se, em seguida, o ostensivo Reino de Cristo: "Incumbirei às minhas duas testemunhas, vestidas de saco, de profetizarem por mil duzentos e sessenta dias. Mas, depois de terem terminado integralmente seu testemunho, a Fera que sobe do abismo lhes fará guerra, vencê-los-á e matar-los-á. Porém, depois de três dias e meio, um sopro de Vida vindo de Deus penetrou-os. Puseram-se de pé e grande terror caiu sobre aqueles que os viam. Ouviram uma forte voz do Céu que dizia: 'Subi aqui!' Então subiram para o Céu numa nuvem, enquanto seus inimigos os olhavam. Naquela mesma hora produziu-se grande terremoto, caiu uma décima parte da cidade e no terremoto pereceram sete mil pessoas. As demais, aterrorizadas, deram glória ao Deus do Céu. Assim terminou o segundo ai, e eis que depressa sobrevém o terceiro. O sétimo anjo tocou a trombeta: então ressoaram no Céu altas vozes que diziam: 'O império de Nosso Senhor e de Seu Cristo estabeleceu-se sobre o mundo, e pelos séculos dos séculos Ele reinará.' Os vinte e quatro Anciãos, que se assentam em seus tronos diante de Deus, prostraram-se de rosto em terra e adoraram a Deus, dizendo: 'Graças damo-Te, Senhor, Deus Dominador, que és e que eras, porque assumiste a plenitude de Teu real poder. Irritaram-se os pagãos, mas eis que sobreveio Tua ira e o tempo de julgar os mortos, de dar a recompensa a Teus servos, aos Profetas, aos Santos, aos que temem Teu Nome, pequenos e grandes, e de exterminar aqueles que corromperam a terra." Ap 11,3.7.11-18


A OBRA DA SALVAÇÃO

    Como especialíssimo capítulo, a chegada de Jesus ao Céu significou a possibilidade de vitória do ser humano sobre o pecado, e nessa ocasião, por Ele e por nós combateram São Miguel Arcanjo e seus Exércitos: "Houve uma batalha no Céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram, e já não houve lugar no Céu para eles. Então foi precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Foi precipitado na terra, e com ele seus anjos. Eu ouvi no Céu uma forte voz que dizia: 'Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que dia e noite os acusava diante do Nosso Deus.'" Ap 12,7-11
    Como defesa dos ataques do inimigo, também Maria Santíssima é dotada de asas, o que seria sua segunda 'condição angelical', pois, como disse Jesus, os anjos 'não se casam nem se dão em casamento': "O Dragão, vendo que fora precipitado na terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente." Ap 12,13-14
    Também é um anjo que anunciará a triunfal volta de Jesus, e o início do Juízo Final: "Vi, então, outro anjo que voava pelo meio do Céu, tendo um Eterno Evangelho para anunciar aos habitantes da terra e a toda nação, tribo, língua e povo. Clamava em alta voz: 'Temei a Deus e dai-Lhe glória, porque é chegada a hora de Seu Julgamento. Adorai Aquele que fez o Céu e a terra, o mar e as fontes.'" Ap 14,6-7
    Antes, porém, um anjo anuncia a queda da Babilônia, que à época era simbolizada por Roma, mas certamente foi e ainda é sucedida por muitas outras grandes cidades, pelo poder de perdição das almas que alcançam. Qual será a última? "Outro anjo, o segundo, continuou: 'Caiu, caiu a grande Babilônia! Por ter dado de beber a todas nações do vinho de sua desenfreada imundície!'" Ap 14,8
    Outro anjo avisa dos castigos aos que não se emendarem do pecado da cobiça, sob todos aspectos, que são os castigos do definitivo inferno, da segunda morte: "Um terceiro anjo seguiu-os, dizendo em alta voz: 'Se alguém adorar a Fera e sua imagem, e aceitar seu sinal na fronte ou na mão, também há de beber o vinho da divina cólera, o vinho puro deitado no cálice de Sua Ira. Será atormentado pelo fogo e pelo enxofre diante de Seus santos anjos e do Cordeiro. A fumaça de seu tormento subirá pelos séculos dos séculos. Não terão descanso algum, dia e noite, esses que adoram a Fera e sua imagem, e todo aquele que acaso tenha recebido o sinal de seu nome." Ap 14,9-11
    E mais um anjo sinaliza para Jesus o início de Sua ceifa. Seu golpe, de fato, é único e definitivo: "Ainda outro anjo, o terceiro, saiu do Templo gritando em voz alta para Aquele que estava assentado na nuvem: 'Lança Tua foice e ceifa, porque é chegada a hora de ceifar. Pois está madura a seara da terra.' O Ser que estava assentado na nuvem então lançou a foice à terra, e a terra foi ceifada." Ap 14,15-16
    Depois é a vez do anjo que recolherá o 'joio', os maus frutos. Ele agirá ao sinal de outro anjo, que controla o fogo, e a ira de Deus dar-se-á 'fora de Jerusalém', onde será muito grande a mortandade: "Outro anjo saiu do Templo do Céu. Tinha também uma afiada foice. E outro anjo, aquele que tem poder sobre o fogo, saiu do Altar e bradou em alta voz para aquele que tinha a afiada foice: 'Lança a foice e vindima os cachos da vinha da terra, porque maduras estão suas uvas.' O anjo lançou sua foice à terra e vindimou a vinha da terra, e atirou os cachos no grande lagar da ira de Deus. O lagar foi pisado fora da cidade, e do lagar saiu sangue que atingiu até o nível dos freios dos cavalos pelo espaço de mil e seiscentos estádios." Ap 14,17-20



OS SETE FLAGELOS

    As punições ao mundo, porém, ainda não teriam acabado, nem o Templo do Céu estaria aberto para os que ressuscitaram para a Glória de Deus. Preparavam-se os aterradores flagelos, prenúncios do Juízo Final, que aos sete anjos são entregues pelos querubins: "Vi ainda, no Céu, outro grande e maravilhoso sinal: sete anjos que tinham os sete últimos flagelos, porque por eles é que se deve consumar a ira de Deus. Os sete anjos que tinham os sete flagelos saíram do Templo, vestidos de puro e resplandecente linho, cingidos ao peito com cintos de ouro. Um dos quatro Seres deu-lhes, então, sete taças de ouro, cheias da ira de Deus que vive pelos séculos dos séculos. Encheu-se o Templo de fumaça provinda da Glória de Deus e de Seu poder. E ninguém podia entrar, enquanto não se consumassem os sete flagelos dos sete anjos." Ap 15,1.6-8
    E eis que se dá a consumação da Ira de Deus: as mais severas punições ao mundo, ainda em vida, e a batalha final: "Então ouvi uma forte voz saindo do Templo, que dizia aos sete anjos: 'Ide, e derramai sobre a terra as sete taças da ira de Deus.' O primeiro, portanto, pôs-se a derramar sua taça sobre a terra. Formou-se uma atroz e maligna úlcera nos homens que tinham o sinal da Fera e que se prostravam diante de sua imagem. O segundo derramou sua taça sobre o mar. Este tornou-se sangue, como o de um morto, e pereceu todo ser que estava no mar. O terceiro derramou sua taça sobre os rios e as fontes das águas, e transformaram-se em sangue. Ouvi, pois, o anjo das águas dizer: 'Tu és justo, Tu que és e que eras o Santo, que assim julgas. Porque eles derramaram o sangue dos Santos e dos Profetas, Tu também lhes deste sangue para beber. Eles merecem-no.' Ouvi o Altar dizer: 'Sim, Senhor Deus Dominador, são verdadeiros e justos Teus Julgamentos.' O quarto derramou sua taça sobre o sol, e foi-lhe dado queimar os homens com o fogo. E os homens foram queimados por grande calor, e amaldiçoaram o Nome de Deus, que pode desencadear esses flagelos, e não quiseram arrepender-se e dar-Lhe glória. O quinto derramou a sua taça sobre o trono da Fera. Seu reino escureceu-se e seus súditos mordiam a língua de dor. Amaldiçoaram o Deus do Céu por causa de seus sofrimentos e de suas feridas, sem se arrependerem de seus atos. O sexto derramou sua taça sobre o grande rio Eufrates, e secaram-se suas águas para que se abrisse caminho aos reis do Oriente. Vi sair da boca do Dragão, da boca da Fera e da boca do falso profeta três imundos espíritos semelhantes a rãs. São os espíritos de demônios que realizam prodígios e vão ter com os reis de toda terra, a fim de reuni-los para a batalha do Grande Dia do Deus Dominador. 'Eis que venho como um ladrão! Feliz aquele que vigia e guarda suas vestes para que não ande nu, ostentando sua vergonha!' Eles reuniram-nos num lugar chamado em hebraico Har-Magedon. O sétimo derramou sua taça pelos ares e saiu do Templo uma grande voz do trono, que dizia: 'Está pronto!' Houve, então, relâmpagos, vozes e trovões, assim como um tão grande terremoto como jamais houve, desde que há homens na terra. A grande cidade foi dividida em três partes, e as cidades das nações caíram, e Deus lembrou-Se da grande Babilônia, para dar-lhe de beber o cálice do vinho de Sua ardente ira. Todas ilhas fugiram, e montanha alguma foi encontrada. Grandes pedras de gelo, que podiam pesar um talento, caíram do céu sobre os homens. Os homens amaldiçoaram a Deus por causa do flagelo da saraiva, pois este foi terrível." Ap 16,1-20
    O império do idolatria, por fim, é simbolizado por uma prostituta, cuja punição está próxima: "Veio, então, um dos sete anjos que tinham as sete taças e comigo falou: 'Vem, e mostrar-te-ei a condenação da grande meretriz, que se assenta à beira das muitas águas, com a qual se contaminaram os reis da terra. Ela inebriou os habitantes da terra com o vinho de sua luxúria.'" Ap 17,1-2
    Este anjo dá a São João os detalhes dessa revelação. A mulher é a perdição que a Babilônia da vez simboliza, e a Fera, seu rei, que acabará por destruí-la, com o apoio de outros reis. Em suma, o mal que se autodestrói: "Transportou-me, então, em espírito ao deserto. A mulher estava vestida de púrpura e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas. Tinha na mão uma taça de ouro, cheia de abominação e de imundície de sua prostituição. Na sua fronte estava escrito um simbólico nome: Babilônia, a Grande, a mãe da prostituição e das abominações da terra. Vi que a mulher estava ébria do sangue dos Santos e do sangue dos Mártires de Jesus, e esta visão encheu-me de espanto. Mas o anjo disse-me: 'Por que te admiras? Eu mesmo vou dizer-te o simbolismo da mulher e da Fera de sete cabeças e dez chifres, que a carrega. Admirar-se-ão os habitantes da terra, cujos nomes não estão escritos no livro da Vida desde o começo do mundo, vendo reaparecer a Fera que era e já não é mais. Os dez chifres que viste são dez reis que ainda não receberam o reino, mas que por um momento receberão poder real com a Fera. Eles têm o mesmo pensamento: transmitir à Fera sua força e seu poder. Combaterão contra o Cordeiro, mas o Cordeiro vencê-los-á, porque é Senhor dos senhores e Rei dos reis.' O anjo disse-me: 'As águas que viste, à beira das quais a Prostituta se assenta, são povos e multidões, nações e línguas. Os dez chifres que viste, assim como a Fera, odiarão a Prostituta. Hão de despojá-la e desnudá-la. Hão de comer-lhe as carnes e queima-la-ão ao fogo. Porque Deus lhes incutiu o desejo de executarem seus desígnios, de concordarem em ceder sua soberania à Fera, até que se cumpram as palavras de Deus.'" Ap 17,3a.4-7.8b.12-14a.15-17
    E o fim dos cultos de idolatria, com suas falsas divindades, acontece pelo anúncio de muito potente anjo, de alta hierarquia, que mais uma vez se confunde com o próprio Cristo: "Depois disso, vi descer do Céu outro anjo que tinha grande poder, e a terra foi iluminada por sua Glória. Clamou em alta voz, dizendo: 'Caiu, caiu Babilônia, a Grande!' Tornou-se morada dos demônios, prisão de imundos espíritos e de impuras e abomináveis aves, porque todas nações beberam do vinho da ira de sua luxúria. Com ela pecaram os reis da terra, e os mercadores da terra enriqueceram-se com o excesso de seu luxo." Ap 18,1-3
    Como se podia esperar, um anjo põe fim ao poder de sedução da cidade das trevas: "Então um vigoroso anjo tomou uma pedra do tamanho de uma grande mó de moinho e lançou-a no mar, dizendo: 'Com tal ímpeto será precipitada Babilônia, a Grande Cidade, e jamais será encontrada.'" Ap 18,21
    Com os cantos de triunfo nos Céus, São João Evangelista recebe ordens para registrar o convite ao eterno banquete e faz menção de reverenciar o anjo do grupo dos sete, que lhe explicava as revelações: "Ele disse-me, então: 'Escreve: Felizes os convidados para a ceia das núpcias do Cordeiro.' Ainda me disse: 'Estas são autênticas palavras de Deus.' Prostrei-me a seus pés, para adorá-lo, mas ele disse-me: 'Não faças isso! Eu sou um servo, como tu e teus irmãos, possuidores do testemunho de Jesus. Adora a Deus. Porque o espírito profético não é outro senão o testemunho de Jesus.'" Ap 19,9-10
    Vê-se, então, Jesus em marcha para a batalha final, seguido por um exército de anjos: "Ainda vi o Céu aberto: eis que aparece um cavalo branco. Seu cavaleiro chama-Se Fiel e Verdadeiro, e é com justiça que Ele julga e guerreia. Tem olhos flamejantes. Há em Sua cabeça muitos diademas e traz escrito um Nome que ninguém conhece, senão Ele. Está vestido com um manto tinto de sangue, e Seu Nome é Verbo de Deus. Em cavalos brancos seguiam-nO os celestes exércitos, vestidos de fino linho, de uma imaculada brancura." Ap 19,11-14
    Em seguida, sob às ordens de outro anjo, são deleteriamente suprimidos os cadáveres de líderes e simpatizantes das nações idólatras: "Então vi um anjo de pé sobre o sol, a chamar em alta voz a todas aves que voam pelo meio dos céus: 'Vinde, reuni-vos para a grande ceia de Deus, para comerdes carnes de reis, carnes de generais e carnes de poderosos; carnes de cavalos e cavaleiros; carnes de homens, livres e escravos, pequenos e grandes.' E todas aves fartaram-se da suas carnes." Ap 19,17-18.21b
    Antes disso, porém, vemos uma rápida digressão: um anjo, talvez São Rafael Arcanjo, como já havia sido relatado no livro de Tobias, aprisiona Satanás. Tal fato descreve a atual situação, de vitórias meramente espirituais, uma temporária representação da definitiva vitória da fé cristã: "Vi descer do Céu um anjo, que tinha na mão a chave do abismo e uma grande algema. Ele apanhou o Dragão, a primitiva Serpente, que é o Demônio e Satanás, e acorrentou-o por mil anos. Atirou-o no abismo, que fechou e selou por cima, para que já não seduzisse as nações, até que se completassem mil anos. Depois disso, ele deve ser solto por um pouco de tempo." Ap 20,1-3


NOVO CÉU E NOVA TERRA

    Por fim, um dos sete anjos, sempre um deles, apresenta a São João a Jerusalém Celestial, guardada também por 12 anjos, talvez querubins, como os que guardavam o jardim do Éden com flamejantes espadas (cf. Gn 3,24): "Então veio um dos sete anjos, que tinham as sete taças cheias dos sete últimos flagelos, e disse-me: 'Vem e mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro.' Levou-me em espírito a um grande e alto monte, e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do Céu, de junto de Deus, revestida da Glória de Deus. Tinha grande e alta muralha com doze portas, guardadas por doze anjos. E mediu a muralha: cento e quarenta e quatro côvados, segundo a medida humana empregada pelo anjo." Ap 21,9-12.17
    É também esse anjo que lhe apresenta o rio da Água Viva, símbolo do Espírito Santo e de Deus, ou da Santíssima Trindade, que recebemos nessa vida, e a fonte da Vida Eterna no Céu: "O anjo então me mostrou um rio de Água Viva, resplandecente como cristal de rocha, saindo do trono de Deus e do Cordeiro." Ap 22,1
    E São João mais uma vez se confunde quanto ao tratamento que deve dar ao anjo. E é avisado para divulgar as revelações que teve: "Fui eu, João, que vi e ouvi estas coisas. Depois de tê-las ouvido e visto, prostrei-me aos pés do anjo que as mostrava. Mas ele disse-me: 'Não faças isto! Sou um servo como tu e teus irmãos, os profetas, e aqueles que guardam as palavras deste livro. Prostra-te diante de Deus.' Ainda disse ele: 'Não seles o profético texto deste livro, porque o momento está próximo.'" Ap 22,8-10
    Ao final, Jesus retoma a palavra, como no início, e subscreve: "Eu, Jesus, enviei Meu anjo para atestar-vos estas coisas a respeito das igrejas. 'Eu sou a raiz e o descendente de Davi, a radiosa estrela da manhã.'" Ap 22,16

    "Esperamos entrar na Vida Eterna!"