terça-feira, 1 de abril de 2025

A Vaidade


COMO SOBERBA

    A soberba foi o verdadeiro pecado original, o pecado de Eva e Adão, ao acharem que, comendo o fruto da árvore da ciência, poderiam saber por si mesmos o que é certo e errado, desprezando os Mandamentos de Deus. O Livro de Gênesis narra: "'Oh, não!', respondeu a Serpente, 'Vós não morrereis! Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão. E sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.'" Gn 3,4-5
    Em oposta atitude, e por isso tão louvável, foi a inspiração de Salomão, no Primeiro Livro de Reis, que pediu Sabedoria a Deus: "Dai a Vosso servo, pois, um sábio coração, capaz de julgar Vosso povo e discernir entre o bem e o mal." 1 Rs 3,9a
    E assim é tão preciso o conselho, no Livro de Tobias, que ele recebe seu pai Tobit: "Nunca permitas que o orgulho domine teu espírito ou tuas palavras, porque ele é a origem de todo mal." Tb 4,14
    Da vida nas primeiras metrópoles, a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo apontava um dos reflexos da soberba: a ânsia de poder. Mas sempre o maior dos males: "Porque a raiz de todos males é o amor ao dinheiro. Acossados pela cobiça, alguns desviaram-se da e enredaram-se em muitas aflições." 1 Tm 6,10
    Ela, contudo, tem várias outras formas de expressão, como veremos no culto à beleza. Ora, Deus falou no Livro do Profeta Jeremias: "Eis o que diz o Senhor: 'Não se envaideça o sábio do saber, nem o forte de sua força, e não se orgulhe o rico da riqueza!'" Jr 9,22
    Pois a verdadeira Sabedoria, como Salomão bem demonstrou, é fazer a vontade de Deus. A Carta de São Paulo aos Efésios prega: "Vivei como filhos da Luz. E o fruto da Luz chama-se: bondade, justiça, Verdade. Discerni o que agrada ao Senhor e não tenhais cumplicidade nas infrutíferas obras das trevas. Pelo contrário, abertamente condenai-as." Ef 5,8b-11
    E a Carta de São Paulo aos Filipenses lamenta pelas pessoas "... cujo destino é a perdição, cujo deus é o ventre, para quem a própria desonra é causa de envaidecimento, e só têm prazer no que é terreno." Fl 3,19
    Na Carta de São Paulo aos Romanos, vemos que ele tinham presente que o orgulho, por suas pretensões de dominação, atenta contra a boa convivência: "Vivei em boa harmonia uns com os outros. Não vos deixeis levar pelo gosto das grandezas, afeiçoai-vos às modestas coisas. Não sejais sábios aos vossos próprios olhos." Rm 12,16
    Conhecedor das verdadeiras bênçãos, ele pedia: "Em virtude da Graça que me foi dada, recomendo a todos e a cada um: não façam de si próprios uma opinião maior que convém, mas um razoavelmente modesto conceito, de acordo com o grau de fé que Deus lhes distribuiu." Rm 12,3
    Ora, o Livro de Eclesiástico sugere a humildade do silêncio como modo de despertar os corações: "Ouve em silêncio, e tua modéstia provocará a benevolência." Eclo 32,9
    E com absoluta clareza, via as trevas como destino do impenitente: "Para o mal do orgulhoso não existe remédio, pois uma planta de pecado está enraizada nele, e ele não compreende." Eclo 3,30
    Entre os religiosos, a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios aponta o que realmente deve prevalecer: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para esbofetear-me e livrar-me do perigo da vaidade. Três vezes roguei ao Senhor que o apartasse de mim, mas Ele disse-me: 'Basta-te Minha Graça, porque é na fraqueza que por inteiro se revela Minha força.' Portanto, prefiro gloriar-me de minhas fraquezas, para que em mim habite a força de Cristo." 2 Cor 12,7-10
    De fato, para começar, ser católico implica na negação de si mesmo, porque Jesus convidou ao caminho da Cruz desde que foi identificado como Cristo por São Pedro. Está no Evangelho segundo São Mateus: "Se alguém quiser vir Comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-Me." Mt 16,24b
    Ele deixou esse ensinamento à Santa Igreja, no Evangelho segundo São Lucas: "Assim vós, depois de terdes feito tudo que vos foi ordenado, também dizei: 'Somos inúteis servos. Apenas fizemos o que devíamos fazer.'" Lc 17,10
    Denunciou escribas e fariseus, em Suas últimas pregações em Jerusalém: "Gostam dos primeiros lugares nos banquetes e das primeiras cadeiras nas sinagogas. Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados 'rabi' pelos homens." Mt 23,6-7
    E no Livro do Apocalipse de São João, Nosso Senhor mandou um claro recado à igreja da cidade de Laodiceia, uma das sete da Ásia de então: "Pois dizes: 'Sou rico, faço bons negócios, de nada necessito', e não sabes que és infeliz, miserável, pobre, cego e nu. Aconselho-te que de Mim compres ouro provado ao fogo, para ficares rico; alvas roupas para vestir-te, a fim de que não apareça a vergonha de tua nudez; e um colírio para ungir os olhos, para que possas claramente ver." Ap 3,17-18
    Não por acaso, ao ser questionado sobre os atributos de Jesus, São João Batista disse algo basilar, no Evangelho segundo São João: "Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do Céu." Jo 3,27b
    Sem dúvida, eis o que Jesus dizia sobre bens materiais, mesmo os mais essenciais como alimentos e vestes: "Ora, Vosso Pai Celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e Sua justiça, e todas estas coisas sê-vos-ão dadas em acréscimo." Mt 6,32b-33
    Assim, a todos São Paulo recomenda a evangélica pobreza, a plena confiança na Divina Providência: "Tendo alimento e vestuário, contentemo-nos com isto. Aqueles que ambicionam tornar-se ricos caem nas armadilhas do Demônio e em muitos insensatos e nocivos desejos, que precipitam os homens no abismo da ruína e da perdição." 1 Tm 6,8-9
    E ao descrever o verdadeiro amor, a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios diz: "O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho. Nada faz de vergonhoso, não é interesseiro... " 1 Cor 13,4-5
    Ora, o Livro de Sabedoria já avisava aos que estão no poder: "Amai a justiça, vós que governais a Terra. Tende para com o Senhor perfeitos sentimentos, e procurai-O em simplicidade de coração..." Sb 1,1
    No mesmo sentido, o Eclesiástico recomendava: "Na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim encontrarás Graça diante do Senhor." Eclo 3,20a
    No Livro de Salmos, um canto atribuído ao próprio rei Davi também os inqueriu: "Ó poderosos, até quando tereis o coração endurecido, no amor das vaidades e na busca da mentira?" Sl 4,3
    Ciente do perigo desse pecado, ele pede a Deus: "Também preservai Vosso servo do orgulho. Não domine ele sobre mim, então serei íntegro e limpo de grave falta." Sl 18,14
    E São Paulo, através de São Timóteo, mandou um recado aos que se vangloriam do que possuem: "Exorta os ricos deste mundo a que não sejam orgulhosos nem ponham sua esperança em volúveis riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas coisas para delas fruirmos." 1 Tm 6,17
    O Livro do Profeta Isaías, por sua vez, predisse contra toda jactância: "A pretensão dos mortais será humilhada, o orgulho dos homens será abatido." Is 2,17
    E referindo-Se à soberba disfarçada em forma de caridade, Jesus aconselhou a todos: "Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto a Vosso Pai que está no Céu." Mt 6,1
    Ele determinou: "Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita." Mt 6,3
    Quanto às posses, também deixou um recado aos presunçosos, aludindo ao inimigo que se apossa das almas: "E propôs-lhe esta parábola: 'Havia um rico homem cujos campos muito produziam. E ele refletia consigo: 'Que farei? Porque não tenho onde recolher minha colheita.' Então disse ele: 'Farei o seguinte: derrubarei meus celeiros e construirei maiores. Neles recolherei toda minha colheita e meus bens. E direi à minha alma: ó minha alma, tens muitos bens em depósito para muitíssimos anos. Descansa, come, bebe e regala-te!' Deus, porém, disse-lhe: 'Insensato! Ainda nesta noite exigirão de ti tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão?'" Lc 12,16-20
    E lamentou por aqueles que se bastam pela opulência, pelo ventre, pela futilidade e pela lisonja, ao invés de contentar-se com a consolação de Deus: "Mas ai de vós, ricos, porque tendes vossa consolação! Ai de vós, que estais fartos, porque vireis a ter fome! Ai de vós, que agora rides, porque gemereis e chorareis! Ai de vós, quando vos louvarem os homens, porque assim faziam os pais deles aos falsos profetas!" Lc 6,24-26
    O Livro de Provérbios contundentemente também advertia sobre a ganância que passa por cima da moralidade: "Tesouros adquiridos pela mentira: passageira vaidade para aqueles que procuram a morte." Pr 21,16
    Arguto observador, a Carta de São Paulo aos Colossenses vê no apego a bens materiais a causa dessas ilusões: "Desencaminham-se estas pessoas em suas próprias visões, cheias do vão orgulho de seu materialista espírito..." Cl 2,18
    Assim como a idolatria ao ego, conforme a Carta de São Paulo aos Gálatas: "Quem pensa ser alguma coisa, não sendo nada, engana-se a si mesmo." Gl 6,3
    Ou a torpes prazeres, mas sempre o desprezo aos Mandamentos em nome de uma falsa sabedoria, fonte de todos males: "Trocaram a Verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Amém! Por isso, Deus entregou-os a vergonhosas paixões: suas mulheres mudaram as naturais relações por relações contra a natureza. Do mesmo modo, os homens, deixando o natural uso da mulher, também arderam em desejos uns para com os outros, cometendo homens com homens a torpeza, e recebendo em seus corpos a devida paga por seu desvario. Como não se preocupassem em adquirir o conhecimento de Deus, Deus entregou-os a depravados sentimentos, e daí seu indigno procedimento. São repletos de toda espécie de malícia, perversidade, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. São difamadores, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, soberbos, altivos, inventores de maldades, rebeldes aos pais. São insensatos, desleais, sem coração, sem misericórdia. Apesar de conhecerem o justo decreto de Deus que considera dignos de morte aqueles que fazem tais coisas, não somente as praticam, como também aplaudem aqueles que as cometem." Rm 1,25-32
    Em censura, ele fala do poder que o anúncio da Palavra de Deus lhe confere contra a arrogância: "Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo." 2 Cor 10,5
    E pregando a autêntica religiosidade, tal qual a submissão de Cristo, ele repreende os comerciantes da fé: "Quem ensina de outra forma e discorda das salutares palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, bem como da Doutrina conforme à piedade, é um obcecado pelo orgulho, um ignorante, doentio por ociosas questões e contendas de palavras. Daí se originam a inveja, a discórdia, os insultos, as injustas suspeitas, os vãos conflitos entre homens de corrompido coração e privados da Verdade, que na piedade só vêem uma fonte de lucro." 1 Tm 6,3-5
    Mesmo com o anúncio do Evangelho, porém, a Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo tem más notícias sobre os futuros tempos: "Os homens tornar-se-ão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas desdenharão de sua autoridade." 2 Tm 3,2-5
    Por isso, admoestava a mais completa humildade entre os cristãos: "Sujeitai-vos uns aos outros no temor de Cristo." Ef 5,21
    E quanto ao sincero culto a Deus, o salmista pergunta-se e, logo em seguida, responde-se: "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Ou de permanecer em Seu santo lugar? Aquele que tem limpas mãos e puro coração, cujo espírito não busca as vaidades nem perjura para enganar seu próximo." Sl 23,3-4

COMO EXIBICIONISMO 

    Mesmo àquela época, na qual a atual sociedade vê tanto machismo, a vaidade feminina já havia ultrapassado em muito a medida do bom senso. No Livro de Isaías, lê-se a longa lista: "E o Senhor disse: 'Já que são pretensiosas as filhas de Sião, e andam com o pescoço emproado, fazendo acenos com os olhos e caminham com passo afetado, fazendo retinir as argolas de seus tornozelos, o Senhor tornará sua cabeça calva e desnudará sua fronte. Naquele tempo, o Senhor tirá-lhe-á as jóias, as argolas, os colares, as lúnulas, os brincos, os braceletes e os véus, os diademas, as cadeias, os cintos, os frascos de perfumes e os amuletos, os anéis e os pingentes da fronte, os vestidos de festa, os mantos, as gazas e as bolsas, os espelhos, as musselinas, os turbantes e as mantilhas.'" Is 3,16-22
    São Paulo também se pronunciou sobre o assunto, ao falar à comunidade cristã: "Do mesmo modo, quero que as mulheres usem honesto traje, ataviando-se com modéstia e sobriedade. Seus enfeites consistam não em primorosos penteados, ouro, pérolas, vestidos de luxo, e sim em boas obras, como convém a mulheres que professam a piedade." 1 Tm 2,9-10
    Ainda a Primeira Carta de São Pedro: "Não seja vosso adorno o que externamente aparece: cabelos trançados, ornamentos de ouro, vestidos elegantes. Mas tende aquele interior e oculto ornato do coração, a incorruptível pureza de um suave e pacífico espírito, que é tão precioso aos olhos de Deus. Assim era que outrora se ornavam as santas mulheres que esperavam em Deus..." 1 Pd 3,3-5
    E os Provérbios assim discorrem: "Um anel de ouro no focinho de um porco: tal é a formosa mulher, mas indiscreta." Pr 11,22
    Seguem: "A graciosidade é enganosa, e a beleza é fugaz. Mas a mulher que teme o Senhor será louvada." Pr 31,30
    Certas roupas, então, são-lhes características: "Vi entre os imprudentes, entre os jovens, um incauto adolescente: passava ele na rua perto da morada de uma destas mulheres... Eis que uma mulher lhe sai ao encontro, ornada como uma prostituta e com falsidade no coração." Pr 7,7-8b.10
    Pois Jesus mesmo recriminou tais 'preocupações': "... o corpo não é mais que as vestes? E por que vos inquietais com as vestes? Considerai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Entretanto, Eu digo-vos que o próprio Salomão, no auge de sua glória, não se vestiu como um deles. Se Deus assim veste a erva dos campos, que hoje cresce e amanhã será lançada ao fogo, quanto mais a vós, homens de pouca fé? Não vos aflijais, nem digais: 'Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos?' São os pagãos que se preocupam com tudo isso." Mt 6,25.28-32a
    Disse mais: "... a carne de nada serve." Jo 6,63
    Também recriminou 'ornamentos' de certos 'religiosos': "Fazem todas suas ações para serem vistos pelos homens, por isso trazem largos filactérios e longas franjas em seus mantos." Mt 23,5
    Um grupo deles, em específico, no Evangelho segundo São Marcos: "Guardai-vos dos escribas que gostam de passear com compridas togas, de ser cumprimentados nas praças públicas..." Mc 12,38
    Porque, como Ele denuncia, vestimentas e aparências não escondem dos olhos de Deus os pecados e as abominações: "Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Sois semelhantes a sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão. Assim vós: por fora também pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade." Mt 23,27-28
    De toda forma, pediu que a tudo examinássemos em profundidade: "Não julgueis pela aparência, mas julgai conforme a justiça." Jo 7,24
    O Eclesiástico, enfim, diz uma estrondosa verdade: "Nunca te glories de tuas vestes, nem te engrandeças no dia em que fores homenageado, pois só as obras do Altíssimo são admiráveis, dignas de Glória, misteriosas e invisíveis." Eclo 11,4

COMO COISAS VÃS

    O Livro de Eclesiastes longamente tratou da vaidade usando seu original significado, que vem daquilo que é vão, fútil, mas tudo vê com pessimismo, quase se entregando à indiferença do niilismo. É que a seu tempo ainda não estava consolidada a Doutrina da Ressurreição e da Vida Eterna, quando a divina justiça reparará todas coisas, e assim ele beira a apostasia, ou seja, o abandono da fé. Jamais contesta, porém, as benesses da Divina Graça, e em vários momentos termina refazendo-se de seus queixumes. Por fim, e apesar de sua incipiente visão da condição humana, pois por si mesma a Criação é repleta de beleza e alegria, desfere um duro golpe, ainda que parcial, na vanglória atribuída a coisas que, se não legitimadas ou abençoadas por Deus, se tornam realmente vãs.
    Ele começa o Livro num rompante de exagero, generalizando: "Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Vi tudo que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade, e vento que passa." Ecl 1,2.14
    Desolado, ele descrê até dos felizes momentos: "Eu disse comigo mesmo: 'Vamos, tentemos a alegria e usufruamos das boas coisas.' Mas isso também é vaidade." Ecl 2,1
    Recorreu a seu trabalho, que até então lhe tinha dado muito gosto: "Mas quando me pus a considerar todas obras de minhas mãos, e o trabalho ao qual me tinha dado para fazê-las, eis: tudo é vaidade e vento que passa. Nada há de proveitoso debaixo do sol." Ecl 2,11
    Valeu-se de sua sabedoria, mas, sem atinar para a inspiração do Espírito Santo e para a Vida Eterna, só vê a morte como destino de todos: "Minha sorte será a mesma do insensato. Então para que me serve toda minha sabedoria? Por isso, disse comigo mesmo que tudo isso ainda é vaidade." Ecl 2,15
    Como era de esperar-se, amargurou-se: "E eu detestei a vida, porque, a meus olhos, tudo é mau no que se passa debaixo do sol, tudo é vaidade e vento que passa." Ecl 2,17
    Contraditório, pois esquece ter desprezado qualquer deleite, fala que alguém vai 'dispor', quando imagina quem vai usufruir de seus bens após sua morte: "E quem sabe se ele será sábio ou insensato? Contudo, é ele que disporá de todo fruto de meus trabalhos, que debaixo do sol me custaram esforço e sabedoria. Isso também é vaidade." Ecl 2,19
    Segundo seu amargo entendimento, nem a noite traz sossego ao ser humano: "Todos seus dias são apenas dores, seu trabalhos, apenas tristezas. Mesmo durante a noite, ele não goza de descanso. Isto ainda é vaidade." Ecl 2,23
    Deus não lhe parece olhar pelos pecadores, que, em outra contradição, seriam meros instrumentos para a 'alegria' dos 'justos': "Àquele que Lhe é agradável, Deus dá Sabedoria, ciência e alegria. Mas ao pecador dá a tarefa de recolher e acumular bens, que depois passará a quem Lhe agradar. Isto ainda é vaidade e vento que passa." Ecl 2,25
    E mesmo os 'escolhidos' sofrem grandes revezes, e de novo contradiz-se, que outro terá o 'gozo': "Isto é, um homem a quem Deus deu sorte, riquezas e honras. Nada que possa desejar lhe falta, mas Deus não lhe concede o gozo, reservando-o a um estrangeiro. Isso é vaidade e dor." Ecl 6,12
    Por vezes, até os desígnios de Deus seriam-lhe absolutamente injustos: "Há outra vaidade que acontece na Terra: há justos, aos quais acontecem males como se tivessem praticado as obras dos ímpios, e há ímpios aos quais tudo corre bem, como se tivessem praticado as obras dos justos. Pois isso também julgo uma grande vaidade." Ecl 8,14
    Nem o local da sepultura daqueles que fazem o bem dignificaria suas vidas, mas só alguns ímpios: "... vi ímpios receberem sepultura e gozarem de repouso, enquanto que aqueles que tinham feito o bem iam para longe do santo lugar e eram esquecidos na cidade. Isto ainda é vaidade." Ecl 8,10
    E até os animais teriam o mesmo destino que os seres humanos: "Porque o destino dos filhos dos homens e o destino dos brutos é o mesmo: um mesmo fim espera-os. A morte de um é a morte do outro. A ambos foi dado o mesmo sopro, e a vantagem do homem sobre o bruto é nula, porque tudo é vaidade." Ecl 3,19
    Ele chega, enfim, ao total pessimismo em relação à vida, embora falando em felicidade dos mortos e dos abortados: "E julguei os mortos, que estão mortos, mais felizes que os vivos que ainda estão em vida, e mais feliz que uns e outros o aborto que não chegou à existência, aquele que não viu o mal que se comete debaixo do sol." Ecl 4,2-3
    Contrariando-se ainda mais uma vez ao considerar que existe bem-estar, volta a reafirmar a mesma e pessimista visão em relação ao trabalho do homem sem filhos: "Ainda vi outra vaidade debaixo do sol: eis um homem sozinho, sem alguém junto a si, nem filho, nem irmão. Trabalha sem parar, e, não obstante, seus olhos não se fartam de riquezas. Para quem trabalho eu, privando-me de todo bem-estar? Eis uma vaidade e um ingrato trabalho." Ecl 4,7-8
    E assim em relação às riquezas: "Aquele que ama o dinheiro nunca se fartará, e aquele que ama a riqueza dela não tira proveito. Isso também é vaidade." Ecl 5,9
    Em relação à duração da vida, por causa dos difíceis dias: "Por mais numerosos que sejam os anos de vida, regozija-se o homem em todos eles, mas deve pensar nos obscuros dias que serão numerosos. Tudo que acontece é vaidade." Ecl 11,8
    Em relação à juventude: "Exclui a tristeza de teu coração, poupa o sofrimento a teu corpo, porque a juventude e a adolescência são vaidade." Ecl 11,10
    Tudo estaria fadado ao esquecimento da morada dos mortos: "Tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas tuas faculdades, pois na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem Sabedoria." Ecl 9,12
    Ao final, porém, conhecedor do Juízo Final, embora sem saber qual seria sua finalidade, ele recomenda obediência a Deus: "Em conclusão: tudo bem entendido, teme a Deus e observa Seus preceitos, é este o dever de todo homem. Deus fará prestar contas de tudo que está oculto, todo ato, seja ele bom ou mau." Ecl 12,14
    Um salmista, que também não conhecia a revelação da Vida Eterna, igualmente olhou a vida com pessimismo: "Setenta anos é o total de nossa vida, os mais fortes chegam aos oitenta. A maior parte deles é sofrimento e vaidade, porque passa depressa o tempo, e desaparecemos." Sl 89,10


SEMPRE UM PECADO

    O Eclesiástico, porém, mostrava-se bem menos pessimista. Via a vaidade, ou seja, as coisas vãs, apenas como uma ilusão dos insensatos: "O homem de mesquinho coração só pensa em vaidades; o imprudente e extraviado só se ocupa de loucuras." Eclo 16,23
    E também dos arrogantes: "Muitos foram enganados pelas próprias opiniões. Seu sentido reteve-os na vaidade." Eclo 3,26
    Dos que se negam a ajudar: "... não retenhas uma palavra que pode ser salutar, não escondas tua Sabedoria por tua vaidade." Eclo 4,28
    Ou via vaidade nas falsas profecias: "A adivinhação do erro, os mentirosos augúrios e os sonhos dos maus: tudo isso não passa de vaidade." Eclo 34,5
    Enfim, nos mortais: "Pois não se pode encontrar tudo nos homens, porque os homens não são imortais e se comprazem na vaidade e na malícia." Eclo 17,29
    Os Provérbios também ensinam que o culto às coisas vãs é um trágico erro: "O que cultiva seu solo, terá pão à vontade; o que corre atrás das vaidades, fartar-se-á de miséria." Pr 28,19
    Assim também o salmista, quando canta a Deus: "Não permitais que meus olhos vejam a vaidade, fazei-me viver em vossos caminhos." Sl 148,37
    Ele aponta a completa insensatez: "Em sua arrogância, o ímpio diz: 'Não há castigo, Deus não existe.' É tudo e só o que ele pensa." Sl 9,25
    E traça um fiel retrato dos soberbos: "Dos sofrimentos dos mortais não participam, não são atormentados como outros homens. Eles adornam-se com um colar de orgulho, e cobrem-se com um manto de arrogância. Da gordura que os incha, sai a iniquidade e transborda a temeridade. Zombam e falam com malícia, discursam, altivamente, em tom ameaçador. Com seus propósitos, afrontam o Céu e suas línguas ferem toda Tterra." Sl 72,5-9
    Ora, São Paulo revelou que a vaidade foi o pecado de Satanás, por isso pede a São Timóteo que não se apresse em ordenar como bispos homens recém-convertidos: "... para não acontecer que, ofuscado pela vaidade, venha a cair na mesma condenação que o Demônio." 1 Tm 3,6
    Também afirma que foi pela fraqueza da vaidade que o inimigo sujeitou a humanidade: "Pois a criação foi sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por vontade daquele que a sujeitou, todavia com a esperança de ser ela libertada do cativeiro da corrupção, para participar da gloriosa liberdade dos filhos de Deus." Rm 8,20-21
    Mesmo após tantos esforços de evangelização, ele ainda receava encontrar entre os cristãos de Corinto os efeitos da vaidade: "Temo que, quando for, não vos ache quais eu quisera, e que vós me acheis qual não quereríeis. Entre vós receio encontrar contendas, invejas, rixas, dissensões, calúnias, murmurações, arrogâncias e desordens." 2 Cor 12,20
    E nestes termos resume o que significa ser cristão: "Pois os que são de Jesus Cristo crucificaram a carne, com as paixões e concupiscências. Se vivemos pelo Espírito, também andemos de acordo com o Espírito. Não sejamos ávidos de vanglória." Gl 5,24-26a
    A Primeira Carta de São João, categoricamente falando, aponta as três más propensões, que são os exageros fisiológicos, materiais e espirituais : "Porque tudo que há no mundo, a saber, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, isso não procede do Pai, mas do mundo." 1 Jo 2,16
    Já a Sabedoria se pergunta pelas virtudes, e admitindo nossos pecados faz uma bela e poética comparação: "O que ganhamos com nosso orgulho, e o que nos trouxe a riqueza unida à arrogância? Como a ave que, atravessando o ar em seu voo, após si não deixa rastro de sua passagem, mas, ferindo o ar com suas penas, fende-o com a impetuosa força do bater de suas asas, atravessa-o e logo nem se nota indício de sua passagem, assim nós, apenas nascidos, também começamos a desaparecer sem nenhum sinal de virtude. É no mal que nossa vida se consumiu!" Sb 5,8.11.13
    Nosso Salvador, enfim, aponta na compulsão ao pecado uma pura e simples escravidão: "... todo homem que se entrega ao pecado é seu escravo." Jo 8,34
    E a Segunda Carta de São Pedro detalha: "... é porque o Senhor sabe livrar os piedosos das provações e reservar os ímpios para serem castigados no Dia do Juízo, principalmente aqueles que com impuros desejos correm atrás dos prazeres da carne e desprezam a autoridade. Audaciosos, arrogantes, não temem injuriosamente falar das Glórias, quando nem mesmo os anjos, superiores em força e poder, contra elas não pronunciem um injurioso julgamento aos olhos do Senhor. Mas estes, quais brutos destinados pela lei natural para a presa e para a perdição, injuriam o que ignoram, e assim da mesma forma perecerão: esse será o salário de sua iniquidade. Encontram suas delícias em entregar-se, em plena luz do dia, às suas libertinagens. Pervertidos e imundos, sentem prazer em enganar enquanto se banqueteiam convosco. Têm os olhos cheios de adultério e são insaciáveis no pecar. Por seus atrativos, seduzem as inconstantes almas, têm o coração acostumado à cobiça, são filhos da maldição. Estes são fontes sem água e nuvens agitadas por turbilhões, destinados à profundeza das trevas. Com palavras tão vãs quanto enganadoras, pelas carnais paixões e pela devassidão atraem aqueles que mal acabam de escapar dos homens que vivem no erro. Prometem-lhes a liberdade, quando eles mesmos são escravos da corrupção, pois o homem é feito escravo daquele que o venceu." 2 Pd 2,9-14.17-19
    A Carta de São Judas, da mesma forma, enquanto exalta o exemplo do nosso Anjo Guerreiro, denuncia, citando um livro apócrifo: "Assim estes homens, em seu louco desvario, igualmente contaminam a carne, desprezam a autoridade e maldizem as Glórias. Ora, quando o Arcanjo Miguel discutia com o Demônio e disputava-lhe o corpo de Moisés, contra ele não ousou fulminar uma sentença de execração, mas somente disse: 'Que o próprio Senhor te repreenda!' Henoc, que foi o oitavo patriarca depois de Adão, também profetizou a respeito deles, dizendo: 'Eis que veio o Senhor entre milhares de Seus santos para julgar a todos e confundir a todos ímpios, por causa das obras de impiedade que praticaram e por causa de todas injuriosas palavras que eles, ímpios, têm proferido contra Deus.' Estes são descontentes murmuradores, homens que vivem segundo suas paixões, cuja boca profere soberbas palavras e que por interesse admiram os demais. Mas vós, caríssimos, lembrai-vos das palavras que vos foram preditas pelos Apóstolos de Nosso Senhor Jesus Cristo, os quais vos diziam: 'No fim dos tempos virão impostores, que viverão segundo suas ímpias paixões. Homens que semeiam a discórdia, homens sensuais que não têm o Espírito.'" Jd 8-9.14-19
    E como caminho oposto ao da vaidade, Jesus recomenda, aos que realmente querem servir a Deus por vocação, a perfeita santidade, o total abandono nas mãos da Divina Providência, como disse ao rico jovem: "Se queres ser perfeito, vai, vende teus bens, dá-os aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois vem e segue-Me!" Mt 19,21
    Pois o Verbo de Deus é a resposta aos humanos anseios quanto à ciência do bem e o mal, que Eva e Adão cobiçavam. Os seguidores da tradição de São Paulo, na Carta aos Hebreus, queixaram-se: "A julgar pelo tempo, já devíeis ser mestres! Contudo, ainda necessitais que vos ensinem os primeiros rudimentos da Palavra de Deus, e tornaste-vos tais que precisais de leite em vez de sólido alimento! Ora, quem se alimenta de leite não é capaz de compreender uma profunda doutrina, porque é ainda criança. Mas o sólido alimento é para os adultos, para aqueles que a experiência já exercitou na distinção do bem e do mal." Hb 5,12-14
    De sua profunda espiritualidade, por fim, Santa Faustina escreveu: "O orgulho mantém a alma nas trevas." (Diário, 113)
    E Jesus foi bem claro numa revelação a Santa Brígida: "O corpo de qualquer cristão guiado pela humildade é Meu santuário. Aqueles guiados pelo orgulho não são Meu santuário, são o santuário do Demônio, que os conduz na direção do mundano desejo com seus próprios propósitos." (Livro II, Capítulo IX)

    "Mandai Vosso Espírito Santo!"