domingo, 9 de junho de 2019

São José de Anchieta, O Apóstolo do Brasil


    Apóstolo significa enviado, e foi um exclusivo título, dado pelo próprio Jesus a quem  pessoalmente chamou. São Lucas registra: "Ao amanhecer chamou Seus discípulos e escolheu Doze dentre eles, que chamou de Apóstolos..." Lc 6,13
    Entre eles inclui-se São Paulo, que Ele também pessoalmente chamou, em aparição, e ainda São Matias, que foi escolhido para o lugar de Judas Iscariotes, pois era um dos discípulos que com Ele esteve desde o começo, foi enviado entre os 72 (cf. Lc 10,1) e era testemunha de Sua Ressurreição, como São Pedro orientou a escolha dos diáconos: "Convém que destes homens que têm estado em nossa companhia todo tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, a começar do Batismo de João até o dia em que de nosso meio foi arrebatado, um deles torne-se conosco testemunha de Sua Ressurreição." At 1,21-22
    Ademais, temos que o próprio São Paulo condenou o indiscriminado uso desse título: "Porventura, são todos Apóstolos?" 1 Cor 12,29
    Mas esse 'exagero' no caso do São José de Anchieta, como na história de outros Santos, é uma justificável expressão de bondade. Dos primeiros religiosos a vir à Terra de Santa Cruz, na segunda leva de jesuítas, ano de 1553, o aqui chegado irmão José de Anchieta, de 19 anos, queria ajudar a salvar almas. Em companhia do notável Padre Manuel da Nóbrega, chamado 'Pai do Brasil', ele participou das fundações das cidades de São Paulo de Piratininga e de São Sebastião do Rio de Janeiro, na atualidade as maiores capitais do país.


    Enfermiço, os ares tropicais fariam bem a esse espanhol de ascendência judia, natural de Tenerife, nas Ilhas Canárias, onde se refugiou seu pai, revolucionário, depois de escapar de pena de morte por traição. Ele havia tomado parte de um levante contra o Sacro-Imperador, mas foi poupado graças à interferência de um capitão que iria fundar a Companhia de Jesus. Era Santo Inácio de Loyola, um espanhol extremamente dedicado ao divino projeto da Salvação, a quem José de Anchieta seguiria.


    Nosso Santo aprendia idiomas indígenas com grande facilidade, e assim procurava ir ao encontro de todas nações, o que fez dele o 'Apóstolo do Brasil'. A maledicente opinião de que a Igreja não se importava com as almas dos índios encontra nele a Verdade, que faz calar. Outra informação que contradiz tal mentira, além das já seculares práticas adotadas por muitos setores da Igreja, é a publicação da bula Sublimis Deus pelo papa Paulo III, em 1537, onde ele abertamente declara que todas 'raças' são iguais perante o Criador. A história do Padre Vieira, enfim, outro jesuíta que aqui viveu entre 1614 e 1697, quando faleceu, também põe por terra essa falácia.
    Em dedicação comparável a de um mártir, o irmão Anchieta ofereceu-se com o Padre Nóbrega para irem sós, conseguir acordo de paz com os temíveis tamoios, que eram canibais. Chegou a ficar sozinho em uma de suas tribos, como garantia que eles não seriam atacados após retorno do Padre Nóbrega a Vila de São Vicente, a onde foi confirmar os termos do acordo com as autoridades portuguesas. Sua vida estava em muito delicada situação, pois os nativos guerreiros não eram unânimes em firmar o acordo, que não se restringia às relações como os portugueses, mas principalmente com os tupis, que eram aliados dos brancos e seus inimigos havia séculos.
    Mas até mesmo esse milagre foi por eles alcançado: índios de várias tribos foram vistos abraçando-se na Vila de São Vicente, e aí eram recebidos pelos religiosos e habitantes com se estivessem em casa, embora fosse histórico domínio inimigo. Foi o próprio Anchieta, após ser ordenado padre na Bahia pelo Bispo do Brasil, que deixou registrado estes feitos. Humilde, exclusivamente atribuía-os ao Padre Nóbrega.
    Também deixou um singelo registro do início de suas instalações, que se tornariam a cidade de São Paulo, numa carta que escreveu a Santo Inácio de Loyola. É um belo retrato de sua espiritualidade e pobreza: "Aqui fizemos uma pequena casinha de palha, e a estreita porta de cana. As camas são redes que os índios costuram; os cobertores, o fogo, para o qual, acabada a lição à tarde, vamos buscar lenha no mato e trazemos às costas, para passarmos a noite. A roupa é pouca e pobre, sem meias ou sapato, de pano de algodão... A comida vem dos índios, que nos dão alguma esmola de farinha e algumas vezes, mas raramente, alguns peixinhos do rio, e ainda mais raramente alguma caça do mato."
    A data da fundação da cidade igualmente vem de uma anotação sua: "A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira Missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo, e, por isso, a ele dedicamos nossa casa!"
    A fundação da cidade do Rio de Janeiro, da mesma forma, foi descrita por sua mão: "... logo no dia seguinte, que foi o último de fevereiro ou primeiro de março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para cerca, sem querer saber nem dos tamoyos nem dos franceses. Mas como quem entrava em sua terra... a cerca que tem feita não é mais que um pé a tomar posse da terra... contudo é maior e basta-lhe chamar-se Cidade de São Sebastião para ser favorecida do Senhor, e merecimentos do glorioso mártir..."
    Tanto pela amizade com os indígenas como pelo conhecimento do lugar, São José de Anchieta foi muito importante para o Governador Geral do Brasil na guerra de expulsão dos franceses do Rio de Janeiro, derrubando a França Antártica.
    Ele ainda tem os títulos de 'Apóstolo do Novo Mundo', 'Pai do Teatro Brasileiro' e de 'Pai da Literatura Nacional', pois, além de históricos registros e cartas, escreveu sermões, poesias e peças de teatro para a catequização dos índios.


    Era hábil, em prosa e verso, em português, castelhano, latim e tupi. Escreveu o primeiro livro de gramática tupi-guarani, de grande utilidade para o país por muito tempo. Foi Regente dos Colégios Jesuíta no Rio de Janeiro e em Vitória, e Provincial Jesuíta do Brasil por dez anos.


    Conta-se que seu livro Poema à Virgem foi escrito na areia da praia, enquanto era voluntário refém dos tamoios nas tratativas de paz acima mencionadas. São 4172 versos que, semanas mais tarde, como prova de sua prodigiosa memória, ele transcreveu para o papel.
    Aqui, trechos do Compaixão da Virgem na Morte do Filho:

    Por que ao profundo sono, alma, tu te abandonas,
    e em pesado dormir, tão fundo assim ressonas?
    Não te move a aflição dessa mãe toda em pranto,
    que a morte tão cruel do filho chora tanto?
    (...)
    Olha como lhe rasga a cerviz rijo espinho,
    e o sangue puro risca a face toda arminho.
    Pois não vês que seu corpo, incivilmente leso,
    mal susterá ao ombro o desumano peso?
    Vê como a dextra má finca em lenho de escravo 
    as inocentes mãos com aguçado cravo.
    Olha como na cruz finca a mão do algoz cego
    os inocentes pés com aguçado prego.
    Ei-lo, rasgado jaz nesse tronco inimigo,
    e c'o sangue a escorrer paga teu furto antigo!
    Vê como larga chaga abre o peito,
    e deságua misturado com sangue um rio todo d'água.
    (...)
    Ergue-te pois e, atrás da muralha ferina
    cheia de compaixão, procura a mãe divina.
    Deixaram-te uma e outro em sinais bem marcada
    a passagem: assim, tornou-se clara a estrada.
    Ele aos rastros tingiu com seu sangue tais sendas,
    ela o solo regou com lágrimas tremendas.
    (...)
    Mas onde te arrastou, mãe, borrasca tão forte?
    que terra te acolheu a prantear tal morte?
    Ouvirá teu gemido e lamento a colina,
    em que de ossos mortais a terra podre mina?
    Sofres acaso tu junto à planta do odor,
    em que pendeu Jesus, em que pendeu o amor?
    Eis-te aí lacrimosa a curtir pena inteira,
    pagando o mau prazer de nossa mãe primeira!
    Sob a planta vedada, ela fez-se corruta:
    colheu boba e loquaz, com mão audaz a fruta.
    Mas a fruta preciosa, em teu seio nascida,
    à própria boa mãe dá para sempre a vida,
    e a seus filhos de amor que morreram na rega
    do primeiro veneno, a ti os ergue e entrega.
    (...)
    Vives ainda, ó mãe, p'ra sofrer mais canseira:
    já te envolve no mar uma onda derradeira.
    Esconde, mãe, o rosto e o olhar no regaço:
    eis que a lança a vibrar voa no leve espaço.
    Rasga o sagrado peito a teu filho já morto,
    fincando-se a tremer no coração absorto.
    Faltava a tanta dor esta síntese finda,
    faltava ao teu penar tal complemento ainda!
    Faltava ao teu suplício esta última chaga!
    Tão grave dor e pena achou ainda vaga!
    Com o filho na cruz tu querias bem mais:
    que pregassem teus pés, teus punhos virginais.
    Ele tomou p'ra si todo o cravo e madeiro
    e deu-te a rija lança ao coração inteiro.
    Podes, mãe, descansar; já tens quanto querias:
    Varam-te o coração todas as agonias.
    Este golpe encontrou o seu corpo desfeito:
    só tu colhes o golpe em compassivo peito.
    (...)
    Ó caminho real, áurea porta da altura!

    Torre de fortaleza, abrigo da alma pura!
    Ó rosa a trescalar santo odor que embriaga!
    Jóia com que no céu o pobre um trono paga!
    (...)
    Ó chaga que és rubi de ornamento e esplendor,
    cravas os peitos bons de divinal amor!
    Ó ferida a ferir corações de imprevisto,
    abres estrada larga ao coração de Cristo!
    Prova do estranho amor, que nos força à unidade!
    Porto a que se recolhe a barca em tempestade!
    Refugiam-se a ti os que o mau pisa e afronta:
    mas tu a todo o mal és medicina pronta!
    (...)
    Ó morada de paz! sempre viva cisterna
    da torrente que jorra até a vida eterna!
    Esta ferida, ó mãe, só se abriu em teu peito:
    quem a sofre és tu só, só tu lhe tens direito.
    (...)
    Por aí entrarei ao amor descoberto,
    terei aí descanso, aí meu pouso certo!
    No sangue que jorrou lavarei meus delitos
    e manchas, delirei em seus caudais benditos!
    Se neste teto e lar decorrer minha sorte,
    me será doce a vida, e será doce a morte!

    Fim


    Ciosamente assumia a tutela dos índios, pois não os queria nem escravos nem entregues aos maus exemplos de portugueses que para cá eram mandados. Suas preces pela Paz em terras brasileiras eram tão intensas que os próprios índios davam relatos de que ele levitava diante dos altares improvisados.
    Ainda fundou a cidade de Iritiba, ou Reritiba, no atual Estado do Espírito Santo, hoje chamada de Anchieta, onde faleceu. Posteriormente, porém, seu corpo foi transladado e sepultado em Vitória, a capital.
    O manto, usado em seus últimos anos, é uma de suas relíquias.



    O fêmur deste ativo e peregrino Santo da Igreja é levado em procissão e exposto para veneração em Vitória.


    São José de Anchieta, rogai por nós!