sábado, 9 de junho de 2018

São José de Anchieta, O Apóstolo do Brasil


    Apóstolo significa enviado, e foi um título exclusivo, dado pelo próprio Jesus, àqueles a quem Ele pessoalmente chamou. São Lucas registra: "Ao amanhecer, chamou Seus discípulos e escolheu Doze dentre eles, que chamou de Apóstolos..." Lc 6,13
    Entre eles inclui-se São Paulo, a quem Jesus também pessoalmente chamou para servi-Lo, e ainda São Matias, que foi escolhido para o lugar de Judas Iscariotes, pois era um dos discípulos que desde o começo estivera com Ele, foi enviado entre os 72 (cf. Lc 10,1) e era testemunha de Sua Ressurreição, como orientou São Pedro: "Convém que destes homens que têm estado em nossa companhia todo tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do Batismo de João até o dia em que do nosso meio foi arrebatado, um deles torne-se conosco testemunha de Sua Ressurreição." At 1,21-22
    Por fim, temos que o próprio São Paulo condenou o uso indiscriminado desse título: "Porventura, são todos Apóstolos?" 1 Cor 12,29
    Mas esse 'exagero' no caso do São José de Anchieta, como na história de outros Santos, é uma justificável expressão de bondade. Dos primeiros religiosos a vir à Terra de Santa Cruz, na segunda leva de jesuítas, ano de 1553, o aqui chegado irmão José de Anchieta, de 19 anos, queria ajudar a salvar almas. Na companhia do notável Padre Manuel da Nóbrega, chamado 'Pai do Brasil', ele participou das fundações das cidades de São Paulo de Piratininga e de São Sebastião do Rio de Janeiro, na atualidade as maiores capitais do país.


    Corpo enfermiço, os ares tropicais fariam bem a esse espanhol de ascendência judia, natural de Tenerife, nas Ilhas Canárias, onde se refugiou seu pai, revolucionário, depois de escapar de pena de morte por traição. Ele havia tomado parte de um levante contra o Sacro-Imperador, mas foi poupado graças à interferência de um capitão que iria fundar a Companhia de Jesus. Era Santo Inácio de Loyola, um espanhol extremamente dedicado ao divino projeto da Salvação, a quem José de Anchieta seguiria.


    Nosso Santo aprendia idiomas indígenas com grande facilidade, e assim procurava ir ao encontro de todas nações, o que fez dele o 'Apóstolo do Brasil'. A maledicente opinião de que a Igreja não se importava com as almas dos índios encontra nele a Verdade, que faz calar. Outra informação que contradiz tal mentira, além das já seculares práticas adotadas por muitos setores da Igreja, é a publicação da bula Sublimis Deus pelo papa Paulo III, em 1537, onde ele abertamente declara que todas 'raças' são iguais perante o Criador. A história do Padre Vieira, enfim, outro jesuíta que aqui viveu entre 1614 e 1697, quando faleceu, também põe por terra essa falácia.
    Em dedicação comparável a de um mártir, o irmão Anchieta ofereceu-se com o Padre Nóbrega para irem sós, conseguir acordo de paz com os temíveis tamoios, que eram canibais. Chegou a ficar sozinho em uma de suas tribos, como garantia que eles não seriam atacados após retorno do Padre Nóbrega a Vila de São Vicente, a onde foi confirmar os termos do acordo com as autoridades portuguesas. Sua vida estava em muito delicada situação, pois os nativos guerreiros não eram unânimes em firmar o acordo, que não se restringia às relações como os portugueses, mas principalmente com os tupis, que eram aliados dos brancos e seus inimigos havia séculos.
    Mas até mesmo esse milagre foi por eles alcançado: índios de várias tribos foram vistos abraçando-se na Vila de São Vicente, e aí eram recebidos pelos religiosos e habitantes com se estivessem em casa, embora fosse histórico domínio inimigo. Foi o próprio Anchieta, após ser ordenado padre na Bahia pelo Bispo do Brasil, que deixou registrado estes feitos. Humilde, atribuía-os exclusivamente ao Padre Nóbrega.
    Deixou também um singelo registro do início de suas instalações, que se tornariam a cidade de São Paulo, numa carta que escreveu a Santo Inácio de Loyola. É, simultaneamente, um belo retrato de sua espiritualidade e pobreza: "Aqui fizemos uma pequena casinha de palha, e a estreita porta de cana. As camas são redes que os índios costuram; os cobertores, o fogo, para o qual, acabada a lição à tarde, vamos buscar lenha no mato e trazemos às costas, para passarmos a noite. A roupa é pouca e pobre, sem meias ou sapato, de pano de algodão... A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes, mas raramente, alguns peixinhos do rio, e ainda mais raramente alguma caça do mato."
    A data da fundação da cidade também vem de uma anotação sua: "A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira Missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos nossa casa!"
    Também a fundação da cidade do Rio de Janeiro foi descrita por sua mão: "... logo no dia seguinte, que foi o último de fevereiro ou primeiro de março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para cerca, sem querer saber nem dos tamoyos nem dos franceses. Mas como quem entrava em sua terra... a cerca que tem feita não é mais que um pé a tomar posse da terra... contudo é maior e basta-lhe chamar-se Cidade de São Sebastião para ser favorecida do Senhor, e merecimentos do glorioso mártir..."
    Tanto pela amizade com os indígenas como pelo conhecimento do lugar, São José de Anchieta foi muito importante para o Governador Geral do Brasil na guerra de expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, derrubando a França Antártica. Fundou ainda a cidade de Iritiba, ou Reritiba, no atual Estado do Espírito Santo, hoje chamada de Anchieta, onde faleceu. Posteriormente, porém, seu corpo foi transladado e sepultado em Vitória, a capital.
    Ele ainda tem os títulos de 'Apóstolo do Novo Mundo', 'Pai do Teatro Brasileiro' e de 'Pai da Literatura Nacional', pois, além de registros históricos e de cartas, escreveu sermões, poesias e peças de teatro para a catequização dos índios.


    Era hábil, em prosa e verso, em português, castelhano, latim e tupi. Escreveu o primeiro livro de gramática tupi-guarani, de grande utilidade para o país por muito tempo. Foi Regente dos Colégios Jesuíta no Rio de Janeiro e em Vitória, e Provincial Jesuíta do Brasil por dez anos.


    Conta-se que seu livro Poema à Virgem foi escrito na areia da praia, enquanto era voluntário refém dos tamoios nas tratativas de paz acima mencionadas. São 4172 versos que, semanas mais tarde, como prova de sua prodigiosa memória, ele transcreveu para o papel.
    Ciosamente assumia a tutela dos índios, pois não os queria nem escravos nem entregues aos maus exemplos de portugueses que para cá eram mandados. Suas preces pela Paz em terras brasileiras eram tão intensas que os próprios índios davam relatos de que ele levitava diante dos altares improvisados.
    O manto, usado em seus últimos anos, é uma de suas relíquias.



    O fêmur deste santo e ativo peregrino da Igreja encontra-se exposto para veneração em Vitória, em muito bom estado.


    São José de Anchieta, rogai por nós!