sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

As Santas Relíquias


    Embora até mesmo muitos cristãos digam não acreditar, as relíquias são inquestionáveis provas materiais das manifestações de Deus, desde o Antigo Testamento. O povo humilde, ao contrário, em sua peculiar sensibilidade, há muito já percebeu o valor que elas têm pelos milagres que operam. Basta observar peregrinações, procissões, santuários, igrejas e exposições das relíquias dos Santos. Vê-se uma tocante e pura , isenta de acanhamento, dúvidas ou dos costumeiros entraves do racionalismo, sempre inquieto e vacilante.
    Claro, elas não substituem os Sacramentos da Igreja nem os Sacramentais, mas, assim como as Aparições de Nossa Senhora, são evidentes sinais do poder de Deus e de Sua marcante presença em entre nós. É a Igreja, pois, que deve coordenar esses atos de religiosidade, de modo a fazer da veneração das santas relíquias um exercício que leve ao pleno cumprimento da vontade de Deus, sumamente expressa por Jesus no Mandamento do amor a Deus e ao próximo, através do culto à Comunhão de Seu Corpo e Seu Sangue.
    E não se deve esquecer a contemplação de Jesus sobre a religiosidade popular, que por completo se entrega nas mãos da Divina Providência: "Levantando os olhos, viu Jesus os ricos que deitavam suas ofertas no cofre do Templo. Também viu uma indigente viúva deitar duas pequenas moedas, e disse: 'Em verdade, digo-vos: esta pobre viúva doou mais que os outros. Porque todos aqueles lançaram nas ofertas de Deus o que lhes sobra. Esta, porém, em sua penúria, deu tudo que lhe restava para o sustento.'" Lc 21,1-4
    Ou quando exultou no Espírito Santo, apontando como os sinais de Deus eram acolhidos neste mundo pela ação dos Apóstolos, isto é, da embrionária Igreja: "Pai, Senhor do Céu e da terra, Eu dou-Te graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e revelaste-as aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-Te porque assim foi de Teu agrado." Lc 10,21
    Também ao responder aos discípulos de São João Batista, que vieram confirmar se Ele realmente era o Messias, Nosso Senhor referiu-Se a uma passagem do Profeta Isaías, usando as Escrituras para mostrar que as manifestações de Deus têm os enfermos e os mais pobres como os principais destinatários: "Ide e contai a João o que ouvistes e o que vistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, o Evangelho é anunciado aos pobres..."Mt 11,4-5
    Pois assim que partiu de Cafarnaum, viu-se impedido de entrar nas menores aldeias: "Aproximou-se d'Ele um leproso, suplicando-Lhe de joelhos: 'Se queres, podes limpar-me.' Jesus compadeceu-Se dele, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: ''Eu quero, sê curado.' E imediatamente desapareceu dele a lepra e foi purificado. Se pronto Jesus despediu-o com esta severa admoestação: 'Vê que não o digas a ninguém. Mas vai, mostra-te ao sacerdote e apresenta, pela tua purificação, a oferenda prescrita por Moisés para lhe servir de testemunho.' Este homem, porém, logo que se foi, começou a propagar e divulgar o acontecido, de modo que Jesus não podia entrar publicamente numa cidade. Conservava-se fora, nos despovoados lugares, e de toda parte vinham ter com Ele." Mc 1
    E era exatamente os pobres e sofridos que buscavam Jesus, cientes que d'Ele emanava o poder de curar: "Jesus retirou-Se com Seus discípulos para o mar, e seguia-O muita gente vinda da Galileia. E da Judeia, de Jerusalém, da Idumeia, do além-Jordão e dos arredores de Tiro e de Sidônia veio a Ele uma grande multidão, ao ouvir de tudo que Ele fazia. Ele ordenou a Seus discípulos que Lhe aprontassem uma barca, para que a multidão não o comprimisse. Porque havia curado a muitos, e todos que padeciam de algum mal arrojavam-se sobre Ele para tocá-Lo." Mc 3,7-10
    A mulher, que padecia fluxo de sangue havia doze anos, também se bastou em tocar Suas vestes, que certamente eram relíquias: "Dizia ela consigo: 'Se tocar, ainda que seja na orla de Seu manto, estarei curada.'" Mc 5,28
    O mesmo se deu na região de Genesaré, onde se alcançaram grandes Graças: "As pessoas do lugar reconheceram-nO e mandaram anunciar por todos arredores. Apresentaram-Lhe, então, todos doentes, rogando-Lhe que ao menos deixasse tocar na orla de Sua veste. E todos aqueles que n'Ele tocaram, foram curados." Mt 14,35-36
    E depois que Se tornou conhecido, assim era em quase todos os lugares por onde Jesus passava: "Onde quer que Ele entrasse, fosse em aldeias, povoados ou cidades, punham os enfermos nas ruas e pediam-Lhe que os deixassem tocar ao menos na orla de Suas vestes. E todos que tocavam em Jesus ficavam sãos." Mc 6,56
    Pois foi repudiado em Sua terra natal: "Eles ficaram escandalizados a Seu respeito. Mas Jesus disse-lhes: 'Um Profeta só é desprezado em sua pátria, entre seus parentes e em sua própria casa.' Ali não pôde fazer milagre algum. Curou apenas alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos. E admirou-Se da incredulidade deles." Mc 6,3b-6a
    Relíquias das relíquias, então, é a Santa Síndone, mais conhecida como o Santo Sudário, linho com o qual o Corpo de Cristo foi envolvido para o sepultamento. Ele foi comprado exatamente para este fim por São José de Arimateia, que ocultamente seguia Jesus: "Quando já era tarde - era a Preparação, isto é‚ a véspera do sábado -, veio José de Arimateia, ilustre membro do Conselho, que também esperava o Reino de Deus. Ele foi resoluto à presença de Pilatos e pediu o Corpo de Jesus. Depois de ter comprado um pano de linho, José tirou-O da Cruz, envolveu-O no pano e depositou-O num sepulcro escavado na rocha, rolando uma pedra para fechar a entrada." Mc 15,42-43.46
    São João Evangelista anotou como ela foi encontrada, na manhã do Domingo da Ressurreição do Senhor: "Saiu então Pedro com aquele outro discípulo, e foram ao sepulcro. Corriam juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. Inclinou-se e ali viu os panos no chão, mas não entrou. Chegou Simão Pedro que o seguia, entrou no sepulcro e viu os panos postos no chão. Também viu o Sudário que estivera sobre a cabeça de Jesus. Não estava, porém, com os panos, mas enrolado num lugar à parte. Então também entrou o discípulo que havia chegado primeiro ao sepulcro. Viu e creu." Jo 20,3-8
    A Igreja, portanto, venera várias importantes relíquias como o Santo Lenho da Santa Cruz, encontrado por Santa Helena, a própria Santa Casa de Nazaré, transportada por anjos até a Itália, além inúmeras relíquias dos Santos.


AS RELÍQUIAS DOS APÓSTOLOS

    Após a Ascensão de Jesus, parte do assédio que Ele sofria passou para São Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, por força dos milagres que Deus realizava através dele. As pessoas eram curadas simplesmente ao serem cobertas pela sombra do pescador de almas: "Enquanto isso, muitos milagres e prodígios se realizavam entre o povo pelas mãos dos Apóstolos. Unânimes, reuniam-se todos no Pórtico de Salomão, de maneira que traziam os doentes para as ruas e punham-nos em leitos e macas, a fim de que, quando Pedro passasse, ao menos sua sombra cobrisse alguns deles. Das cidades vizinhas de Jerusalém também afluía muita gente, trazendo os enfermos e os atormentados por imundos espíritos, e todos eles eram curados." At 5,12.15-16
    E em determinado momento, São Paulo igualmente tornou-se objeto de veneração popular. Suas relíquias eram levadas a enfermos e possessos e operavam grandes Graças: "Deus fazia extraordinários milagres por intermédio de Paulo, de modo que lenços e outros panos que tinham tocado seu corpo eram levados aos enfermos. E afastavam-se deles as doenças e retiravam-se os malignos espíritos." At 19,11-12


AS RELÍQUIAS DOS PROFETAS

    A tradição das relíquias, porém, remonta um tempo bem anterior à Vinda de Jesus. O manto, que Elias deixou cair ao ser arrebatado aos Céus, operava milagres nas mãos de Eliseu, seu discípulo, e milagre da categoria da abertura do Mar Vermelho: "Tomou o manto que Elias deixara cair, feriu com ele as águas, dizendo: 'Onde está o Senhor, o Deus de Elias? Onde está Ele?' Tendo ferido as águas, estas separaram-se para um e outro lado, e Eliseu passou." 2 Rs 2,14
    Semelhante milagre havia realizado a Arca da Aliança, a modo de Moisés atravessando o Mar Vermelho, quando Josué entrou com o povo de Israel na Terra Santa: "No momento em que os portadores da Arca chegaram ao rio, e os sacerdotes mergulharam seus pés na beira do rio - o Jordão estava transbordante e inundava suas margens durante todo tempo da ceifa -, as águas que vinham de cima detiveram-se e amontoaram-se em uma grande extensão, até perto de Adom, localidade situada nas proximidades de Sartã. E as águas que desciam para o mar da planície, o mar Salgado, foram completamente separadas. O povo atravessou defronte de Jericó. Os sacerdotes, que levavam a Arca da Aliança do Senhor, conservaram-se de pé sobre o leito seco do Jordão, enquanto que todo Israel passava a pé enxuto. E ali permaneceram até que todos passassem para a outra margem." 3 Js 3,15-17
    O cajado usado por Moisés também era dotado de poder: "Moisés respondeu: 'Eles não me crerão, nem me ouvirão, e vão dizer que o Senhor não me apareceu.' O Senhor disse-lhe: 'O que tens na mão?' 'Uma vara.' 'Joga-a por terra.' Ele jogou-a por terra e a vara transformou-se numa serpente, de modo que Moisés recuou. O Senhor disse-lhe: 'Estende tua mão e toma-a pela cauda.' Ele estendeu a mão e tomou-a, e a serpente de novo tornou-se uma vara em sua mão. 'É para que creiam que o Senhor, o Deus de seus pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó realmente apareceu-te.' Moisés tomou consigo sua mulher e seus filhos, fê-los montar em jumentos e voltou para o Egito. Levava na mão a vara de Deus." Ex 4,1-4.20
    Já os restos mortais de Eliseu, enquanto relíquias, operaram um inaudito prodígio: a própria Ressurreição: "Eliseu morreu e foi sepultado. Guerrilheiros moabitas anualmente faziam incursões na terra. Ora, aconteceu que um grupo de pessoas, estando a enterrar um homem, viu uma turma desses guerrilheiros e jogou o cadáver no túmulo de Eliseu. O morto, ao tocar os ossos de Eliseu, voltou à vida, e pôs-se de pé." 2 Rs 13,20-21

    "A todos saciai com Vossa Glória!"