sábado, 30 de junho de 2018

Primeiros Santos Mártires de Roma


    No quente verão do ano de 64, abrindo espaço para seus megalômanos projetos urbanísticos, criminosamente Nero mandou atear fogo em algumas construções no centro de Roma, que eram em maioria de madeira e palha, e acabou queimando até às cinzas boa parte da cidade durante seis dias. Para eximir-se das acusação, que logo vazaria por revoltados inconfidentes, ele culpou os cristãos, a maior e mais transformadora novidade que se deu na capital do Império Romana, aos quais cultuava ódio por não lhe reverenciarem como deus.
    Assim, ele deflagrou a primeira grande perseguição à Igreja, ordenando o massacre de todos os seguidores, com maior emprego de crueldade possível, e apressou-se em assassinar São Pedro, por inveja de seu carisma e por ser o representante máximo de Cristo, e pouco depois também São Paulo.
   Milhares de cristãos entregaram suas almas a Deus nesse período, e padecendo bestiais brutalidades: as mulheres eram ultrajadas dos mais infames modos; nem mesmo crianças e idosos tiveram suas vidas poupadas. Para tornar o 'espetáculo' ainda mais apelativo, todas formas de execução foram permitidas.
    Mas todos morriam sem renegar a em Cristo, fato que, em favor dos argumentos de Nero, ajudou a difundir entre os romanos que os cristãos 'não gostavam de viver' e 'odiavam o ser humano'.
    Os jardins, onde o imperador Calígula havia construído um circo, passaram a ser usados por Nero também para um espetáculo 'circense' com os mais horrendos sacrifícios, mas agora como uma 'festa' popular de massivas execuções que se estenderam por 3 tenebrosos anos: flecha após flecha os cristãos eram alvejados deixando por último artérias e órgãos vitais; dilacerados e mutilados a golpes de espadas para lentamente morrerem, ou simplesmente decapitados; feridos e esmagados com bizarras armas letais; destroçados por cavalos e bigas de guerra em alta velocidade; soltos na arena para o ataque de furiosos touros, grandes felinos e famintos leões; mortos na fogueira ou por armas em brasa; hediondas torturas, crucificações e as insanas 'tochas humanas', quando eram untados com piche para arder em chamas 'iluminando' a noite.
    À luz do dia, as vítimas eram banhadas em sangue e revestidos com peles de animais, para o escárnio e espancamento dos cidadãos romanos, e depois jogadas para serem atacadas e devoradas por famintos cachorros nas ruas. Para presenciar e incitar tais atrocidades, o próprio Nero misturava-se ao povo, disfarçado, ou ensandecidamente conduzia sua própria biga, dando voltas na arena dos jardins.


    Em seus últimos anos, São Paulo deixou na carta a São Timóteo um registro do medo e da resignação entre os cristãos, por força dos tristes espetáculos que estavam em curso: "Na minha primeira defesa, ninguém me assistiu, todos me abandonaram. Que isto não lhes seja levado em conta. Mas o Senhor veio em meu auxílio e deu-me forças. Assim, pude completar a proclamação da mensagem, para que todas nações a ouçam. E eu fui libertado da boca do leão." 2 Tm 4,17
    São João Evangelista menciona esses mártires no livro do Apocalipse, que foi escrito ao fim do século I: "Então um dos Anciãos falou comigo e perguntou-me: 'Esses, que estão revestidos de vestes brancas, quem são e de onde vêm?' Respondi-lhe: 'Meu Senhor, tu o sabes!' E ele disse-me: 'Esses são os sobreviventes da grande tribulação. Lavaram suas vestes e alvejaram-nas no Sangue do Cordeiro.'" Ap 7,13-14
    Ele também mencionou os sacrifícios de São Pedro e São Paulo, porém usando termos codificados, como fez em todo livro para que não fosse censurado e destruído, pois as perseguições continuavam: "Mas incumbirei às Minhas duas testemunhas, vestidas de saco, de profetizarem por mil duzentos e sessenta dias. São eles as duas oliveiras e os dois candelabros que se mantêm diante do Senhor da terra. Entretanto, depois de terem terminado integralmente seu testemunho, a Fera que sobe do abismo lhes fará guerra, vencê-los-á e matá-los-á. Seus cadáveres jazerão na rua da grande cidade que espiritualmente se chama Sodoma e Egito (onde Seu Senhor foi crucificado). Muitos dentre os povos, tribos, línguas e nações virão para vê-los por três dias e meio, e não permitirão que sejam sepultados. Os habitantes da terra alegrar-se-ão por causa deles, felicitar-se-ão mutuamente e mandarão presentes uns aos outros, porque esses dois Profetas tinham sido seu tormento." Ap 11,3-4.7-10


    O termo 'protomártires', em grego, designa esses primeiros mártires cristãos, sacrifício que séculos mais tarde muitas nações também viriam a padecer, como durante a invasão da Terra Santa, pelos muçulmanos, a 'Reforma Protestante', patrocinada por príncipes e senhores feudais, mas também alguns movimentos ditos 'humanistas' como a celebrada Revolução Francesa, a instalação do Comunismo pelo mundo, iniciada na Rússia, e abjeta a Guerra Civil Espanhola, todas levadas a cabo pelo ateísmo militante.
    E todos esses mártires têm no diácono Santo Estevão o primeiríssimo exemplo, cujo sacrifício se deu ainda no tempo dos Apóstolos, pouco depois do Pentecostes, e que em breve seria seguido por São Tiago Maior, primeiro Apóstolo a ser martirizado, assim como mais tarde foram todos os demais, à exceção de São João Evangelista, exatamente como profetizou Jesus. De fato, diante dos questionamentos de São Pedro sobre o destino do amado discípulo, Ele também o interrogou: "Respondeu-lhe Jesus: 'Que te importa se Eu quero que ele fique até que Eu venha? Segue-Me tu.' Correu, por isso, o boato entre os irmãos de que aquele discípulo não morreria. Mas Jesus não lhe disse: 'Não morrerá', mas: 'Que te importa se quero que ele fique assim até que Eu venha?'" Jo 21,22-23
    Essa carnificina perpetrada por Nero, em específico, que durou de 64 até sua morte, em 67, explica, pelo absoluto caos que instalou entre os cristãos, os poucos registros que atestam Roma como a sede da Igreja, a Primazia de Pedro como líder de todos os cristãos e os sacrifícios dele e de São Paulo. Com efeito, como prova de um desmonte quase total do cerne da Comunidade Messiânica, o livro dos Atos dos Apóstolos, escrito por São Lucas, simplesmente para no tempo, é uma obra inacabada.
    Eis porque São Clemente, que foi o quarto Papa entre os anos de 88 e 97, vai atestar o 'martírio', que é o sentido original da palavra 'testemunho', como autêntico destino de um cristão, a inspiração da nossa Santa Missa: "Encontramo-nos na mesma arena e combatemos o mesmo combate. Deixemos as inúteis preocupações e os vãos cuidados e voltemo-nos para a gloriosa e venerável regra da nossa tradição: consideremos o que é belo, o que é bom e o que é agradável ao Nosso Criador."
    É a partir destes tempos que surgem as catacumbas subterrâneas de Roma, muitas delas atribuídas a São Calisto, que eram construídas ao longo dos lados das estradas com objetivo de secretamente, mas com os devidos cerimoniais, sepultar os cristãos, e mais tarde possibilitar as rezas e cultos junto a seus túmulos, prática esta que se perpetrou até as primeiras décadas do século IV. Algumas dessas catacumbas chegam a ter cinco andares e dezenas de quilômetros. São evidências de um costume judeu, que depositavam os corpos de seus mortos em largos sepulcros escavados em rochas ou encostas, com espaço para entes de toda família. Aliás, como foi o próprio sepulcro de Jesus.


    Inversamente, porém, tamanha crueldade de Nero, associada ao destemor e exemplo de fé dos cristãos, ao longo daqueles anos terminaram por conquistar a compaixão e a alma da grande maioria dos romanos, que vieram a conhecer o Evangelho e maravilharam-se com a resignação e o amor a Deus demonstrados. Sem dúvida, só Deus e a firme convicção da Vida Eterna poderiam consolar e animar aquelas almas.
    Por isso, concluiu Tertuliano, historiador que viveu entre os anos de 160 e 220: "O sangue dos mártires é a semente dos cristãos."
    E o próprio Jesus havia anunciado esse 'testemunho', que se iniciaria ainda em Israel: "Cuidai-vos dos homens. Eles levar-vos-ão a seus tribunais e açoitar-vos-ão com varas em suas sinagogas. Sereis por Minha causa levados diante dos governadores e dos reis: servireis assim de testemunho para eles e para os pagãos." Mt 10,17-18
    Eram patentes sacrifícios, como se veem ainda hoje: "Então sereis entregues aos tormentos, matar-vos-ão e sereis por Minha causa objeto de ódio para todas nações." Mt 24,9
    E chegaria ao seio familiar, como flagrantemente se viu no Comunismo: "Sereis entregues até por vossos pais, vossos irmãos, vossos parentes e vossos amigos, e matarão muitos de vós. Sereis odiados por todos por causa do Meu Nome." Lc 21,16-17
    Esse era o batismo de que Jesus havia falado aos Apóstolos São Tiago Maior e São João Evangelista, quando estes lhe pediam alguns privilégios: "Vós bebereis o cálice que Eu devo beber, e sereis batizados no batismo em que Eu devo ser batizado." Mc 10,39
    Toda essa horrenda perseguição dos primeiros séculos, no entanto, apenas sinalizava, como sentenciou Jesus, o rompimento do Cristianismo com o Judaísmo, perante o qual os Apóstolos cumpriram missão tentando reformar, bem como os últimos sacrifícios da religiões pagãs e politeístas da Europa, além de, através dos séculos, o ódio perpetrado pelos muçulmanos: "Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a Mim." Jo 16,2-3
    Nascia assim, ao modo do próprio Sacrifício de Cristo, por esse batismo, pelo sangue dos primeiros mártires, a gloriosa Igreja Católica Apostólica Romana.

    Santos Protomártires, rogai por nós!