segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

São Tomás Becket


    Foi amigo de adolescência e juventude de Henrique II, rei de Inglaterra no século XII, mas não pensou duas vezes antes de oferecer-lhe declarada resistência quando ele quis usurpar direitos da Igreja Católica Apostólica Romana, através das leis chamadas 'Constituições de Clarendon'. Era, na ocasião, o Arcebispo de Canterbury, principal diocese britânica, atual sede da igreja anglicana, mas de início teve que fugir para França porque sua vida realmente estava em risco.
    Thomas Becket nasceu na rua Cheapside em Londres, a 21 de dezembro de 1128, filho de Gilbert de Thierville e Matilde de Caen, ambos de Normandia, hoje região no noroeste de França. De algum status, ele foi xerife da cidade, foram enterrados na antiga Catedral de São Paulo, em Londres, que sofreu devastador incêndio em 1666.
    Durante a mocidade, nosso Santo viveu como nobre e era amante da mundana vida, desfrutando de todas regalias de um cortesão em palácios, festas, cavalgadas, falcoaria e caçadas. Foi educado nas melhores escolas, concluindo os tradicionais trivium e quadrivium, e estudou em Paris, na comuna de Auxerre, no sudeste de França, e Bolonha, Itália, a primeira universidade do mundo ocidental. Ao retornar a Londres, por sua inteligência e sensibilidade foi convidado por Teobaldo, Arcebispo da Cantuária, para o representar em importantes missões em Roma. Demonstrou, nesses tempos, um profundo apreço pela Santa Igreja Católica, e tornou-se arcediácono dessa diocese, além de reitor da renomada Escola de Beverly.
    Destacou-se de tal modo por seu brilhantismo nessas funções que foi nomeado por seu amigo, e então rei, Henrique II, para o cargo de Chanceler de Inglaterra. Carisma de muitos papas, seus dons de conciliador fizeram-lhe um excelente diplomata, cargo que exerceu por sete anos. As pretensões de poder do rei, entretanto, afastaram São Tomás da Igreja, levando-o a participar de cobranças de antigos impostos que visavam retirar a autonomia e direitos dos bispos. Evidentemente, o clero ressentiu-se da nova postura assumida por São Tomás, que também havia retornado ao convívio dos nobres e do rei em suas festas, assim como ao mundano comportamento.
    Tão íntimo estava da família real que o próprio rei lhe confiou a educação de seu filho. Mais tarde, ele iria dizer que havia recebido mais amor de São Tomás Becket que do próprio pai.
    Morto Teobaldo, o rei obteve do Papa Alexandre III a concessão para indicar o novo arcebispo, pois Roma tentava melhorar as relações com a corte inglesa. O Papa, porém, bem sabia que seu indicado seria São Tomás, e acreditava, como suscitou João de Salisbury, Bispo de Chartres, França, em sua definitiva conversão quando assumisse as funções do arcebispado, mesmo sob fortes protestos que viriam do clero de Inglaterra.


    O Bispo de Chartres estava certo: os desígnios de Deus cumpriram-se exatamente como o Espírito Santo havia inspirado a Igreja Católica. E frustraram as ambições do rei, que não esperava tamanha transformação como a que se deu em São Tomás. Ele fielmente abraçou a vida de virtudes, praticando a evangélica pobreza e, para se penitenciar, passou a usar grosseiras e desconfortáveis roupas por baixo dos paramentos. Sua ordenação para o sacerdócio e, no dia seguinte, para o arcebispado, no ano de 1162, alguns meses após a morte de Teobaldo, foram as centelhas que fizeram seu coração verdadeiramente arder de amor ao Evangelho.


    Não demorou para que ele pedisse afastamento do cargo de chanceler, e começasse a sonegar os impostos que ele mesmo vinha ajudando a arrecadar em nome do rei. Mas, em outubro de 1163, Henrique II tentou isolar São Tomás, colocando outros bispos ingleses contra ele numa reunião em Westminster, porém sem sucesso, pois ele resistiu com serenidade. Em janeiro de 1164, bastante irritado e sentindo-se traído, o rei convocou uma assembleia no Palácio de Clarendon e apresentou 16 'constituições', que retiravam a independência do clero em Inglaterra e reduzia a autoridade de Roma. Todos bispos, que já vinham sendo pressionados, concordaram e assinaram, exceto São Tomás Becket.
    Sob intensa perseguição por éditos que alcançavam também seus aliados, e até por caluniosos processos a respeito de seus anos como chanceler, São Tomás fugiu para França, onde por seis anos esteve sob a proteção do rei Luís VII, quase dois anos na abadia beneditina cisterciense de Pontigny, comuna no sudeste de Paris. De lá, ele pediu ao Papa a excomunhão de Henrique II e o Interdicto de Inglaterra, ou seja, a excomunhão de todo país por causa do apoio que os bispos lhe davam. Em 1167, por fim, o Papa enviou representantes para resolver o conflito, mas São Tomás recusou-os sob argumento que eles lhe tiravam a autoridade, e que negociar com o rei, sob as condições que ele impunha, ofendia os princípios da Igreja.
    Em 1170, quando o Papa estava prestes a adotar o Intedicto, Henrique II nomeou seu filho como rei de Inglaterra e proclamou-se imperador. São Tomás condenou seu antigo amigo pela dissimulação e contestou a coroação realizada pelo Bispo de York, que só ele, Arcebispo da Cantuária, poderia ter realizado. Acuado, Henrique II propôs-lhe a paz, convidando-o a coroar o príncipe. O Papa Alexandre III instou que São Tomás retornasse e reabrisse as tratativas de paz a partir do território inglês.
    Obediente, ele voltou aclamado pelos fiéis, mas, conhecendo a índole do ex-amigo, bem sabia o que lhe esperava. Dizia a todos: "Voltei para morrer em meio a vós!"


    Contudo, usando de firmeza e em respeito às leis da Igreja, logo ao desembarcar em Kent excomungou todos bispos que haviam pactuado com as 'constituições' do rei, bem como os que haviam tomado parte na coroação do príncipe. Essa atitude foi usada com a gota d'água por Henrique II, que, como já havia planejado, lhe ordenou a morte. No entanto, mesmo sabendo que seria assassinado, São Tomás Becket não quis fugir. Disse: "O medo da morte não deve fazer-nos perder de vista a Justiça."
    Monges da Catedral de Canterbury chegaram a fechar as portas, mas ele mandou que as abrissem: "Não é certo fazer da casa de oração uma fortaleza!"


    Vestiu sua casula e foi para os degraus do altar, cantar as vésperas do Ofício das Horas, quando recebeu quatro violentos golpes de espada de quatro cavaleiros do rei, sem opor resistência. Ao vê-los invadindo, havia-lhes dito: "Pelo Nome de Jesus e pela proteção da Igreja, estou pronto para abraçar a morte." Monges e um visitante, que testemunharam o ataque, também foram feridos.


    Foi nesta ocasião que se descobriu que ele usava um cilício, camisa de rude e incômodo tecido, como um modo de penitência. Tinha 52 anos.
    Em 1173, pouco mais de dois anos depois, portanto em rápida canonização, foi declarado Santo e Mártir pelo Papa Alexandre III. É o Padroeiro do clero secular e da Universidade de Oxford.
    Em 1174, após a rebelião de seus três filhos, inclusive Ricardo, que se tornaria o cruzado cognominado Coração de Leão, Henrique II, tomado de arrependimento, foi a seu túmulo para se penitenciar, porque já se havia tornado lugar de intensa peregrinação por tantíssimas Graças alcançadas. Então levou suas relíquias para a cripta da Catedral da Cantuária, e em 1220 elas foram expostas para veneração na Capela da Trindade, proeminente parte da Catedral, por trás do principal altar.
    Inspirada em sua história, em 1191 foi fundada os Hospitalários de São Tomás de Cantuária em Acre, portuária cidade de Israel, mais conhecidos como Cavaleiros de São Tomás, uma Ordem militar da Igreja Católica, restrita a ingleses, para cuidar de doentes e feridos e sepultar cavaleiros cristãos caídos em batalha na Terra Santa, durante as Cruzadas. Este ativa até 1538, quando foi dissolvida por Henrique VIII, que fundou a igreja anglicana.
    Além de preservar o lugar de seu martírio, há na Catedral da Cantuária uma capela dedicada a sua homenagem, onde a parte de cima de seu crânio, brutalmente decepada durante o assassinato, com muito carinho foi venerada até a 'Reforma' Protestante, quando seu túmulo foi destruído e removido por vândalos.


    A urna que guardou suas relíquias na Capela da Trindade, encontra-se no Museu Victoria e Albert, em Londres.


    Uma relíquia, fragmento de osso seu que estava em Hungria, recentemente foi devolvido a Inglaterra.


    Mas a maior parte delas, corajosamente defendidas por fiéis católicos, seguem sendo veneradas e levadas em procissão durante seu dia pela famosa ponte de Londres e ruas da área.


    São Tomás Becket, rogai por nós!