quarta-feira, 28 de junho de 2017

Santo Irineu


    Profícuo teólogo, foi um dos que muito colaborou para a compreensão da Divina Revelação, que teve seu ápice no Cristo; em outras palavras, para a consolidação da Sagrada Tradição. Por isso tem seu nome inscrito na Patrística, a filosofia cristã desenvolvida nos primeiros sete séculos da Igreja, que assim se chama em homenagem aos Padres que ajudaram a elaborá-la. Também citado como virtuoso escritor cristão, seus livros são um elo de suma importância para entendermos os primeiros capítulos da História da Igreja.
    Viveu entre os anos de 130 e 202 de nossa era, quando a Igreja era brutalmente perseguida pelo Império Romano mas firmava-se pela Graça de Deus e pelo sangue de seus mártires. Entre outros percalços, aliás, preditos por Jesus (cf. Mt 10,21s, Lc 21,16s, Jo 16,2), Santo Irineu viu-se às voltas com o gnosticismo, uma heresia sensacionalista inventada por intelectuais da época que se apossavam do cristianismo e misturavam-no com religiões e filosofias pagãs. Tratou de refutá-la ponto a ponto com fortíssimos argumentos em sua maior obra, 'Contra Heresias'.
    Rebateu também com maestria outra heresia que grassava na França, o montanismo, inventada por Montana, que se dizia o arauto das 'verdadeiras revelações' feitas por Jesus, passadas oralmente até ele desde 'testemunhas oculares', como se os Apóstolos não tivessem contado a Verdade e os Evangelhos fossem apenas apócrifos. Ele 'profetizava' a iminência do fim do mundo e era seguido por duas 'profetizas' que diziam falar pelo Espírito Santo.
    Como vemos, não é de hoje que a História do Ressuscitado é usada em meio a 'verdadeiras' ou 'novas' revelações, que definitivamente não passam de delírios ou tresloucadas teorias, patentes mentiras, e apenas semeiam descrença e dissensão entre os cristãos, atacando diabolicamente a Unidade do Corpo Místico de Cristo. Só a poderosa mão de Deus, que, entre outros legítimos cristãos, agiu providencialmente na obra de Santo Irineu, poderia fazer com que a autêntica mensagem de Cristo, assim como sua inequívoca interpretação, sobrevivessem sem distorções.
    Assim a Igreja, constituída de homens mas iluminada pelo Espírito de Deus, sempre cumpriu muito bem seu papel através dos séculos, agindo com firmeza e coragem. Pudera, o próprio Jesus é Quem a edifica, e os poderes do Maligno não a podem vencer, como Ele mesmo assegurou: "... tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    São, portanto, os registros históricos e os argumentos teológicos do Santo de Lyon que elucidam estes anos tão marcantes e decisivos, embora também tumultuados. E a Sagrada Tradição, que é a verdadeira interpretação das Escrituras, tal como revelada por Jesus e pelo Espírito Santo, tem em Santo Irineu um valoroso clarão, pois, ao seu tempo, ela já contava mais um século de prática, ainda que carente de documentação. As várias e tendenciosas interpretações heréticas causavam confusões e conflitos, mas ele tratou de buscar as melhores fontes e assim ratificou o que a Igreja vinha praticando.


    Vamos a uma rápida lista da Luz que nos chegou através dele:
    - Consolidando os ensinamentos de São Policarpo, ele testemunhou o reconhecimento canônico dos quatro Evangelhos:
    "Mateus compôs o Evangelho para os hebreus na sua língua, enquanto Pedro e Paulo em Roma pregavam o Evangelho e fundavam a Igreja." (Contra Heresias II, 1,1)
    "Depois de sua morte, Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, transmitiu-nos também por escrito o que Pedro tinha pregado. Assim mesmo Lucas, o companheiro de Paulo, consignou num livro o Evangelho pregado por este. Enfim, João, o discípulo do Senhor, o mesmo que reclinou sobre o seu peito, publicou também o Evangelho quando de sua estada em Éfeso. Ora, todos esses homens legaram a seguinte doutrina: 'Quem não lhes dá assentimento, despreza os que tiveram parte com o Senhor, despreza o próprio Senhor, despreza enfim o Pai; e assim se condena a si mesmo, pois resiste e se opõe à sua Salvação – e é o que fazem todos os hereges.'" (Contra Heresias)
    - Ao combater o gnosticismo, a maior parte de seus escritos acabou por registrar as razões teológicas de algumas tradições que já estavam em curso na Igreja, demonstrando que desde cedo a 'Barca de Pedro' já vinha consolidando a Sã Doutrina. Provava assim, e cabalmente, que essa heresia era apenas um conjunto de seitas, muitas vezes até incompatíveis. E usando os quatro Evangelhos rebatia os fundamentos flagrantemente equivocados desse movimento.
    - Depois de Santo Irineu, todos os quatro Evangelhos passaram a ser reconhecidos, sem as antigas preferências por um ou por outro, como acontecia em algumas regiões;
    - Como prova da canonicidade do Novo Testamento, seus escritos mencionam 21 dos 27 livros, confirmando assim que a Igreja, bem antes do fim do século II, já tinha decidido em definitivo quais livros eram realmente inspirados e quais eram meros apócrifos;
    - Ele chamava de Escrituras também o Novo Testamento;
    - Escreveu importantes comentários demonstrando a linearidade da vontade de Deus desde o Antigo Testamento até as pregações de Jesus;
    - Fez vários e brilhantes ensaios teológicos sobre o Evangelho de São João e sobre a Eucaristia, que ainda hoje são estudados;
    - Comentou também profundamente os ditos de Jesus e as Cartas de São Paulo;
    - Reuniu a Doutrina dos Apóstolos em uma só obra: "Exposição ou Prova do Ensinamento Apostólico";
    - Observou a unanimidade da Sagrada Tradição praticada através dos tempos por igrejas muito distantes, e usou-a como argumento definitivo para provar a existência da Doutrina Cristã, única e verdadeira;
    - Muitos de seus textos sobreviveram graças à frequência com que foi citado por ilustres mestres, como Santo Hipólito e Eusébio de Cesareia, que foi bispo e pai da História da Igreja;
    - Rejeitou com sólidos e incontestes argumentos vários textos que se pretendiam inspirados, assim como supostas partes das Escrituras, inclusive, e com muita competência, o chamado 'evangelho de Judas';
   - Seus escritos, juntos aos de São Clemente e Santo Inácio de Antioquia, evidenciam a Primazia do Papa e da Igreja de Roma. Ardorosamente, ele sustenta a autoridade única e absoluta do Bispo de Roma: 
    "Para a maior e mais antiga, a mais famosa Igreja, fundada pelos dois mais gloriosos Apóstolos, Pedro e Paulo."
    Também:
    "Os bem-aventurados Apóstolos portanto, fundando e instituindo a Igreja, entregaram a Lino o cargo de administrá-la como Bispo; a este sucedeu Anacleto; depois dele, em terceiro lugar a partir dos Apóstolos, Clemente recebeu o episcopado." (Contra Heresias I, 2);
   - Se os gnósticos diziam transmitir um conhecimento que obtiveram diretamente de Jesus, Santo Irineu confirma que os Bispos eram conhecidos em suas cidades desde os tempos dos Apóstolos, e que ninguém jamais os havia contestado, fatos que os tornavam os únicos verazes transmissores dos ensinamentos, seguros guias para a interpretação das Escrituras;
    - Sua pesquisa histórica, que listou os primeiros Bispos em todo  mundo cristão, possibilitou a Doutrina da Sucessão Apostólica, que autoriza a Igreja a ordenar com exclusividade Bispos, Padres e Diáconos;
    - Teve grande influência sobre a opinião do Papa Vitor, para que comunidades ortodoxas não fossem excomungadas por celebrarem a Páscoa na forma judaica, como faziam os 'quartodecimanos';
    - Visionário, sabia e defendia que o Cristianismo só alcançaria a humanidade se os cristãos respeitassem os Concílios Episcopais;
    - Sustentava que o Mal está no mundo por opção do ser humano, por via do livre arbítrio;
    - Defendia o conceito da Santíssima Trindade, e a mesma essência das três Pessoas: 
    "Já temos mostrado que o Verbo, isto é, o Filho esteve sempre com o Pai. Mas também a Sabedoria, o Espírito estava igualmente junto d'Ele antes de toda a criação." (Contra Heresias IV,20,4);
    - Defendeu a presença da Trindade no Sacramento do Batismo;
    - Redigiu a Doutrina da Eucaristia:
    "... quando o Cálice de vinho misturado com a água e o pão natural recebem a Palavra de Deus, transformam-se na Eucaristia do Sangue e do Corpo de Cristo.";
    - Defendeu a virgindade e a participação de Maria como Co-Redentora da humanidade:
    "Mesmo Eva tendo Adão como marido, ela mantinha-se virgem... Ao desobedecer, Eva tornou-se a causa da morte para si e para toda a raça humana. Da mesma forma que Maria, embora tivesse um marido, mantinha-se virgem, e obedecendo, ela tornou-se causa de Salvação para si e para toda a raça humana." (Contra Heresias III, 22);
    - Sustentava que Maria era Mãe de Deus:
    "A Virgem Maria... sendo obediente à Sua Palavra, recebeu do anjo a Boa Nova de que ela daria à luz Deus". (Contra Heresias V,19,1);
    Era natural de Esmirna, na Turquia, e foi aluno de São Policarpo, que, segundo São Pápias, era discípulo de São João Evangelista e por ele foi ordenado Bispo. Sua formação, portanto, já o qualificava como teólogo perfeitamente abalizado e privilegiada testemunha da História da Igreja.
    Durante a perseguição aos cristãos, perpetrada por Marco Aurélio, Santo Irineu era sacerdote em Lyon, cidade no sudeste da França, e terminou sucedendo o Bispo São Potínio, que foi martirizado. Mas aí mesmo também ele morreu como mártir, por volta de 202.


    No local foi erguida a Igreja de São João de Lyon, uma das mais antigas da França, mas, destruída e reconstruída várias vezes, passou a se chamar Igreja de Santo Irineu.
    Durante a Revolução Protestante, seu túmulo foi destruído pelos calvinistas em 1562, e seus restos mortais, profanados. De uma construção muito antiga, porém, do século IV, ficaram um arco e a cripta, que contém vários epitáfios cristãos expostos nos corredores. Depois de tão abjeta violência, os ossos dos mártires que foram encontrados acabaram recolhidos num mesmo relicário.


    Santo Irineu, rogai por nós!