terça-feira, 25 de julho de 2017

São Cristóvão


    Uma das mais antigas devoções populares da Igreja é voltada a um homem alto e viril, que, antes de tornar-se um virtuoso pregador da Salvação, ajudava as pessoas a atravessar um rio de forte correnteza.
    Era filho de um rei pagão que vivia na Palestina, deu-lhe o nome de Réprobo e dedicou-o ao deus Apolo. Quando cresceu, porém, ele revoltou-se contra as injustiças do mundo, inclusive as do próprio pai, e começou a levar uma vida de andarilho. Por sua estatura e força era respeitado, temido e assediado por vários reis que o queriam como guerreiro ou em sua guarda pessoal, o que ele aceitou algumas vezes, mas, por seu coração sincero, não encontrava Paz na medíocre vida de serviçal de gente ambiciosa e sem escrúpulos.
    Nesses tempos, numa de suas bravatas de brutamonte recém-saído da juventude, jurou para si e para o mundo que só serviria a quem fosse realmente mais forte que ele. Por malícia, alguns homens desprovidos da Graça de Deus sugeriram-lhe servir ao Diabo, e ele, levado por orgulho, de pronto aceitou. Mas tão logo o anjo do mal apareceu-lhe e encaminhava-o para a primeira tarefa, por sua acurada lucidez Réprobo observou que ele tinha medo da Cruz, pois rapidamente desviava-se do caminho sempre que encontrava alguma.
    Quis então conhecer o Evangelho, e acabou decidindo-se por servir a Cristo, que havia enfrentado a terrível morte na Cruz para salvar a humanidade. Para conhecê-Lo ainda mais, foi ao encontro de um sábio eremita cristão que lhe ensinou a mais pura forma de servir a Deus, através da constante prática da oração, da penitência e da caridade. Depois de alguns dias de ascese, porém, ainda irrequieto, Réprobo abandonou as orações e os jejuns, mas mostrando a mesma pureza de coração, ao salvar uma pessoa que se afogava, sentiu a melhor e mais profunda sensação de toda sua vida. E ficou morando à beira do perigoso rio, ajudando moradores locais e viajantes a atravessá-lo.
    Um dia, quando carregava um menino ao ombro, percebeu que seu peso ia aumentando, e muito, à medida que entrava no rio. Comentou então com o menino que se sentia como se estivesse levando o mundo nos ombros, quando Ele respondeu-lhe: "Você não está carregando o mundo, mas o Criador do mundo!" Era o Menino Jesus, e a mensagem que lhe dava era precisa: mesmo depois de abandonar as orações e as penitências, continuava com sua alma agitada por recusar-se a carregar sobre si os pecados do mundo, como fizera Jesus e ensinara-lhe o eremita cristão.
    A partir daquele momento, por tão clara revelação, Réprobo viu que não havia mais como se furtar a essa obrigação.


    Ao relatar esse fato ao eremita, que logo o divulgou entre as pessoas mais próximas, passou a ser conhecido como Cristóvão, do grego Cristóforo, que significa 'aquele que carrega o Cristo'. E à medida que se profundava no conhecimento das Escrituras, tornava-se um grande pregador. Vendo que essa ajuda espiritual era muito mais importante, pois não salvaria apenas vidas, mas almas, deixou então o rio para peregrinar e anunciar o Evangelho nas cidades da Palestina.
    Eram anos de intensa perseguição aos cristãos, entretanto São Cristóvão seguia destemido e levantava a voz nas praças públicas, onde era ouvido por grandes multidões e graças a sua franqueza convertia muita gente.
    No ano de 250, contudo, na cidade de Lícia, na atual Turquia, foi preso por um centurião de Décio, imperador romano. Porém não foi fácil dominá-lo: os primeiros soldados foram repelidos com tamanha força que precisaram de quase 40 homens para acorrentá-lo.
    Preso, mas sem acreditar que se tratava de um sincero religioso, os soldados puseram mulheres em sua cela para que o seduzissem. Com palavras e convicção, no entanto, ele conseguia tocar seus corações e fazia com que abandonassem a prostituição, convertendo-as e batizando-as.
    Surpreso com sua história, o governador da importante cidade de Antioquia ordenou que São Cristóvão fosse violentamente supliciado até renegar sua . E assim ele foi chicoteado, alvejado com flechas nos braços e nas pernas, teve sua pele queimada, mas seguia resistindo com bravura e professando em voz alta seu amor ao Cristo. Ao saber de sua tenaz resistência, o governador, sentindo-se ultrajado, ordenou que ele fosse decapitado.
    Algumas décadas mais tarde, seus restos mortais foram levados para o Egito, mais precisamente para Alexandria, a pedido do Arcebispo Pedro I, seu grande admirador. Com o passar do tempo, porém, elas foram confundidas com as relíquias de São Menas, o que fez com que fossem esquecidas durante muito tempo e assim, no meio eclesiástico, sua história quase desapareceu em definitivo. Mas a devoção popular, sempre muito agradecida por frequentes graças e milagres alcançados através de sua intercessão, generosamente tratou de guardar e divulgar sua memória.


    É um dos 14 Santos Auxiliares, aqueles a quem se clama em casos de graves doenças. É evocado especialmente em casos de peste bubônica e epilepsia. É o Santo protetor contra os perigos de viagem e de tempestade, e padroeiro dos solteiros.
    Seu crânio encontra-se na igreja de Santa Justina, na ilha de Rab, da qual é patrono, que fica na atual Croácia. Essa relíquia teria chegado aí em 809, como presente do patriarca de Constantinopla ao bispo local, e realizou grandes milagres relatados num livro do século XIII, sendo o mais importante quando libertou a cidade de um cerco dos muçulmanos em 1075.


    São Cristóvão, rogai por nós!