sábado, 1 de setembro de 2018

Nem Tudo está Escrito na Bíblia


    É evidente que Deus não Se encerra nas EscriturasEle é infinitamente maior que elas. Pensar o contrário é imaginar que o Céu e a Vida Eterna poderiam ser descritos em palavras, quando simples perguntas demonstram que, para muitas coisas, a experiência humana sequer dispõe de referências. As próprias Escrituras expressam essa limitação. Sobre o Antigo Testamento, por exemplo, lemos na Cartas aos Hebreus: "A Lei, por ser apenas a sombra dos futuros bens, não sua real expressão..." Hb 10,1
    O mesmo podemos dizer quanto à relação entre a Encarnação do Cristo e os Evangelhos: toda Sua vida é um mistério. São João Evangelista afirma que nem Sua vida pública foi registrada por completo: "Jesus fez ainda muitas outras coisas. Se fossem escritas uma por uma, penso que nem o mundo inteiro poderia conter os livros que se deveriam escrever." Jo 21,25
    Mas isso não nos impede de reconhecer a plenitude da Revelação do Cristo, uma vez que Ele mesmo declarou: "Toda autoridade foi-Me dada no Céu e na Terra." Mt 28,18
    São Paulo atesta: "Pois n'Ele corporalmente habita toda plenitude da divindade." Cl 2,9
    São João Evangelista também expressa essa certeza: "Todos nós recebemos de Sua plenitude Graça sobre Graça." Jo 1,16
    E ainda que não tendo registrado nem mesmo todos milagres de Jesus, confirma Sua Encarnação, que é a razão de ser de seu Evangelho: "Fez Jesus, na presença dos Seus discípulos, ainda muitos outros milagres que não estão escritos neste livro. Mas estes foram escritos, para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a Vida em Seu Nome." Jo 20,30-31
    Contrariando São João Evangelista, São Lucas diz no livro dos Atos dos Apóstolos que teria registrado tudo: "Em meu primeiro livro, ó Teófilo, tratei de tudo que Jesus fez e ensinou, desde o começo..." At 1,1
    Logo em seguida, no entanto, cita o próprio Jesus restringindo Suas Revelações, ainda que isso não tenha impedido, graças à inspiração pelo Divino Paráclito, o testemunho dos Apóstolos: "Não cabe a vós saber os tempos ou momentos que o Pai determinou com Sua autoridade. Mas recebereis o poder do Espírito Santo que virá sobre vós, para serdes Minhas testemunhas em Jerusalém, por toda Judeia e Samaria, e até os confins da terra." At 1,7-8
    Ele já havia advertido os Apóstolos das limitações humanas perante Sua própria Revelação. Que dirá de Sua Onisciência! Contudo, garantiu que Seus ensinamentos seriam confirmados e arrematados por Seu Espírito: "Muitas coisas ainda tenho a dizer-vos, mas agora não podeis suportá-las. Quando vier o Paráclito, o Espírito da Verdade, ensinar-vos-á toda a Verdade, porque não falará por Si mesmo, mas dirá o que ouvir, e anunciar-vos-á as coisas que virão." Jo 16,12-13
    Ademais, rapidamente aproximava-se Sua hora: "Já não falarei muito convosco, porque vem o príncipe deste mundo. Mas ele não tem nada em Mim." Jo 14,30
    Ele apontava tal dificuldade desde o início de Sua Missão, quando disse a Nicodemos, um sábio fariseu de então: "Disse Jesus: 'És doutor em Israel e ignoras estas coisas!... Se vos tenho falado das coisas terrenas e não Me credes, como crereis se vos falar das celestiais?'" Jo 3,10.12
    Mestre dos mestres, Ele acusava o pecado sem arrependimento como insuplantável obstáculo à elementar percepção do Divino: "Como podeis crer, vós que recebeis a glória uns dos outros, e não buscais a Glória que é só de Deus?" Jo 5,44
    O Santo Espírito, portanto, veio em Nome de Jesus e assim agiu para que nada do que Ele tinha ensinado aos Apóstolos fosse esquecido: "Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em Meu Nome, ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo que vos tenho dito." Jo 14,26
    Na verdade, como anotou São Lucas, sabemos que todos ensinamentos de Jesus aos Apóstolos, desde o início, foram transmitidos através do Divino Paráclito: "Em minha primeira narração, ó Teófilo, contei toda seqüência das ações e dos ensinamentos de Jesus, desde o princípio até o dia em que, depois de ter dado pelo Espírito Santo suas instruções aos Apóstolos que escolhera, foi arrebatado ao Céu." At 1,1-2
    Jesus assim garantia que o que eles divulgassem, a partir da instrução do Divino Espírito, também seria plenamente acolhido: "Se guardaram Minha Palavra, hão de guardar também a vossa. Quando vier o Paráclito, que vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade, que procede do Pai, Ele dará testemunho de Mim. Vós também dareis testemunho, porque Comigo estais desde o princípio." Jo 15,20.26-27
    E essa é a garantia de que a Igreja é invencível, cuja indelével obra leva à eternidade: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu escolhi-vos e constituí-vos para que vades e produzais fruto, e o vosso fruto permaneça." Jo 15,16a
    Por isso, São Pedro menciona explicitamente nossa carência dos auxílios do Espírito Santo para o correto entendimento da Revelação, isto é, da Lei, dos antigos Profetas e do Evangelho: "Esta Salvação tem sido o objeto das investigações e das meditações dos Profetas que proferiram oráculos sobre a Graça que vos era destinada. Eles investigaram a época e as circunstâncias indicadas pelo Espírito de Cristo, que neles estava e que profetizava os sofrimentos do mesmo Cristo e as Glórias que os deviam seguir. Foi-lhes revelado que não propunham para si mesmos, senão para vós, estas revelações que agora vos têm sido anunciadas por aqueles que vos pregaram o Evangelho da parte do Espírito Santo, enviado do Céu." 1 Pd 1,10-12
    E como bem ensinou o Príncipe dos Apóstolos, ninguém está autorizado a fazer interpretações pessoais das Escrituras: "Antes de mais nada, saibam disto: nenhuma profecia da Escritura provém de interpretação particular, pois a profecia jamais veio por vontade humana. Pelo contrário, impelidos pelo Espírito Santo, os homens falaram como porta-vozes de Deus." 2 Pd 1,20-21
    São João Evangelista não tinha dúvida da legítima inspiração que nos guia: "Quem observa Seus Mandamentos permanece em Deus e Deus nele. É nisto que reconhecemos que Ele permanece em nós: pelo Espírito que nos deu." 1 Jo 3,24
    E diz aos fiéis do Santo Paráclito e de Sua Unção: "Vós, porém, tendes a Unção do Santo e sabeis todas as coisas. E não tendes necessidade de que alguém vos ensine, mas, como Sua unção vos ensina todas as coisas, assim é ela verdadeira e não mentira. Permanecei n'Ele, como ela vos ensinou." 1 Jo 2,20.27b
    Pois como afirmam os seguidores tradição de São Paulo, devemos ter presente que ainda hoje Jesus nos fala: "Guardai-vos, pois, de recusar-vos a ouvir Aquele que fala. Porque, se não escaparam do castigo aqueles que d'Ele se desviaram, quando lhes falava na terra, muito menos escaparemos nós, se O repelirmos, quando nos fala desde o Céu." Hb 12,25
    Ora, Nosso Salvador deu total autoridade à Igreja, que é guiada por Seu Espírito, à qual ninguém pode se negar a ouvir: "Se nem mesmo à Igreja ele der ouvidos, seja tratado como se fosse um pagão ou um cobrador de impostos." Mt 18,17
    Referindo-Se à dioceses, Ele vai repetir várias vezes no livro do Apocalipse: "Quem tiver ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." Ap 2,29
    E sentenciou: "Quem vos ouve, a Mim ouve. E quem vos rejeita, a Mim rejeita. E quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou." Lc 10,16


NO INÍCIO, O EVANGELHO FALADO

    Como Jesus avisou, auxílios e suplementação são exatamente o Ministério do Espírito Santo, do qual a Palavra escrita é o principal objeto, mas não o único, e no início foi exclusivamente exercido através da palavra dos Apóstolos. São Paulo confirma: "É Deus que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica." 2 Cor 3,6
    São Lucas diz dos cristãos nos primeiríssimos anos da Igreja: "Perseveravam eles na Doutrina dos Apóstolos, na reunião em comum, na fração do Pão e nas orações." At 2,42
    Quando o serviço aos fiéis crescia, e foi necessário instituir Diáconos, os Doze ainda reclamavam: "Nós atenderemos sem cessar à oração e ao ministério da Palavra." At 6,4
    E São Paulo afirma o grande diferencial que foi o Pentecostes: "Ora, se o ministério da morte, gravado com letras em pedras, revestiu-se de tal glória que os filhos de Israel não podiam fitar os olhos no rosto de Moisés, por causa do resplendor de sua face (embora transitório), quanto mais glorioso não será o Ministério do Espírito!" 2 Cor 3,7-8
    Nos primeiros versículos de seu Evangelho, São Lucas registrou que os ensinamentos de Jesus já haviam sido amplamente difundidos à sua época, e que o escreveu para atestá-los: "A mim também bem pareceu, depois de haver diligentemente investigado tudo desde o princípio, escrevê-los para ti segundo a ordem, excelentíssimo Teófilo, para que conheças a solidez daqueles ensinamentos que tens recebido." Lc 1,3-4
    E nas primeiras décadas do cristianismo, de fato, aos tessalonicenses, a quem primeiro escreveu, São Paulo menciona claramente que o Evangelho foi ouvido, e não lido: "No mais, irmãos, de nós ouvistes a maneira como deveis proceder para agradar a Deus - e já o fazeis. Rogamo-vos, pois, e exortamo-vos no Senhor Jesus a que progridais sempre mais. Pois conheceis as instruções que vos demos da parte do Senhor Jesus." 1 Ts 4,1-2
    Na inexistência do Evangelho escrito em grego, então havia apenas o de Mateus, e em aramaico, também aos coríntios ele ressalta a importância da Palavra falada, pois sabia que seus discursos não eram artifícios humanos: "Minha palavra e minha pregação longe estavam da persuasiva eloquência da Sabedoria. Eram, antes, uma demonstração do Espírito e do divino poder, para que vossa não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus." 1 Cor 2,4-5
    Aliás, ele não falou em leitura espiritual quando explicou como se chega à fé: "Logo, a fé provém da pregação, e a pregação exerce-se em razão da Palavra de Cristo." Rm 10,17
    Porque foi tão somente por pregações que ele lhes transmitiu o Evangelho, ao qual, lembrando seu próprio exemplo, não esquece de pedir fidelidade: "Eu lembro-vos, irmãos, o Evangelho que vos preguei, e que tendes acolhido, no qual estais firmes. Por ele sereis salvos se o conservardes como vo-lo preguei. De outra forma, em vão teríeis abraçado a fé. Eu transmiti-vos, primeiramente, o que eu mesmo havia recebido." 1 Cor 15,1-3a
    Por isso, dizia-lhes da imprescindível participação do Santo Paráclito: "Vós mesmos sois nossa carta, escrita em nossos corações, conhecida e lida por todos homens. Não há dúvida de que vós sois uma carta de Cristo, redigida por nosso ministério e escrita, não com tinta, mas com o Espírito de Deus Vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, em vossos corações." 2 Cor 3,2-3
    Ora, na carta aos filipenses, a quem escrevera por volta do ano de 56, ele menciona claramente que o Evangelho foi ouvido, e não lido: "O que aprendestes, recebestes, ouvistes e observastes em mim, isto praticai, e o Deus da Paz estará convosco." Fl 4,9
    Ainda assim ao tempo da Carta aos Colossenses, estimadamente da década de 60: "Para isto, é necessário que permaneçais fundados e firmes na fé, inabaláveis na esperança do Evangelho que ouvistes, que foi pregado a toda criatura que há debaixo do Céu, e do qual eu, Paulo, fui constituído ministro." Cl 1,23
    E o mesmo se deu na Carta aos Efésios, da mesma época: "N'Ele (Cristo) também vós, depois de terdes ouvido a Palavra da Verdade, o Evangelho de vossa Salvação no qual tendes crido, fostes selados com o Espírito Santo que fora prometido, que é o penhor da nossa herança, enquanto esperamos a completa redenção daqueles que Deus adquiriu para o louvor da Sua Glória." Ef 1,13-14
    Com efeito, bem antes de sua primeira carta apostólica, e baseando-se exclusivamente em pregações, o Evangelho anunciado por ele e seus colaboradores não eram sopros ao vento, mas autênticas obras do Deus Vivo: "Nosso Evangelho foi-vos pregado não somente por palavra, mas também com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção." 1 Ts 1,5
    Ou seja: desde sempre esteve vedada qualquer 'nova interpretação' ou mesmo 'nova revelação' a respeito da Sã Doutrina, inclusive por palavra ou por carta. O último Apóstolo vai asseverar aos tessalonicenses: "... não vos deixeis facilmente perturbar o espírito e alarmar, nem por alguma pretensa revelação nem por palavra ou carta tidas como procedentes de nós..." 2 Ts 2,2
    Resta claro, portanto, que também os demais Apóstolos, pois em mais de uma década antecederam São Paulo, não transmitiram através dos Evangelhos escritos o que devemos saber. E se o fizeram, foi residualmente, usando a versão em aramaico de São Mateus. É o que aos fiéis diz São João Evangelista, o último dos Doze a divulgar seu Evangelho e a falecer, falando em ensinamentos ouvidos, e não lidos: "Que permaneça em vós o que tendes ouvido desde o princípio. Se permanecer em vós o que ouvistes desde o princípio, permanecereis também vós no Filho e no Pai." 1 Jo 2,24
    Ele diz ainda em sua segunda carta, por volta de seus 100 anos de idade: "Apesar de ter mais coisas que vos escrever, não o quis fazer com papel e tinta, mas espero estar entre vós e conversar de viva voz, para que vossa alegria seja perfeita." 2 Jo 1,12
    E São Paulo, enfim, vai falar da Igreja como de 'nós': "Assim, pois, irmãos, ficai firmes e conservai os ensinamentos que de nós aprendestes, seja por palavras, seja por carta nossa." 2 Ts 2,15
    Numa época em que poucos sabiam ler, eles não podiam depender de registros escritos, pois as ordens de Jesus, além de garantir-lhes constante auxílio, eram expressas: "Ensinai-as a observar tudo que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo." Mt 28,20
    Eis que São Paulo parabenizava os coríntios exatamente pela fidelidade: "Eu felicito-vos porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais minhas instruções tais como eu vo-las transmiti." 1 Cor 11,2
    Contudo, momentos antes ele havia tomado outra precaução nesse mesmo sentido, e mais uma vez apontando para normas e exortações dadas pessoalmente. E foi rígido: "Por isso, conjuro-vos a que sejais meus imitadores. Para isso é que vos enviei Timóteo, meu amado e fiel filho no Senhor. Ele recordar-vos-á minhas normas de conduta, tais como as ensino por toda parte, em todas igrejas. Mas brevemente irei ter convosco, se Deus quiser, e tomarei conhecimento não do que esses orgulhosos falam, mas do que são capazes. Que preferis? Que eu vá visitar-vos com a vara, ou com caridade e espírito de mansidão?" 1 Cor 4,16-17.19.21
    A própria Comunhão Eucarística, ele só oralmente ensinava, até fazer seu único registro por escrito na Primeira Carta aos Coríntios, aos quais também já havia instruído: "Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado graças, partiu-O e disse: 'Isto é Meu Corpo, que é entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o Cálice, dizendo: 'Este Cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue. Todas as vezes que O beberdes, fazei-o em memória de Mim.' Assim, todas as vezes que comeis desse Pão e bebeis desse Cálice lembrais a morte do Senhor, até que Ele volte." 1 Cor 11,23-26
    E mesmo depois dessas explicações, ele ainda vai dizer: "As demais coisas, eu determinarei quando for ter convosco." 1 Cor 11,34
    Diz com a mesma intenção aos tessalonicenses: "Noite e dia, com intenso, extremo fervor, oramos para que nos seja dado ver novamente vossa face, e completar o que ainda falta à vossa fé." 1 Ts 3,10
    Portanto, não podemos escusar-nos de reconhecer as manifestações de Deus só porque não estão explicitamente escritas na Bíblia. O próprio Espírito de Deus é imprevisível, como disse Jesus: "O vento sopra onde quer. Ouves-lhe o ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece com aquele que nasceu do Espírito." Jo 3,8
    E mesmo escritas, a capacidade de expressão e as palavras humanas sempre serão limitadas para descrever a grandeza de Deus ou Suas profecias. Jesus e o Espírito Santo são grandes provas desse fato: Eles excederam no Novo Testamento e sempre excederão em muito nossas expectativas. São Paulo bem reconhece a fragilidade das Escrituras: "Nossa ciência é parcial, nossa profecia é imperfeita. Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança. Hoje vemos como por um espelho, confusamente, mas então veremos face a face. Hoje conheço em parte, mas então conhecerei totalmente, como eu sou conhecido." 1 Cor 13,9-12
    Não obstante, não estamos desobrigados de acolher o que aprouve a Deus revelar-nos. Moisés já dizia: "O que está oculto pertence ao Senhor, Nosso Deus. O que foi revelado é para nós e para nossos filhos, para sempre, a fim de que ponhamos em prática todas palavras desta Lei." Dt 29,29
    Pois como afirmou São Paulo aos romanos, nem tudo a respeito de Deus 'se pode conhecer': "Porquanto o que se pode conhecer de Deus, eles leem-no em si mesmos, pois com evidência Deus revelou-lhes." Rm 1,19
    E assim tudo que temos, ainda que modelos, são meros reflexos de Sua absoluta grandeza. Sombra, como diz a Carta aos Hebreus, inclusive sobre os ritos judaicos: "O culto que estes celebram é, aliás, apenas a imagem, sombra das realidades celestiais, como foi revelado a Moisés quando estava para construir o tabernáculo: 'Olha', foi-lhe dito, 'faze todas as coisas conforme o modelo que te foi mostrado no monte (Ex 25,40).'" Hb 8,5
    Isso não quer dizer, porém, que Suas Revelações sejam insuficientes. Foi-nos revelado tudo de que realmente precisamos para conhecê-Lo, como ensina São Pedro: "O divino poder deu-nos tudo que contribui para a Vida e a piedade, fazendo-nos conhecer Aquele que nos chamou por Sua Glória e Sua virtude." 2 Pd 1,3
    Exaltando o Advento do Cristo, São João Evangelista corrobora esse entendimento: "Sabemos que o Filho de Deus veio e deu-nos entendimento para conhecermos o Verdadeiro. E estamos no Verdadeiro, nós que estamos em Seu Filho Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a Vida Eterna." 1 Jo 5,20


A SAGRADA TRADIÇÃO

    Porque ainda que os Evangelhos não estivessem escritos, já se consolidava a Tradição que viria ser chamada de Sagrada. Ela representa exatamente o entendimento que Jesus e o Divino Espírito nos deixaram das Escrituras. E é o respeito a essa Tradição que São Paulo exigiu dos tessalonicenses: "Intimamo-vos, irmãos, em Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que eviteis a convivência de todo irmão que leve vida ociosa e contrária à Tradição que de nós tendes recebido." 2 Ts 3,6
    Em sua Primeira Carta a São Timóteo, de fato, o Apóstolo dos Gentios refere-se à Sagrada Tradição como o 'Depósito', e apela à Graça: "Timóteo, guarda o Depósito. Evita o irreverente palavreado e as objeções dessa falsa ciência, pois alguns a professaram e desviaram-se da fé. A Graça esteja convosco." 1 Tm 6,20
    E na Segunda Carta cita essa Tradição de forma ainda mais bela, 'Precioso Depósito', sem deixar de mencionar o Autor dessa virtude: "Toma por modelo os salutares ensinamentos que recebeste de mim sobre a fé e o amor a Jesus Cristo. Guarda o Precioso Depósito, pela virtude do Espírito Santo que em nós habita." 2 Tm 1,13
    Não por acaso, escrevendo aos colossenses ele rebate as tradições meramente humanas, que são errôneas interpretações das Escrituras: "Estai de sobreaviso, para que ninguém vos engane com filosofias e vãos sofismas baseados nas tradições humanas, nos rudimentos do mundo, em vez de apoiar-se em Cristo." Cl 2,8
    E usando de toda sua autoridade, ele diz o mesmo a São Timóteo, alertando-o quanto ao grupo que realmente transmitia a Sã Doutrina, ou seja, o Colégio dos Apóstolos: "Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e creste. Sabes de quem aprendeste." 2 Tm 3,14
    Os próprios cristãos que mais se apegavam ao Antigo Testamento que à Manifestação de Cristo, pois não tinham o Novo para suas reflexões, ele declarava destituídos da Graça: "Já estais separados de Cristo, vós que procurais a justificação pela Lei. Decaístes da Graça. Quanto a nós, é espiritualmente, da fé, que aguardamos a esperada justiça." Gl 5,4-5
    Isso não implica dizer que o Antigo Testamento deva ser desprezado, pois a Salvação vem dos judeus. São Paulo diz perante Félix, o procurador da Judeia, ao ser julgado: "Em tua presença reconheço que, segundo a Doutrina que eles chamam de sectária, sirvo ao Deus de nossos pais, crendo em todas as coisas que estão escritas na Lei e nos Profetas." At 24,14
    São Pedro também argumenta: "Assim, demos ainda maior crédito à palavra dos Profetas, à qual fazeis bem em atender, como a uma lâmpada que brilha em um tenebroso lugar, até que desponte o dia e a estrela da manhã levante-se em vossos corações." 2 Pd 1,19
    Mas as distorções dos Sagrados Livros não eram nenhuma novidade. Citando palavras de Deus ditas pelo Profeta Isaías, Jesus já as denunciava a Seu tempo: "Jesus disse-lhes: 'Isaías com muita razão profetizou de vós, hipócritas, quando escreveu: "Este povo honra-Me com os lábios, mas seu coração está longe de Mim. Em vão, pois, prestam-Me culto, porque ensinam doutrinas e preceitos humanos (Is 29,13)." Deixando o Mandamento de Deus, apegai-vos à tradição dos homens.'" Mc 7,6-8
    Exigia, pois, fidelidade às Escrituras: "Ai de vós, hipócritas escribas e fariseus! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os mais importantes preceitos da Lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, contudo sem deixar o restante. Guias cegos! Filtrais um mosquito e engolis um camelo." Mt 23,23-24
    Ora, não resta dúvida que esses desvios são obras do pai da mentira, a quem muitos rebeldes acabam adotando, como Jesus mesmo apontou: "Vós tendes como pai o demônio e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,44
    A Sagrada Tradição, porém, foi transmitida desde os Apóstolos aos primeiros Bispos, Presbíteros e Diáconos e assim segue sendo até hoje, tal e qual São Paulo instruiu São Timóteo: "O que de mim ouviste em presença de muitas testemunhas, confia-o a homens fiéis que, por sua vez, sejam capazes de instruir a outros." 2 Tm 2,2
    E como não escreveu Evangelho, valeu-se de suas cartas para transmitir a Revelação. Seguiu creditando, entretanto, exclusivamente ao Espírito Santo essa distinta formação doutrinária que vem dos Apóstolos: "Foi por revelação que me foi manifestado o mistério que acabo de esboçar. Lendo-me, podereis entender a compreensão que me foi concedida do Mistério de Cristo, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus Santos Apóstolos e Profetas." Ef 3,3-5
    Aliás, sempre foi assim desde o Antigo Testamento, como diz o Profeta Neemias sobre os judeus, em oração ao Senhor: "Vossa paciência para com eles durou muitos anos. Vós fazíeis-lhes admoestações pela inspiração de Vosso Espírito, que animava Vossos Profetas." Ne 9,30a
    Por isso, São Paulo pedia que suas cartas fossem partilhadas entre os membros das comunidades às quais escrevia: "Peço-vos encarecidamente, no Senhor, que esta carta seja lida a todos irmãos." 1 Ts 5,27
    Como dissemos, por esses tempos havia apenas o texto base do Evangelho de São Mateus, e em aramaico, mas nada escrito em grego, língua universal de então, motivo pelo qual São Paulo só se referia ao Evangelho falado. Deixava claro, no entanto, que se tratava de um único e inalterável Evangelho: "De fato, não há dois evangelhos: há apenas pessoas que semeiam a confusão entre vós e querem perturbar o Evangelho de Cristo. Mas, ainda que alguém - nós ou um anjo baixado do Céu - vos anunciasse um evangelho diferente do que vos temos anunciado, que ele seja anátema." Gl 1,8
    Ele mesmo registrou o esforço que fazia para que o Evangelho não fosse distorcido, como na ocasião em que subiu a Jerusalém para confirmar com São Pedro, São João Evangelista e São Tiago Menor o que ensinava: "E subi em conseqüência de uma revelação. Expus-lhes o Evangelho que prego entre os pagãos, e isso particularmente aos que eram de maior consideração, a fim de não correr ou de não ter corrido em vão" Gl 2,2
    E de tudo fazia, inclusive expôr-se a algumas humilhações, para que a Sã Doutrina não fosse despedaçada: "... fomos, por esta vez, condescendentes, para que o Evangelho permanecesse em sua integridade." Gl 2,5
    Mas suas próprias cartas seriam distorcidas, como reclamou São Pedro, também apelando à Graça: "Reconhecei que a longa paciência de Nosso Senhor vos é salutar, como também vosso caríssimo irmão Paulo vos escreveu, segundo o dom da Sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas suas cartas, nas quais fala nestes assuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras. Vós, pois, caríssimos, advertidos de antemão, tomai cuidado para que não caiais da vossa firmeza, levados pelo erro destes homens ímpios. Mas crescei na Graça e no conhecimento de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A Ele a Glória, agora e eternamente." 2 Pd 3,15-18
    Pois mesmo patente toda limitação que há nas palavras e nas expressões humanas, o próprio Jesus sempre pautava seus debates pela correta interpretação das Escrituras, como questionou um doutor da Lei: "Que está escrito na Lei? Como é que lês?" Lc 10,26
    E fazia-o com frequência:
    "Jesus respondeu-lhes: 'Não lestes o que fez Davi num dia em que teve fome, ele e seus companheiros, como entrou na Casa de Deus e comeu os pães da proposição?'" Mt 12,3-4a
    "Não lestes na Lei que, nos dias de sábado, os sacerdotes transgridem no Templo o descanso do sábado e não se tornam culpados?" Mt 12,5
    "Se compreendêsseis o sentido destas palavras: 'Quero a misericórdia e não o sacrifício...' não condenaríeis os inocentes." Mt 12,7
    "Respondeu-lhes Jesus: 'Não lestes que o Criador, no começo, fez o homem e a mulher e disse: Por isso, o homem deixará seu pai e sua mãe e unir-se-á à sua mulher. E os dois formarão uma só carne (Gn 2,24)?'" Mt 19,4-5
    "Disseram-Lhe eles: 'Ouves o que dizem eles?' 'Perfeitamente', respondeu-lhes Jesus. 'Nunca lestes estas palavras: Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes Vosso louvor (Sl 8,3)?'" Mt 21,16
    "Jesus acrescentou: 'Nunca lestes nas Escrituras: A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se a pedra angular. Isto é obra do Senhor, e é admirável a nossos olhos (Sl 117,22)?'" Mt 21,42
    "Mas quanto à Ressurreição dos mortos, não lestes no livro de Moisés como Deus lhe falou da sarça, dizendo: 'Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó (Ex 3, 6)?'" Mc 12,26
    Dos que se arrogavam mestres, Ele cobrava o mais puro entendimento das Escrituras. Mas não só delas: cobrava também a percepção das frequentes manifestações de Deus: "Errais, não compreendendo as Escrituras nem o poder de Deus." Mt 22,29
    E abertamente valorizava a inspiração e a Revelação, como atestou aquela recebida por São Pedro, quando ele O reconheceu como o Cristo: "Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas Meu Pai que está nos Céus." Mt 16,17
    Quanto ao absoluto poder de Deus e nossas limitações para o pleno conhecimento de Seus mistérios, o livro da Sabedoria já nos dava uma bela explanação: "Que homem, pois, pode conhecer os desígnios de Deus, e penetrar nas determinações do Senhor? Tímidos são os pensamentos dos mortais, e incertas nossas concepções. Porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados. Mal podemos compreender o que está sobre a terra, dificilmente encontramos o que temos ao alcance da mão. Quem, portanto, pode descobrir o que se passa nos Céus?" Sb 9,13-16
    E mais uma vez o sagrado autor termina apontando o infinito e ativo poder do Espírito de Deus, fonte de Vida da Igreja: "E quem conhece vossas intenções, se vós não lhe dais a Sabedoria, e se do mais alto dos Céus vós não lhe enviais Vosso Espírito Santo? Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra. Os homens aprenderam as coisas que vos agradam e pela Sabedoria foram salvos." Sb 9,17-18
    Sem dúvida, desde o Pentecostes é Divino Paráclito que vem conduzindo a Igreja nas decisões conciliares sobre a verdadeira Doutrina de Cristo, bem como quanto ao dom da correta interpretação das Escrituras, que sempre é renovado ao sucessor de São Pedro. Assim tem sido desde a resolução do Concílio de Jerusalém, como São Tiago Menor mandou redigir em carta aos pagãos de Antioquia, Síria e Cilícia: "Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do indispensável seguinte..." At 15,28
    E assim será até o fim dos tempos, como garantiu Jesus: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Paráclito, para que fique eternamente convosco." Jo 14,16
    Essa é a Luz que iluminava o entendimento de São Pedro à frente da Igreja, tal e qual Jesus prometeu: "Eu dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus: tudo que ligares na terra será ligado nos Céus, e tudo que desligares na terra será desligado nos Céus." Mt 16,19
    O Príncipe dos Apóstolos, aliás, confirmou qual a condição das verdadeiras testemunhas: "Deste fato nós somos testemunhas, nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem." At 5,32
    Afirmativamente, é Palavra de Jesus: "Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais Vosso Pai Celestial dará o Espírito Santo aos que LhO pedirem." Lc 11,13
    Não por acaso, antes de ser apedrejado, Santo Estevão reclama dos principais dos judeus, que não compreenderam as Escrituras nem acolheram o Cristo, justamente por resistirem ao Espírito de Deus: "Homens de dura cerviz, e de incircuncisos corações e ouvidos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo." At 7,51a

    "Em Comunhão com toda a Igreja aqui estamos!"