quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Nem Tudo está Escrito na Bíblia


    É claro que Deus não Se encerra nas Escrituras; Ele é infinitamente maior que elas. Pensar o contrário é imaginar que o Céu e a Vida Eterna poderiam ser descritos em palavras: "A Lei, por ser apenas a sombra dos bens futuros, não sua expressão real..." Hb 10,1
    O mesmo podemos dizer quanto à relação entre os Evangelhos e a Encarnação do Cristo: toda a vida de Jesus é um mistério. Como São João Evangelista mesmo admite, nem sequer Sua vida pública nos foi contada por completo: "Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever." Jo 21,25
    Mas isso não nos impede de reconhecer a grandeza e a plenitude das Revelações do Cristo. Ele mesmo declarou: "Toda autoridade Me foi dada no Céu e na Terra." Mt 28,18
    São João também nos dá essa certeza: "Todos nós recebemos da Sua plenitude Graça sobre Graça." Jo 1,16
    E mesmo confessando não ter registrado todos os milagres de Jesus, ele confirma Sua Encarnação, que, aliás, é a razão de ser de seu Evangelho: "Fez Jesus, na presença dos Seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a Vida em Seu Nome." Jo 20,30-31
    São Lucas, de fato, parece dizer que conseguiu registrar tudo: "No meu primeiro livro, ó Teófilo, tratei de tudo que Jesus fez e ensinou, desde o começo..." At 1,1
    Mas, logo em seguida, ele mesmo cita Jesus restringindo Suas Revelações, embora isso não tenha impedido, graças à inspiração pelo Divino Paráclito, o testemunho dos Apóstolos: "Não cabe a vós saber os tempos ou momentos que o Pai determinou com a Sua autoridade. Mas recebereis o poder do Espírito Santo que virá sobre vós, para serdes Minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra." At 1,7-8
    Com efeito, Jesus já havia advertido os Apóstolos das limitações humanas, mas garantiu que Seus ensinamentos iriam ser confirmados e arrematados por Seu Espírito: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas não as podeis suportar agora. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,12-13
    Aproximava-se, então, a Sua hora: "Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo; mas ele não tem nada em Mim." Jo 14,30
    O Santo Espírito, portanto, veio em Nome de Jesus e assim agiu para que nada do que Ele tinha ensinado aos Apóstolos fosse esquecido: "Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu Nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito." Jo 14,26
    No entanto, como disse São Lucas, sabemos todos os ensinamentos de Jesus aos Apóstolos, desde o início, foram transmitidos através da virtude do Divino Paráclito: "Em minha primeira narração, ó Teófilo, contei toda a seqüência das ações e dos ensinamentos de Jesus, desde o princípio até o dia em que, depois de ter dado pelo Espírito Santo suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado (ao Céu)." At 1,1-2
    Assim Jesus garantiu que o que eles divulgariam, a partir da instrução do Divino Espírito, também seria plenamente acolhido: "Se guardaram a Minha Palavra, hão de guardar também a vossa." Jo 15,20    Essa, aliás, é a garantia de que a Igreja é invencível: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu vos escolhi e vos constituí para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça." Jo 15,16a
    São Pedro também mencionou explicitamente nossa carência dos auxílios do Espírito Santo para o correto entendimento da Revelação, dos antigos Profetas, da Salvação e da Anunciação do Evangelho: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Eles investigaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava e que profetizava os sofrimentos do mesmo Cristo e as Glórias que os deviam seguir. Foi-lhes revelado que propunham não para si mesmos, senão para vós, estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo enviado do Céu." 1 Pd 1,12
    E como ele bem ensinou, ninguém está autorizado a fazer interpretações pessoais das Escrituras: "Antes de mais nada, saibam disto: nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação particular, pois a profecia jamais veio por vontade humana. Pelo contrário, impelidos pelo Espírito Santo, os homens falaram como porta-vozes de Deus." 2 Pd 1,20-21    Pois como afirmam os seguidores de São Paulo, devemos ter presente que ainda hoje Jesus nos fala: "Guardai-vos, pois, de recusar ouvir Aquele que fala. Porque, se não escaparam do castigo aqueles que d'Ele se desviaram, quando lhes falava na terra, muito menos escaparemos nós, se O repelirmos, quando nos fala desde o Céu." Hb 12,25
    Por fim, não podemos esquecer que Nosso Salvador deu total autoridade à Igreja, que é guiado por Seu Espírito, e à qual ninguém pode se negar a ouvir: "Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos." Mt 18,17


NO INÍCIO, O EVANGELHO FALADO

    Como avisou Jesus, tais auxílios e suplementação são exatamente o ministério do Espírito Santo, do qual a Palavra escrita é o principal objeto, mas não o único, e no início foi exercido exclusivamente através dos Apóstolos. São Paulo confirma: "Deus é que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." 2 Cor 3,6
    O próprio São Lucas, nos primeiros versículos, registrou que os ensinamentos de Jesus já haviam-se difundido à sua época, e que escreveu seu Evangelho para confirmá-los: "Também a mim pareceu bem, depois de haver diligentemente investigado tudo desde o princípio, escrevê-los para ti segundo a ordem, excelentíssimo Teófilo, para que conheças a solidez daqueles ensinamentos que tens recebido." Lc 1,3-4
    Naquelas primeiras décadas, a despeito da ausência do Evangelho escrito, aos coríntios São Paulo ressaltava a importância da Palavra falada, e sabia que seus discursos não eram artifícios humanos: "A minha palavra e a minha pregação longe estavam da eloquência persuasiva da sabedoria; eram, antes, uma demonstração do Espírito e do poder divino, para que vossa não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus." 1 Cor 2,4-5
    E foi assim que lhes transmitiu o Evangelho, ao qual, lembrando seu próprio exemplo, não esquece de pedir fidelidade: "Eu vos lembro, irmãos, o Evangelho que vos preguei, e que tendes acolhido, no qual estais firmes. Por ele sereis salvos, se o conservardes como vo-lo preguei. De outra forma, em vão teríeis abraçado a fé. Eu vos transmiti primeiramente o que eu mesmo havia recebido." 1 Cor 15,1-3a
    Também na Carta aos Efésios ele menciona claramente que o Evangelho foi ouvido, e não lido: "N'Ele também vós, depois de terdes ouvido a Palavra da Verdade, o Evangelho de vossa Salvação no qual tendes crido, fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor da nossa herança, enquanto esperamos a completa redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor da Sua Glória." Ef 1,13-14
    E ainda aos tessalonicenses: "No mais, irmãos, ouvistes de nós a maneira como deveis proceder para agradar a Deus - e já o fazeis. Rogamo-vos, pois, e vos exortamos no Senhor Jesus a que progridais sempre mais. Pois conheceis as instruções vos demos da parte do Senhor Jesus." 1 Ts 4,1-2
    De fato, bem antes de sua primeira carta apostólica, e baseando-se exclusivamente em pregações, o Evangelho anunciado por ele e seus colaboradores não eram sopros ao vento, mas convincentes demonstrações do Deus Vivo: "O nosso Evangelho vos foi pregado não somente por palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção." 1 Ts 1,5
    Por isso não podemos escusar-nos de reconhecer as manifestações de Deus só porque elas não estão explicitamente escritas na Bíblia. O próprio Espírito de Deus é imprevisível, como disse Jesus: "O vento sopra onde quer; ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,8
    E, mesmo escritas, a capacidade de expressão e as palavras humanas sempre serão limitadas para conceber e descrever a grandeza de Deus ou de Suas profecias. Jesus e o Espírito Santo são grandes provas desse fato: excederam e sempre excederão em muito nossas expectativas. São Paulo bem reconhece a fragilidade das Escrituras: "A nossa ciência é parcial, a nossa profecia é imperfeita. Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho, confusamente; mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte; mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido." 1 Cor 13,9-12
    Mas, deve estar claro, não estamos desobrigados de acolher o que aprouve a Deus revelar-nos: "O que está oculto pertence ao Senhor, Nosso Deus; o que foi revelado é para nós e para nossos filhos, para sempre, a fim de que ponhamos em prática todas as palavras desta Lei." Dt 29,29
    Pois como revelou São Paulo, nem tudo a respeito de Deus 'se pode conhecer': "Porquanto o que se pode conhecer de Deus eles o leem em si mesmos, pois Deus lho revelou com evidência." Rm 1,19
    E tudo que temos, ainda que modelos, são meros reflexos da absoluta grandeza de Deus: "O culto que estes celebram é, aliás, apenas a imagem, sombra das realidades celestiais, como foi revelado a Moisés quando estava para construir o tabernáculo: 'Olha', foi-lhe dito, 'faze todas as coisas conforme o modelo que te foi mostrado no monte (Ex 25,40).'" Hb 8,5
    Isso não quer dizer que Suas Revelações são insuficientes. Foi-nos sim revelado tudo de que precisamos para que O conhecêssemos, por vezes além dos limites de nossas capacidades. São Pedro ensina: "O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    Exaltando a manifestação do Cristo, São João Evangelista corrobora esse entendimento: "Sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em Seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a Vida Eterna." 1 Jo 5,20
    E os Apóstolos, como exortava São Paulo e é óbvio, também não transmitiriam apenas através dos Evangelhos escritos tudo o que devemos saber: "Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa." 2 Ts 2,15
    Por isso ele parabenizava os coríntios pela fidelidade: "Eu vos felicito, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais as minhas instruções, tais como eu vo-las transmiti." 1 Cor 11,2
    Mas, mesmo assim, momentos antes ele havia tomado outra precaução nesse mesmo sentido, e mais uma vez apontando para normas e exortações dadas pessoalmente: "Por isso, vos conjuro a que sejais meus imitadores. Para isso é que vos enviei Timóteo, meu filho muito amado e fiel no Senhor. Ele vos recordará as minhas normas de conduta, tais como as ensino por toda parte, em todas as igrejas. Mas brevemente irei ter convosco, se Deus quiser, e tomarei conhecimento não do que esses orgulhosos falam, mas do que são capazes. Que preferis? Que eu vá visitar-vos com a vara, ou com caridade e espírito de mansidão?" 1 Cor 4,16-17.19.21
    A própria Comunhão Eucarística ele só ensinava oralmente, até fazer seu único registro por escrito na Primeira Carta aos Coríntios, aos quais também já havia instruído: "Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: 'Isto é o Meu Corpo, que é entregue por vós; fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: 'Este cálice é a Nova Aliança no Meu Sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim.' Assim, todas as vezes que comeis desse Pão e bebeis desse Cálice lembrais a morte do Senhor, até que Ele volte." 1 Cor 11,23-26
    E mesmo depois dessas explicações, ele ainda vai dizer: "As demais coisas eu determinarei quando for ter convosco." 1 Cor 11,34
    Contudo, sempre foi vedada 'nova interpretação' ou mesmo 'nova revelação' a respeito da Doutrina, seja por palavra ou por carta. Ele vai asseverar: "... não vos deixeis facilmente perturbar o espírito e alarmar-vos, nem por alguma pretensa revelação nem por palavra ou carta tidas como procedentes de nós..." 2 Ts 2,2


A SAGRADA TRADIÇÃO

    Porque ainda que os Evangelhos não estivessem escritos, já havia a Tradição que viria ser chamada de Sagrada. Ela representa exatamente o entendimento que Jesus e o Divino Espírito nos deixaram das Escrituras. E é o respeito a essa Tradição que São Paulo nos cobra aqui: "Intimamo-vos, irmãos, em Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que eviteis a convivência de todo irmão que leve vida ociosa e contrária à Tradição que de nós tendes recebido." 2 Ts 3,6
    De fato, em sua primeira carta a São Timóteo, o Apóstolo de Tarso se refere à Sagrada Tradição como o 'Depósito': "Timóteo, guarda o Depósito. Evita o palavreado irreverente e as objeções dessa falsa ciência, pois alguns professaram-na e desviaram-se da Fé. A Graça esteja convosco." 1 Tm 6,20
    E, na segunda carta, chama essa Tradição de forma ainda mais bela, de 'Precioso Depósito', sem deixar de mencionar o Autor dessa virtude: "Toma por modelo os ensinamentos salutares que recebeste de mim sobre a Fé e o amor a Jesus Cristo. Guarda o Precioso Depósito, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós." 2 Tm 1,13
    Não por acaso, escrevendo aos colossenses ele rebate as tradições meramente humanas, que são errôneas interpretações das Escrituras: "Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de se apoiar em Cristo." Cl 2,8
    E usando de toda sua autoridade, ele diz o mesmo a São Timóteo, alertando-o quanto ao grupo que realmente transmitia a Sã Doutrina, ou seja, o colégio dos Apóstolos: "Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes de quem aprendeste." 2 Tm 3,14
    Mas as distorções dos Livros Sagrados não eram nenhuma novidade. Citando o Profeta Isaías, Jesus já as denunciava ao Seu tempo: "Jesus disse-lhes: 'Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu: "Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão, pois, me cultuam, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos (Is 29,13)." Deixando o Mandamento de Deus, vos apegais à tradição dos homens.'" Mc 7,6-8
    Ora, esses desvios são obras do pai da mentira, ao qual muitos rebeldes e inadvertidos acabam se filiando, como afirmou Nosso Salvador: "Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,44
    A Sagrada Tradição, porém, foi transmitida desde os Apóstolos aos primeiros Bispos, Presbíteros e Diáconos e assim segue até hoje. São Paulo sustenta: "O que de mim ouviste em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros." 2 Tm 2,2
    Como não escreveu Evangelho, ele se vale de suas cartas para transmitir a Revelação. Mas segue creditando toda essa distinta formação doutrinária dos Apóstolos exclusivamente ao Espírito Santo: "Foi por revelação que me foi manifestado o mistério que acabo de esboçar. Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do mistério cristão, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus Santos Apóstolos e Profetas." Ef 3,3-5
    Por isso pedia que suas cartas fossem partilhadas: "Peço-vos encarecidamente, no Senhor, que esta carta seja lida a todos os irmãos." 1 Ts 5,27
    Com efeito, por esses tempos havia apenas os rascunhos do Evangelho de São Mateus, e em aramaico, mas nada escrito em grego, língua universal de então. Eis porque São Paulo só se referia ao Evangelho falado. Deixava claro, no entanto, que tratava de um único e inalterável Evangelho: "De fato, não há dois (evangelhos): há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do Céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema." Gl 1,8
    Ele, aliás, registrou o esforço que fazia para que o Evangelho não fosse distorcido. Foi o que fez quando subiu a Jerusalém para confirmar a Doutrina com São Pedro, São João Evangelista e São Tiago Menor: "E subi em conseqüência de uma revelação. Expus-lhes o Evangelho que prego entre os pagãos, e isso particularmente aos que eram de maior consideração, a fim de não correr ou de não ter corrido em vão" Gl 2,2
    E de tudo fazia para não a fragmentar Doutrina: "... fomos, por esta vez, condescendentes, para que o Evangelho permanecesse em sua integridade." Gl 2,5
    Na carta aos colossenses, mais uma vez São Paulo refere-se a um Evangelho que foi ouvido, não a um lido: "Para isto, é necessário que permaneçais fundados e firmes na Fé, inabaláveis na esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado a toda criatura que há debaixo do Céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro." Cl 1,23
    E mesmo com toda limitação que há nas palavras e nas expressões humanas, o próprio Jesus sempre pautava seus debates pela correta interpretação das Escrituras, como questionou um doutor da Lei: "Que está escrito na Lei? Como é que lês?" Lc 10,26
    Ora, Ele o fez com frequência:
    "Jesus respondeu-lhes: 'Não lestes o que fez Davi num dia em que teve fome, ele e seus companheiros, como entrou na Casa de Deus e comeu os pães da proposição?'" Mt 12,3-4a
    "Não lestes na Lei que, nos dias de sábado, os sacerdotes transgridem no Templo o descanso do sábado e não se tornam culpados?" Mt 12,5
    "Se compreendêsseis o sentido destas palavras: 'Quero a misericórdia e não o sacrifício...' não condenaríeis os inocentes." Mt 12,7
    "Respondeu-lhes Jesus: 'Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher; e os dois formarão uma só carne?'" Mt 19,4-5
    "Disseram-Lhe eles: 'Ouves o que dizem eles?' 'Perfeitamente', respondeu-lhes Jesus. 'Nunca lestes estas palavras: Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes o vosso louvor (Sl 8,3)?'" Mt 21,16
    "Jesus acrescentou: 'Nunca lestes nas Escrituras: A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular; isto é obra do Senhor, e é admirável aos nossos olhos (Sl 117,22)?'" Mt 21,42
    "Mas quanto à ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: 'Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó (Ex 3, 6)?'" Mc 12,26
    Sem embargo, Ele cobrava o mais puro entendimento dos Livros Sagrados. Mas não só deles: cobrava também a percepção das frequentes manifestações de Deus: "Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus." Mt 22,29
    E valorizava abertamente a inspiração e a Revelação de origem divina, como atestou a recebida por São Pedro: "Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus." Mt 16,17
    Quanto ao absoluto poder de Deus e nossas limitações para o pleno conhecimento de Seus mistérios, o livro da Sabedoria já nos dava uma bela explanação: "Que homem, pois, pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas as nossas concepções; porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados. Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa nos Céus?" Sb 9,13-16
    E mais uma vez o autor sagrado termina reconhecendo o infinito e ativo poder do Espírito de Deus, fonte de Vida da Igreja: "E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos Céus vós não lhe enviais Vosso Espírito Santo? Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra; os homens aprenderam as coisas que vos agradam e pela Sabedoria foram salvos." Sb 9,17-18
    Sem dúvida, desde o Pentecostes, é Ele que vem conduzindo a Igreja nas decisões sobre a Doutrina de Cristo, e assim sobre a correta interpretação das Escrituras, que é sempre renovada ao sucessor de São Pedro. Assim tem sido desde a decisão tomada no Concílio de Jerusalém: "Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do seguinte indispensável..." At 15,28
    E assim será até o fim dos tempos, como garantiu Jesus: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco." Jo 14,16
    Essa é a Luz que iluminava o entendimento de São Pedro à frente da Igreja, tal e qual Jesus prometeu: "Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,19
    O Príncipe dos Apóstolos, aliás, confirmou essa condição das verdadeiras testemunhas: "Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    Afirmativamente, essa é Palavra de Jesus: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    Não por acaso, antes de ser apedrejado, Santo Estevão reclama dos principais dos judeus, que não compreenderam as Escrituras nem acolheram o Cristo, justamente por resistirem ao Espírito de Deus: "Homens de dura cerviz, e de corações e ouvidos incircuncisos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo." At 7,51

    "Em Comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"