domingo, 28 de junho de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

Santo Irineu


    Varão Apostólico e profícuo teólogo, foi um dos que muito colaborou para a compreensão da Divina Revelação, cujo ápice é o Advento do Salvador. Ou seja, colaborou para a consolidação da Sagrada Tradição e do Magistério da Igreja, e por isso tem seu nome inscrito na Patrística, a filosofia cristã desenvolvida nos sete primeiros séculos da Santa Igreja Católica, assim chamada em homenagem aos Padres que ajudaram a a elaborar. Também citado como virtuoso escritor cristão, seus livros são um elo de suma importância para entendermos os primeiros capítulos da História da Igreja.
    Eirenaios, que em grego significa pacífico, era natural de Esmirna, em atual Turquia, nascido por volta de 122, e foi aluno de São Policarpo, que, segundo São Pápias (? - 163), era discípulo de São João Evangelista e por ele foi ordenado Bispo. Sua formação, portanto, já o qualificava como teólogo perfeitamente abalizado, além de privilegiada testemunha da História da Igreja.
    Viveu entre os anos de 130 e 202 de nossa era, quando a Igreja Apostólica era brutalmente perseguida pelo Império Romano, mas firmava-se pela Graça de Deus e pelo sangue de seus mártires. Entre outros percalços, aliás, preditos por Jesus (cf. Mt 10,21s, Lc 21,16s, Jo 16,2), Santo Irineu viu-se às voltas com o gnosticismo, uma sensacionalista heresia inventada por 'intelectuais' da época que se apossavam do Cristianismo e misturavam-no com pagãs religiões e filosofias. Tratou de a refutar ponto a ponto com fortíssimos argumentos em sua maior obra: 'Contra Heresias'.
    Também com maestria rebateu outra heresia que grassava em França, o montanismo, inventada por Montana, que se dizia o arauto das 'verdadeiras revelações' feitas por Jesus, oralmente passadas até ele desde 'testemunhas oculares', como se os Apóstolos não tivessem contado a Verdade e os Evangelhos fossem apenas apócrifos. Ele 'profetizava' a iminência do fim do mundo e era seguido por duas 'profetizas' que diziam falar pelo Espírito Santo, exatamente como falsos mestres da modernidade.
    Não é de hoje, portanto, que a História do Ressuscitado é usada em meio a 'verdadeiras' ou 'novas' revelações, que definitivamente não passam de delírios ou tresloucadas teorias, patentes mentiras, e apenas semeiam descrença e dissensão entre os católicos, diabolicamente atacando a Unidade do Corpo Místico de Cristo. Mas a poderosa mão de Deus, que providencialmente agiu na obra de Santo Irineu entre outros legítimos cristãos, fez com que a autêntica mensagem de Cristo, assim como sua inequívoca interpretação, sobrevivessem sem distorções.
    Assim a Igreja Una, constituída de homens (cf. 2 Cor 4,7) mas iluminada pelo Espírito de Deus (cf. Jo 16,13), sempre cumpriu seu papel através dos séculos, agindo com firmeza e coragem. Pudera, o próprio Jesus é Quem a edifica, e os poderes do Maligno não podem vencê-la, como Ele mesmo assegurou no Evangelho Segundo São Mateus: "... tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    Aos incautos que a acusam de se ter desencaminhado, como explicam que o Divino Espirito Santo nunca a tenha abandonado? No Evangelho Segundo São João, Nosso Salvador prometeu: "E Eu rogarei ao Pai e Ele dá-vos-á outro Paráclito, para que eternamente fique convosco." Jo 14,16
    São, portanto, os históricos registros e os teológicos argumentos do Santo de Lyon que elucidam estes tão marcantes e decisivos anos, embora também tumultuados. E a Tradição Oral, mais conhecida como Sagrada Tradição, que é a verdadeira interpretação das Escrituras, tal como revelada por Jesus e testemunhada pelo Espírito Santo, tem em Santo Irineu um valoroso clarão, pois, a seu tempo, ela já contava mais um século de prática, ainda que carente de alguma documentação. Como hoje, as várias, tendenciosas e heréticas interpretações causavam confusões e conflitos, mas ele tratou de buscar as melhores fontes e assim ratificou o que a Igreja Católica Apostólica Romana vinha praticando.


    Vamos a uma rápida lista da Luz que nos chegou através dele:
    - Consolidando os ensinamentos de São Policarpo, que era Padre Apostólico, ele testemunhou o reconhecimento canônico dos quatro Evangelhos:

    "Mateus compôs o Evangelho para os hebreus em sua língua, enquanto Pedro e Paulo em Roma pregavam o Evangelho e fundavam a Igreja." (Contra Heresias II, 1,1)
    "Depois de sua morte, Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, também nos transmitiu por escrito o que Pedro tinha pregado. Assim mesmo Lucas, o companheiro de Paulo, consignou num livro o Evangelho pregado por este. Enfim, João, o discípulo do Senhor, o mesmo que reclinou sobre Seu peito (cf. Jo 13,25), também publicou o Evangelho quando de sua estada em Éfeso. Ora, todos esses homens legaram a seguinte doutrina: 'Quem não lhes dá assentimento, despreza aqueles que tiveram parte com o Senhor, despreza o próprio Senhor, despreza, enfim, o Pai (cf. Lc 10,16). E assim condena a si mesmo, pois resiste e se opõe a sua Salvação, e é o que todos hereges fazem.'" (Contra Heresias)

    - Ao combater o gnosticismo, a maior parte de seus escritos acabou por registrar as teológicas razões de algumas tradições que já estavam em curso na Igreja de Deus Vivo, demonstrando que desde cedo a 'Barca de Pedro (cf. Lc 5,3)' vinha consolidando a Sã Doutrina. Provava assim, e cabalmente, que essa heresia era apenas um conjunto de seitas, muitas delas até incompatíveis entre si. E usando os quatro Evangelhos, rebatia os fundamentos flagrantemente equivocados desse movimento.
    - Depois de Santo Irineu, todos quatro Evangelhos passaram a ser reconhecidos, sem as antigas preferências por um ou por outro, como acontecia em algumas regiões (cf. 1 Cor 3,4);
    - Como prova da canonicidade do Novo Testamento, seus escritos mencionam 21 dos 27 livros, confirmando assim que a Igreja Viva, bem antes do fim do século II, já tinha decidido em definitivo quais livros eram realmente inspirados e quais eram meros apócrifos;
    - Ele chamava de Escrituras também o Novo Testamento;
    - Escreveu importantes comentários demonstrando a vontade de Deus desde o Antigo Testamento até as pregações de Jesus;
    - Fez vários e brilhantes ensaios teológicos sobre o Evangelho Segundo São João e sobre a Santa Eucaristia, que ainda hoje são estudados;
    - Também comentou, e profundamente, os ditos de Jesus e as Cartas de São Paulo;
    - Reuniu a Doutrina dos Apóstolos em uma só obra: "Exposição ou Prova do Ensinamento Apostólico";
    - Observou a unanimidade da Sagrada Tradição praticada através dos tempos por igrejas muito distantes, e usou-a como definitivo argumento para provar a existência da Doutrina Cristã, que é única e verdadeira;
    - Muitos de seus textos sobreviveram graças à frequência com que foi citado por ilustres mestres, como Santo Hipólito e Eusébio de Cesareia, que foi Bispo e pai da História da Igreja;
    - Rejeitou com sólidos e incontestes argumentos vários textos que se pretendiam inspirados, assim como supostas partes das Escrituras, inclusive, e com muita competência, o chamado 'evangelho de Judas';
   - Seus escritos, juntos aos de São Clemente e Santo Inácio de Antioquia, evidenciam a Primazia do Papa e da Igreja de Roma. Ele ardorosamente sustenta a autoridade única e absoluta do Bispo de Roma

    "Para a maior e mais antiga, a mais famosa Igreja, fundada pelos dois mais gloriosos Apóstolos, Pedro e Paulo."

    Também:

    "Os bem-aventurados Apóstolos, portanto, fundando e instituindo a Igreja, entregaram a Lino o encargo de a administrar como Bispo. A este sucedeu Anacleto. Depois dele, em terceiro lugar a partir dos Apóstolos, Clemente recebeu o episcopado." (Contra Heresias I, 2);

   - Se os gnósticos diziam transmitir um conhecimento que obtiveram diretamente de Jesus, Santo Irineu confirma que os Bispos eram conhecidos em suas cidades desde os tempos dos Apóstolos, e que ninguém jamais os havia contestado, fatos que os tornavam os únicos verazes transmissores dos ensinamentos, seguros guias para a interpretação das Escrituras. Aliás, como o próprio São Paulo atestava ter recebido seu Ministério (1 Cor 15,3);
    - Sua pesquisa histórica, que listou os primeiros Bispos em todo mundo cristão, possibilitou a Doutrina da Sucessão Apostólica, que através dos tempos tem autorizado a Igreja a conceder, com exclusividade, o Sacramento da Ordenação a Bispos, Padres e Diáconos;
    - Teve grande influência sobre a opinião do Papa Vitor, para que comunidades 'ortodoxas' não fossem excomungadas por celebrarem a Páscoa na forma judaica, como os 'quartodecimanos' faziam;
    - Visionário, sabia e defendia que o Cristianismo só alcançaria a humanidade se os cristãos respeitassem os Concílios Episcopais, exatamente como São Paulo, São São Timóteo e São Silas já recomendavam (cf. At 16,4), desde o Primeiro Concílio de Jerusalém (cf. At 15,6);
    - Sustentava que o Mal está no mundo por opção do ser humano, por via do Livre Arbítrio (cf. Tt 3,11);
    - Defendia o conceito da Santíssima Trindade, e a mesma essência das Três Divinas Pessoas: 

    "Já temos mostrado que o Verbo, isto é, o Filho sempre esteve com o Pai. Mas também a Sabedoria, o Espírito igualmente estava junto a Ele antes de toda Criação." (Contra Heresias IV,20,4);

    - Defendeu a presença da Trindade no Sacramento do Batismo (cf. Mt 28,19);
    - Redigiu a Doutrina da Eucaristia, atestando a Transubstanciação (cf. Jo 6,55):

    "... quando o Cálice de vinho, misturado à água, e o pão natural recebem a Palavra de Deus, transformam-se na Eucaristia do Sangue e do Corpo de Cristo.";

    - Defendeu a virgindade e a participação de Maria Santíssima como Co-Redentora da humanidade:

    "Mesmo Eva tendo Adão como marido, ela mantinha-se virgem... Ao desobedecer, Eva tornou-se a causa da morte para si e para toda raça humana. Da mesma forma que Maria, embora tivesse um marido, mantinha-se virgem, e obedecendo, ela tornou-se causa de Salvação para si e para toda raça humana." (Contra Heresias III, 22);

    - Sustentava que Maria era Mãe de Deus:

    "A Virgem Maria... sendo obediente a Sua Palavra, recebeu do anjo a Boa Nova de que ela daria à luz Deus". (Contra Heresias V,19,1);

    Durante a perseguição aos cristãos, perpetrada pelo imperador Marco Aurélio, Santo Irineu era Sacerdote em Lyon, comuna no sudeste de atual França, e terminou sucedendo o Bispo São Potínio, que foi martirizado. Mas aí mesmo ele também morreu como mártir, por volta de 202. Além de primeiro Padre Grego, que junto aos Padres Latinos e Padres do Deserto elaboraram a Patrística, é Doutor da Igreja, com o título de "Doctor Unitatis", Doutor da Unidade.


    No local de seu sacrifício foi erguida a Igreja de São João de Lyon, uma das mais antigas de França, mas, destruída por heréticos e reconstruída por católicos várias vezes, passou a chamar-se Igreja de Santo Irineu.
    Durante o banho de sangue causado pela Revolução Protestante, do qual covardemente pouco se fala, seu túmulo foi destruído por ensandecidos calvinistas em 1562, e seus restos mortais, profanados. Porém, de uma muito antiga construção, do século IV, ficaram um arco e a cripta, que contém vários epitáfios cristãos expostos nos corredores. Depois de tão abjeta violência, os ossos dos mártires, que foram encontrados, acabaram recolhidos num mesmo relicário.


    Santo Irineu, rogai por nós!