sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Santo Ambrósio


    Um dos quatro Doutores Máximos da Igreja, Bispo de Milão, foi o pai espiritual de três imperadores romanos: Graciano, Valentiniano II e Teodósio I. Também foi quem converteu e batizou Santo Agostinho, em 387.
    Era gaulês, descendente de gregos, nascido em 339 em Trier, atual Alemanha. Seu pai era de nobre família de Roma, alto funcionário do império, e acabou indicado por Constantino I para a prefeitura da província romana da Gália, área hoje pertencente a França, mas morreu logo após seu nascimento.
    Sua mãe então voltou a Roma, onde ele recebeu a melhor instrução escolar da época, incluindo, além de gramática e literatura, direito, retórica, teatro e circo. Inteligente, acolhia valiosíssimas instruções do inspirado Sacerdote Simpliciano, que, conforme Santo Agostinho, tornou-se o pai de Santo Ambrósio 'segundo a Graça'.
    Advogado da prefeitura de Milão, que só era menos importante que Roma, foi nomeado conselheiro do pretório em 370, e cônsul de uma província vizinha. Com a morte de Auxêncio, bispo ariano, portanto herético, Santo Ambrósio teve que presenciar a conturbada eleição do novo bispo na qualidade de prefeito de polícia, cuja obrigação era manter a ordem. Mas com tanta Sabedoria fazia suas intervenções que os opositores se uniram e a ele elegeram como bispo. Por humildade quis recusar, pois apenas recentemente se tinha deixado converter ao Catolicismo, e ainda estava na preparação para o Batismo. Sensível, porém, acabou aceitando sem precisar ouvir muitos argumentos: percebeu que aquela era a vontade de Deus. Tinha 40 anos.
    Mais uma vez buscou a direção espiritual de Simpliciano, e aprofundou-se nos estudos da Bíblia. Leu tudo que havia de Santos, papas, bispos e dos Padres da Igreja. Inclusive aprendeu de Orígenes, mas era bastante lúcido para não se deixar enganar por nem seu gnosticismo nem por outras heresias que então surgiam.
    Por tanta erudição, seus sermões impressionaram o genial Santo Agostinho, que, dirigindo-se a Deus, escreveu: "Assim que cheguei a Milão, encontrei o bispo Ambrósio, no mundo inteiro conhecido como um dos melhores, e Teu fiel servidor. Suas palavras ministravam constantemente ao povo a substância de Teu Trigo, a alegria de Teu Óleo e a sóbria embriaguez de Teu Vinho. (...) Comecei a estimá-lo, a princípio, não como mestre da Verdade (...), mas como bondoso homem para comigo. Assiduamente acompanhava suas conversas com o povo, não com a intenção que deveria ter, mas para averiguar se sua eloquência merecia a fama de que gozava, se era superior ou inferior à sua reputação. Suas palavras prendiam-me a atenção. (...) Eu encantava-me com a suavidade de seu modo de discursar; era mais profundo, embora menos jocoso e agradável que o de Fausto, quanto à forma."
    O imperador Teodósio I instalou-se em Milão no ano de 381, onde pôde estreitar relações com Santo Ambrósio, que à época já fundava novas dioceses e ordenava muitos bispos. Mas tal amizade não significa que ele tenha se submetido aos poderes do imperador. Tanto que, quando este ordenou o massacre de Tessalônica, em 388, foi publicamente repreendido por Santo Ambrósio, que o acusou de crueldade, proibiu-o de participar da Santa Missa que celebrava e exigiu que ele se arrependesse e fizesse penitência.


    Indignado, o imperador tentou entrar à força na igreja com toda sua côrte, mas Santo Ambrósio resistiu: "Não ousaria, em sua presença, oferecer o Divino Sacrifício." Teodósio então o lembrou o que fez o rei Davi com os pães da proposição, mas o bispo de Milão perguntou-lhe se aquela boca que deu ordens para massacrar era digna da Hóstia Consagrada. E pediu que ele imitasse Davi não só na transgressão, mas também nas penitências. No Natal de 390, Teodósio compareceu à igreja para confessar-se e cumprir suas penitências.


    Quando Teodósio morreu, Santo Ambrósio testemunhou em fúnebre oração como ele acolheu as severas penitências: "Eu amava este varão porque lhe agradavam mais as repreensões que as adulações. Como imperador, não se envergonhou da penitência pública, e depois chorou seu pecado por todos dias que lhe restaram."
    Nosso Santo também fez oposição à imperatriz Justina e ao seu filho Valentiniano II, que queriam fundar uma igreja para os arianos, e com simples e claros argumentos convenceu-os que isso não passava de heresia. Ainda se opôs ao prefeito de Roma, bem como ao aclamado senado romano, e também os venceu, quando tentaram reintroduzir a estátua de uma deusa pagã, Vitória, na sala de sessões deliberativas. Apontava tal decisão como um injustificável e perigoso retrocesso, e sua serenidade e a superioridade de suas exposições não deixaram margem para dúvidas.
    Quando Graciano assumiu o Império Romano, pediu a Santo Ambrósio que lhe explicasse a Divindade de Jesus, pois seu tio, Valentiniano, era ariano. Santo Ambrósio respondeu-lhe escrevendo um tratado de 5 volumes, onde lhe apresenta todos subsídios para uma completa visão da fé cristã. Mais tarde escreveu-lhe um tratado sobre o Espírito Santo, certamente se antecipando ao macedonismo, outro herético movimento. Com esse documento, decisivamente contribuiu para a compreensão da essência do Divino Paráclito, idêntica à do Pai e à do Filho, e assim para melhor formulação do conceito da Santíssima Trindade.
    Conhecedor dos filósofos gregos, dispôs a Santo Agostinho muitos dos termos dos quais ele iria usar para escrever sua rica abordagem filosófica e teológica do Catolicismo, que o fez Doutor da Igreja. Também foi Santo Ambrósio que pela primeira vez usou os termos que explicavam as naturezas simultaneamente humana e Divina de Jesus, e que seriam confirmados pelos Concílios de Éfeso, em 431, e de Calcedônia, em 451.


    É frequentemente citado pelos papas, como fez o venerável Pio XII na Encíclica 'Sacra Virginitas', de 1954, assim como São Paulo VI, na Exortação Apostólica 'O Culto à Virgem Maria', em 1973, e na Constituição Apostólica 'Paenitemini', em 1966. Seus argumentos também foram adotados na Constituição Pastoral da Igreja do Concílio Vaticano II, a 'Gaudium et Spes', e nas Constituições Dogmáticas 'Dei Verbum' e 'Lumem Gentium'.
    Ainda deixou mais de 90 cartas, vários hinos e melodias para Salmos e antífonas. Criou o Metro Ambrosiano, que emprega 8 estrofes de 4 linhas e pode ser adaptado em vários momentos das celebrações. Compôs várias exegeses e dogmáticas obras, além de outras de moral e ascético cunho, pois, tanto quanto podia, vivia o recolhimento espiritual, e jamais abandonava a penitência. A ele é atribuído o Rito Ambrosiano, permanentemente celebrado nas Santas Missas da Arquidiocese de Milão.
    Cunhou preciosas frases:
    "Onde está Pedro, aí está a Igreja, e onde está a Igreja não reina a morte, mas a Vida Eterna."
    "Em tudo desejo seguir a Igreja de Roma... Não faço mais que seguir o Apóstolo Pedro: estou fielmente ligado à sua piedade."
    "Da mesma forma que Eva foi formada do lado de Adão adormecido, assim a Igreja nasceu do Coração transpassado de Cristo morto na Cruz."
    "Para a pessoa unida a Cristo na Cruz, nenhuma coisa é mais consoladora e gloriosa que consigo trazer os sinais de Jesus Crucificado."
    "A instituição do poder deriva tão bem de Deus, que aquele que o exerce é ele mesmo ministro de Deus."
    "Suas salmodias rivalizam com o murmurar das ondas que levemente se agitam… Que é o canto do mar, senão eco dos cânticos da assembleia cristã?… Enquanto todo povo reza junto, borbulha como o refluxo de espumantes ondas... quando o canto dos homens, das mulheres, das virgens e dos rapazes forma eco aos responsáveis dos salmos como o harmonioso fragor das ondas."

    "No início, davam-se sinais aos não crentes. A nós, porém, na plenitude da Igreja, importa compreender a Verdade. Já não por sinais, mas pela fé."
    "Não é o homem que encontra a Verdade, mas a Verdade que encontra o homem."
    "Se em ti nasce o Filho de Deus, conserva a vida sem culpas."
    "A desastrosa queda daquele antigo Adão esvaziou-nos, mas encheu-nos da Graça de Cristo. Ele despojou-Se a Si mesmo para encher-nos, e para fazer habitar na carne do homem a plenitude da Virtude."
    "Cristo é tudo para nós: se desejares curar tuas feridas, Ele é médico; se estás angustiado pelo ardor da febre, Ele é fonte; se estás oprimido pela culpa, Ele é justiça; se precisas de ajuda, Ele é poder; se tens medo da morte, Ele é Vida; se desejas o Paraíso, Ele é o Caminho; se tens horror às trevas, Ele é Luz; se estás em busca de comida, Ele é Alimento."
    "Um bonito exemplo da conversão (do bom ladrão), pela qual é necessário aspirar: depressa ao ladrão é concedido o perdão, e a Graça é mais abundante que o pedido. Com efeito, o Senhor concede sempre mais que o que se Lhe pede... A Vida é estar com Cristo, porque onde está Cristo, ali está o Reino."
    "Se Deus olhar para nosso espírito e dignar-Se a visitar nossa mente, podemos estar certos de que coisa alguma nos envolverá na escuridão."

    "É tão grande o brilho da Virtude que, para a bem-aventurança de nossa vida, bastam a tranquilidade da consciência e a segurança da inocência."
    "Não há mais urgente dever que o de agradecer."
    "Aquilo que o amor  faz, o medo jamais poderá realizá-lo. Nada é mais útil que se fazer amar."
    "Aquele que luta, tem o que esperar. Onde há luta, há coroa."
    "Chega o momento de esperar em Deus quando tudo que é humano nos escapa."

    "Deus mostrou que a impureza da carne e a nódoa do pecado retiram a Graça espiritual."
    "Eu, que sempre peco, sempre preciso do remédio ao meu alcance."
    "O barco da alma periga muito mais na calma dos gozos que na tormenta das penas."
    "As lágrimas não pedem perdão, mas o alcançam."
    "Ninguém cura a si próprio ferindo o outro."
    "O inimigo de Deus não pode ser amigo do homem."

    "O sábio, para falar, antes medita o que dizer, a quem dizer, em que lugar e tempo."
    "Quem pergunta com má intenção não merece ouvir a resposta."

    "Todas elas (as riquezas) são coisas caducas que se vão mais depressa que vieram. Um tesouro deste tipo não passa de um sonho. Quando acordas, já desapareceu, porque o homem que consegue curar a embriaguez deste mundo e apropriar-se da sobriedade da Virtude, despreza todas estas coisas e não dá valor algum ao dinheiro."
    "Por que nos julgamos donos dos frutos da terra, quanto toda a terra é uma perpétua oferenda?"

    "Volta teu coração para o pobre e paga-lhe o que lhe deves."
    "Não tenhas receio, nem sequer quando sentires que engrandeceste a glória de alguma poderosa família! Sabe olhar profundamente, com atenção, e ela mostrar-se-á vazia se não tiver consigo um mínimo da plenitude da fé."
    "A fecundidade de toda Terra deve tornar-se fertilidade para todos."
    "Bom deveras é o sol, porque serve, ajuda minha fecundidade, alimenta meus frutos. Ele foi-me dado para meu bem, comigo está submetido às canseiras. Comigo geme, para que chegue à adoção dos filhos e à Redenção do gênero humano, para que possamos ser, também nós, libertos da escravidão. Ao meu lado, juntamente a mim louva o Criador, juntamente a mim eleva um hino ao Senhor Nosso Deus. Onde o sol bendiz, ali a terra bendiz, as árvores de fruto bendizem, os animais bendizem, comigo as aves bendizem."
    "Ninguém é excluído da bênção do Senhor, nem sequer os monstros do mar. Até as serpentes louvam o Senhor, porque sua natureza e seu aspecto a nossos olhos revelam alguma beleza e mostram ter sua justificação."

    Aos 67 anos, pouco antes de falecer, indicou Simpliciano para seu sucessor no Bispado de Milão, e justificou a decisão com sua costumeira serenidade: "É velho, mas é bom."
    Deram-lhe o título de 'Apóstolo da Amizade'.


    A Basílica de Milão, uma das mais antigas da cidade, inicialmente chamada Basílica do Martírio e que passou a levar seu nome, por ele foi construída, numa área onde muitos cristãos foram martirizados durantes as perseguições romanas. Seu corpo encontra-se exposto na cripta, junto ao de São Gervásio.


    Santo Ambrósio, rogai por nós!