quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

Santa Hildegarda

 

    Doutora da Igreja, Hildegard von Bingen nasceu na cidade de Bermersheim vor der Höhe, do atual estado de Renânia-Palatinado, centro oeste de Alemanha, em desconhecida data do verão de 1098. Seus pais eram Hildebrecht von Hosenbach e Mechtild von Merxheim, da pequena nobreza, e assim teve privilegiada infância, a não ser por uma doença que a deixava acamada.
    Nessa condição de fraqueza e dor, começou a ter esplendorosas visões, de incomuns imagens, luzes e sons, ainda aos 3 anos, e mais intensamente dos 8 aos 15, que relatava com impressionante compreensão e deixava a todos muito admirados. Ela descrevia-as como 'lux vivens', luz vivificante. Aos oito anos, por seus pais foi apresentada como oblata, costume à época, e recebeu sólida instrução religiosa de Jutta von Sponheim, Freira que vivia em clausura numa cela de pedra do pequeno e feminino eremitério, 'inclusorium', junto ao Mosteiro Beneditino de Disibodenberg, hoje em ruínas. Nossa Santa sempre foi muito carismática e, por força de suas constantes visões, tocada pela mística, pela transcendental percepção da realidade.


    Aí rezou, estudou e trabalhou por trinta anos. Muitas outras moças juntaram-se a elas, e quando Jutta morreu em 1136, por unanimidade Hildegarda foi escolhida superiora. Há muito poucas informações sobre esse período, exceto que sua enfermidade e as visões continuaram. Sobre visões, só falava com Jutta, que como superiora teve que se reportar a um Monge, Volmar, cujo encargo era supervisioná-las e ministrar-lhes os Sacramentos.
    À frente do eremitério, Santa Hildegarda houve por bem moderar a prática do ascetismo, essencial princípio do monasticismo. Entre outras coisas, amenizou as regras alimentares e encurtou os longos períodos de oração e culto. Observava maior progresso ao estimular a espontânea espiritualidade, mas atentamente acompanhando a religiosidade de cada irmã.
    Em 1141, uma voz, que mais tarde ela identificou como do Espírito Santo, deu-lhe ordem para escrever suas visões e audições, como registrou em sua obra Liber Sci Vias, ou Sci Vias Domini, 'Conheça os Caminhos do Senhor': "Mas eu, embora ouvisse essas coisas, recusei-me por muito tempo a as escrever, por dúvida e descrença, e por causa da variedade de palavras humanas. Não por teimosia, mas porque segui a humildade, e isso continuou até que o flagelo de Deus me atingiu e eu caí num leito de enfermo. Então, finalmente, movida por várias doenças (...), dediquei-me à escrita. Ao fazê-lo, senti (...) o profundo significado da Sagrada Escritura, e assim me ergui da doença pela força que recebi e levei esta obra a sua conclusão, exatamente assim, em dez anos. (...) E falei e escrevi essas coisas não por invenção de meu coração ou de qualquer outra pessoa, mas através dos secretos mistérios de Deus, conforme os ouvi e recebi dos celestiais lugares. E novamente ouvi uma voz do Céu, e ela disse-me: 'Levanta tua voz e assim escreve!'"


    Eram visões e ideias teológicas e antropológicas, que se tornaram muito mais consistentes. Não eram mais luzes, imagens, sons e esparsas palavras, mas inspiração, infusão de entendimento dos assuntos da Sã Doutrina. Ainda hesitou sobre sua origem divina, e escreveu a São Bernardo de Claraval, que a tranquilizou mas igualmente recomendou cautela.
    Também foi estimulada e auxiliada por Volmar para que escrevesse, pois o Abade do mosteiro deu-lhe autorização. Liber Sci Vias trata sobre Deus e toda Criação, a Igreja Católica Apostólica Romana, o Demônio e toda história da Salvação. O primeiro a ler partes desta obra foi o Abade de Disibodenberg, depois o Arcebispo de Mainz seguido de São Bernardo, e enfim o próprio Papa Beato Eugênio III, que solenemente leu trechos durante Sínodo de Reims, comuna no nordeste de França. Um ano antes, em 1147, dele já havia recebido permissão para publicar suas inúmeras visões.
    Entre 1147 e 1150, Santa Hildegarda fundou o Mosteiro de Rupertsberg, na cidade de Bingen am Rhein, nas ruínas de um mosteiro erguido sobre a tumba de São Ruperto de Bingen, destruído no século IX. Aí também foi eleita Mestra. E como o número de Freiras cresceu, em 1165 adquiriu o Mosteiro Agostiniano de Eibingen, que estava vazio, e fundou um mosteiro-filha. Ela sempre se fazia presente em ambos mosteiros, e o povo local também ia ouvi-la e obter tratamento de enfermidades.


    Seu destaque, sem autoridade acadêmica, causaram-lhe problemas. Alguns acusavam-na de estar louca. Por volta de sessenta anos, realizou quatro longas viagens pela área rural, pregando tanto para o Clero como para os leigos, com aprovação do próprio Papa, apesar do que a Primeira Carta de São Paulo a São Timóteo diz, pois proíbe as mulheres de ensinar, ainda que se referindo aos cultos (cf. 1 Tm 2,12)! Assim, ela foi a primeira Freira a pregar publicamente ao povo em importantes cidades como Metz, em França, e Mainz, Wurzburgo, Bamberg, Trier, Bonn e Colônia, todas em terras de Alemanha. E apesar da idade, continuou pregando em vários mosteiros.
    Papas, Cardeais, Arcebispos, Bispos, Padres, Abades, Abadessas, Religiosos, Religiosas, imperadores, reis príncipes e membros da nobreza queriam ouvir seus conselhos, pedir explicações das Escrituras, teológicos esclarecimentos dos divinos mistérios e questões sobre o futuro. Solicitações que muitas vezes atendeu por meio de. correspondência. Mais de 300 cartas foram preservadas. Oportunamente também dava claras advertências. Sempre fiel à ortodoxia do Catolicismo, suas francas palavras e até admoestações a papas e reis não tinham paralelo na história, e sempre eram notáveis. Abertamente pregou contra heresias e a corrupção do Clero, por usurpar a Santa Madre Igreja (cf. Gl 4,26), vender ofícios, viver em luxo e até prazeres sexuais, que ela pelo dom da ciência sabia. Seus ensinamentos morais fascinavam não apenas as Freiras, mas também Monges e leigos, mesmo entre os nobres. Ainda em vida, muitos tratavam-na como Santa, mas ela, consciente da infinita grandeza das obras de Deus, humildemente se descrevia como 'ignorante'.
    Suas obras, várias e extensas, em síntese tratam de religião, cosmologia, medicina, ética e música. Apresentam uma mística concepção do Universo, revelando mistérios do homem e da natureza. Três obras teológicas deram-lhe grande autoridade. A primeira, como dissemos, e a principal, Liber Sci Vias Domini, é doutrina de  cuja cosmovisão e visão do ser humano se mostram inseparáveis da concepção de Deus. Filosófica e teologicamente corresponde à Doutrina da Igreja fundada por Jesus e é apresentada em 26 visões. Após terminada, o Papa Eugênio III aprovou-a, o que fez dela a primeira mulher a receber a confirmação papal como autoridade em assuntos teológicos.
    A segunda, Liber Vitae Meritorum, 'Livro dos Méritos da Vida', trata de ética sob místico aspecto, contrastando 35 vícios e virtudes para que conscientemente participemos das celestes Paz e Glória. Baseada em sua própria experiência como diretora espiritual, discorre sobre psicologia moral e penitência em abrangente visão Cristológica. A terceira, Liber Divinorum Operum, 'Livro das Divinas Obras', retrata sua visão do mundo e da humanidade. Descreve a Criação sob o medieval conceito de microcosmo e macrocosmo, em que o Livre Arbítrio dispõe de natureza e Graça, mundo e Igreja, corpo e alma. Nossa Santa une visão e doutrina, religião e ciência, carismática exultação e profética indignação.
    Também escreveu duas obras sobre história natural e medicina, entre 1150 e 1160, e é considerada a primeira médica de Alemanha a escrever, embora fosse academicamente leiga. Liber Simplicis Medicinae, ou Physica, e Liber Compositae Medicinae, ou Causae et Curae, são um grande tratado sobre muitas doenças e o modo de as curar com o uso de plantas, ervas, partes de animais e preciosas pedras. São observações da natureza com científica objetividade até então desconhecida, especialmente sobre as plantas medicinais. Na obra Physica, sobre botânica descreveu as funções de mais de 200 plantas. Em toda sua obra, foram estudadas 485 plantas.
    Escreveu outro tratado médico, Liber Subtilitatum Diversarum Naturarum Creaturarum, 'O Livro dos Segredos das Várias Naturezas das Criaturas', onde figura a inovadora e brilhante ideia de acrescentar o lúpulo ao processo de produção de cerveja, desde então adotado em todo mundo, descrevendo-o como ingrediente de qualidades conservantes e capacidade calmante, ótimo para o sono e o relaxamento do sistema nervoso. Teve as primeiras ideias hoje chamadas de 'detox', cuidando da saúde com o reforço da imunidade e a desintoxicação regular. Ensinava que todo excesso alimentar intoxica o organismo e produz tristeza.
    Escrevia peças de teatro para entretenimento das Monjas e para encenar suas visões. Compôs muitas canções, que foram entoadas em muitos lugares de Europa. Cantica Exstasis, 'Cânticos de Êxtase' tem um espectro de músicas vocais que inclui antífonas, responsórios, hinos, sequências de um Kyrie, 'Senhor', um Aleluia e duas sinfonias. Symphonia Armonie Celestium Revelationum, 'Sinfonia da Harmonia das Celestiais Revelações', contém 77 cantos litúrgicos. Ordo virtutum, 'Jogo de Forças', é uma alegórica luta entre as virtudes e os vícios por meio de cantos. Em geral, sua obra musical tem um especial lugar no Canto Gregoriano. Para ela, a alma humana é 'sinfônica', a música faz parte da profunda natureza do espírito, pela qual o ser humano pode recordar a harmonia celestial e os "divinos doçura e louvor pelos quais Adão estava com os anjos."
    Ademais, Santa Hildegarda de Bingen inventou a Lingua Ignota, 'Idioma Desconhecido', com um alfabeto de 23 letras e 1011 palavras, que era secreta, mística, para falar com as religiosas no mosteiro e exprimir divinas visões, pois as palavras em latim lhe eram insuficientes para descrever suas celestiais experiências.
    São palavras suas, que não devem ser lidas com as atuais e recorrentes ansiedade e objetividade:

    "Escutem: era uma vez um Rei sentado em Seu trono. A seu redor, erguiam-se grandes e maravilhosamente belas colunas, ornamentadas com marfim, ostentando com grande honra as bandeiras do Rei. Então, aprouve ao Rei levantar uma pequena pena do chão e ordenou que voasse. A pena voou, não por algo em si mesma, mas porque o ar a carregava. Assim sou eu, uma pena no Sopro de Deus."
    "... meus pais consagraram-me a Deus com suspiros, e em meu terceiro ano vi uma tão grande Luz que minha alma estremeceu..."
    "Essas visões que vi não foram durante o sono nem em sonhos, nem em minha imaginação, nem através dos olhos corporais ou ouvidos externos, nem em um lugar escondido. Mas em consciente observação, com os puros olhos da mente e o interno ouvido do coração."
    "O que não vejo, não sei. Simultaneamente vejo, ouço e sei, e aprendo o que sei como se fosse num instante."
    "E vi um Homem cheio de Luz emergir da mencionada aurora e derramar Seu brilho sobre a mencionada escuridão. Ela repeliu-o. Ele ficou vermelho-sangue e pálido, mas revidou contra a escuridão com tanta força que o homem que estava deitado na escuridão tornou-se visível e resplandecente."
    "Eu recebo todas criaturas do mundo com Graça."
    "Todas vivas criaturas são centelhas da radiação do brilho de Deus, emergindo de Deus como os raios do sol."
    "Cada criatura é um brilhante e cintilante espelho da Divindade."
    "A Palavra é viva, é ser, é espírito, é toda verdejante vegetação, é toda criatividade. Esta Palavra manifesta-se em cada criatura."
    "Despertaremos de nossa inércia e vigorosamente nos ergueremos em direção à Justiça. Se nos apaixonarmos cada vez mais pela Criação, responderemos a seu perigo com paixão."
    "Humanidade, olha bem para ti mesma. Dentro de ti, tu tens o céu e a Terra, e toda Criação. Tu és um mundo, tudo está escondido em ti."
    "Com a ajuda da natureza, a humanidade pode colocar na Criação tudo que é necessário e sustentável para a vida."
    "A Terra é, ao mesmo tempo, mãe. Ela é mãe de tudo que é natural, mãe de tudo que é humano. Ela é mãe de tudo, pois nela estão contidas as sementes de tudo. A terra da humanidade contém toda umidade, toda vegetação, todo germinativo poder. Ela é, de muitas maneiras, fecunda. Toda Criação provém dela. No entanto, ela constitui não apenas a matéria-prima básica para a humanidade, mas também a substância da Encarnação do Filho de Deus."
    "A Terra que sustenta a humanidade não deve ser ferida. Não deve ser destruída! Assim como os elementos, os elementos do mundo são violados por maus-tratos. Deus purificá-los-á por meio dos sofrimentos, por meio das dificuldades da humanidade."
    "A humanidade encontra-se em meio ao mundo. Entre todas outras criaturas, a humanidade é a mais significativa e, ainda assim, a mais dependente das demais."
    "Não podemos viver num mundo que não é o nosso, num mundo que é interpretado para nós por outros. Um mundo interpretado não é um lar. Parte do terror é retomar nossa própria escuta, usar nossa própria voz, ver nossa própria luz."
    "A pessoa verdadeiramente Santa acolhe tudo que é terreno."
    "Tu és a montanha e o vale."
    "Ousa declarar quem tu és. Não estás longe das margens do silêncio até os limites da fala. O caminho não é longo, mas é profundo. Tu não deves apenas caminhar por lá, deves estar preparado para saltar."
    "O mistério de Deus abraça-te em Seus abrangentes braços."
    "É mais fácil contemplar o sol que a face do mistério de Deus. Tamanha é Sua beleza e Seu esplendor."
    "Tudo que está nos céus, na Terra e sob a terra é penetrado pela conexão, penetrado pela relação."
    "Deus organizou tudo no Universo considerando todo resto."
    "O amor abunda em todas coisas, transcende das profundezas até além das estrelas, amorosamente está disposto a todas coisas. Ele deu ao Rei nas alturas o beijo da Paz."
    "O mesmo Senhor que perdeu Sua ovelha, mas tão gloriosamente a restaurou à Vida, também possuía uma cara pérola. O mesmo novamente aconteceu: a pérola foi perdida e caiu na feia terra. Mas Ele não a deixou caída na terra. Ele cuidadosamente a retirou e a limpou da lama em que havia caído, como ouro purificado na fornalha. Ele restaurou sua antiga beleza, até que brilhasse ainda mais que antes."
    "O ser humano é um vaso que Deus construiu para Si, e encheu com Sua inspiração para que suas obras sejam aperfeiçoadas em Si."
    "O homem que se dispõe a imitar a Justiça de Seu Criador, quando se aparta da irracionalidade própria dos animais, começa a brilhar com o resplendor da divina naturalidade."
    "Uma pessoa que não tem a verdura da Justiça é seca, totalmente desprovida de terna bondade, totalmente desprovida de iluminadora virtude."
    "Quando os pensamentos de alguém não são nem frívolos nem levianos, quando os pensamentos de alguém não são nem obstinados nem estúpidos, mas sim harmoniosos, eles habitualmente proporcionam calma física e profunda percepção."
    "Todas artes (ciências acadêmicas) que atendem aos humanos desejos e necessidades são derivadas do Sopro que Deus enviou ao corpo humano."
    "Rios de Água Viva serão derramados sobre o mundo inteiro, para garantir que as pessoas, como peixes capturados em uma rede, possam ser restauradas à totalidade."
    "A razão é a raiz através da qual a ressonante palavra floresce."
    "Há a música do Céu em todas coisas."
    "Toda criação é um cântico de louvor a Deus."
    "Quando as palavras surgem, são apenas vazias conchas sem a música. Elas vivem enquanto são cantadas, pois as palavras são o corpo e a música, o espírito."
    "A palavra representa o corpo, mas a sinfonia representa o espírito."
    "Cada elemento tem um som, um original som da ordem de Deus. Todos esses sons unem-se como a harmonia das harpas e das cítaras."
    "Às vezes, quando ouvimos uma canção, profundamente respiramos e suspiramos. Isso lembra ao Profeta que a alma surge da celestial harmonia. Ao refletir sobre isso, ele percebeu que a própria alma possui algo dessa música."
    "Mas a alma humana também tem uma sinfonia dentro de si e é uma sinfonista, da qual frequentemente também produz plantas quando ouve a sinfonia, pois se lembra de que foi enviada para o exílio de sua terra natal."
    "Não te esqueças de que a Graça de Deus recompensa não apenas aqueles que nunca tropeçam, mas também aqueles que se curvam e caem. Então canta! O cântico de júbilo amolece os endurecidos corações. Faz com que lágrimas de piedosa tristeza fluam deles. Cantar invoca o Espírito Santo. Alegres louvores oferecidos com simplicidade e amor conduzem os fiéis à completa harmonia, sem discórdia. Não pares de cantar."
    "Essas vozes que tu ouves são como a voz de uma multidão, que eleva seu som ao alto (...) e fazem aqueles que ainda vivem na Terra sinalizarem com o coração e a voz pela celestial recompensa."
    "Por baixo de todos textos, de todos Salmos e sagrados cânticos, essas aquosas variedades de sons e silêncios, aterrorizantes, misteriosos, rodopiantes e, às vezes, gestantes e suaves, devem de alguma forma ser sentidas na pulsação, no fluxo e refluxo da música que canta em mim. Minha nova canção deve flutuar como uma pena no Sopro de Deus."
    "As maravilhas de Deus não são produzidas por nós mesmos. Em vez disso, são mais como um acorde, um som que é tocado. O tom não vem do acorde em si, mas sim do toque do músico. Eu sou, é claro, a lira e a harpa da bondade de Deus."

"Como ondulantes nuvens,
como o incessante gorgolejo do riacho,
o anseio do espírito nunca pode ser acalmado."

"O fogo tem sua chama e louva a Deus.
O vento sopra a chama e louva a Deus.
Na voz, ouvimos a palavra que louva a Deus.
E a palavra, quando ouvida, louva a Deus."

"Contempla o sol. Vê a lua e as estrelas.
Contempla a beleza da vegetação da Terra.
Agora, pensa:
Que delícia Deus dá à humanidade
com todas essas coisas.
Toda natureza está à disposição da humanidade.
Devemos trabalhar com ela.
Pois sem ela não podemos sobreviver."

"Ó mais honrada Verdejante Força, Tu que te enraízas no Sol,
Tu que te iluminas em radiante serenidade dentro de uma roda
que a terrena excelência não consegue compreender.
Tu estás envolto na trama dos divinos mistérios.
Tu avermelhas-Te como a aurora e ardes: chama do Sol."

"Não sejais negligentes na celebração.
Não sejais preguiçosos no festivo serviço de Deus.
Sede inflamados de entusiasmo.
Sejamos uma viva e ardente oferta diante do altar de Deus."

    "A alma é um sopro de Vivo Espírito que, com excelente sensibilidade, permeia todo corpo para lhe dar vida. Da mesma forma, o sopro do ar torna fértil a terra. Assim, o ar é a alma da terra, umedecendo-a e tornando-a verde."
    "A alma é a vital e verdejante força da carne, pois o corpo cresce e prospera por meio dela, assim como a terra se torna frutífera quando umedecida. A alma umedece o corpo para que ele não seque, assim como a chuva que penetra na terra."
    "Assim como um espelho, que reflete todas coisas, está colocado em seu próprio recipiente, também a alma racional está colocada no frágil recipiente do corpo. Dessa forma, o corpo é governado em sua terrena vida pela alma, e a alma contempla as celestiais coisas por meio da fé."
    "Nossas almas devem ser como um transparente cristal através do qual Deus pode ser percebido."
    "Anjos, mais gloriosa viva luz! Sob a Divindade, em ardente desejo, na escuridão e no mistério da criação, vós contemplais o olhar de Vosso Deus, que nunca vos sacia. Que gloriosos prazeres tomam forma dentro de vós!"
    "Porque uma mulher trouxe a morte, uma brilhante Donzela superou-a, e assim a maior bênção em toda Criação está na forma de uma mulher, já que Deus Se tornou Homem em uma doce e abençoada Virgem."
    "Ela é tão brilhante e gloriosa que não se pode olhar para seu rosto ou para suas vestes devido ao esplendor com que brilha. Pois ela é terrível com o terror do vingador e gentil relâmpago, com a bondade do brilhante sol, e tanto seu terror quanto sua gentileza são incompreensíveis para os humanos... Mas ela está com todos e em todos, e tão belo é seu segredo que ninguém pode conhecer a doçura com que ela sustenta as pessoas e as poupa com uma inescrutável Misericórdia."
    "A Divindade é, em sua onisciência e onipotência, como uma roda, um círculo, um todo, que não pode ser compreendido, nem dividido, nem começado, nem terminado."
    "Assim como um círculo abrange tudo que está dentro dele, a Divindade abrange tudo. Ninguém tem o poder de dividir este círculo, o ultrapassarr ou o limitar."
    "Pois a eternidade é chamada de ‘Pai’, o Verbo é chamado de “Filho”, e o Sopro que Os une é chamado de ‘Espírito Santo’."
    "O Pai, que é Justiça, não está sem o Filho nem sem o Espírito Santo. E o Espírito Santo, que acende o coração dos fiéis, não está sem o Pai e o Filho. E o Filho, que é a plenitude da fruição, não está sem o Pai nem sem o Espírito Santo. Eles são inseparáveis na Divina Majestade."
    "Ó Eterno Deus, agora Vos apraz arder em amor para que nos tornemos os membros moldados no amor que sentistes quando gerastes Vosso Filho na primeira aurora, antes de toda Criação. E considerai esta necessidade que nos sobrevém, tirai-a de nós por amor a Vosso Filho e conduzi-nos à alegria de Vossa Salvação."
    "Vós sois um terror para a ilícita loucura do mundo..."
    "Espírito Santo, Vida que dá Vida. Vós sois a causa de todo movimento. Vós sois o Sopro de todas criaturas. Vós sois o bálsamo que purifica nossas almas. Vós sois o unguento que cura nossas feridas. Vós sois o fogo que aquece nossos corações. Vós sois a Luz que guia nossos pés. Que o mundo inteiro Vos louve."
    "Ó, Vós que sempre dais Vida a toda vida, move todas criaturas, raiz de todas coisas, lavando-as, apagando seus erros, curando suas feridas, Vós sois nossa verdadeira Vida, luminosa, maravilhosa, despertando o coração de seu antigo sono."
    "Eu, Deus, estou no meio de ti. Quem Me conhece jamais cairá. Nem nas alturas, nem nas profundezas, nem nas larguras. Pois Eu sou o amor, que as vastas extensões do mal jamais poderão silenciar."
    "Eu, a ígnea vida da divina Sabedoria, Eu acendo a beleza das planícies."
    "Eu sou a ígnea vida da essência de Deus, Eu sou a chama acima da beleza dos campos, Eu brilho nas águas, Eu queimo no sol, na lua e nas estrelas. E com o arejado
 vento, eu vitalmente vivo todas coisas por meio de uma invisível e onisciente vida."

    De solitária e contemplativa alma, lutou contra muitas tribulações. Profundamente amou a Deus e tudo sacrificou para fazer Sua vontade. E seus últimos tempos não foram de repouso: além da enfermidade, sofreu com incompreensões e mentiras por ser disciplinada e disciplinadora, ainda que empregasse de sutilidade.
    Hildegarda de Bingen faleceu em 17 de setembro de 1179, aos 82 anos. Polímata, pessoa de profundo conhecimento em muitas áreas de seu tempo, a Profetisa, a Siliba do Reno é reconhecida como naturalista, médica informal, poeta, compositora, dramaturga, pregadora, escritora, epistológrafa, linguista e mística teóloga. É Doutora da Igreja com o título Doctor Ecclesiae Universalis, 'Doutora da Igreja Universal'. A quarta, depois de Santa Teresa d'ÁvilaSanta Catarina de Sena e Santa Teresa de Lisieux. É a Padroeira dos músicos.
    Foi a primeira mulher musicista da Igreja Una e Santa, a primeira representante do misticismo alemão da Idade Média, a primeira alemã influente tanto em religião como em política, e um símbolo da aristocracia cultural de seu tempo. Enfim, uma das mais singulares e importantes pessoas de Europa do século XII, com poucos paralelos, talvez nenhum, mesmo entre os mais ilustres e eruditos homens. Seus escritos foram traduzidos em quase todas línguas do mundo, o que se iniciou desde a Idade Média.
    Em 1921, a influência de seu carisma inspirou a criação uma nova congregação, a das Irmãs de Santa Hildegarda, ainda não aprovada. Nossa Santa dá nome a um asteroide, o 898 Hildegard, e a um gênero de plantas, Hildegardia.
    Sua canonização foi por equipolência, como a de São José de Anchieta, que se baseia na antiguidade e na constância do culto popular que é prestado ao Santo. Ou seja, não foi necessária a comprovação dos dois processuais milagres, um para a beatificação, outro para a canonização. Também é venerada pelas igrejas luterana e anglicana.
    Suas relíquias estão na igreja paroquial de Eibinge. Numerosos milagres são registrados como obtidos junto a seu túmulo.


    Santa Hildegarda de Bingen, rogai por nós!