quinta-feira, 28 de junho de 2018

Santo Irineu


    Profícuo teólogo, foi um dos que muito colaborou para a compreensão da Divina Revelação, que teve seu ápice no Advento do Cristo. Ou seja, colaborou para a consolidação da Sagrada Tradição e por isso tem seu nome inscrito na Patrística, a filosofia cristã desenvolvida nos primeiros sete séculos da Igreja, que assim se chama em homenagem aos Padres que ajudaram a elaborá-la. Também citado como virtuoso escritor cristão, seus livros são um elo de suma importância para entendermos os primeiros capítulos da História da Igreja.
    Viveu entre os anos de 130 e 202 de nossa era, quando a Igreja era brutalmente perseguida pelo Império Romano, mas firmava-se pela Graça de Deus e pelo sangue de seus mártires. Entre outros percalços, aliás, preditos por Jesus (cf. Mt 10,21s, Lc 21,16s, Jo 16,2), Santo Irineu viu-se às voltas com o gnosticismo, uma sensacionalista heresia inventada por intelectuais da época que se apossavam do cristianismo e misturavam-no com religiões e filosofias pagãs. Tratou de refutá-la ponto a ponto com fortíssimos argumentos em sua maior obra, 'Contra Heresias'.
    Também com maestria rebateu outra heresia que grassava na França, o montanismo, inventada por Montana, que se dizia o arauto das 'verdadeiras revelações' feitas por Jesus, oralmente passadas até ele desde 'testemunhas oculares', como se os Apóstolos não tivessem contado a Verdade e os Evangelhos fossem apenas apócrifos. Ele 'profetizava' a iminência do fim do mundo e era seguido por duas 'profetizas' que diziam falar pelo Espírito Santo.
    Como vemos, não é de hoje que a História do Ressuscitado é usada em meio a 'verdadeiras' ou 'novas' revelações, que definitivamente não passam de delírios ou tresloucadas teorias, patentes mentiras, e apenas semeiam descrença e dissensão entre os cristãos, atacando diabolicamente a Unidade do Corpo Místico de Cristo. Mas a poderosa mão de Deus, que providencialmente agiu na obra de Santo Irineu, entre outros legítimos cristãos, fez com que a autêntica mensagem de Cristo, assim como sua inequívoca interpretação, sobrevivessem sem distorções.
    Assim a Igreja, constituída de homens mas iluminada pelo Espírito de Deus, sempre cumpriu seu papel através dos séculos, agindo com firmeza e coragem. Pudera, o próprio Jesus é Quem a edifica, e os poderes do Maligno não podem vencê-la, como Ele mesmo assegurou: "... tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    São, portanto, os registros históricos e os argumentos teológicos do Santo de Lyon que elucidam estes tão marcantes e decisivos anos, embora também tumultuados. E a Sagrada Tradição, que é a verdadeira interpretação das Escrituras, tal como revelada por Jesus e testemunhada pelo Espírito Santo, tem em Santo Irineu um valoroso clarão, pois, ao seu tempo, ela já contava mais um século de prática, ainda que carente de documentação. Como hoje, as várias e tendenciosas interpretações heréticas causavam confusões e conflitos, mas ele tratou de buscar as melhores fontes e assim ratificou o que a Igreja vinha praticando.


    Vamos a uma rápida lista da Luz que nos chegou através dele:
    - Consolidando os ensinamentos de São Policarpo, ele testemunhou o reconhecimento canônico dos quatro Evangelhos:
    "Mateus compôs o Evangelho para os hebreus em sua língua, enquanto Pedro e Paulo em Roma pregavam o Evangelho e fundavam a Igreja." (Contra Heresias II, 1,1)
    "Depois de sua morte, Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, transmitiu-nos também por escrito o que Pedro tinha pregado. Assim mesmo Lucas, o companheiro de Paulo, consignou num livro o Evangelho pregado por este. Enfim, João, o discípulo do Senhor, o mesmo que reclinou sobre seu peito, também publicou o Evangelho quando de sua estada em Éfeso. Ora, todos esses homens legaram a seguinte doutrina: 'Quem não lhes dá assentimento, despreza aqueles que tiveram parte com o Senhor, despreza o próprio Senhor, despreza, enfim, o Pai; e assim condena a si mesmo, pois resiste e opõe-se à sua Salvação – e é o que fazem todos os hereges.'" (Contra Heresias)
    - Ao combater o gnosticismo, a maior parte de seus escritos acabou por registrar as razões teológicas de algumas tradições que já estavam em curso na Igreja, demonstrando que desde cedo a 'Barca de Pedro' vinha consolidando a Sã Doutrina. Provava assim, e cabalmente, que essa heresia era apenas um conjunto de seitas, muitas vezes até incompatíveis. E usando os quatro Evangelhos rebatia os fundamentos flagrantemente equivocados desse movimento.
    - Depois de Santo Irineu, todos os quatro Evangelhos passaram a ser reconhecidos, sem as antigas preferências por um ou por outro, como acontecia em algumas regiões;
    - Como prova da canonicidade do Novo Testamento, seus escritos mencionam 21 dos 27 livros, confirmando assim que a Igreja, bem antes do fim do século II, já tinha decidido em definitivo quais livros eram realmente inspirados e quais eram meros apócrifos;
    - Ele chamava de Escrituras também o Novo Testamento;
    - Escreveu importantes comentários demonstrando a linearidade da vontade de Deus desde o Antigo Testamento até as pregações de Jesus;
    - Fez vários e brilhantes ensaios teológicos sobre o Evangelho de São João e sobre a Eucaristia, que ainda hoje são estudados;
    - Também comentou, e profundamente, os ditos de Jesus e as Cartas de São Paulo;
    - Reuniu a Doutrina dos Apóstolos em uma só obra: "Exposição ou Prova do Ensinamento Apostólico";
    - Observou a unanimidade da Sagrada Tradição praticada através dos tempos por igrejas muito distantes, e usou-a como definitivo argumento para provar a existência da Doutrina Cristã, que é única e verdadeira;
    - Muitos de seus textos sobreviveram graças à frequência com que foi citado por ilustres mestres, como Santo Hipólito e Eusébio de Cesareia, que foi bispo e pai da História da Igreja;
    - Rejeitou com sólidos e incontestes argumentos vários textos que se pretendiam inspirados, assim como supostas partes das Escrituras, inclusive, e com muita competência, o chamado 'evangelho de Judas';
   - Seus escritos, juntos aos de São Clemente e Santo Inácio de Antioquia, evidenciam a Primazia do Papa e da Igreja de Roma. Ardorosamente, ele sustenta a autoridade única e absoluta do Bispo de Roma: 
    "Para a maior e mais antiga, a mais famosa Igreja, fundada pelos dois mais gloriosos Apóstolos, Pedro e Paulo."
    Também:
    "Os bem-aventurados Apóstolos, portanto, fundando e instituindo a Igreja, entregaram a Lino o cargo de administrá-la como Bispo; a este sucedeu Anacleto; depois dele, em terceiro lugar a partir dos Apóstolos, Clemente recebeu o episcopado." (Contra Heresias I, 2);
   - Se os gnósticos diziam transmitir um conhecimento que obtiveram diretamente de Jesus, Santo Irineu confirma que os Bispos eram conhecidos em suas cidades desde os tempos dos Apóstolos, e que ninguém jamais os havia contestado, fatos que os tornavam os únicos verazes transmissores dos ensinamentos, seguros guias para a interpretação das Escrituras;
    - Sua pesquisa histórica, que listou os primeiros Bispos em todo  mundo cristão, possibilitou a Doutrina da Sucessão Apostólica, que autoriza a Igreja a ordenar, com exclusividade, Bispos, Padres e Diáconos;
    - Teve grande influência sobre a opinião do Papa Vitor, para que comunidades ortodoxas não fossem excomungadas por celebrarem a Páscoa na forma judaica, como faziam os 'quartodecimanos';
    - Visionário, sabia e defendia que o Cristianismo só alcançaria a humanidade se os cristãos respeitassem os Concílios Episcopais;
    - Sustentava que o Mal está no mundo por opção do ser humano, por via do livre arbítrio;
    - Defendia o conceito da Santíssima Trindade, e a mesma essência das três Pessoas: 
    "Já temos mostrado que o Verbo, isto é, o Filho esteve sempre com o Pai. Mas também a Sabedoria, o Espírito estava igualmente junto d'Ele antes de toda a Criação." (Contra Heresias IV,20,4);
    - Defendeu a presença da Trindade no Sacramento do Batismo;
    - Redigiu a Doutrina da Eucaristia:
    "... quando o Cálice de vinho, misturado com a água, e o pão natural recebem a Palavra de Deus, transformam-se na Eucaristia do Sangue e do Corpo de Cristo.";
    - Defendeu a virgindade e a participação de Maria como Co-Redentora da humanidade:
    "Mesmo Eva tendo Adão como marido, ela mantinha-se virgem... Ao desobedecer, Eva tornou-se a causa da morte para si e para toda a raça humana. Da mesma forma que Maria, embora tivesse um marido, mantinha-se virgem, e obedecendo, ela tornou-se causa de Salvação para si e para toda a raça humana." (Contra Heresias III, 22);
    - Sustentava que Maria era Mãe de Deus:
    "A Virgem Maria... sendo obediente à Sua Palavra, recebeu do anjo a Boa Nova de que ela daria à luz Deus". (Contra Heresias V,19,1);
    Era natural de Esmirna, na Turquia, e foi aluno de São Policarpo, que, segundo São Pápias, era discípulo de São João Evangelista e por ele foi ordenado Bispo. Sua formação, portanto, já o qualificava como teólogo perfeitamente abalizado e privilegiada testemunha da História da Igreja.
    Durante a perseguição aos cristãos, perpetrada por Marco Aurélio, Santo Irineu era Sacerdote em Lyon, cidade no sudeste da França, e terminou sucedendo o Bispo São Potínio, que foi martirizado. Mas aí mesmo também ele morreu como mártir, por volta de 202.


    No local foi erguida a Igreja de São João de Lyon, uma das mais antigas da França, mas, destruída e reconstruída várias vezes, passou a chamar-se Igreja de Santo Irineu.
    Durante o banho de sangue que foi a 'Revolução Protestante', seu túmulo foi destruído pelos calvinistas em 1562, e seus restos mortais, profanados. Porém, de uma construção muito antiga, do século IV, ficaram um arco e a cripta, que contém vários epitáfios cristãos expostos nos corredores. Depois de tão abjeta violência, os ossos dos mártires, que foram encontrados, acabaram recolhidos num mesmo relicário.


    Santo Irineu, rogai por nós!