quinta-feira, 21 de junho de 2018

Jesus rezava


    Não deve haver dúvida quanto à nossa vital necessidade de oração, e oração frequente, habitual. Mal empregados os momentos entregues ao ócio, quando há tanto por rezar: pelos enfermos, pelos mais pobres, pelos impenitentes, pelos necessitados da Divina Luz, por nossa constante e mais profunda conversão, por nossos parentes e amigos, pelas almas do Purgatório, em agradecimento... Enfim, necessidades e motivos sobejam.
    São Lucas registrou Jesus declarando Seu vínculo ao Templo de Jerusalém, Casa de Oração segundo Suas próprias palavras, desde os doze anos, quando por três dias ficou sozinho na Cidade Santa após a Páscoa. Ele responde a Nossa Senhora e a São José: "Por que Me procuráveis? Não sabíeis que devo esta na Casa de Meu Pai?" Lc 2,49b
    Vínculo que se transferiria para a Igreja, como afirmou São Paulo: "... como Cristo amou a Igreja e por ela entregou-Se... Este mistério é grande, quero dizer, com referência a Cristo e à Igreja." Ef 5,25b.32
    E ainda no relato de São Lucas, vemos Jesus rezando desde o início de Sua vida pública, no momento de Seu Batismo: "Quando todo povo ia sendo batizado, também Jesus o foi. E estando Ele a orar, o Céu abriu-se e o Espírito Santo desceu sobre Ele em forma corpórea, como uma pomba. E do Céu veio uma voz: 'Tu és Meu Filho. Hoje Eu Te gerei (Sl 2,7).'" Lc 3,21-22


ORAR SEM CESSAR

    Assim Ele viveu, conforme as Escrituras, até Seu último suspiro. Os seguidores da tradição de São Paulo vão dizer: "Nos dias de Sua vida mortal, dirigiu preces e súplicas, entre clamores e lágrimas, Àquele que O podia salvar da morte, e foi atendido por Sua submissão. Embora fosse Filho de Deus, aprendeu a obediência por meio dos sofrimentos que teve." Hb 5,7-8
    Antes de partir em peregrinação pela Galileia, ou seja, ainda no início de Seu ministério, após mudar-se de Nazaré para Cafarnaum, indo morar na casa de São Pedro, na primeira madrugada Ele acordou para rezar: "De manhã, tendo-Se levantado muito antes do amanhecer, Ele saiu e foi para um lugar deserto, e ali Se pôs em oração." Mc 1,35
    Levando-se em conta a oração mental, pode-se dizer que Jesus constantemente rezava ao Pai. E foi isso que Ele ensinou por palavras e exemplos. Falando sobre a oração particular, do dia-a-dia, que é uma necessidade à parte, independente da participação na Santa Missa dominical, Ele instruiu: "Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelos homens. Em verdade, Eu digo-vos: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra em teu quarto, fecha a porta e em segredo ora ao Teu Pai. E Teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á." Mt 6,5-6
    Jesus atraia grandes multidões já desde os primeiros milagres e curas, mas mesmo sob tamanho assédio não abandonava a oração, Sua principal fonte de Comunhão com o Pai: "Entretanto, espalhava-se mais e mais Sua fama e concorriam grandes multidões para ouvi-Lo e ser curadas de suas enfermidades. Mas Ele costumava retirar-Se a lugares solitários para orar." Lc 5,15-16
    Antes de convocar os Doze Apóstolos, dentre eles o próprio Judas, Jesus recolheu-Se por toda uma noite em oração. Precisava dos auxílios do Pai e do Espírito Santo para escolher aqueles que seriam os 'fundamentos' da Igreja, pois a Salvação é uma obra de plena Comunhão da Santíssima Trindade: "Naqueles dias, Jesus retirou-Se a uma montanha para rezar, e aí passou toda a noite orando a Deus. Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e dentre eles escolheu Doze, que chamou de Apóstolos..." Lc 6,12-13
    Momentos antes de ser identificado por São Pedro como o Messias, Jesus tinha-os afastado das multidões para que pudessem rezar. Ele pedia ao Pai e ao Espírito Santo que os iluminasse para a perfeita compreensão de Sua revelação: Deus que Se fez homem: "Num dia em que Ele estava a orar a sós com os discípulos, perguntou-lhes: 'Quem diz o povo que Eu sou? E vós, quem dizeis que Eu sou?'" Lc 9,18.20
    Também quando de Sua Transfiguração, Ele havia entrado em estado de oração, convocando os Apóstolos mais próximos: "... Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, e subiu ao monte para orar. Enquanto orava, Seu rosto transformou-se e Suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura." Lc 9,28-29
    Foi igualmente quando Ele estava rezando que os Apóstolos perceberam a necessidade dessa prática de piedade. Foram inspirados para isso, pois ninguém melhor que o Mestre para encaminhá-los: "Um dia, num certo lugar, estava Jesus a rezar. Terminando a oração, disse-Lhe um de Seus discípulos: 'Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos.'" Lc 11,1
    E nessa ocasião que Ele deixou o Pai Nosso, uma pérola, o melhor registro de Suas interlocuções com o Pai. Disse: "Eis como deveis rezar: Pai Nosso, que estais no Céu, santificado seja Vosso Nome; venha a nós Vosso Reino; seja feita Vossa vontade, assim na Terra como no Céu. O Pão Nosso de cada dia dai-nos hoje; perdoai-nos nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do Mal." Mt 6,9-13
    Depois do grande milagre da multiplicação dos pães e dos peixes, quando a multidão quis fazê-Lo rei, humildemente Jesus Se retirou para rezar. Sem descuidar de Sua Missão, porém, despachou os Apóstolos nas barcas para que seguissem para outra paragem, onde os encontraria após caminhar sobre as águas. Com efeito, orar e trabalhar eram Sua rotina: "Logo depois, Jesus obrigou Seus discípulos a entrar na barca e a passar antes d'Ele para a outra margem, enquanto Ele despedia a multidão. Feito isso, subiu à montanha para orar na solidão. E, chegando a noite, lá estava sozinho." Mt 14,22-23
    E falando sobre o poder da oração, Ele garantiu aos Apóstolos: "Por isso, digo-vos: tudo que pedirdes na oração, crede que o tendes recebido, e ser-vos-á dado." Mc 11,24
    Disse-o com outras palavras: "Tudo que pedirdes com na oração, vós o alcançareis." Mt 21,22
    Mas, antes de qualquer palavra dirigida ao Pai, Ele instava para esquecermos nosso dever de perdoar nossos semelhantes: "E quando vos puserdes de pé para orar, perdoai, se tiverdes algum ressentimento contra alguém, para que também Vosso Pai, que está nos Céus, perdoe vossos pecados." Mc 11,25
    Ensinava, ademais, que era necessário constantemente orar, sem cessar: "Propôs-lhes Jesus uma parábola para mostrar que é necessário orar sempre, sem jamais deixar de fazê-lo." Lc 18,1
    Deixou ainda um grande segredo, o único modo eficaz de combater o ódio que invade e envenena tantos corações. Quantos de nós sequer tentou pôr prática esse divino ensinamento? Pois, no Sermão da Montanha, Ele mandou que rezássemos por nossos inimigos: "... rezai por aqueles que vos maltratam e perseguem." Mt 5,44
    Ensinou ainda que alguns maus espíritos só podem ser expulsos com intensas orações: "Esta espécie de demônios não se pode expulsar senão pela oração." Mc 9,29
    Outros, ainda, só com oração e penitências: "Quanto a esta espécie de demônio, só se pode expulsar à força de oração e de jejum." Mt 17,20
    Mostrando muito zelo pelo Templo de Jerusalém, pois era por excelência a Casa de Oração, Jesus chegou a fazer um chicote para de lá expulsar os vendilhões: "E ensinava-lhes nestes termos: "Não está porventura escrito: Minha Casa chamar-se-á Casa de Oração para todas nações (Is 56,7)? Mas vós dela fizestes um covil de ladrões (Jr 7,11)." Mc 11,17
    Rezou em alta voz pela ressurreição de São Lázaro, para demonstrar que fora enviado por Deus: "Levantando Jesus os olhos ao alto, disse: 'Pai, rendo-Te graças, porque Me ouviste. Eu bem sei que sempre Me ouves, mas assim falo por causa do povo que está em roda, para que creiam que Tu Me enviaste.' Depois destas palavras, exclamou em alta voz: 'Lázaro, vem para fora!' E o morto saiu, tendo os pés e as mãos ligados com faixas, e o rosto coberto por um sudário. Ordenou, então, Jesus: 'Desligai-o e deixai-o ir.'" Jo 11,41-44
    Para que a Igreja permanecesse inabalavelmente unida, Ele também rezou ao Pai. É a chamada Oração da Unidade, que preenche todo décimo sétimo capítulo no Evangelho de São João Evangelista. Citamos aqui a parte central, em que Ele Se refere aos Apóstolos e a nós, que os seguiríamos: "Não rogo somente por eles, mas também por aqueles que por sua palavra hão de crer em Mim. Para que todos sejam um, assim como Tu, Pai, estás em Mim e Eu em Ti. Para que também eles estejam em Nós e o mundo creia que Tu Me enviaste." Jo 17,20-21
    Também pediu ao Pai para que a Igreja usufruísse de Sua alegria, exultando no Espírito Santo, durante as tribulações deste mundo: "Mas, agora, vou para junto de Ti. Dirijo-Te esta oração enquanto estou no mundo para que eles tenham a plenitude de Minha alegria. Dei-lhes Tua Palavra, mas o mundo odeia-os porque eles não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas sim que os preserves do Mal." Jo 17,13-15
    E contra as tribulações que a Igreja enfrentaria, Ele pediu ao Pai por São Pedro, para que resistisse na liderança dos Apóstolos: "Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para peneirar como o trigo. Mas Eu roguei por ti, para que tua confiança não desfaleça. E tu, por tua vez, confirma teus irmãos." Lc 22,31-32


VIGIAI E ORAI

    Prestes a ser capturado pela guarda do sumo sacerdote no Horto das Oliveiras, mais uma vez Jesus entregou-Se às orações. Com razão, não haveria nada mais importante a fazer em Seus últimos momentos: "Retirou-Se Jesus com eles para um lugar chamado Getsêmani, e disse-lhes: 'Assentai-vos aqui, enquanto Eu vou ali orar.'" Mt 26,36
    E assim o fez: "Adiantou-Se um pouco e, prostrando-Se com a face por terra, assim rezou: 'Meu Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice! Todavia não se faça o que Eu quero, mas sim o que Tu queres.'" Mt 26,39
    Pouco depois estaria reclamando de São Pedro, porque não vigiava em oração com Ele. Nessa ocasião, Ele ensinou a essência da mais verdadeira vida em cristandade: vigília e oração: "Foi ter então com os discípulos, e encontrou-os dormindo. E disse a Pedro: 'Então não pudestes vigiar uma hora Comigo... Vigiai e orai para que não entreis em tentação.'" Mt 26,40-41
    Desfazendo o preconceito daqueles que mal falam das orações repetidas, Jesus mesmo rezou por três vezes, enquanto esteve no Horto das Oliveiras, a mesma oração: "Deixou-os e foi orar pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras." Mt 26,44
    Na verdade, Jesus havia sim criticado, mas as vãs repetições, aquelas mecanicamente recitadas, e não as puras e simples repetições. Ele contestava a pretensão de querer ser ouvido por Deus por mero balbuciar, mas não a apaixonada devoção de por mais tempo querer permanecer em Comunhão com os Céus através das orações. Ele disse: "Em vossas orações não useis de vãs repetições, como fazem os pagãos, porque imaginam que é pelo excessivo palavreado que serão ouvidos. Não os imiteis, porque Vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes mesmo que vós Lho peçais." Mt 6,7-8
    E quando repetia as mesmas palavras, ainda no Monte das Oliveiras, Jesus fazia-o com tanta intensidade que chegou a suar sangue: "Ele entrou em agonia e ainda com mais instância orava, e Seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra." Lc 22,44
    Na Cruz, Suas últimas palavras também são orações. E são as mais amadurecidas palavras que podem sair da boca de um ser humano: o ato de perdoar. Assim Ele oferece a prova maior de Seu incondicional amor pela errante humanidade, e exatamente em Seu momento de maior sofrimento: "Pai, perdoa-lhes. Porque não sabem o que fazem." Lc 23,34
    Por fim, antes de morrer, Ele proferiu Sua última oração: "Pai, em Tuas mãos entrego Meu espírito." Lc 23,46

    "Com Jesus oferecemos, ó Pai, nossa vida!"