quinta-feira, 7 de junho de 2018

3 Caminhos até Deus

    Embora cada ser humano descreva sua própria trajetória pela vida, é certo que todos os caminhos que levam a Deus inevitavelmente passam por Jesus. Ele disse: "Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai, senão por Mim." Jo 14,6
    Por condescendência, Ele até propõe uma experiência: "Se alguém quiser cumprir a vontade de Deus, distinguirá se Minha Doutrina é de Deus ou se falo de Mim mesmo." Jo 7,17
    Ora, havia muito o salmista já clamava ao Pai Celeste, pois sabia que só n'Ele encontraria o verdadeiro alento para sua alma: "Senhor, mostrai-me Vossos caminhos, e ensinai-me Vossas veredas. Dirigi-me na Vossa Verdade e ensinai-me, porque sois o Deus de minha Salvação e em Vós eu sempre espero." Sl 24,4-5
    E foi exatamente isso que Jesus revelou ser: "Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para vossas almas." Mt 11,29
    Portanto, enquanto mais que especial capítulo do Livro da Vida, e assim espelhando com perfeição nossas buscas e angústias, o Novo Testamento apresenta três exemplares caminhos para reflexão. São emblemáticas viagens nas quais qualquer cristão facilmente se vê representado: os caminhos de Jerusalém, de Emaús e de Damasco.

SUBINDO A JERUSALÉM


    No primeiro, o de Jerusalém, iam os Apóstolos, caminhando com o próprio Deus na Pessoa de Jesus, mas ainda vacilantes na , mesmo depois de tudo que viram e de serem informados do que precisavam saber. O desfecho já estava previsto nas profecias: apesar de haverem prometido acompanhá-Lo até à morte, eles vão abandoná-Lo. E, ao menos inicialmente, não entenderão Sua morte na Cruz.
    Contudo, não fugirão covardemente de Jerusalém. Demonstrando verdadeiro amor pelo Mestre, eles ficam tão abalados com Sua morte que vão desprezar qualquer realismo medíocre, pelo qual imediatamente se obrigariam a voltar para Galileia e retornar ao trabalho, numa postura do tipo: 'porque a vida continua...' Não. A nova realidade que o Mestre imprimiu em suas almas não lhes permitiu deixarem-se levar por pensamentos assim, por demais rasteiros. E por isso, ainda em Jerusalém, no primeiro Domingo após crucificação todos eles veriam o Ressuscitado, com a exceção de São Tomé.
    Este, dos que tomaram o caminho de Jerusalém, irá cometer um erro a mais, também característico da incredulidade: após ouvir, da parte dos dez Apóstolos e das santas mulheres, vários testemunhos sobre a Ressurreição de Jesus, e com riqueza de detalhes, além de ser confidente de expressa e categórica identificação do próprio Jesus (Jo 14,5-7), irá insistir na necessidade de uma prova material: queria ele mesmo ver e tocar o Ressuscitado!
    Ou seja, além do vacilante caminho até Jerusalém, de ter abandonado Jesus no momento da prisão após prometer segui-Lo até a morte (Jo 11,16), e de ouvir testemunho dos amigos mais próximos, São Tomé exigia mais uma experiência pessoal, exclusiva, capricho já tão vulgar hoje em dia. No entanto, este seria só mais um capítulo da radical decisão que se deve tomar diante do Cristo, pois, de sua profunda espiritualidade, este Santo chegará à conclusão não só da absoluta realidade de Sua Ressurreição, mas, antes de todos os demais, declarará a própria divindade de Jesus, exclamando: "Meu Senhor e Meu Deus!"(Jo 20,28).

A CAMINHO DE EMAÚS


    No segundo caminho, o de Emaús, Jesus põe-Se em viagem junto a dois de Seus discípulos, que eram-Lhe, depois dos Apóstolos e entre os demais seguidores, o grupo mais próximo. Certamente faziam parte dos 72 enviados dois a dois (Lc 10,1), e que também tinham subido com Ele a Jerusalém. Seguiam voluntária e apaixonadamente o Messias, mas não tinham nem a intimidade nem haviam assumido o mesmo compromisso que os Doze. De fato, tudo era muito sério e as responsabilidades não eram pequenas. Além de muitas inseguranças doutrinárias, sem dúvida bem maiores que a dos Apóstolos, pois estes do Mestre recebiam privilegiadas explicações, eles teriam alguns temores a mais.
    Apesar de muito impressionados pela figura de Jesus, e de grande simpatia por Sua Doutrina, as preocupações da vida ainda eram invencíveis empecilhos para esses dois. Por certo apenas uma exagerada expectativa, ou mesmo uma incompreendida atração pela Pessoa do Mestre, não teria bastado para afastá-los de um todo da mundaneidade. O medo e a ingênua empolgação, como outros pueris traços de personalidade, costumam andar juntos.
    O maior erro deles, no entanto, como o próprio Jesu vai acusar (Lc 24,25), foi a preguiçosa consciência. Eles tinham feito todo caminho até Jerusalém, viram a Crucificação e, como São Tomé, também ouviram testemunhos da Ressurreição. Santa Maria Madalena e Maria, mãe dos parentes próximos de Jesus, contavam maravilhadas que o Túmulo estava aberto e que Seu Corpo não se encontrava lá dentro, apesar de terem encontrado as faixas com as quais O haviam envolvido. Santa Maria Madalena chegou a dizer que O tinha visto redivivo, mas para eles isso parecia demais. Nem lembravam que Jesus tinha prometido ressuscitar.
    Quer dizer, teriam acompanhando Jesus mais pelos fatos que presenciavam que pela Palavra que ouviam. E quando a situação se complicou, e o Mestre foi capturado, eles não pensaram muito antes de decidir ir embora. Nem respeitaram os sete dias da Páscoa na Cidade Santa. Guardaram apenas o Sábado, mas no primeiro dia da semana já estavam com o pé na estrada, num misto de medo dos judeus, incertezas e 'necessidades' de 'cuidar da vida'.
    Ficava, porém, uma desconcertante pergunta: que vida? Ora, semelhante situação já haviam presenciado. Quando se deu a primeira dispersão entre Seus seguidores, e aí provavelmente também eles tenham se afastado, Jesus inquiriu os próprios Apóstolos se não gostariam de deixá-Lo. Mas São Pedro, sempre inspirado por Deus e falando em nome de todos, respondeu-Lhe com outra pergunta: "Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens as palavras da Vida Eterna." Jo 6,68

A CAMINHO DE DAMASCO


    E no caminho de Damasco temos registro do ainda jovem São Paulo, nessa fase um impetuoso e violento fariseu que desejava a morte dos cristãos por piamente acreditar que assim servia a Deus. Aliás, isso se dava exatamente como Jesus havia profetizado sobre os membros de Sua Igreja (Jo 16,2). De fato, São Lucas, amigo e colaborador de São Paulo após sua conversão, literalmente diz que ele tinha ódio e perseguia, note-se bem, a Igreja (At 8,3), como ainda hoje muitos fazem. E Jesus, note-se também, tomando as dores da Igreja, não vai perguntar por que ele a perseguia, mas por que perseguia a Ele mesmo (At 9,4), o próprio Salvador.
    Aspirando ameaças e morte (At 9,1), em Damasco a intenção do futuro Apóstolo era arrastar cristãos à prisão, fossem homens ou mulheres (At 9,2). Ora, ele já havia participado na morte de Santo Estêvão, quando prazerosamente se ofereceu para segurar os mantos daqueles que o apedrejavam. Assumia, assim, a postura dos extremados radicalistas que são capazes de qualquer coisa sob alegação de estarem agindo em Nome de Deus, ignorando que em essência o Criador abomina a prática do mal, principalmente através da ira, um pecado capital.
    Isso significa que, embora a religiosa convicção de São Paulo fosse plena, o meio de que ele usou era absolutamente desvirtuado. E eis ainda mais grave erro: em sua desarrazoada fé, ao combater a Igreja ele estava combatendo o próprio Deus em Sua mais esplendorosa manifestação, que, por ignorância e brutalidade, ele desconhecia: o Cristo.

DIFÍCIL CAMINHADA

    Nesses três caminhos, tem-se um elemento em comum: a frustração. Ela aconteceu com os Apóstolos que subiram a Jerusalém e com os discípulos que iam a Emaús, ao verem Jesus crucificado, e aconteceu com São Paulo, que, na sanha de caçar cristãos, deu de cara com a Luz do Mundo que o derrubou do cavalo e cegou-o.
    Mas também esses caminhos, desde que passem pelo devido arrependimento, levam à Glória de Deus. Não esqueçamos que todos esses caminhantes, uns mais outros menos, eram crédulas pessoas. São três histórias reais, de pessoas cuja fé não era desprezível. Todos, de algum modo, buscavam a Deus, e assim Ele terminaria por revelar-Se a eles.
    Em síntese, temos:
    - Indo a Jerusalém: pessoas que seguiam Jesus, 'quase' certas de que Ele era o Salvador, mas estranhavam Seus planos; que acreditavam, mas também vacilavam; que prometiam morrer com Ele, mas abandonaram-nO; que se frustraram com Sua Crucificação, mas, pelo amor que Lhe tinham, permaneceram em Jerusalém e viram a Ressurreição; e São Tomé, à parte, que após a Crucificação não permaneceu junto aos Apóstolos, e ao voltar, mesmo ouvindo os relatos da Aparição, continuou mostrando-se incrédulo; individualista e materialista, embora pronto para a total conversão, quis de Deus uma prova e recebeu a apropriada correção.
    - Indo a Emaús: pessoas que seguiam Jesus, mas pouco dispostas a refletir apropriadamente sobre a Palavra e a vontade de Deus; que n'Ele acreditavam, mas não assumiam pleno compromisso com Aquele 'Profeta'; que se frustraram com Sua morte, e fugiram com medo da perseguição dos judeus, para 'cuidar da vida'. Entretanto, como sinceramente se deixaram seduzir pela Boa Nova, e tinham dedicado muitos meses seguindo o Mestre, ainda que sem muitos compromissos, foram agraciados com a Aparição do Ressuscitado e reenviados como testemunhas.
    - Indo a Damascouma pessoa que perseguia a Igreja, por não conhecer a Deus como se deve; que tinha fervorosa devoção, mas não conhecia nem o amor do Pai, nem os Mandamentos, nem Seu agir; que desejava a morte aos cristãos, mas por paixão pela Verdade cairia refém da grandeza do Crucificado; que se frustrou ao ser flagrado usando de extrema violência contra Jesus, mas, por seu amor às Escrituras e porque o fazia por ignorância, mereceu ser testemunha de Sua Glória. E ao ser enviado para servi-Lo, redimiu-se de seu passado e não teve vergonha de converter-se.

TRÊS RESPOSTAS DE JESUS

    Agradecidos pela benção da confirmação na fé, de todos esses caminhantes e também nossa, é dever do cristão sempre prestar culto a Deus. Pois foi o que disse o cego de nascença curado por Jesus, em resposta aos judeus por tamanha Graça alcançada: "Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem Lhe presta culto e faz Sua vontade." Jo 9,31
    Não nos esqueçamos, portanto, do que cada um desses caminhantes ouviu de Jesus enquanto errava. É Sua voz que deve ecoar em nossos ouvidos quando estivermos trilhando nossos caminhos, para (1) conscientemente subirmos com o Salvador a Jerusalém, (2) não fugirmos para Emaús, (3) nem perseguirmos os autênticos fiéis de Damasco:
    - São Pedro, que subiu a Jerusalém, mas como representante de todos os Apóstolos tinha que confirmar sua fé e de seus irmãos, ouviu: "Simão, filho de João, amas-Me mais do que a estes?" Jo 21,15
    - São Tomé, que também cumpriu todo o caminho até Jerusalém, mas divagava em maiores dúvidas e exigia de Deus uma prova particular, ouviu: "Introduz aqui teu dedo, e vê Minhas mãos. Põe tua mão no Meu lado. Não sejas incrédulo, mas homem de fé." Jo 20,27
    - Os discípulos, que também subiram a Jerusalém, mas apartaram-se da comunidade após a Crucificação e seguiram para Emaús por medo e por não meditarem o bastante, ouviram: "Ó gente sem inteligência! Como sois tardios de coração para crerdes em tudo que anunciaram os Profetas!" Lc 24,25
    - E São Paulo, que entrou em cena depois de todas as manifestações do Cristo, mas absolutamente presunçoso de sua fé e movido por extremada violência só pensava em aniquilar os cristãos, ouviu: "Saulo, Saulo, por que Me persegues?" At 9,4
    Peçamos, portanto, a Graça de realmente ouvir Jesus, pois Ele garantiu: "Minhas ovelhas ouvem Minha voz, Eu conheço-as e elas seguem-Me." Jo 10,27

    "Caminhamos na estrada de Jesus!"