quinta-feira, 1 de março de 2018

A Vaidade


COMO SOBERBA

    A soberba foi o pecado de Eva, ao achar que poderia saber o que é certo e errado por si mesma, desprezando os Mandamentos de Deus: "'Oh, não! – tornou a serpente – vós não morrereis! Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão; e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.'" Gn 3,4-5
    E aí está a inspiração de Salomão, que agiu exatamente ao contrário de Eva: pedindo Sabedoria a Deus: "Dai, pois, a Vosso servo um sábio coração, capaz de julgar Vosso povo e discernir entre o bem e o mal." 1 Rs 3,9a
    Por isso é tão atilado o conselho de Tobit, em seu leito de morte, ao filho Tobias: "Nunca permitas que o orgulho domine teu espírito ou tuas palavras, porque ele é a origem de todo o mal." Tb 4,14
    Vivendo nas primeiras metrópoles, São Paulo apontava um dos reflexos da soberba: a ânsia de poder. Mas sempre o maior dos males: "Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns se desviaram da e enredaram-se em muitas aflições." 1 Tm 6,10
    Ela, contudo, tem outras formas de expressão, como veremos na adoração à beleza. Deus falou pelo Profeta Jeremias: "Eis o que diz o Senhor: 'Não se envaideça o sábio do saber, nem o forte de sua força, e da riqueza não se orgulhe o rico!'" Jr 9,22
    Pois a verdadeira Sabedoria, como demonstrou Salomão, é fazer a vontade de Deus. São Paulo prega: "Vivei como filhos da Luz. E o fruto da Luz chama-se: bondade, justiça, Verdade. Discerni o que agrada ao Senhor e não tenhais cumplicidade nas infrutíferas obras das trevas; pelo contrário, condenai-as abertamente." Ef 5,8b-11
    E lamenta-se pelas pessoas "... cujo destino é a perdição, cujo deus é o ventre, para quem a própria desonra é causa de envaidecimento, e só têm prazer no que é terreno." Fl 3,19
    Ele bem sabia que o orgulho, por suas pretensões de dominação, atenta contra a boa convivência: "Vivei em boa harmonia uns com os outros. Não vos deixeis levar pelo gosto das grandezas; afeiçoai-vos às coisas modestas. Não sejais sábios aos vossos próprios olhos." Rm 12,16
    Por isso pedia: "Em virtude da Graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não tenham de si mesmos um conceito mais elevado do que convém, mas uma justa estima, ditada pela Sabedoria, de acordo com o grau de que Deus lhes distribuiu." Rm 12,3
    O Eclesiástico, que tão extensamente falou sobre o vazio das coisas mundanas, sugere a humildade do silêncio como modo de melhorar o ambiente social: "Ouve em silêncio, e tua modéstia provocará a benevolência." Eclo 32,9
    E com absoluta clareza, via as trevas como destino do impenitente: "Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende." Eclo 3,30
    Entre os religiosos, São Paulo aponta o que deve realmente prevalecer: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim. Mas ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo." 2 Cor 12,7-10
    Jesus havia deixado esse ensinamento à Igreja: "Assim também vós, depois de terdes feito tudo o que vos foi ordenado, dizei: 'Somos servos inúteis. Apenas fizemos o que devíamos fazer.'" Lc 17,10
    Ele denunciava escribas e fariseus: "Fazem todas suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largas faixas e longas franjas em seus mantos. Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados rabi pelos homens." Mt 23,5-7
    E mandou um claro recado à igreja de Laodiceia: "Pois dizes: 'Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito' - e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que compres de Mim ouro provado ao fogo, para ficares rico; roupas alvas para vestir-te, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, de modo que possas ver claro." Ap 3,17-18
    Não por acaso, ao ser questionado sobre as atribuições de Jesus, São João Batista disse algo basilar: "João replicou: 'Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do Céu.'" Jo 3,27
    A São Timóteo, São Paulo recomenda a pobreza evangélica, a plena confiança na Divina Providência: "Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto. Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do demônio e em muitos insensatos e nocivos desejos que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição." 1 Tm 6,8-9
    E ao descrever o verdadeiro amor, ele diz: "O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro... " 1 Cor 13,4-5
    Ora, o livro da Sabedoria avisava aos que estão no poder: "Amai a justiça, vós que governais a terra; tende para com o Senhor perfeitos sentimentos, e procurai-O em simplicidade de coração..." Sb 1,1
    O Eclesiástico recomendava: "Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás Graça diante do Senhor." Eclo 3,20a
    O salmista, talvez o próprio Davi, também os inqueriu: "Ó poderosos, até quando tereis o coração endurecido, no amor das vaidades e na busca da mentira?" Sl 4,3
    Ciente do perigo desse pecado, ele pede a Deus: "Preservai, também, Vosso servo do orgulho; não domine ele sobre mim, então serei íntegro e limpo de grave falta." Sl 18,14
    E São Paulo, através de São Timóteo, mandou um recado aos que se vangloriam do que possuem: "Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança em volúveis riquezas, mas em Deus, que nos dá abundantemente todas as coisas para delas fruirmos." 1 Tm 6,17
    Isaías, por sua vez, profetizou contra toda jactância: "A pretensão dos mortais será humilhada, o orgulho dos homens será abatido." Is 2,17
    E referindo-Se à soberba disfarçada na forma de caridade, Jesus aconselhou a todos: "Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto a Vosso Pai que está no Céu." Mt 6,1
    Ele sentenciou: "Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita." Mt 6,3
    Quanto às posses materiais, também deixou um recado aos presunçosos, aludindo ao inimigo que se apossa das almas: "E propôs-lhe esta parábola: 'Havia um homem rico cujos campos produziam muito. E ele refletia consigo: Que farei? Porque não tenho onde recolher minha colheita. Disse então ele: Farei o seguinte: derrubarei meus celeiros e construirei maiores; neles recolherei toda minha colheita e meus bens. E direi à minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos; descansa, come, bebe e regala-te. Deus, porém, disse-lhe: Insensato! Ainda nesta noite exigirão de ti tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão?'" Lc 12,16-20
    E lamentou por aqueles que se bastam pelo ventre, pela futilidade e pela lisonja, ao invés de buscar a consolação de Deus: "Mas ai de vós, ricos, porque tendes vossa consolação! Ai de vós, que estais fartos, porque vireis a ter fome! Ai de vós, que agora rides, porque gemereis e chorareis! Ai de vós, quando vos louvarem os homens, porque assim faziam os pais deles aos falsos profetas!" Lc 6,24-26
    Os Provérbios também advertiram contundentemente sobre a ganância: "Tesouros adquiridos pela mentira: vaidade passageira para aqueles que procuram a morte." Pr 21,16
    Arguto observador, São Paulo vê no apego a bens materiais a causa dessas ilusões: "Desencaminham-se estas pessoas em suas próprias visões, cheias do vão orgulho de seu espírito materialista..." Cl 2,18
    Assim como na idolatria do culto ao ego: "Quem pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo." Gl 6,3
    Em censura, ele fala do poder que o anúncio da Palavra de Deus lhe confere contra arrogantes e soberbos: "Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e o reduzimos à obediência a Cristo." 2 Cor 10,5
    E pregando a mansidão, a obediência e a autêntica religiosidade, tal qual o exemplo de Cristo, ele repreende os comerciantes da fé: "Quem ensina de outra forma e discorda das salutares palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como da Doutrina conforme à piedade, é um obcecado pelo orgulho, um ignorante, doentio por ociosas questões e contendas de palavras. Daí se originam a inveja, a discórdia, os insultos, as suspeitas injustas, os vãos conflitos entre homens de coração corrompido e privados da Verdade, que só vêem na piedade uma fonte de lucro." 1 Tm 6,3-5
    Mesmo com o anúncio do Evangelho, porém, o último Apóstolo não se mostra esperançoso quanto aos tempos futuros: "Os homens se tornarão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão a realidade." 2 Tm 3,2-5
    Por isso admoestava a mais completa humildade entre os cristãos: "Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo." Ef 5,21
    E quanto ao verdadeiro culto a Deus, o salmista pergunta-se e, logo em seguida, responde-se: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer no Seu santo lugar? Aquele que tem as mãos limpas e o coração puro, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo." Sl 23,3-4

COMO EXIBICIONISMO 

    Mesmo àquela época, na qual a atual sociedade vê tanto machismo, a vaidade feminina já havia ultrapassado em muito a medida do bom senso. No livro de Isaías, lê-se a longa lista: "E o Senhor disse: 'Já que são pretensiosas as filhas de Sião, e andam com o pescoço emproado, fazendo acenos com os olhos, e caminham com passo afetado, fazendo retinir as argolas de seus tornozelos, o Senhor tornará sua cabeça calva e desnudará sua fronte. Naquele tempo o Senhor lhes tirará as jóias, as argolas, os colares, as lúnulas, os brincos, os braceletes e os véus, os diademas, as cadeias, os cintos, os frascos de perfumes e os amuletos, os anéis e os pingentes da fronte, os vestidos de festa, os mantos, as gazas e as bolsas, os espelhos, as musselinas, os turbantes e as mantilhas.'" Is 3,16-22
    São Paulo também se pronunciou sobre o assunto, ao falar à comunidade cristã: "Do mesmo modo, quero que as mulheres usem traje honesto, ataviando-se com modéstia e sobriedade. Seus enfeites consistam não em primorosos penteados, ouro, pérolas, vestidos de luxo, e sim em boas obras, como convém a mulheres que professam a piedade." 1 Tm 2,9-10
    E ainda São Pedro: "Não seja vosso adorno o que aparece externamente: cabelos trançados, ornamentos de ouro, vestidos elegantes; mas tende aquele interior e oculto ornato do coração, a incorruptível pureza de um suave e pacífico espírito, que é tão precioso aos olhos de Deus. Era assim que outrora se ornavam as santas mulheres que esperavam em Deus..." 1 Pd 3,3-5
    Pois muito mais que as vestes, como O vimos condenar os sacerdotes judeus, Jesus via a alma, como seus próprios adversários vão reconhecer: "Mestre, sabemos que és sincero e que não lisonjeias a ninguém; porque não olhas as aparências dos homens, mas ensinas o Caminho de Deus segundo a Verdade." Mc 12,14
    Ele recriminou exageros e obsessões quanto às mundanas preocupações em geral: "Não vos aflijais, nem digais: 'Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?' São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, Vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso." Mt 6,31-32
    Disse mais: "... a carne de nada serve." Jo 6,63
    Por fim, Ele pediu que a tudo examinássemos em profundidade: "Não julgueis pela aparência, mas julgai conforme a justiça." Jo 7,24

COMO COISAS VÃS

    O Eclesiastes discursa longamente sobre a vaidade usando seu original significado, que vem daquilo que é vão, fútil, mas tudo vê com pessimismo, quase se entregando à total indiferença do niilismo. É que ao seu tempo ainda não estava consolidada a Doutrina da Ressurreição e da Vida Eterna, quando a Divina Justiça irá reparar todas as coisas. Por isso ele beira a apostasia, ou seja, o abandono da fé. Contudo, jamais contesta as benesses da Divina Graça, e em vários momentos termina refazendo-se de seus queixumes. Por fim, e apesar de sua equivocada visão da condição humana, pois a Criação é por si mesma repleta de beleza e alegria, vemos em suas palavras um forte golpe, ainda que parcial, na vanglória atribuída a coisas que, se não legitimadas ou abençoadas por Deus, tornam-se realmente vãs.
    Ele começa o livro num rompante de exagero, generalizando: "Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade, e vento que passa." Ecl 1,2.14
    Desolado, ele descrê até dos momentos felizes: "Eu disse comigo mesmo: 'Vamos, tentemos a alegria e usufruamos das boas coisas.' Mas isso é também vaidade." Ecl 2,1
    Recorreu-se a seu trabalho, que até então lhe tinha dado felicidade: "Mas quando me pus a considerar todas as obras de minhas mãos e o trabalho ao qual me tinha dado para fazê-las, eis: tudo é vaidade e vento que passa; não há nada de proveitoso debaixo do sol." Ecl 2,11
    Valeu-se de sua sabedoria, mas, sem atinar para a inspiração do Espírito Santo, e sem a Doutrina da Vida Eterna, vê apenas a morte como destino de todos: "A minha sorte será a mesma que a do insensato. Então para que me serve toda minha sabedoria? Por isso disse eu comigo mesmo, que tudo isso é ainda vaidade." Ecl 2,15
    Como era de se esperar, amargurou-se: "E eu detestei a vida, porque, a meus olhos, tudo é mau no que se passa debaixo do sol, tudo é vaidade e vento que passa." Ecl 2,17
    Contraditório, esquecendo ter desprezado qualquer deleite, fala em 'dispor' quando imagina quem vai usufruir de seus bens após sua morte: "E quem sabe se ele será sábio ou insensato? Contudo, é ele que disporá de todo fruto de meus trabalhos, que debaixo do sol me custaram esforço e sabedoria. Também isso é vaidade." Ecl 2,19
    Segundo seu amargo entendimento, nem a noite traz sossego ao ser humano: "Todos seus dias são apenas dores, seu trabalhos apenas tristezas; mesmo durante a noite ele não goza de descanso. Isto é ainda vaidade." Ecl 2,23
    Deus não lhe parece olhar pelos pecadores, que, caindo em mais contradições, seriam meros instrumentos para a 'alegria' dos 'justos': "Àquele que Lhe é agradável, Deus dá Sabedoria, ciência e alegria; mas ao pecador, Ele dá a tarefa de recolher e acumular bens, que depois passará a quem Lhe agradar. Isto é ainda vaidade e vento que passa." Ecl 2,25
    E mesmo os 'escolhidos' sofrem grandes revezes, e de novo se contradiz que outro terá o 'gozo': "Isto é, um homem a quem Deus deu sorte, riquezas e honras; nada que possa desejar lhe falta, mas Deus não lhe concede o gozo, reservando-o a um estrangeiro. Isso é vaidade e dor." Ecl 6,12
    Por vezes, até os desígnios de Deus seriam absolutamente injustos: "Há outra vaidade que acontece na terra: há justos, aos quais acontecem males como se tivessem praticado as obras dos ímpios, e há ímpios aos quais tudo corre bem, como se tivessem praticado as obras dos justos. Pois também isso julgo uma grande vaidade." Eclo 8,14
    Nem o local da sepultura daqueles que fazem o bem dignificaria suas vidas, mas só alguns ímpios: "... vi ímpios receberem sepultura e gozarem de repouso, enquanto que aqueles que tinham feito o bem iam para longe do lugar santo e eram esquecidos na cidade. Isto é ainda vaidade." Eclo 8,10
    E até os animais teriam o mesmo destino que os seres humanos: "Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos brutos é o mesmo: um mesmo fim os espera. A morte de um é a morte do outro. A ambos foi dado o mesmo sopro, e a vantagem do homem sobre o bruto é nula, porque tudo é vaidade." Ecl 3,19
    Ele chega, enfim, ao total pessimismo em relação à vida: "E julguei os mortos, que estão mortos, mais felizes que os vivos que ainda estão em vida, e mais feliz que uns e outros o aborto que não chegou à existência, aquele que não viu o mal que se comete debaixo do sol." Ecl 4,2-3
    Contrariando-se mais uma vez ao considerar que existe bem-estar, volta a reafirmar a mesma e pessimista visão em relação ao trabalho do homem sem filhos: "Vi ainda outra vaidade debaixo do sol: eis um homem sozinho, sem alguém junto a si, nem filho, nem irmão; trabalha sem parar, e, não obstante, seus olhos não se fartam de riquezas. Para quem trabalho eu, privando-me de todo bem-estar? Eis uma vaidade e um trabalho ingrato." Ecl 4,7-8
    E assim em relação às riquezas: "Aquele que ama o dinheiro nunca se fartará, e aquele que ama a riqueza não tira dela proveito. Também isso é vaidade." Ecl 5,9
    Em relação à duração da vida, por causa dos dias difíceis: "Por mais numerosos que sejam os anos de vida, regozija-se o homem em todos eles, mas deve pensar nos obscuros dias que serão numerosos. Tudo o que acontece é vaidade." Ecl 11,8
    Em relação à juventude: "Exclui a tristeza de teu coração, poupa o sofrimento a teu corpo, porque a juventude e a adolescência são vaidade." Ecl 11,10
    Tudo estaria fadado ao esquecimento da morada dos mortos: "Tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem Sabedoria." Ecl 9,12
    Ao final, porém, conhecedor do Juízo Final, embora sem saber ao certo qual seria sua finalidade, ele recomenda obediência a Deus: "Em conclusão: tudo bem entendido, teme a Deus e observa Seus preceitos, é este o dever de todo homem. Deus fará prestar contas de tudo o que está oculto, todo ato, seja ele bom ou mau." Ecl 12,14
    Um salmista, que também não conhecia bem a revelação da Vida Eterna, olhou igualmente a vida com certo pessimismo: "Setenta anos é o total de nossa vida, os mais fortes chegam aos oitenta. A maior parte deles, sofrimento e vaidade, porque o tempo passa depressa e desaparecemos." Sl 89,10


SEMPRE UM PECADO

    O Eclesiástico, porém, mostrava-se bem menos pessimista. Via a vaidade, ou seja, as coisas vãs, apenas como uma ilusão dos insensatos: "O homem de coração mesquinho só pensa em vaidades; o imprudente e extraviado só se ocupa de loucuras." Eclo 16,23
    E também dos arrogantes: "Muitos foram enganados pelas próprias opiniões. Seu sentido reteve-os na vaidade." Eclo 3,26
    Dos que se negam a ajudar: "... não retenhas uma palavra que pode ser salutar, não escondas tua Sabedoria pela tua vaidade." Eclo 4,28
    Ou nas falsas profecias: "A adivinhação do erro, os mentirosos augúrios e os sonhos dos maus, tudo isso não passa de vaidade." Eclo 34,5
    Enfim, nos mortais: "Pois não se pode encontrar tudo nos homens, porque os homens não são imortais, e comprazem-se na vaidade e na malícia." Eclo 17,29
    Os Provérbios também ensinam que o culto às coisas vãs é um torpe erro: "O que cultiva seu solo, terá pão à vontade; o que corre atrás das vaidades fartar-se-á de miséria." Pr 28,19
    Assim também o salmista, quando pede a Deus: "Não permitais que meus olhos vejam a vaidade, fazei-me viver em vossos caminhos." Sl 148,37
    Ele aponta a completa insensatez: "Em sua arrogância, o ímpio diz: 'Não há castigo, Deus não existe.' É tudo e só o que ele pensa." Sl 9,25
    E faz um fiel retrato dos soberbos: "Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como os outros homens. Eles adornam-se com um colar de orgulho, e cobrem-se com um manto de arrogância. Da gordura que os incha sai a iniquidade, e transborda a temeridade. Zombam e falam com malícia, discursam, altivamente, em tom ameaçador. Com seus propósitos afrontam o Céu e suas línguas ferem toda a terra." Sl 72,5-9
    São Paulo diz que a vaidade foi o pecado de Satanás, por isso pede a São Timóteo que não se apresse em ordenar como bispos homens recém-convertidos: "... para não acontecer que, ofuscado pela vaidade, venha a cair na mesma condenação que o demônio." 1 Tm 3,6
    Afirma que foi também pela fraqueza da vaidade que o inimigo sujeitou a humanidade: "Pois a criação foi sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou, todavia com a esperança de ser ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus." Rm 8,20-21
    Mesmo após tantos esforços de evangelização, ele ainda receava encontrar entre os coríntios os efeitos da vaidade: "Temo que, quando for, não vos ache quais eu quisera, e que vós me acheis qual não quereríeis. Receio encontrar entre vós contendas, invejas, rixas, dissensões, calúnias, murmurações, arrogâncias e desordens." 2 Cor 12,20
    E resume nestes termos o que significa ser cristão: "Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, andemos também de acordo com o Espírito. Não sejamos ávidos da vanglória." Gl 5,24-26a
    São João Evangelista, falando categoricamente, aponta três más propensões, que bem sintetizam os exageros fisiológicos, materiais e espirituais : "Porque tudo que há no mundo - a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida - não procede do Pai, mas do mundo." 1 Jo 2,16
    O livro da Sabedoria pergunta-se pelas virtudes, e admitindo nossos pecados faz uma bela e poética comparação: "O que ganhamos com nosso orgulho, e o que nos trouxe a riqueza unida à arrogância? Como a ave que, atravessando o ar em seu voo, não deixa após si rastro de sua passagem, mas, ferindo o ar com suas penas, fende-o com a impetuosa força do bater de suas asas, atravessa-o e logo nem se nota indício de sua passagem, assim também nós, apenas nascidos, começamos a desaparecer sem nenhum sinal de virtude. É no mal que nossa vida se consumiu!" Sb 5,8.11.13
    Jesus, enfim, aponta na compulsão ao pecado, entre eles o da vaidade, uma pura e simples escravidão: "... todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo." Jo 8,34
    E como caminho oposto ao da vaidade, aos que realmente querem servir a Deus, Ele recomenda a perfeita santidade, o total abandono nas mãos da Divina Providência, como sugeriu ao jovem rico: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me!" Mt 19,21
    Pois o Verbo de Deus é a resposta para os anseios humanos quanto à ciência do bem e o mal, cobiçada por Eva. Queixavam-se os seguidores da tradição de São Paulo aos hebreus: "A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus, e tornastes-vos tais que precisais de leite em vez de sólido alimento! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma profunda doutrina, porque é ainda criança. Mas o sólido alimento é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,12-14

    "Mandai Vosso Espírito Santo!"