sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

A Conversão de São Paulo


    A história da conversão de São Paulo, datada por volta do ano 36 de nossa era, isto é, 6 anos após a Ressurreição de Cristo, começa depois do inspirado sermão de Santo Estevão no Sinédrio, no qual veementemente corrigiu o sumo sacerdote e os principais dos judeus, perseguidores de Apóstolos e cristãos nos primeiríssimos anos da Igreja.
    São Lucas assim a contou:

    "Ao ouvir tais palavras, esbravejaram de raiva e rangiam os dentes contra ele. Mas, cheio do Espírito Santo, Estêvão fitou o Céu e viu a Glória de Deus, e Jesus de pé à direita de Deus:
    - Eis que vejo, disse ele, os Céus abertos e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus.
    Então levantaram um grande clamor, taparam os ouvidos e todos juntos atiraram-se furiosos contra ele. Lançaram-no fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram seus mantos aos pés de um moço chamado Saulo.
    E apedrejavam Estêvão, que orava e dizia:
    - Senhor Jesus, recebe meu espírito.
    Posto de joelhos, exclamou em alta voz:
    - Senhor, não lhes leves em conta este pecado...
    A estas palavras, expirou.

    E Saulo havia aprovado a morte de Estêvão.
    Naquele dia, rompeu uma grande perseguição contra a comunidade de Jerusalém. Todos se dispersaram pelas regiões da Judeia e de Samaria, com exceção dos Apóstolos. Alguns piedosos homens trataram de enterrar Estêvão, e entraram em grande pranto por ele.
    Saulo, porém, devastava a Igreja. Entrando pelas casas, delas arrancava homens e mulheres e os entregava à prisão. Mas aqueles que se haviam dispersado, iam por toda parte anunciando a Palavra de Deus.
    Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém todos homens e mulheres que achasse seguindo essa Doutrina.
    Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente cercou-o uma resplandecente luz vinda do Céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia:
    - Saulo, Saulo, por que Me persegues?
    Saulo disse:
    - Quem és, Senhor?
    Respondeu Ele:
    - Eu sou Jesus, a Quem tu persegues. Duro é debater-te contra as esporas.
    Então, trêmulo e atônito, disse ele:
    - Senhor, que queres que eu faça?
    Respondeu-lhe o Senhor:
    - Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer.

    Os homens que o acompanhavam encheram-se de espanto, pois perfeitamente ouviam a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada. Tomaram-no pela mão e introduziram-no em Damasco, onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber.
    Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor, numa visão, disse-lhe:
    - Ananias!
    - Eis-me aqui, Senhor!, respondeu ele.
    O Senhor ordenou-lhe:
    - Levanta-te e vai à rua Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso, chamado Saulo. Ele está orando.
    São Paulo, da mesma forma, teve uma visão de um homem, chamado Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista.
    Ananias respondeu:
    - Senhor, muitos já me falaram deste homem, de quantos males fez a teus fiéis em Jerusalém. E aqui ele tem poder dos príncipes dos sacerdotes para prender a todos aqueles que invocam Teu Nome.
    Mas o Senhor disse-lhe:
    - Vai, porque este homem é para Mim um instrumento escolhido, que levará Meu Nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu mostrá-lhe-ei tudo que terá de padecer pelo Meu Nome.
    Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse:
    - Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo.
    No mesmo instante, caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado.


    Depois tomou alimento e sentiu-se fortalecido.
    Demorou-se por alguns dias com os discípulos que se achavam em Damasco. E imediatamente começou a proclamar pelas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos seus ouvintes pasmavam e diziam:
    - Este não é aquele que perseguia em Jerusalém os que invocam o Nome de Jesus? Não veio cá só para levá-los presos aos sumos sacerdotes?
    Saulo, porém, sentia crescer seu poder e confundia os judeus de Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.
    Decorridos alguns dias, os judeus deliberaram, em conselho, matá-lo. Estas intenções chegaram ao conhecimento de Saulo. Dia e noite guardavam eles as portas, para matá-lo. Mas os discípulos, tomando-o de noite, fizeram-no descer pela muralha dentro de um cesto.
    Chegando a Jerusalém, tentava ajuntar-se aos discípulos, mas todos o temiam, não querendo crer que se tivesse tornado discípulo. Então Barnabé, levando-o consigo, apresentou-o aos Apóstolos e contou-lhes como Saulo vira o Senhor no caminho, e que lhe havia falado, e como em Damasco pregara, com desassombro, o Nome de Jesus.
    Daí por diante permaneceu com eles, saindo e entrando em Jerusalém, e destemidamente pregando o Nome do Senhor.
    Também falava e discutia com os helenistas, mas estes procuravam matá-lo. Os irmãos, informados disso, acompanharam-no até Cesareia e dali o fizeram partir para Tarso." At 7,54-60;8,1-4;9,1-30

    Ainda na narração de São Lucas, São Paulo, em discurso de defesa perante os judeus de Jerusalém, quando foi preso como 'agitador' e estava prestes a ser enviado a Roma, relata outra visão que teve de Jesus, logo que voltou à Cidade Santa após sua conversão: "Voltei para Jerusalém e, orando no Templo, fui arrebatado em êxtase. E vi Jesus, que me dizia: 'Apressa-te e sai de Jerusalém, porque não receberão teu testemunho a Meu respeito.' Eu repliquei: 'Senhor, eles sabem que eu encarcerava e com varas açoitava nas sinagogas os que creem em Ti. E quando se derramou o sangue de Estêvão, Tua testemunha, eu estava presente, nisso consentia e guardava os mantos dos que o matavam.' Mas Ele respondeu-me: 'Vai, porque Eu te enviarei para longe, às nações...'" At 22,17-21
    Narrou como, através de um membro da Igreja, recuperou a visão e recebeu a confirmação de sua investidura: "Um certo Ananias, piedoso homem e observador da Lei, muito bem conceituado entre todos judeus daquela cidade, veio ter comigo e disse-me: 'Irmão Saulo, recobra tua vista.' Naquela mesma hora pude enxergá-lo. Continuou ele: 'O Deus de nossos pais predestinou-te para que conhecesses Sua vontade, visses o Justo e ouvisses a Palavra de Sua boca, pois Lhe serás, diante de todos homens, testemunha das coisas que tens visto e ouvido. E agora, por que tardas? Levanta-te. Recebe o Batismo e purifica-te de teus pecados, invocando Seu Nome." At 22,12-16
    Quanto ao ódio que alimentava contra a Igreja enquanto era fariseu, ele mesmo admitiu perante o rei Agripa, numa das etapas de seu julgamento: "Que pensais vós? É incrível que Deus ressuscite os mortos? Também eu acreditei que devia fazer a maior oposição ao Nome de Jesus de Nazaré. Assim procedi em Jerusalém e em cárceres tinha encerrado muitos irmãos, para isso havendo recebido poder dos sumos sacerdotes. Quando os sentenciavam à morte, eu dava minha plena aprovação. Muitas vezes, perseguindo-os por todas sinagogas, eu maltratava-os para obrigá-los a blasfemar. Enfurecendo-me mais e mais contra eles, eu perseguia-os até no estrangeiro." At 26,8-11
    E descreveu como Jesus lhe apareceu pela primeira vez: "Nesse intuito, fui a Damasco, com poder e comissão dos sumos sacerdotes. Era meio-dia, ó rei. Eu estava a caminho quando uma Luz do Céu, mais fulgurante que o sol, brilhou em torno de mim e de meus companheiros. Caímos todos nós por terra, e ouvi uma voz que me dizia em língua hebraica: 'Saulo, Saulo, por que Me persegues? Duro é debater-te contra as esporas.' Então eu disse: 'Quem és, Senhor?' O Senhor respondeu: 'Eu sou Jesus, a Quem persegues. Mas levanta-te e põe-te em pé, pois apareci-te para fazer-te ministro e testemunha das coisas que viste e de outras para as quais hei de manifestar-Me a ti. Escolhi-te do meio do povo e dos pagãos, aos quais agora te envio para abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas à Luz e do poder de Satanás a Deus, para que, pela fé em Mim, recebam o perdão dos pecados e a herança entre os que foram santificados.' Desde então, ó rei, não fui desobediente à celestial visão. Primeiramente preguei aos de Damasco, depois em Jerusalém e por toda terra da Judeia e aos pagãos, para que se arrependessem e se convertessem a Deus, fazendo dignas e correspondentes obras." At 26,12-20

    Na Carta aos Gálatas, São Paulo revela que não voltou de imediato a Jerusalém após sua conversão, mas foi anunciar o Cristo em cidades nabateias. Ele conta novos detalhes de suas revelações e sua missão, bem como seu zelo pela Unidade da Igreja, que é uma constante em suas cartas:

    "Asseguro-vos, irmãos, que o Evangelho pregado por mim nada tem de humano. Não o recebi nem o aprendi de homem algum, mas mediante uma revelação de Jesus Cristo.
    Certamente ouvistes falar de como outrora eu vivia no judaísmo, com que excesso perseguia a Igreja de Deus e assolava-a. Avantajava-me, no judaísmo, a muitos de meus companheiros de idade e nação, extremamente zeloso das tradições de meus pais. Mas quando aprouve Àquele que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou por Sua Graça, para revelar Seu Filho em minha pessoa, a fim de que eu O tornasse conhecido entre os gentios, imediatamente, sem consultar a ninguém, sem ir a Jerusalém para ver os que eram Apóstolos antes de mim, parti para a Arábia. De lá, regressei a Damasco.
    Três anos depois subi a Jerusalém para conhecer Cefas, e com ele fiquei quinze dias. Dos outros Apóstolos, não vi nenhum, a não ser Tiago, irmão do Senhor. Isto que vos escrevo, Deus é-me testemunha, não estou inventando.
    Em seguida, fui para as regiões da Síria e da Cilícia. Eu ainda era pessoalmente desconhecido das comunidades cristãs da Judeia. Tinham elas apenas ouvido dizer: 'Aquele, que antes nos perseguia, agora prega a que outrora combatia.' E glorificavam a Deus por minha causa.
    Catorze anos mais tarde, subi outra vez a Jerusalém com Barnabé, comigo também levando Tito. E subi em consequência de uma revelação. Expus-lhes o Evangelho que prego entre os pagãos, e isso particularmente aos que eram de maior consideração, a fim de não correr ou de não ter corrido em vão.
    Entretanto, nem sequer meu companheiro Tito, embora gentio, foi obrigado a circuncidar-se. Mas por causa dos falsos irmãos, intrusos, que furtivamente se introduziram entre nós para espionar a liberdade de que gozávamos em Cristo Jesus, a fim de escravizar-nos, fomos por esta vez condescendentes, para que o Evangelho permanecesse em sua integridade.
    Quanto aos que eram de autoridade, o que antes tenham sido não me importa, pois Deus não Se deixa levar por consideração de pessoas, estas autoridades, digo, nada me impuseram. Ao contrário, viram que a evangelização dos incircuncisos me era confiada, como a dos circuncisos a Pedro, porque Aquele cuja ação fez de Pedro o Apóstolo dos Circuncisos, também fez de mim o dos Pagãos.
    Tiago, Cefas e João, que são considerados as colunas, reconhecendo a Graça que me foi dada, a mim e a Barnabé deram as mãos em sinal de pleno acordo: iríamos aos pagãos, e eles aos circuncidados. Apenas nos recomendaram que nos lembrássemos dos pobres, o que precisamente era minha intenção." Gl 1,11-22; 2,1-10


    Na Carta aos Efésios, o Apóstolo dos Gentios explica a quem é dirigida sua missão:

    "Por essa causa é que eu, Paulo, prisioneiro de Jesus Cristo por amor de vós, gentios...
    Vós deveis ter aprendido o modo como Deus me concedeu esta Graça, que me foi feita a vosso respeito. Foi por revelação que me foi manifestado o mistério que acabo de esboçar. Lendo-me podereis entender a compreensão que me foi concedida do Mistério de Cristo, que em outras gerações não foi manifestado aos homens da maneira como agora tem sido revelado pelo Espírito a Seus Santos Apóstolos e Profetas. A saber: que os gentios são co-herdeiros conosco (que somos judeus), são membros do mesmo Corpo e participantes da promessa em Jesus Cristo pelo Evangelho.
    Eu tornei-me servo deste Evangelho em virtude da Graça, que me foi dada pela onipotente ação divina. A mim, o mais insignificante dentre todos os santos, coube-me a Graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo, e a todos manifestar o salvador desígnio de Deus, mistério oculto desde a eternidade em Deus, que tudo criou. Assim, de ora em diante, as celestes dominações e potestades podem conhecer, pela Igreja, a infinita diversidade da Divina Sabedoria, de acordo com o eterno desígnio que Deus realizou em Jesus Cristo, Nosso Senhor." Ef 3,1-11

    Realmente sincero, ele não omitia seu passado perante ninguém, como escreveu aos coríntios sobre a aparição de Jesus: "E, por último de todos, também apareceu a mim, como a um abortivo. Porque eu sou o menor dos Apóstolos, e não sou digno de ser chamado Apóstolo, porque persegui a Igreja de Deus." 1 Cor 15,8-9
    Também aos filipenses: "Quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça legal, declaradamente irrepreensível." Fl 3,5b-6
    A São Timóteo, enfim, ele demostra toda gratidão pela honra de ser Seu Sacerdote: "Dou graças Àquele que me deu forças, Jesus Cristo, Nosso Senhor, porque me julgou digno de confiança e me chamou ao ministério, a mim que outrora era blasfemo, perseguidor e injuriador. Mas alcancei Misericórdia, porque ainda não tinha recebido a fé e o fazia por ignorância. E a Graça de Nosso Senhor foi imensa, juntamente com a fé e a caridade que está em Jesus Cristo. " 1 Tm 1,12-14
    E diz que sua conversão, por ter perseguido a Igreja, era um exemplo para toda e qualquer pessoa, independente dos pecados que tenham cometido: "Eis uma verdade absolutamente certa e merecedora de fé: Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o primeiro. Se encontrei Misericórdia, foi para que primeiro em mim Jesus Cristo manifestasse toda Sua longanimidade, e assim eu sirva de exemplo a todos que n'Ele vão crer para a Vida Eterna." 1 Tm 1,15-16
    De fato, o próprio Jesus ensinou: "Digo-vos que assim haverá maior júbilo no Céu por um só pecador, que fizer penitência, que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento. Digo-vos que haverá júbilo entre os anjos de Deus por um só pecador que se arrependa." Lc 15,7.10

    "Lembrai-vos, ó Pai, de Vossos filhos!"