domingo, 27 de janeiro de 2019

A Igreja de Jesus


A AUTORIDADE

    
Nunca houve dúvida quanto à autoridade que emanava de Jesus, nem mesmo por parte de Seus inimigos. E várias de Suas manifestações foram solenes, nos mais importantes lugares para os judeus, como vemos no Domingo de Ramos: "Dirigiu-Se Jesus ao Templo. E, enquanto ensinava, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo aproximaram-Se e perguntaram-Lhe: 'Com que direito fazes isso? Quem Te deu esta autoridade?'" Mt 21,23
    Segundo São João Evangelista, cujo Evangelho exprime maior rigor cronológico, semelhante questionamento foi feito logo na primeira Páscoa de Sua vida pública: "Perguntaram-Lhe os judeus: 'Que sinal nos apresentas Tu, para procederes deste modo?' Respondeu-lhes Jesus: 'Destruí vós este Templo, e Eu reerguê-lo-ei em três dias.' Os judeus replicaram: 'Em quarenta e seis anos foi edificado este Templo, e Tu hás de levantá-lo em três dias?!' Mas Ele falava do Templo de Seu Corpo. Depois que ressurgiu dos mortos, Seus discípulos lembraram-se destas palavras e creram na Escritura e na Palavra de Jesus." Jo 2,18-22
    Também segundo São Marcos, isso estava patente desde o início Suas primeiras pregações. Os próprios membros da sinagoga de Cafarnaum reconheceram: "Maravilhavam-se de Sua Doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas." Mc 1,22
    De fato, Seu poder ultrapassava os limites do meramente natural: "Ficaram todos tão admirados, que perguntavam uns aos outros: 'Que é isto? Eis um novo ensinamento, e feito com autoridade! Além disso, Ele manda até nos imundos espíritos, e eles obedecem-Lhe!'" Mc 1,27
    Ele mesmo confirmou-o em Sua última aparição, antes de definitivamente ascender aos Céus: "Toda autoridade Me foi dada no Céu e na terra." Mt 28,18
    São João Evangelista testemunhou Sua autoridade nos Céus, narrando no livro do Apocalipse os momentos após a Sua Ascensão: "Eu ouvi no Céu uma forte voz que dizia: 'Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que dia e noite os acusava diante de Nosso Deus.'" Ap 12,10
    E não resta dúvida que Jesus transmitiu Sua autoridade à Igreja, ao instituir o Colégio Apostólico: "Reunindo Jesus os Doze Apóstolos, deu-lhes poder e autoridade sobre todos demônios, e para curar enfermidades." Lc 9,1
    Mas, assim como Ele agia, recomendava a todos que fielmente retransmitissem o projeto de Deus, tal como consta nas Escrituras: "Quem fala por própria autoridade busca a própria glória, mas quem procura a Glória de Quem o enviou é digno de , e nele não há impostura." Jo 7,18
    Mostrava-Se bastante exigente quanto ao emprego dessa autoridade, quando ensinou que sacerdócio é servir: "E Jesus disse-lhes: 'Os reis dos pagãos dominam como senhores, e os que sobre eles exercem autoridade chamam-se benfeitores. Que não seja assim entre vós! Mas o que entre vós é o maior, torne-se como o último; e o que governa seja como o servo.'" Lc 22,25-26
    Pois para o bem do povo de Deus, tal autoridade deve ser exercida com absoluta diligência, sem ocasião para desatenção ou descuido. Ele ensinou em parábola: "Será como um Homem que, partindo em viagem, deixa Sua casa e delega Sua autoridade a Seus servos, indicando o trabalho de cada um, e manda ao porteiro que vigie. Vigiai, pois, visto que não sabeis quando o Senhor da casa voltará, se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã, para que, vindo de repente, não vos encontre dormindo." Mc 13,34-36
    São Paulo, apesar de agir com simplicidade, bem sabia a dimensão de seu ofício ao ministrar os Sacramentos. E rogava a Deus a Graça de dignamente cumprir sua missão, como escreve aos coríntios: "Que os homens nos considerem, pois, como simples operários de Cristo e administradores dos mistérios de Deus." 1 Cor 4,1
    Como ensinou Jesus, ele esclarece aos tessalonicenses: "Não buscamos glórias humanas, nem de vós nem de outros. Na qualidade de Apóstolos de Cristo, poderíamos apresentar-nos como pessoas de autoridade. Todavia, fizemo-nos discretos em meio a vós." 1 Ts 2,6-7
    E sabia da torpe afronta que a Igreja padeceria ao fim dos tempos, como disse a São Timóteo: "Nota bem o seguinte: nos últimos dias haverá um difícil período. Os homens tornar-se-ão egoístas, avarentos, fanfarrões, soberbos, rebeldes aos pais, ingratos, malvados, desalmados, desleais, caluniadores, devassos, cruéis, inimigos dos bons, traidores, insolentes, cegos de orgulho, amigos dos prazeres e não de Deus, ostentarão a aparência de piedade, mas na realidade desdenharão da autoridade. Dessa gente, afasta-te!" 2 Tm 3,1-5
    Mas intransigentemente defendia a Sã Doutrina e a representação do Santo Paráclito: "Por conseguinte, desprezar estes preceitos é desprezar não a um homem, mas a Deus, que nos infundiu Seu Santo Espírito." 1 Ts 4,8
    E Sua ininterrupta presença na Igreja através dos séculos não deveria ser dúvida para ninguém, pois Jesus mesmo garantiu: "E Eu rogarei ao Pai e Ele dá-vos-á outro Paráclito, para que eternamente fique convosco." Jo 14,16
    Penitenciando-se em Cristo, abraçando às intangíveis dores da Cruz, São Paulo dá uma bela explanação da efetividade deste ministério: "Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo em minha carne, por Seu Corpo que é a Igreja. Dela fui constituído ministro em virtude da missão que Deus me conferiu, de anunciar em vosso favor a realização da Palavra de Deus, mistério este que esteve escondido desde a origem às gerações passadas, mas agora manifesto a Seus santos. A estes quis Deus dar a conhecer a riqueza e a Glória deste mistério entre os gentios: Cristo em vós, esperança da Glória! A Ele é que anunciamos, admoestando todos homens e instruindo-os em toda Sabedoria, para tornar todo homem perfeito em Cristo. Eis a finalidade de meu trabalho, a razão porque luto auxiliado por Sua força que em mim poderosamente atua." Cl 1,24-29
    Mas também advertia: "Peço-vos, quando eu estiver presente, que não me veja obrigado a usar de minha autoridade, da qual realmente pretendo usar com certas pessoas que imaginam que nós procedemos com humanas intenções." 2 Cor 10,2
    Ele explicou: "Porque, ainda que vivamos na carne, não militamos segundo a carne. Não são carnais as armas de que usamos em luta. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-o à obediência a Cristo." 2 Cor 10,3-5
    E determinou a São Tito: "Cristo veio para ensinar-nos a renunciar à impiedade e às mundanas paixões, e a viver neste mundo com toda sobriedade, justiça e piedade na expectativa da nossa feliz esperança: a Gloriosa Aparição de Nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que Se entregou por nós a fim de resgatar-nos de toda iniquidade, purificar-nos e constituir-nos Seu povo de predileção, zeloso na prática do bem. Eis o que deves ensinar, pregar e defender com toda autoridade. Tt 2,12-15
    São Pedro é ainda mais contundente: "... o Senhor sabe livrar das provações os piedosos homens e reservar os ímpios para serem castigados no Dia do Juízo, principalmente aqueles que correm com impuros desejos atrás dos prazeres da carne e desprezam a autoridade. Audaciosos, arrogantes, não temem injuriosamente falar das Glórias, enquanto os anjos, embora superiores em força e poder, contra elas não pronunciem injurioso julgamento aos olhos do Senhor." 2 Pd 2,9-11
    São Judas Tadeu, por fim, compara a rebeldia ao Evangelho a dos anjos caídos e a dos habitantes de Sodoma e Gomorra, fazendo recordar a estrita obediência de São Miguel, que agia nos estritos limites das ordens que recebia: "Os anjos que não tinham guardado a dignidade de sua classe, mas abandonado seus tronos, Ele guardou-os nas eternas cadeias das trevas para o Julgamento do Grande Dia. Assim também Sodoma, Gomorra e as cidades circunvizinhas, que praticaram as mesmas impurezas e entregaram-se a vícios contra a natureza, jazem lá como exemplo, sofrendo a pena do eterno fogo. Da mesma forma estes homens, em seu louco desvario, contaminam igualmente a carne, desprezam a autoridade e maldizem as Glórias. Ora, quando o Arcanjo Miguel discutia com o demônio e disputava-lhe o corpo de Moisés, contra ele não ousou fulminar uma sentença de execração, mas somente disse: 'Que o próprio Senhor te repreenda!' Estes, porém, falam mal do que ignoram. Encontram eles sua perdição naquilo que não conhecem, senão de natural modo, à maneira de animais, destituídos de razão." Jd 1,6-10

    
A despeito do que simplesmente imaginamos, portanto, com reverência devemos acatar a Revelação e as manifestações de Deus entre nós, tornando-nos dóceis ao Divino Paráclito. Foi o que declararam os Apóstolos perante o Conselho dos judeus, após a miraculosa libertação da prisão, invocando a obrigação de testemunhar as obras de Deus: "Pedro e os Apóstolos replicaram: 'Importa obedecer antes a Deus que aos homens. O Deus de nossos pais ressuscitou Jesus, que vós matastes, suspendendo-O num madeiro. Deus elevou-O pela mão direita como Príncipe e Salvador, a fim de dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados. Deste fato, nós somos testemunhas. Nós e o Espírito Santo, que Deus deu a todos aqueles que Lhe obedecem.'" At 5,29-32
    Ora, São Pedro aponta duas razões pelas quais fomos chamados pelo Pai e santificados pelo Divino Paráclito: "Pedro, Apóstolo de Jesus Cristo, aos eleitos que são estrangeiros e estão espalhados no Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia, eleitos segundo a presciência de Deus Pai e santificados pelo Espírito, para obedecer a Jesus Cristo e receber a devida parte da aspersão de Seu Sangue." 1 Pd 1,1-2a
    E a obediência a Jesus deve ser incondicional, tanto mais por saber que Ele continua a falar-nos através de Sua Igreja, como explicam os seguidores da tradição de São Paulo: "Guardai-vos, pois, de recusar ouvir Aquele que fala. Porque se não escaparam do castigo aqueles que d'Ele se desviaram quando lhes falava na terra, muito menos escaparemos nós se O repelirmos quando nos fala desde o Céu." Hb 12,25
    Pois a Igreja apenas retransmite a Palavra que Ele lhe comunica através de Seus anjos. Ele incumbiu São João Evangelista de registrar Suas ordens: "Ao anjo da igreja de Éfeso, escreve..." Ap 2,1
    Também garantiu que os Apóstolos seriam ouvidos: "Quem vos ouve, a Mim ouve; e quem vos rejeita, a Mim rejeita; e quem Me rejeita, rejeita Aquele que Me enviou." Lc 10,16
    Foi mais pontual: "Se guardaram Minha Palavra, também hão de guardar a vossa." Jo 15,20b
    E sentenciou: "Se recusa ouvi-los, dize-o à Igreja. E se recusar ouvir também a Igreja, seja ele para ti como um pagão e um publicano." Mt 18,17
    São João Evangelista, de fato, atesta a participação do homem na Salvação dos homens: "Aceitamos o testemunho dos homens." 1 Jo 5,9a
    Pois a Boa Nova vai muito além de meras conveniências entre nós, como escreve São Paulo: "Mas como Deus nos julgou dignos de confiar-nos o Evangelho, falamos não para agradar aos homens e sim a Deus, que sonda nossos corações." 1 Ts 2,4
    Se surgiam divergências a respeito da Sã Doutrina, buscava-se a voz do Espírito de Deus que falava através dos Apóstolos, na sede da Igreja à época: "Originou-se, então, grande discussão de Paulo e Barnabé com eles, e resolveu-se que estes dois, com alguns outros irmãos, fossem tratar desta questão com os Apóstolos e Anciãos em Jerusalém." At 15,2
    E o Divino Paráclito não lhes faltava, como atestou São Tiago Menor na carta em que redigiram a decisão desta questão: "Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do indispensável seguinte..." Ap 15,28
    Tal decisão era sumamente respeitada, sem dissidências, pois assim pregavam São Paulo e São Silvano para que os cristãos seguissem sob os desígnios do Santo Paráclito: "Nas cidades pelas quais passavam, ensinavam que observassem as decisões que haviam sido tomadas pelos Apóstolos e Anciãos em Jerusalém. Assim as igrejas eram confirmadas na fé, e dia-a-dia cresciam em número. Atravessando em seguida a Frígia e a província da Galácia, foram impedidos pelo Espírito Santo de anunciar a Palavra de Deus na província da Ásia. Ao chegarem aos confins da Mísia, tencionavam seguir para a Bitínia, mas o Espírito de Jesus não o permitiu." At 16,4-7
    Obediência que é pura sensatez, porque, como ensina São Pedro, não cabem interpretações pessoais da Bíblia: "Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal. Porque jamais uma profecia foi proferida por efeito de uma vontade humana. Homens inspirados pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus." 2 Pd 1,20-21
    Assim, todos devemos conhecer a Revelação, seja pela Palavra de Deus que teve Seu ápice em Jesus, seja pela inspiração do Divino Espírito derramado como Guia da Igreja desde o Pentecostes sobre Seus eleitos, que efetivamente Lhe obedecem. De fato, São Judas Tadeu fala da Revelação já concluída, da: "... fé, de uma vez para sempre confiada aos Santos." Jd 3b
    E colocar-se contra a Igreja é colocar-se contra o próprio Jesus, como São Paulo foi flagrado pouco antes de converter-se: "Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma Luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: 'Saulo, Saulo, por que Me persegues?' Saulo disse: 'Quem és, Senhor?' Respondeu Ele: 'Eu sou Jesus, a Quem tu persegues.'" At 9,1a.3-5a
    É colocar-se contra o Divino paráclito, como Santo Estevão acusou o Sinédrio: "Homens de dura cerviz, e de incircuncisos corações e ouvidos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo." At 7,51a
    E o motivo desse absurdo ódio está bem claro: é exatamente o inverso do gesto de oferecer-se em sacrifício, como fez Jesus e como devemos fazer na Santa Missa. Nosso Salvador preveniu: "Expulsar-vos-ão das sinagogas, e virá a hora em que todo aquele que vos tirar a vida julgará prestar culto a Deus. Procederão deste modo porque não conheceram o Pai, nem a Mim." Jo 16,2-3
    Em sentido contrário, a verdadeira amizade a Cristo faz-se notar pela boa vontade em ouvi-Lo: "Não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz Seu Senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de Meu Pai." Jo 15,15


    É por amizade a Deus e à Verdade, com efeito, que a Igreja cruza os séculos, como apontou São Paulo: "... sabeis que a família de Estéfanas são as primícias da Acaia e consagraram-se ao serviço dos Santos." 1 Cor 16,15
    Tal ventura sempre será uma fonte de infinita alegria: "Sede contentes e agradecidos ao Pai, que vos fez dignos de participar da herança dos Santos na Luz." Cl 1,12
    É assim, exclusivamente através do Santo Espírito, que se dá a edificação da Igreja: "Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos Santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e Profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É n'Ele que todo edifício, harmonicamente disposto, levanta-se até formar um Santo Templo no Senhor. É n'Ele que também vós entrais, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus." Ef 2,19-22
    Edificação essa que é invencível, como Jesus mesmo prometeu: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    Assim como permanentes são os frutos de Seus Sacerdotes, pois Ele garantiu aos Apóstolos: "Não fostes vós que Me escolhestes, mas fui Eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto, e vosso fruto permaneça." Jo 15,16a
    Nossa verdadeira família, portanto, é constituída daqueles que procuram fazer a vontade de Deus, como Ele afirmou: "Todo aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos Céus, esse é Meu irmão, Minha irmã e Minha mãe." Mt 12,50
    E assim, sem contar os membros que estão se purificando no Purgatório, ela está dividida entre os que já estão nos Céus e nós que estamos na terra. Escreveu o Apóstolo dos Gentios: "Por esta causa dobro os joelhos em presença do Pai, ao Qual deve sua existência toda família no Céu e na terra..." Ef 3,14-15
    Desta forma, ainda segundo ele, não temos nada que ouvir quem não é da Igreja: "Quando algum de vós tem litígio contra outro, como é que se atreve a pedir justiça perante os injustos, em vez de recorrer aos santos? No entanto, quando tendes contendas desse gênero, escolheis para juízes pessoas cuja opinião é tida em nada pela Igreja." 1 Cor 6,1.4
    Essencialmente, devemos sustentar apenas a Igreja: "Quanto à coleta em benefício dos santos..." 1 Cor 16,1
    São Paulo repete essa lição aos gálatas: "Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos homens, mas particularmente aos irmãos na fé." Gl 6,10
    Com efeito, a missão da Igreja já é por demais difícil: "A mim, o mais insignificante dentre todos os santos, coube-me a Graça de anunciar entre os pagãos a inexplorável riqueza de Cristo." Ef 3,8
    E só entre irmãos, pela caridade que se manifesta no mais profundo respeito, é que encontramos os melhores afagos oriundos da errante natureza humana. Ele escreveu a Filêmon: "Tua caridade trouxe-me grande alegria e conforto, porque os corações dos santos encontraram alívio por teu intermédio, irmão." Fl 1,7
    Ele recomenda a companhia dos cristãos ao jovem São Timóteo: "Foge das paixões da mocidade; busca com empenho a justiça, a fé, a caridade, a Paz, com aqueles que invocam o Senhor com pureza de coração." 2 Tm 2,22
    Era o que recomendava o Eclesiástico: "Anda em companhia do povo santo, com os que vivem e proclamam a Glória de Deus." Eclo 17,25
    Só entre os membros da Igreja São João Evangelista via verdadeira Comunhão e purificação: "Se, porém, andamos na Luz como Ele mesmo está na Luz, temos recíproca comunhão uns com os outros, e o Sangue de Jesus Cristo, seu Filho, purifica-nos de todo pecado." 1 Jo 1,7
    E assim louva o salmista: "Ó Deus, nós relembramos Vossa Misericórdia no interior de Vosso Templo." Sl 47,10
    Pois é através dos irmãos que o Espírito Santo nos conforta, intercedendo a Deus por nós, como lemos na Carta de São Paulo aos Romanos: "E Aquele que perscruta os corações sabe o que deseja o Espírito, o Qual intercede pelos santos, segundo Deus." Rm 8,27
    Assim, acolher a Revelação é primeira condição para todas igrejas locais: "Do mesmo modo como em todas igrejas dos santos... Se alguém se julga Profeta ou agraciado com dons espirituais, reconheça que as coisas que vos escrevo são um Mandamento do Senhor." 1 Cor 14,34a.37
    Só então podemos saudar com efetividade nossos irmãos: "Saudai em Jesus Cristo todos os santos." Fl 4,21
    Sem duvida, "... pois todos que são conduzidos pelo Espírito de Deus são filhos de Deus." Rm 8,14


OS PADRES

    Referindo-se à fragilidade da vida carnal, São Pedro deu categórico exemplo do que representa a missão que Cristo lhe confiou: "Se estas virtudes se acharem abundantemente em vós, elas não vos deixarão inativos nem infrutuosos no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Portanto, irmãos, cada vez mais cuidai em assegurar vossa vocação e eleição. Procedendo deste modo, jamais tropeçareis. Tenho por meu dever, enquanto estiver neste tabernáculo, manter-vos vigilantes com minhas admoestações." 2 Pd 1,10.13
    E diz de Seus Sacerdotes, em geral, sejam leigos ou ordenados: "Vós, porém, sois uma raça escolhida, um régio sacerdócio, uma santa nação, um povo adquirido para Deus, a fim de que publiqueis as virtudes d'Aquele que vos chamou das trevas à Sua Maravilhosa Luz." 1 Pd 2,9
    São eles que mantêm a Unidade da Igreja, e por isso foram revestidos com e espelham a Glória de Deus. Jesus rezou ao Pai: "Dei-lhes a Glória que Me deste, para que sejam um, como Nós somos um: Eu neles e Tu em Mim. Para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que Me enviaste e os amaste, como amaste a Mim." Jo 17,22-23
    Ora, não há retroceder perante os carismas e as vocações dados por Deus. São Paulo afirma: "Pois os dons e o chamado de Deus são irrevogáveis." Rm 11,29
    Foi o que São João Batista disse do próprio Jesus: "João replicou: 'Ninguém pode atribuir-se a si mesmo senão o que lhe foi dado do Céu.'" Jo 3,27
    E Ele mesmo vai dizer dos falsos mestres: "Jesus respondeu: 'Toda planta que Meu Pai Celeste não plantou será arrancada pela raiz.'" Mt 15,13
    Eis que o Príncipe dos Apóstolos vai advertir aos Anciãos, também chamados presbíteros, que atualmente são nossos padres: "Eis a exortação que dirijo aos Anciãos que estão entre vós, porque sou Ancião como eles, fui testemunha dos sofrimentos de Cristo e serei participante com eles daquela Glória que há de manifestar-se. Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Dele tende cuidado, não constrangidos, mas espontaneamente; não por amor de sórdido interesse, mas com dedicação; não como absolutos dominadores sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos de vosso rebanho. E quando aparecer o Supremo Pastor, recebereis a imperecível coroa de Glória." 1 Pd 5,1a.2-5
    Citando o Sacramento da Ordenação, antes de subir a Jerusalém, onde seria preso, São Paulo disse algo parecido aos Sacerdotes de Éfeso: "E lembrou aos Anciãos a investidura que haviam recebido: 'Cuidai de vós mesmos e de todo rebanho, sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos para pastorear a Igreja de Deus, que Ele adquiriu com Seu próprio Sangue.'" At 20,28
    Tal hierarquia, de fato, já existia entre os judeus, como acusou Jesus: "Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés." Mt 23,2
    Mas estes apenas parcialmente cumpriam a profecia de Jeremias sobre as ovelhas de Israel, pois sua plena realização viria através da autoridade de Jesus: "Eu estabelecerei pastores para elas, que as apascentarão..." Jr 23,3b
    O livro do Levítico já os instituía, exigindo santidade: "Serão santos para Seu Deus e não profanarão Seu Nome, porque oferecem ao Senhor os sacrifícios consumidos pelo fogo, o Pão de Seu Deus. Serão santos." Lv 21,6
    Por isso pedia o Eclesiástico, intercalando trechos do primeiro Mandamento: "Teme a Deus com toda tua alma, e tem um profundo respeito por Seus sacerdotes. Ama com todas tuas forças Aquele que te criou, e não abandones Seus ministros." Eclo 7,31-32
    E diz o mesmo a Carta aos Hebreus: "Sede submissos e obedecei aqueles que vos guiam, pois eles velam por vossas almas e delas devem dar conta. Assim o farão com alegria, e não a gemer, que isto vos seria funesto." Hb 13,17
    Convenientemente, São Paulo defende a independência material dos Sacerdotes em carta a São Timóteo: "Os presbíteros que bem desempenham o encargo de presidir sejam honrados com dupla remuneração, principalmente os que trabalham na pregação e no ensino." 1 Tm 5,17
    Pede por eles: "Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que arduamente trabalham entre vós para dirigir-vos no Senhor e admoestar-vos. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a Paz entre vós." 1 Ts 5,12-13
    Sustenta a paternidade espiritual dos cristão: "Com efeito, ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais. Ora, fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho." I Cor 4,15
    Mas também exigia: ... aquele que preside, presida com zelo..." Rm 12,6-8
    Eles já estavam bem constituídos, porém, muito antes do auge da carreira de São Paulo: "Os discípulos resolveram, cada um conforme suas posses, enviar socorro aos irmãos da Judeia. Assim o fizeram e enviaram-no aos Anciãos, por intermédio de Barnabé e Saulo." At 11,29-30
    E como reclamava o Último Apóstolo, São Tiago Menor também não admitia que se recorresse a outros líderes que não aos da Igreja: "Está alguém enfermo? Chame os Sacerdotes da Igreja. E estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em Nome do Senhor." Tg 5,14
    Respeitando a hierarquia e instituídos por paróquias, nossos Sacerdotes recebem áreas bem delineadas para cumprir suas funções, do mesmo modo que faziam os Apóstolos, nas palavras de São Paulo: "Assim esperamos levar o Evangelho aos países que ficam além de vós, sem nos gloriarmos das obras realizadas por outros dentro do domínio a eles reservado." 2 Cor 10,16
    E este deve ser o modelo da Igreja missionária, que ainda se expande pelo mundo: "E empenhei-me por anunciar o Evangelho onde ainda não havia sido anunciado o Nome de Cristo, pois não queria edificar sobre fundamento lançado por outro." Rm 15,20


O LUGAR SAGRADO

    Prestar culto a Deus, então, é uma obviedade. O cego curado por Jesus respondeu aos fariseus e chefes dos judeus: "Sabemos, porém, que Deus não ouve a pecadores, mas atende a quem Lhe presta culto e faz Sua vontade." Jo 9,31
    Está inscrito no lido do Êxodo, na sequência dos Dez Mandamentos: "Prestarás culto ao Senhor Teu Deus, e então Eu abençoarei teu pão e tua água, e preservá-te-ei da enfermidade." Ex 23,25
    Não obstante, o Eclesiástico já havia percebido: "Mas o culto de Deus é abominado pelo pecador." Eclo 1,32
    E São Paulo revela o que acontece com aqueles que não praticam a piedade: "A ira de Deus manifesta-se do alto do Céu contra toda impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça aprisionam a Verdade. Porque, conhecendo a Deus, não O glorificaram como Deus, nem Lhe deram graças. Pelo contrário, extraviaram-se em seus vãos pensamentos, e obscureceu-se-lhes o insensato coração. Pretendendo-se sábios, tornaram-se estultos." Rm 1,18.21-22
    A consagração de lugares para os cultos, enfim, não deveria carecer de explicações. Como exemplo desse reverencial amor à Casa de Deus, temos a passagem em que Jesus expulsa os vendilhões: "Encontrou no Templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. Fez Ele um chicote de cordas, expulsou todos do Templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas. Disse aos que vendiam as pombas: 'Tirai isto daqui e não façais da Casa de Meu Pai uma casa de negociantes.' Então se lembraram Seus discípulos do que está escrito: 'O zelo de Tua Casa consome-me (Sl 68,10).'" Jo 2,14-17
    No Evangelho de São Mateus, Suas Palavras foram ainda mais contundentes, usando uma passagem do livro de Jeremias: "... disse-lhes: 'Está escrito: Minha Casa é uma Casa de Oração (Is 56,7), mas vós dela fizestes um covil de ladrões (Jr 7,11)!'" Mt 21,13
    Ele já o havia manifestado desde a infância, quando aos 12 anos ficou em Jerusalém e assim o justificou a Nossa Senhora e São José: "Jesus respondeu: 'Por que Me procuráveis? Não sabeis que devo estar na Casa de Meu Pai?'" Lc 2,49
    Desse a instalação do Tabernáculo no Monte Sião, portanto, esse respeito ao sagrado é cultuado entre os judeus. Canta o salmista: "Ante Vosso Santo Templo prostrar-me-ei, e louvarei Vosso Nome..." Sl 137,2
    Ora, Jesus reverenciava até mesmo as sinagogas, que era uma criação dos fariseus: "Jesus percorria todas cidades e aldeias. Ensinava nas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo mal e toda enfermidade." Mt 9,35
   E até deu este testemunho diante de Pilatos: "Jesus respondeu-lhe: 'Falei publicamente ao mundo. Ensinei na sinagoga e no Templo, onde se reúnem os judeus, e nada falei às ocultas.'" Jo 18,20
    Os Apóstolos deram igual exemplo após a Ascensão do Senhor, até serem definitivamente expulsos: "E permaneciam no Templo, louvando e bendizendo a Deus." Lc 24,53
    Esse ritual inicia-se entre os judeus quando Deus entrega a Jacó, num sonho, o lugar que ele chamaria de Betel, ou seja, Casa de Deus: "Jacó, despertando de seu sono, exclamou: 'Em verdade, o Senhor está neste lugar, e eu não o sabia!' E cheio de pavor ajuntou: 'Quão terrível é este lugar! É nada menos que a Casa de Deus. Aqui é a Porta do Céu!' No dia seguinte, pela manhã, tomou Jacó a pedra sobre a qual repousara a cabeça e erigiu-a em estela, derramando óleo sobre ela. Deu o nome de Betel a este lugar, que antes se chamava Luz. Jacó então fez este voto: 'Se Deus for comigo, se Ele me guardar durante esta viagem que empreendi, e der-me pão para comer e roupa para vestir, e fizer-me voltar em paz à casa paterna, então o Senhor será Meu Deus. Esta pedra da qual fiz uma estela será uma Casa de Deus, e pagarei o dízimo de tudo que Me derdes.'" Gn 28,16-22
    E o próprio Deus disse a Moisés, quando ele se aproximou do Monte Horeb: "Não te aproximes daqui. Tira as sandálias de teus pés, porque o lugar em que te encontras é uma terra santa." Ex 3,5
    A peregrinação à capital, portanto, tornou-se um ato de fé entre os judeus: "Jerusalém, cidade tão bem edificada, que forma  tão belo conjunto! Para lá sobem as tribos, as tribos do Senhor, segundo a Lei de Israel, para celebrar o Nome do Senhor." Sl 121,3-4
    Por isso rezou Davi, quando estava no deserto de Judá: "Quero contemplar-Vos no Templo, para ver Vosso poder e Vossa Glória." Sl 63,3
    O salmista entoa: "Cumprirei meus votos para com o Senhor, na presença de todo Seu povo, nos átrios da Casa do Senhor..." Sl 116, 8-9a
    E atesta a presença dos anjos nos cultos: "Eu louvar-Vos-ei de todo coração, Senhor, porque ouvistes minhas palavras. Na presença dos anjos, eu canto a Ti, e prostro-me ante Vosso Santo Templo. E louvarei Vosso Nome por Vossa bondade e fidelidade, porque acima de todas coisas exaltastes Vosso Nome e Vossa promessa." Sl 137,1-2
    A Igreja de Cristo, porém, como estava previsto pelo Profeta Ageu, revelou-se ainda mais especial que o Templo de Jerusalém: "O esplendor desta Casa sobrepujará o da primeira - Oráculo do Senhor dos Exércitos." Ag 2,9
    O Profeta Isaías também o anunciou: "Naquele tempo, o Rebento de Jessé, que Se ergue como um sinal para os povos, será procurado pelas nações e gloriosa será Sua morada." Is 11,10
    Por isso, São Paulo não vacila em apontar onde devemos prestar culto ao Criador: "... a Ele seja dada Glória na Igreja, e em Cristo Jesus, por todas gerações até a eternidade. Amém." Ef 3,21

    "Lembrai-Vos, ó Pai, de Vossa Igreja!"