E assim foi feita a indicação e a ordenação deles, quando o nome de nosso Santo é citado pela primeira vez, e também se menciona o primeiro não judeu a tornar-se membro da Igreja, chamado Nicolau, que será seguido pelo eunuco, funcionário da rainha da Etiópia (cf. At 8,27), antes mesmo do 'Pentecostes dos Gentios' (cf. At 10,44): "Esse parecer agradou a toda a reunião. Escolheram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo; Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. Apresentaram-nos aos Apóstolos, e estes, orando, impuseram-lhes as mãos." At 6,5-6
O resultado deste capítulo, de fato, foi muito frutuoso para a obra de Deus. Até os sacerdotes judeus convertiam-se: "Divulgou-se sempre mais a Palavra de Deus. Multiplicava-se consideravelmente o número de discípulos em Jerusalém. Grande número de sacerdotes também aderia à fé." At 6,7
Mas nosso diácono acabou por destacar-se exatamente no carisma da catequese, como inspirado evangelizador. Suas prédicas eram irresistíveis, e muitos judeus converteram-se ao ouvi-lo. Desconcertados, alguns helenistas até tentavam debater com ele: "Mas alguns da sinagoga, chamada dos Libertos, dos cirenenses, dos alexandrinos e dos que eram da Cilícia e da Ásia, levantaram-se para disputar com ele. Não podiam, porém, resistir à Sabedoria e ao Espírito que o inspirava." At 6,9-10
Ademais, por ele Deus operava maravilhas: "Estêvão, cheio de Graça e fortaleza, fazia grandes milagres e prodígios entre o povo." At 6,8
E como no 'julgamento' de Jesus (cf. Mt 26,60), arrolaram pessoas para levantar falsos testemunhos, grave pecado condenado nos Dez Mandamentos (cf. Êx 20,16), que foram pagas para incriminá-lo e levá-lo ao Sinédrio: "Então subornaram alguns indivíduos para que dissessem que o tinham ouvido proferir palavras de blasfêmia contra Moisés e contra Deus. Assim amotinaram o povo, os anciãos e os escribas e, investindo contra ele, agarraram-no e levaram-no ao Grande Conselho. Apresentaram falsas testemunhas que diziam: 'Este homem não cessa de proferir palavras contra o santo lugar e contra a Lei. Nós ouvimo-lo dizer que Jesus de Nazaré há de destruir este lugar e há de mudar as tradições que Moisés nos legou.'" At 6,11-14
Nosso Santo, porém, já dava claros sinais da pureza de seu coração: "N'ele fixando os olhos, todos membros do Grande Conselho viram seu rosto semelhante ao de um anjo." At 6,15
E ao inquiri-lo, dele ouviram uma belíssima pregação, expressiva síntese da história do povo de Deus:
"Irmãos e pais, escutai. O Deus da Glória apareceu a nosso pai Abraão, quando ele estava na Mesopotâmia, antes de ir morar em Harã. E disse-lhe: 'Sai de teu país e de tua parentela, e vai para a terra que Eu te mostrar (Gn 12,1).' Ele saiu da terra dos caldeus, e foi habitar em Harã. Dali, depois que lhe faleceu o pai, Deus fê-lo passar para esta terra, em que vós agora habitais. Não lhe deu nela propriedade alguma, nem sequer um palmo de terra, mas prometeu dar-lha em posse, e depois dele à sua posteridade, quando ainda não tinha filho algum. Eis como Deus falou: 'Tua descendência habitará em terra estranha, e será reduzida à escravidão e maltratada pelo espaço de quatrocentos anos. Mas Eu julgarei a nação que os dominar,' diz o Senhor, 'e eles sairão e neste lugar prestá-Me-ão culto' (Gn 15,13s.; Êx 3,12).' E deu-lhe a Aliança da circuncisão.
Assim, Abraão teve um filho, Isaac, e, passados oito dias, circuncidou-o. E Isaac, a Jacó, e Jacó, aos doze patriarcas. Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no ao Egito, mas Deus estava com ele. Livrou-o de todas suas tribulações e deu-lhe Graça e Sabedoria diante do faraó, rei de Egito, que o fez governador de Egito e chefe de sua casa. Sobreveio, depois, uma fome a todo Egito e Canaã. Grande era a tribulação, e nossos pais não achavam o que comer. Porém quando Jacó soube que havia trigo em Egito, pela primeira vez enviou nossos pais para lá. Na segunda, José foi reconhecido por seus irmãos, e ao faraó revelou-se sua origem. Enviando mensageiros, José mandou vir seu pai Jacó com toda sua família, que constava de setenta e cinco pessoas. Jacó desceu a Egito e ali morreu, como também nossos pais. Seus corpos foram trasladados para Siquém, e foram postos no sepulcro que Abraão tinha comprado, a peso de dinheiro, dos filhos de Hemor, de Siquém.
Assim, Abraão teve um filho, Isaac, e, passados oito dias, circuncidou-o. E Isaac, a Jacó, e Jacó, aos doze patriarcas. Os patriarcas, invejosos de José, venderam-no ao Egito, mas Deus estava com ele. Livrou-o de todas suas tribulações e deu-lhe Graça e Sabedoria diante do faraó, rei de Egito, que o fez governador de Egito e chefe de sua casa. Sobreveio, depois, uma fome a todo Egito e Canaã. Grande era a tribulação, e nossos pais não achavam o que comer. Porém quando Jacó soube que havia trigo em Egito, pela primeira vez enviou nossos pais para lá. Na segunda, José foi reconhecido por seus irmãos, e ao faraó revelou-se sua origem. Enviando mensageiros, José mandou vir seu pai Jacó com toda sua família, que constava de setenta e cinco pessoas. Jacó desceu a Egito e ali morreu, como também nossos pais. Seus corpos foram trasladados para Siquém, e foram postos no sepulcro que Abraão tinha comprado, a peso de dinheiro, dos filhos de Hemor, de Siquém.
Aproximava-se o tempo em que se realizaria a promessa que Deus havia jurado a Abraão. O povo cresceu e multiplicou-se em Egito, até que se levantou outro rei em Egito, o qual nada sabia de José. Este rei, usando de astúcia contra nossa raça, maltratou nossos pais e obrigou-os a enjeitar seus filhos para privá-los da vida. Por este mesmo tempo, nasceu Moisés. Era belo aos olhos de Deus e por três meses foi criado na casa paterna. Depois, quando foi exposto, a filha do faraó recolheu-o e criou-o como seu próprio filho. Moisés foi instruído em todas ciências dos egípcios, e tornou-se forte em palavras e obras.
Quando completou 40 anos, veio-lhe à mente visitar seus irmãos, os filhos de Israel. Viu que um deles era maltratado, tomou-lhe a defesa e vingou a injúria que ele padecia, matando o egípcio. Ele esperava que seus irmãos compreendessem que Deus Se servia de sua mão para livrá-los, mas não o entenderam. No dia seguinte, dois dentre eles brigavam, e ele procurou reconciliá-los: 'Amigos', disse ele, 'sois irmãos! Por que vos maltratais um ao outro?' Mas o que maltratava seu compatriota repeliu-o: 'Quem te constituiu chefe ou juiz sobre nós? Porventura queres tu matar-me, como ontem mataste o egípcio?' A estas palavras, Moisés fugiu. E esteve como estrangeiro na terra de Madiã, onde teve dois filhos.
Passados quarenta anos, apareceu-lhe no deserto do Monte Sinai um anjo, nas chamas de um arbusto. Moisés, admirado de tal visão, aproximou-se para examiná-la. E a voz do Senhor falou-lhe: 'Eu sou o Deus de teus pais, o Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó.' Moisés, atemorizado, não ousava levantar os olhos. O Senhor disse-lhe: 'Tira teu calçado, porque o lugar onde estás é uma terra santa. Considerei a aflição de Meu povo no Egito, ouvi seus gemidos e desci para livrá-los. Vem, pois, agora, e Eu enviá-te-ei a Egito.'
Este Moisés que desprezaram, dizendo: 'Quem te constituiu chefe ou juiz?', a este Deus enviou como chefe e libertador pela mão do anjo que lhe apareceu no arbusto. Ele fê-los sair de Egito, operando prodígios e milagres em terra de Egito, no Mar Vermelho e no deserto, por espaço de quarenta anos. Foi este Moisés que disse aos filhos de Israel: 'Dentre vossos irmãos, Deus suscitará um Profeta como eu.' É este que esteve entre o povo congregado no deserto, com o anjo que lhe falara no Monte Sinai e com nossos pais, e que recebeu palavras de Vida para transmitir-nos.
Nossos pais não lhe quiseram obedecer, mas repeliram-no. Em seus corações, voltaram-se para Egito, dizendo a Aarão: 'Faze-nos deuses, que vão diante de nós, porque quanto a este Moisés, que nos tirou da terra de Egito, não sabemos o que dele foi feito.' Fizeram, naqueles dias, um bezerro de ouro e ofereceram um sacrifício ao ídolo, e alegravam-se diante da obra de suas mãos. Mas Deus afastou-Se e abandonou-os ao culto dos astros do céu, como está escrito no Livro dos Profetas (Amós): 'Porventura, Casa de Israel, vós ofereceste-Me vítimas e sacrifícios por quarenta anos no deserto? Aceitastes a tenda de Moloc e a estrela de vosso deus Renfão, figuras que vós fizestes para adorá-las! Assim Eu vos deportarei para além da Babilônia. (Am 5,25ss.)'
A Arca da Aliança esteve com nossos pais no deserto, como Deus ordenou a Moisés que a fizesse conforme o modelo que tinha visto. Recebendo-a nossos pais, levaram-na sob a direção de Josué às terras dos pagãos, que Deus expulsou da presença de nossos pais. E ali ficou até o tempo de Davi. Este encontrou Graça diante de Deus, e pediu que pudesse achar uma morada para o Deus de Jacó. Salomão foi quem Lhe edificou a Casa. O Altíssimo, porém, não habita em casas construídas por mãos humanas. Como diz o Profeta (Isaías): 'O céu é Meu trono, e a Terra, o banquinho de Meus pés. Que casa Me edificareis vós?', diz o Senhor. 'Qual é o lugar de Meu repouso? Acaso não foi Minha mão que fez tudo isto? (Is 66,1s.)'"
At 7,2-50
Mas esta acurada explanação não ficaria sem uma devida cobrança! E Santo Estevão vai acusar o sumo sacerdote e os principais dos judeus de rebelarem-se contra o Espírito de Deus, por conta da violenta perseguição que fizeram à Igreja, e assim a Jesus:
"Homens de dura cerviz, e de incircuncisos corações e ouvidos! Vós sempre resistis ao Espírito Santo. Como procederam vossos pais, também procedeis vós! A qual dos Profetas não perseguiram vossos pais? Mataram aqueles que prediziam a Vinda do Justo, do Qual agora vós tendes sido traidores e homicidas! Vós que recebestes a Lei pelo ministério dos anjos, e não a guardastes...
Ao ouvir tais palavras, esbravejaram de raiva e contra ele rangiam os dentes. Mas, cheio do Espírito Santo, Estêvão fitou o Céu e viu a Glória de Deus, e Jesus de pé, à direita de Deus:
- Eis que vejo, disse ele, os Céus abertos e o Filho do Homem, de pé, à direita de Deus.
Levantaram, então, um grande clamor, taparam os ouvidos e todos juntos atiraram-se furiosos contra ele.
Lançaram-no fora da cidade e começaram a apedrejá-lo. As testemunhas depuseram seus mantos aos pés de um moço chamado Saulo."
At 7,51-58
Esse moço iria tornar-se o grande Apóstolo dos Gentios, São Paulo. Santo Estevão, no entanto, tinha o dom da fortaleza, e em seus últimos momentos não hesitou em seguir Jesus em Seu Sacrifício e palavras, entregando-se, porém, a Ele mesmo, não ao Pai, o que é mais uma prova da divindade de Jesus:
- Senhor Jesus, recebe meu espírito.
Posto de joelhos, exclamou em alta voz:
- Senhor, não lhes leves em conta este pecado...
A estas palavras, expirou."
At 7,59-60
São Lucas também registrou seu funeral, que cristãos lhe deram mesmo sob risco de punições, bem como a expressiva comoção gerada por seu sacrifício: "Contudo, alguns piedosos homens trataram de enterrar Estêvão, e fizeram grande pranto a seu respeito." At 8,2
E ainda deixou claro que São Paulo não era apenas um subordinado neste crime, e registra a perseguição que se levantou contra a Igreja nesse mesmo dia, fato que vai levá-la a espalhar-se pela "Judeia, Samaria e pelos confins do mundo", como Jesus havia determinado instantes antes de Sua Ascensão (cf. At 1,8). Ou seja, o martírio de Santo Estevão não foi uma mera tragédia, pois Deus fez desse acontecimento um marco, um divisor de água na história da Igreja, até então muito centrada na Cidade Santa: "E Saulo havia aprovado a morte de Estêvão. Naquele dia, rompeu uma grande perseguição contra a comunidade de Jerusalém. Todos dispersaram-se pelas regiões de Judeia e de Samaria, com exceção dos Apóstolos." At 8,1
De fato, o Amado Médico anotou sobre essa nova fase, quando a Igreja vai definitivamente abrir-se aos não judeus, como São Pedro havia iniciado na cidade de Cesareia de Felipe (cf. At 10,24): "Entretanto, aqueles que foram dispersados pela perseguição que houve no tempo de Estêvão, chegaram até Fenícia, Chipre e Antioquia, pregando a Palavra só aos judeus. Alguns deles, porém, que eram de Chipre e de Cirene, entrando em Antioquia, dirigiram-se também aos gregos, anunciando-lhes o Evangelho do Senhor Jesus. A mão do Senhor estava com eles e grande foi o número dos que receberam a fé e se converteram ao Senhor. A notícia dessas coisas chegou aos ouvidos da igreja de Jerusalém." At 11,22
Ora, tão marcante foi seu martírio que o próprio São Paulo imediatamente vai recordá-lo e acusar-se, como um peso na consciência e numa clara confissão de culpa, quando Jesus lhe apareceu no caminho de Damasco, fato que provocou sua conversão: "E quando se derramou o sangue de Estêvão, Tua testemunha, eu estava presente, consentia nisso e guardava os mantos dos que o matavam." At 22,20
O Portão de Jerusalém, enfim, diante do qual aconteceu seu apedrejamento, que fica próximo à Basílica de Sant'Ana, passou a levar seu nome.
E sobre a pedra do martírio de nosso Santo, no Vale do Cedrón, no caminho do Monte das Oliveiras, foi erguida uma igreja para devoção à sua santidade.
Relíquias de seus cabelos são veneradas na igreja que leva seu nome em Cleveland, estado de Ohio, em Estados Unidos.
Santo Estevão, rogai por nós!