quinta-feira, 26 de abril de 2018

Pensar, Falar e Fazer


    O amadurecimento do ser humano não tem como não ser espiritual. Quando se refina em modos, nele emerge uma nova criatura que invariavelmente vai abraçar os mais elevados valores que a humanidade tem cultuado, e entre eles vão estar os da espiritualidade. É uma profunda transformação, como se referiu São Paulo ao nosso encontro com o Salvador: "Todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura. Passou o que era velho. Eis que tudo se fez novo!" 2 Cor 5,17
    E, nesse sentido, nosso maior exemplo de harmoniosa convivência é a Comunhão que há entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Eles são nosso modelo de sociedade, de unidade. E todos nós temos aptidões naturais que bem lembram atributos das Pessoas da Santíssima Trindade:
    - o projeto de Deus Pai, que Jesus chamou de Sua vontade, está inscrito em nossa alma e pode estar associado ao nosso pensar; quando refletimos, podemos planejar com o Pai;
    - o Verbo Encarnado, ou seja, a Palavra que tornou-Se ser humano, Jesus, pode estar em nós representado por nosso falar; quando conversamos, podemos testemunhar a Verdade;
    - e o Espírito Santo, Autor das divinas obras, pode estar manifesto em nós pelo agir; o que fazemos pode ser parte da construção do Reino de Deus.
    Assim, para o bem de nossa alma, cabe chegarmos a essa unidade interior, à coerência entre nossas ideias, palavras e atitudes, e de fato a amadurecer, sendo capazes de pensar, falar e fazer a mesma coisa. Ora, algo de que Jesus muito reclamava nos religiosos foi a hipocrisia. E com toda razão:
    - triste daquele que fala mas não faz, nem pode pensar no que falou;
    - triste daquele que faz sem pensar, nem pode falar o que fez;
    - triste daquele que pensa mas não fala, nem pode fazer o que pensa.
    Essa unidade interior está bem caracterizada nos modos como devemos amar a Deus. Eles foram recitados por Jesus como o primeiro e principal Mandamento: "Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma, de todas tuas forças e de todo teu entendimento..." Mt 22,37
    Sem dúvida, nosso entendimento deve estar voltado para os desígnios do Pai, sobre os quais devemos constantemente refletir. Diz o primeiro Salmo: "Feliz o homem que não vai ao conselho dos injustos... seu prazer está na Lei do Senhor, e nela medita de dia e de noite." Sl 1,2a.2b
    Nosso coração, sede de nossas decisões como apontou Jesus, sempre expressa o que realmente estamos dizendo, e todo cristão tem por missão testemunhar Jesus. Deus disse: "O Mandamento que hoje te dou não está acima de tuas forças, nem fora de teu alcance. Essa Palavra está perto de ti, na tua boca e no teu coração: e tu podes cumpri-la." Dt 30,11.14
    Já nossas forças representam o que efetivamente acreditamos, através do que fazemos e como agimos. São palavras de Jesus: "Porque cada árvore se conhece pelo seu fruto. Não se colhem figos dos espinheiros, nem se apanham uvas dos abrolhos." Lc 6,44
    E o símbolo maior dessa unidade, ou seja, nossa alma, que espelha tudo que somos e podemos ser, deve necessariamente buscar a comunhão espiritual com o Pai. São Paulo ensina: "Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do novo homem, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e Santidade." Ef 4,23-24
    Essa é a própria essência da verdadeira Vida, ainda segundo este Apóstolo: "... quem se une ao Senhor torna-se com Ele um só Espírito." 1 Cor 6,17
    Assim, pensamento, coração e forças devem caminhar juntos, ou teremos uma personalidade fragmentada, de 'muitas caras'. O Divino Mestre já vaticinava: "Todo reino dividido contra si mesmo será destruído. Toda cidade, toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir." Mt 12,25
    Examinemos, então, a coerência de nossas atribuições com base nas Escrituras.


PENSAR

    A Missão de Jesus, sem dúvida, é realizar estritamente o projeto do Pai. Ele declarou: "Pois desci do Céu não para fazer Minha vontade, mas a vontade d'Aquele que Me enviou." Jo 6,38
    Por isso, ensinou-nos a pedir o mesmo no Pai Nosso: "... Seja feita Vossa vontade..." Mt 6,10
    E advertiu como pode ser grave o que imaginamos: "Eu, porém, digo-vos: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração." Mt 5,28
    Com efeito, não podemos esconder de Deus nossos pensamentos: "Mas Jesus conhecia os pensamentos deles..." Mt 6,8
    E Ele disse que os maus pensamentos expressam-se pelo coração: "Jesus, penetrando-lhes os pensamentos, perguntou-lhes: 'Por que pensais mal em vossos corações?'" Mt 9,4
    Pedia constante vigília e reflexão antes de agir, ao falar dos sinais dos Céus: "Por que também não julgais por vós mesmos o que é justo?" Lc 12,57
    Para ilustrar a importância do bem pensar, Ele questionou como executamos nossos projetos: "Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários, a fim de ver se tem com que acabá-la?" Lc 14,28
    Deu exemplo de meditar antes de falar, e assim demonstrou Seu poder: "Que é mais fácil dizer: Teus pecados te são perdoados, ou: Levanta-te e anda?" Mt 9,5
    E exortava a confiarmos, entregando-nos aos projetos do Pai sem preocupações mundanas: "Se vós, pois, não podeis fazer nem as mínimas coisas, por que estais preocupados com as outras?" Lc 12, 26
    São Paulo indicava essa atribuição como principal área de atuação do inimigo, para levar à desobediência, o verdadeiro pecado original: "Mas temo que, como a serpente enganou Eva com sua astúcia, assim se corrompam vossos pensamentos e apartem-se da sinceridade para com Cristo." 2 Cor 11,3
    E pedia a Deus pela de Filemon, para que lhe servisse de iluminação: "Que tua Comunhão na fé seja eficaz, fazendo-te conhecer todo bem que somos capazes de realizar para o Cristo." Fm 1,6
    Ele condenou energicamente os falsos: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Porquanto o que se pode conhecer de Deus, eles leem-no em si mesmos, pois Deus revelou-lho com evidência. Desde a criação do mundo, as invisíveis perfeições de Deus, Seu sempiterno poder e divindade, tornam-se visíveis à inteligência, por Suas obras; de modo que não se podem escusar. Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e obscureceu-se-lhes o insensato coração. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos." Rm 1,18-22
    E o livro da Sabedoria, no mesmo sentido, prevê tão somente desgraça aos que planejam o mal: "Mas os ímpios terão o castigo que merecem seus pensamentos, uma vez que desprezaram o justo e separaram-se do Senhor. Desgraçado é aquele que rejeita a Sabedoria e a disciplina! A esperança deles é vã, seus sofrimentos sem proveito, e as obras deles inúteis. Suas mulheres são insensatas e seus filhos malvados; a raça deles é maldita." Sb 3,10-12
    Assim como o distanciamento do Divino Paráclito: "A Sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado; o Espírito Santo educador das almas fugirá da perfídia, afastar-Se-á de insensatos pensamentos, e a iniquidade que sobrevém O repelirá." Sb 1,4-5
    Já o Eclesiástico exalta da inspiração do justo: "O prudente coração reflete sobre as palavras dos sábios, e com atento ouvido deseja a Sabedoria." Eclo 3,31
    O último Apóstolo explicou aos colossenses a grande dádiva que é a Paixão de Cristo, capaz de operar a perfeita conversão: "Há bem pouco tempo, vós éreis alheios a Deus e inimigos pelos vossos pensamentos e más obras, mas Ele reconciliou-vos pela morte de Seu Corpo humano, para que possais apresentar-vos Santos, imaculados, irrepreensíveis aos olhos do Pai." Cl 1,21-22
    Porque por ela temos o Evangelho: "Nós, porém, temos o pensamento de Cristo." 1 Cor 2,16b
    E recomendava: "Além disso, irmãos, tudo que é verdadeiro, tudo que é nobre, tudo que é justo, tudo que é puro, tudo que é amável, tudo que é de boa fama, tudo que é virtuoso e louvável, eis o que deve ocupar vossos pensamentos." Fl 4,8
    Por nossa obrigação de bem meditar, portanto, tão importante quanto a fala é o silêncio. Lembremos que o Arcanjo Gabriel o impôs a Zacarias, pai de São João Batista, por sua incredulidade: "Eis que ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que estas coisas acontecerem, visto que não deste crédito às minhas palavras, que hão de cumprir-se a seu tempo." Lc 1,20
    E o Profeta Simeão, que aguardava no Templo de Jerusalém a Apresentação do Salvador, sabendo que através d'Ele todo pensar humano estaria em cheque, disse a Nossa Senhora: "Eis que este Menino está destinado a ser uma causa de queda e de soerguimento para muitos homens em Israel, e a ser um sinal que provocará contradições, a fim de serem revelados os pensamentos de muitos corações." Lc 2,34-35


FALAR
 
    Sabemos que Jesus é a própria Palavra de Deus, como afirmou São João Evangelista: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus, e o Verbo era Deus. E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós..." Jo 1,1.14a
    Ele arrebatava multidões: "... porque todo o povo ficava suspenso de admiração, quando O ouvia falar." Lc 19,48
    Até os guardas, enviados para prendê-Lo, voltaram de mãos vazias e admirados: "Ninguém jamais falou como este homem!..." Jo 7,46
    Essa reação à Sua voz era-Lhe muito familiar. Ele afirmou: "Minhas ovelhas ouvem Minha voz, Eu conheço-as e elas seguem-Me." Jo 10,27
    E pela Comunhão da Santíssima Trindade, Ele disse em Nome de Quem falava: "Em verdade, não falei por Mim mesmo, mas o Pai, que Me enviou, Ele mesmo prescreveu-Me o que devo dizer e o que devo ensinar." Jo 12,49
    O poder da Palavra de Jesus, segundo testemunhas oculares, pode ser avaliado por essa passagem, principalmente por ser protagonizada por um não judeu: "Jesus então foi com eles. E já não estava longe da casa, quando o centurião Lhe mandou dizer por amigos seus: 'Senhor, não Te incomodes tanto assim, porque não sou digno de que entres em minha casa. Por isso nem me achei digno de chegar-me a Ti, mas dize somente uma palavra e meu servo será curado.'" Lc 7,6-7
    Santa Maria de Betânia, irmã de Santa Marta e São Lázaro, também sabia sua importância: "Tinha ela uma irmã por nome Maria, que se assentou aos pés do Senhor para ouvi-Lo falar. Marta, toda preocupada na lida da casa, veio a Jesus e disse: 'Senhor, não Te importas que minha irmã me deixe só a servir? Dize-lhe que me ajude.' Respondeu-lhe o Senhor: 'Marta, Marta, andas muito inquieta e preocupas-te com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada.'" Lc 10,39-42
    Jesus avisou, enfim, que nenhum segredo seria guardado para sempre: "Porque não há nada oculto que não venha a descobrir-se, e nada há escondido que não venha a ser conhecido. Pois o que dissestes às escuras será dito à luz; e o que falastes ao ouvido, nos quartos, será publicado de cima dos telhados." Lc 12,2-3
    E ensinou-nos a testemunhar: "Dizei somente: Sim, se é sim; não, se é não. Tudo que passa além disto vem do Maligno." Mt 5,37
    Ora, Ele combatia frontalmente a hipocrisia: "Ou como podes dizer a teu irmão: 'Deixa-me, irmão, tirar de teu olho o cisco', quando tu não vês a vara no teu olho? Hipócrita, tira primeiro a vara do teu olho e depois enxergarás para tirar o cisco do olho de teu irmão." Lc 6,42
    E, como vimos, denunciava a fonte das más palavras: "Raça de víboras, maus como sois, como podeis dizer boas coisas? Porque a boca fala do que lhe transborda do coração." Mt 12,34
    Mas disse que se guardássemos Sua Palavra, nos difíceis momentos teríamos muito especial assistência : "Porque não sereis vós que falareis, mas é o Espírito de Vosso Pai que falará em vós." Mt 10,20
    De fato, o poder do Espírito Santo garante a unidade de Sua Doutrina: "... porque não há ninguém que faça um prodígio em Meu Nome e em seguida possa falar mal de Mim." Mc 9,39
    Mas de todos São Paulo exigia um comportamento condigno: "Por isso, renunciai à mentira. Fale cada um a seu próximo a Verdade, pois somos membros uns dos outros. Nenhuma má palavra saia de vossa boca, mas só a que for útil para a edificação, sempre que for possível, e benfazeja aos que ouvem. Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam desterradas do meio de vós, bem como toda malícia." Ef 4,25.29-31
    São Tiago Menor faz análoga exortação: "Todas as espécies de feras selvagens, de aves, de répteis e de peixes do mar domam-se e têm sido domadas pela espécie humana. A língua, porém, nenhum homem pode domá-la. É um irrequieto mal, cheia de mortífero veneno. Com ela bendizemos o Senhor, Nosso Pai, e com ela amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. De uma mesma boca procede a bênção e a maldição. Não convém, meus irmãos, que seja assim. Porventura lança uma fonte, por uma mesma bica, água doce e água amargosa?" Tg 3,7-11
    Ele pede encarecidamente: "Meus irmãos, não faleis mal uns dos outros. Quem fala mal de seu irmão, ou julga-o, fala mal da Lei e julga a Lei. E se julgas a Lei, já não és observador da Lei, mas seu juiz." Tg 4,11
    E São Pedro, no mesmo sentido, recomenda: "Com efeito, quem quiser amar a vida e ver felizes dias, refreie sua língua do mal e seus lábios de enganadoras palavras." 1 Pd 3,10
    São Judas Tadeu, lembrando a postura do Arcanjo Miguel diante de Satanás, acusa falastrões e dá um luminoso exemplo de autocontrole: "Assim também estes homens, em seu louco desvario, contaminam igualmente a carne, desprezam a soberania e maldizem as Glórias. Ora, quando o Arcanjo Miguel discutia com o Demônio, e com ele disputava o corpo de Moisés, não ousou fulminar contra ele uma sentença de execração, mas disse somente: 'Que o próprio Senhor te repreenda!' Estes, porém, falam mal do que ignoram. Encontram eles sua perdição naquilo que não conhecem, senão de um modo natural, à maneira dos animais destituídos de razão." Jd 8-10
    E São Paulo recomendava delicadeza na missão de evangelizar: "Procedei com Sabedoria no trato com os de fora. Sabei aproveitar todas circunstâncias. Que vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal, e sabei responder a cada um devidamente." Cl 4,5-6
    O anúncio da Boa Nova, portanto, é o anúncio do Bem Maior, isto é, do próprio Deus, e por isso deve ser a razão de nossas vidas. Jesus ordenou-nos: "Por onde andardes, anunciai que o Reino dos Céus está próximo." Mt 10,17
    E os Céus está próximo daqueles que buscam e retransmitem a Sabedoria, como Ele disse a um escriba: "Vendo Jesus que ele falara sabiamente, disse-lhe: 'Não estás longe do Reino de Deus'." Mc 12,34
    São João Batista, por sua vez, condenou os que falavam demais, julgando-se abençoados, mas não se convertiam com sinceridade: "Fazei, pois, uma conversão realmente frutuosa e não comeceis a dizer em vós mesmos: 'Temos Abraão por pai.' Pois digo-vos: Deus tem poder para destas pedras suscitar filhos a Abraão." Lc 3,8
    De fato, Jesus questionava nossa disposição em compreender o que Ele ensinava: "Se vos tenho falado das coisas terrenas e não Me credes, como crereis se vos falar das celestiais?" Jo 3,12
    Questionava os judeus: "Por que não compreendeis Minha linguagem?" Jo 8,43a
    Mas não pôde explicar tudo, e por isso avisou da Vinda do Espírito Santo, Cuja Missão é igualmente sutil e exemplar: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não podeis suportá-las agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,12
    Os Apóstolos, porém, ao final da vida pública de Jesus, já O reconheciam e evocavam-nO por Quem Ele é, como Ele mesmo confirmou: "Vós chamais-Me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque EU SOU." Jo 13,13
    E pelo feito de Sua Ressurreição, como ensinou São Paulo, o testemunho de Jesus deve ser levado ao mundo todo: "E toda língua confesse, para a Glória de Deus Pai, que Jesus Cristo é Senhor." Ef 2,11
    Ele atesta que é ouvindo a pregação que se chega à fé: "Logo, a fé provém da pregação, e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,17
    E defendendo a justificação pela fé, afirma que ela deve ser verbalmente expressa: "Essa é a Palavra da fé, que pregamos. Portanto, se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor, e se em teu coração creres que Deus O ressuscitou dentre os mortos, serás salvo. É crendo de coração que se obtém a justiça, e é professando com palavras que se chega à Salvação." Rm 10,8b-10


FAZER

    Cientes de nossa condição de frágeis pecadores, nossa primeiríssima atitude, para bem aproximar-nos de Deus, deve ser admitir e confessar nossos erros, como nos mandou Jesus desde o início de Sua vida pública: "Desde então, Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    E como falou aos serventes nas Bodas de Caná, indiretamente Nossa Santíssima Mãe determinou que nós O obedecêssemos, incondicionalmente: "Disse, então, Sua mãe aos serventes: 'Fazei o que Ele vos disser.'" Jo 2,5
    Ela mesma deu exemplo, como respondeu à Anunciação do Arcanjo Gabriel: "Então disse Maria: 'Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo tua palavra.'" Lc 1,3a
    Em Seu agir, o próprio Jesus demonstrava total compromisso com os planos de Deus: "Meu alimento é fazer a vontade daquele que Me enviou e cumprir Sua obra." Jo 4,34
    Falando de Sua humanidade, para servir-nos de exemplo, Ele testificava: "Em verdade, em verdade, digo-vos: de Si mesmo o Filho não pode fazer coisa alguma. Ele só faz o que vê fazer o Pai; e tudo que o Pai faz, semelhantemente faz o Filho." Jo 5,19
    E repetia: "De Mim mesmo não posso fazer coisa alguma."Jo 5,30
    Deu um grandiosos e prático exemplo, e pediu: "Logo, se Eu, Vosso Senhor e Mestre, lavei-vos os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como Eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade, em verdade, digo-vos: o servo não é maior que Seu Senhor, nem o enviado é maior que Aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob condição de praticá-las." Jo 13,16-17
    Sua Palavra, porém, tinha muito especial executor: "Mas se é pelo Espírito de Deus que expulso os demônios, então chegou para vós o Reino de Deus." Mt 12,28
    Bem diferente, entretanto, era a situação dos líderes religiosos de então, como Ele mesmo os acusou: "Vós fazeis as obras de vosso pai. Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,41a.44
    Também nós, para agirmos corretamente, somos carentes da moção do Espírito de Deus. E até mesmo para reconhecer a divindade de Jesus, como disse São Paulo: "... ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor, senão sob a ação do Espírito Santo." 1 Cor 12,3
    O Paráclito, de fato, é o autor de todo divino feito: "... o Espírito Santo, Autor da Graça!" Hb 10, 29
    E mostrou-Se tão ativo em Jesus que Nicodemos, um fariseu mas homem sensato, teve que reconhecer: "Rabi, sabemos que és um Mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes, se Deus não estiver com ele." Jo 3,2
    O ser humano, pois, precisa submeter-se a Deus, e só se comprometer com o que está sob o poder de suas forças, como ensinou Jesus: "Nem jurarás pela tua cabeça, porque não podes fazer um cabelo tornar-se branco ou negro." Mt 5,36
    Até mesmo nosso agir pelo bem dos outros, dizia Ele, não pode ser objeto de vanglória: "Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles." Mt 6,1
    Pois a humildade é uma Virtude: "Assim também vós, depois de terdes feito tudo que vos foi ordenado, dizei: 'Somos inúteis servos. Fizemos apenas o que devíamos fazer.'" Lc 17,10
    Jesus mesmo submetia Seu agir à fé das pessoas que O buscavam: "Partindo Jesus dali, dois cegos seguiram-nO, gritando: 'Filho de Davi, tem Misericórdia de nós!' Jesus entrou numa casa e os cegos aproximaram-se d'Ele. Disse-lhes: 'Credes que Eu posso fazer isso?' 'Sim, Senhor', responderam eles. Então Ele tocou-lhes nos olhos, dizendo: 'Seja-vos feito segundo vossa fé.' No mesmo instante, seus olhos abriram-se." Mt 9,27-30a
    A Salvação, enfim, que é uma conquista pessoal, também precisa contar com a ajuda da Graça de Deus. Mas mesmo assim os judeus sabiam que, em foro íntimo, deviam tomar uma atitude: "Um jovem aproximou-se de Jesus e perguntou-Lhe: 'Mestre, que devo fazer de bom para ter a Vida Eterna?'" Mt 19,16
    Os fariseus, por exemplo, que se julgavam conhecedores do Caminho, liam as Escrituras mas não praticavam seus preceitos. De novo, a hipocrisia aparece como fonte da angústia e tristeza. Jesus denunciava-os: "Observai e fazei tudo que eles dizem, mas não façais como eles, pois dizem e não fazem." Mt 23,3
    Por isso o fingimento, enquanto atitude para com a Igreja, é uma afronta às coisas de Deus. E sua punição será grave, como afirmou Jesus: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Devorais as casas das viúvas, fingindo fazer longas orações. Por isso, sereis castigados com muito maior rigor." Mt 23,14
    São João Evangelista recomendava: "Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em verdade." 1 Jo 3,18
    São Paulo pedia aos filipenses: "Fazei todas as coisas sem murmurações nem críticas, a fim de serdes irrepreensíveis e inocentes, íntegros filhos de Deus no meio de uma depravada e maliciosa sociedade, onde brilhais como luzeiros no mundo, a ostentar a Palavra da Vida." Fl 2,14-16a
    E aos colossenses: "Tudo quanto fizerdes, por palavra ou por obra, fazei-o em Nome do Senhor Jesus, dando por Ele graças a Deus Pai." Cl 3,17
    Quanto ao comportamento meramente mundano, ele demonstrava a mais completa ojeriza: "Porque as coisas que tais homens fazem ocultamente é vergonhoso até falar delas." Ef 5,12
    O próprio Jesus, enquanto Mestre Celestial, não só bem falava, mas também bem fazia, como testemunhava o povo de Israel: "E tanto mais se admiravam, dizendo: 'Ele faz bem todas as coisas. Faz ouvir os surdos e falar os mudos!'" Mc 7,37
    Tanto que Seu agir era constantemente questionado, como fizeram os principais sacerdotes, escribas e anciãos: "Com que direito fazes isto? Quem Te deu autoridade para fazer essas coisas?" Mc 11,28
    Ora, desde os tempos de São João Batista, o povo de boa vontade já perguntava como servir a Deus: "Perguntava-lhe a multidão: 'Que devemos fazer?'" Lc 3,10
    Também o inquiriram de Jesus: "Perguntaram-Lhe: 'Que faremos para praticar as obras de Deus?' Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que creiais n'Aquele que Ele enviou.'" Jo 6,29-30
    Conhecedor de nossas dificuldades, Ele deixou-nos a chamada Lei de ouro: "O que quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles." Lc 6,31
    E pediu que tomássemos Sua caridade como parâmetro: "Este é Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12
    Por isso, a falta de caridade será uma gravíssima omissão, como Ele explicou: "Também estes Lhe perguntarão: 'Senhor, quando foi que Te vimos com fome, com sede, peregrino, nu, enfermo, ou na prisão e não Te socorremos?' E Ele responderá: 'Em verdade, Eu declaro-vos: todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a Mim que o deixastes de fazer.'" Mt 25,44-45
    Porque não podemos ser bons desprezando o sofrimento dos pobres, sobre os quais Ele fez essa triste profecia: "Vós sempre tereis convosco os pobres e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem..." Mc 14,7
    Assim, tanto quanto podemos, devemos diminuir a desigualdade aqui na terra através do amor: "Eu digo-vos: fazei amigos com a injusta riqueza, para que, no dia em que ela vos faltar, eles recebam-vos nos eternos tabernáculos." Lc 16,9
    Fazer o bem, portanto, não pode parar em desculpas ou restrições, nem mesmo por motivos sagrados: "Não vale o homem muito mais que uma ovelha? É permitido, pois, fazer o bem no dia de sábado." Mt 12,12
    São Tiago Menor diz com contundência: "Aquele que souber fazer o bem, e não o faz, peca." Tg 4,17
    E também condenou a falsidade: "Lavai as mãos, pecadores, e purificai vossos corações, ó homens de dupla atitude." Tg 4,8b
    Por fim, ao explicar qual deve ser nossa inspiração, Jesus declarou-Se Deus, revelando-Se essencial às nossas mais simples ações: "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanecer em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto. Porque sem Mim nada podeis fazer." Jo 15,5
    E assim questionava Seus seguidores: "Por que Me chamais: 'Senhor, Senhor...' e não fazeis o que digo?" Lc 6,46
    Com efeito, toda e qualquer boa ação de nossa parte é reconhecidamente apenas um reflexo de nossa submissão aos Mandamentos do Pai. São Paulo disse: "Porque é Deus, segundo Seu beneplácito, Quem realiza em vós o querer e o executar." Fl 2,13
    Também disse do anúncio do Evangelho: "Tenho plena certeza de que Aquele que em vós iniciou esta boa obra, há de levá-la à perfeição até o Dia de Jesus Cristo." Fl 1,6
    Ele testemunhava: "Mas, pela Graça de Deus, sou o que sou, e a Graça que Ele me deu não tem sido inútil. Ao contrário, tenho trabalhado mais do que todos eles; não eu, mas a Graça de Deus que está comigo." 1 Cor 15,10
    Disse-o mais de uma vez, como aos colossenses: "A Ele é que anunciamos, admoestando todos os homens e instruindo-os em toda Sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo. Eis a finalidade de meu trabalho, a razão porque luto, auxiliado por Sua força que poderosamente atua em mim." Cl 1,29
    Então devemos tão somente buscar a Graça de tornar-nos instrumentos de Seu agir, como diziam os seguidores de sua tradição: "E o Deus da Paz... queira dispor-vos ao bem e conceder-vos que cumprais Sua Vontade, realizando Ele próprio em vós o que é agradável a Seus olhos, por Jesus Cristo..." Hb 13,20a.21a
    Sem dúvida, a condição de amigo de Jesus depende impreterivelmente de nossas atitudes: "Vós sois Meus amigos, se fazeis o que vos mando." Jo 15,14
    E em mais um marcante exemplo, ao concluir Sua Missão entre nós e preparar-Se para Seu Sacrifício, Jesus prestou contas ao Pai: "Eu glorifiquei-Te na terra. Terminei a obra que Me deste para fazer." Jo 17,4

    "Santificai-nos pelo dom de Vosso Espírito!"