sexta-feira, 26 de junho de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

A Violência nos Desígnios de Deus


    Num tempo em que, de nossa pretensa civilidade, a paz parece ter-se tornado um imperativo moral, para muita gente é difícil compreender a violência que se vê nas páginas da Bíblia. Ou ainda mais complicado: que tal violência tenha sido tolerada, permitida, ordenada ou mesmo protagonizada por Deus.
    Um exemplo na memória dos fiéis é quando Deus pede a Abraão que Lhe sacrifique seu único filho, Isaque, nascido em sua velhice. É do Livro de Gênesis: "Deus disse: 'Toma teu filho, teu único filho a quem tanto amas, Isaac. E vai à terra de Moriá, onde tu o oferecerás em holocausto sobre um dos montes que Eu te indicar.'" Gn 22,2
    E embora Ele tenha revogado essa ordem no último instante, quando Seu anjo se confunde com Ele próprio, o impacto dessa experiência jamais se abrandaria: "Nesse momento, o anjo do Senhor chamou-o lá do Céu e disse: 'Abraão, Abraão!' Ele respondeu: 'Aqui estou!' O anjo continuou: 'Não estendas a mão contra o menino! Não lhe faça nenhum mal! Agora sei que tu temes a Deus, pois não me recusaste teu único filho.'" Gn 22,11-12
    Assim o sacrifício de animais, uma prática também violenta e que por séculos perpetuaria a lembrança desse momento, mesmo não sendo nada diferente da realidade hoje vista nos matadouros, passou a ser um rito: "Abraão, levantando os olhos, viu atrás dele um cordeiro preso pelos chifres entre os espinhos. E tomando-o, ofereceu-o em holocausto em lugar de seu filho." Gn 22,13
    Na verdade, porém, pelo projeto inicial da Criação, humanos e animais deveriam ser vegetarianos, como foi dito a Adão: "Deus disse: 'Eis que Eu vos dou toda erva que dá semente sobre a Terra, e todas frutíferas árvores que em si mesmas contêm sua semente, para que vos sirvam de alimento. E a todos animais da Terra, a todas aves dos céus, a tudo que se arrasta sobre a terra, e em que haja sopro de vida, Eu dou toda erva verde por alimento.' E assim se fez." Gn 1,29-30
    Isso tem tudo a ver com a literal e ampla interpretação que se faz do quinto Mandamento, expresso no Livro de Êxodo: "Não matarás." Êx 20,13
    E tem a ver com o Novo céu e a Nova Terra, ou seja, o Reino de Deus a ser ostensivamente instaurado, conforme o Livro do Profeta Isaías: "A vaca e o urso fraternizar-se-ão, juntas suas crias repousarão, e o leão comerá palha com o boi." Is 11,7
    No entanto, após o dilúvio, catástrofe igualmente brutal ainda que motivada pelo pecado espalhado pelo mundo, veio nova ordem de Deus: "Vós sereis objeto de temor e de espanto para todo animal da Terra, toda ave do céu, tudo que se arrasta sobre o solo e todos peixes do mar: eles são-vos entregues em mão. Tudo que se move e vive, servi-vos-á de alimento. Eu dou-vos tudo isto, como vos dei a erva verde." Gn 9,2-3
    Mandamento que retornou nos primeiros anos da Santa Igreja Católica, inclusive para alimentos que Ele mesmo havia ditado como impuros para os judeus (cf. Lv 11; Dt 14). Está no Livro de Atos dos Apóstolos: "Viu o Céu aberto e descer uma coisa parecida com uma grande toalha que baixava do Céu à Terra, segura pelas quatro pontas. Nela havia de todos quadrúpedes, dos répteis da Terra e das aves do céu. Uma voz falou-lhe: 'Levanta-te, Pedro! Mata e come.'" At 10,11-13
    Exatamente como Jesus havia ensinado no Evangelho Segundo São Marcos: "Tendo chamado de novo a turba, dizia-lhes: 'Ouvi-Me todos, e entendei. Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar, mas o que sai do homem, isso é que mancha o homem.'Assim Ele declarava puros todos os alimentos." Mc 7,14-15.19b
    Tempos mais tarde, contudo, a Carta de São Paulo aos Romanos haveria de convir: "Bom é não comer carne..." Rm 14,21
    Ademais, a própria morte, fato inegavelmente devastador, também não estava no projeto original. Foi uma posterior decisão, após Adão e Eva caírem em pecado: "O Senhor então disse: 'Meu Espírito não permanecerá para sempre no homem, porque todo ele é carne, e a duração de sua vida será de cento e vinte anos.'" Gn 6,3
    O que não se deu sem aviso, pois Deus disse a Adão, em primeiríssimo registro de que não lhe dava carne de animais para comer: "Deu-lhe este preceito: 'Podes comer do fruto de todas árvores do jardim, mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, porque no dia em que dele comeres, indubitavelmente morrerás.'" Gn 2,16-17
    No entanto, uma violenta morte não é necessariamente causada por maiores pecados, embora de tal punição ninguém esteja isento, pois Nosso Senhor ensinou no Evangelho Segundo São Lucas: "Neste mesmo tempo contavam alguns o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com seus sacrifícios. Jesus toma a Palavra e pergunta-lhes: 'Pensais vós que estes galileus foram maiores pecadores que todos outros galileus, por terem sofrido desse modo? Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo. Ou cuidais que aqueles dezoito homens, sobre os quais a torre de Siloé caiu e os matou, foram mais culpados que todos demais habitantes de Jerusalém? Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo.'" Lc 13,1-5
    Mas como sinal de gravidade, a Aliança de Deus com Abraão, ao conceder-lhe a Terra Santa, ou seja, antes de lhe pedir o sacrifício de Isaque, já envolvia sacrifícios: "'Toma uma novilha de três anos,' respondeu-lhe o Senhor, 'uma cabra de três anos, um cordeiro de três anos, uma rola e um pombinho.' Abrão tomou todos esses animais, e dividiu-os ao meio, colocando suas metades uma defronte da outra, mas não cortou as aves." Gn 15,9-10
    No mesmo sentido, alguns séculos mais tarde, em Egito, a libertação dos israelitas não foi nem um pouco pacífica. E uma vez mais temos em cena a imolação de primogênito, agora levada a termo. E Deus, como o próprio executor, diz: "Naquela noite, passarei através de Egito. E ferirei os primogênitos em Egito, tanto os dos homens como os dos animais, e exercerei Minha Justiça contra todos deuses de Egito. Eu sou o Senhor." Êx 12,12
    No Livro de Salmos, o Profeta Asaf aí inclui Seus anjos, não menos irascíveis: "... quando descarregou o ardor de Sua cólera, indignação, furor, tribulação, um esquadrão de anjos da desgraça." Sl 77,49
    Assim, ao cruzar o Mar Vermelho, a fatal realidade já totalmente permeada de violência agora tinha um elemento a mais: o temor ao Senhor: "Foi assim que naquele dia o Senhor livrou Israel da mão dos egípcios. E Israel viu os cadáveres dos egípcios na praia do mar. Viu Israel o grande poder que o Senhor tinha exercido contra os egípcios. Por isso, o povo temeu o Senhor e confiou n'Ele e em Seu servo Moisés." Êx 14,30-31
    Tal temor, entretanto, tem um inegável fundamento didático, como Moisés explicou ao apresentar ao povo os 10 Mandamentos: "... porque é para vos provar que Deus veio. E para que o temor a Ele, sempre presente a vossos olhos, vos preserve de pecar." Êx 20,20b
    Todavia, os castigos que Ele jurava aos transgressores de Israel eram realmente aterradores, como se lê no Livro de Levítico: "Farei cair sobre vós a espada para vingar Minha Aliança. Se vos ajuntardes em vossas cidades, lançarei a peste em meio a vós e sereis entregues nas mãos de vossos inimigos. Tirá-vos-ei o pão, vosso sustento, de tal sorte que dez mulheres o cozerão em um só forno e vos entregarão por peso. Comereis e não ficareis saciados. Se, apesar disso, não Me ouvirdes, e ainda Me resistirdes, marcharei contra vós em Meu furor e castigá-vos-ei sete vezes mais, por causa de vossos pecados. Comereis a carne de vossos filhos e de vossas filhas." Lv 26,23-29
    E a evocação de Deus como o Senhor dos Exércitos, ainda que de anjos, é recorrente no Antigo Testamento, pois, para o firme estabelecimento de Seu povo na Terra Santa, Moisés prometeu no Livro de Deuteronômio: "Quando saíres à guerra contra teus inimigos, e vires cavalos, carros e um exército mais numeroso que o teu, não tenhas medo, porque o Senhor, Teu Deus, que te tirou de Egito, está contigo." Dt 20,1
    Suas ordens para com estrangeiros eram terríveis: em caso de resistência, mais afastadas cidades passariam pela aniquilação dos homens, e as cidades das quais Israel se apossaria, pela total aniquilação: "Se te recusar a paz e começar a guerra contra ti, tu cercá-la-ás. E quando o Senhor, Teu Deus, a houver entregue nas mãos, passarás a fio de espada todos varões que nela houver. Só tomarás para ti as mulheres, as crianças, os rebanhos e tudo que se encontrar na cidade, e viverás dos despojos de teus inimigos que o Senhor, Teu Deus, tiver dado. Farás assim a todas muito afastadas cidades, que não são do número das cidades dessas nações. Quanto às cidades daqueles povos cuja possessão te dá o Senhor, Teu Deus, nelas não deixarás viva alma." Dt 20,12-16
    Enfim, foi muito claro, e Moisés didaticamente cantou: "E agora, vede bem: Eu, sou Eu, e fora de mim não há outro Deus! Sou Eu que mato e faço viver, sou Eu que firo e torno a curar. E de Minha mão ninguém se livra. Sim, Eu levanto a mão ao céu, e juro: 'Tão Verdade como Eu eternamente vivo, quando Eu afiar Minha fulgurante espada e Minha mão agarrar o direito, tomarei vingança de Meu adversário e retribuirei àqueles que Me odeiam. Embriagarei Minhas flechas com sangue e Minha espada devorará a carne, sangue dos mortos e cativos, das cabeludas cabeças do inimigo.'" Dt 32,39-43
    Sem dúvida, nessa atmosfera de constantes convulsões dos primeiros séculos de Israel, o rei Davi instantemente canta ódio aos inimigos, como neste Salmo, reconhecendo a proteção de Deus: "Por vossa bondade, destruí meus inimigos e exterminai todos que me oprimem, pois sou Vosso servo." Sl 142,12
    Não tinha dúvida: "O Senhor guarda todo aquele que O ama, mas extermina aqueles que são ímpios." Sl 144,20
    Ele usa de muito fortes palavras: "Sim, Deus parte a cabeça de Seus inimigos, o crânio cabeludo do que persiste em seus pecados." Sl 67,22
    E Deus chega a lhe prometer o sangue e a carne de seus adversários: "... para que no sangue deles banhes teus pés, e a língua de teus cães receba os inimigos como ração." Sl 67,24
    Parte destas hostilidades pode ser entendida como a ira de Deus, ou seja, Sua justa reação às ofensas praticadas contra Ele, como as cometidas por Seu próprio povo ao adotar rituais estrangeiros. Ele mesmo diz através de Isaías: "Imola-se um boi e mata-se um homem, sacrifica-se uma ovelha e parte-se a nuca de um cão, apresenta-se uma oblação e derrama-se sangue de porco, queima-se incenso e veneram-se ídolos. Tal como essa gente adere a suas práticas e aprecia seus abomináveis atos, Eu também terei prazer em as maltratar" Is 66,3-4a
    Ira, aliás, que se derramou sobre a própria Jerusalém, nos tempos de sua primeira destruição, que como sinal para a Igreja Católica Apostólica Romana começou pelo Templo (cf. 1 Pd 4,17), e do exílio do povo de Israel em Babilônia. No Livro do Profeta Ezequiel, o Senhor fala com um homem que bem lembra o próprio Jesus (cf. Ap 19,8), e prenuncia o Sacramento do Batismo: "E eis que seis homens vinham do caminho do pórtico superior, o qual dá para o norte, cada um com sua arma de destruição na mão. Entre eles estava um homem vestido de linho, o qual trazia um estojo de escriba na cintura. Chegaram-se e puseram-se de pé junto ao altar de bronze. A Glória do Deus de Israel saiu de cima do querubim, onde se encontrava, para o limiar da porta do Templo. Chamou o homem que estava vestido de linho e com o estojo de escrivão na cintura. O Senhor falou com ele: 'Percorre a cidade de Jerusalém e marca com uma cruz a testa dos indivíduos que estiverem se lamentando e gemendo por causa das abominações que em meio a ela se fazem.' Ouvi quando Ele dizia aos outros: 'Percorrei a cidade atrás dele, para sem dó nem piedade matar velhos, moços, moças, crianças e mulheres. Matai, acabai com eles. Só não mateis os indivíduos marcados com a cruz. Comecem por Meu Templo.' E eles começaram pelos anciãos que estavam diante do Templo. Ele ainda falou: 'Profanai o Templo, enchei de cadáveres seu interior e saiam pela cidade para matar." Ez 9,3-7
    Por isso, o Livro do Profeta Jeremias pedia que Ele Se voltasse contra os inimigos de Israel: "Derramai esse furor sobre as nações que Vos desconhecem, sobre os povos que não invocam Vosso Nome, porque eles devoraram Jacó e o consumiram, transformando-lhe as casas em deserto." Jr 10,25
    Mas a destruição do Templo e de Jerusalém, por causa da grande infidelidade de Israel, eram inevitáveis. Dois de Seus maiores Profetas, juntos, não teriam sucesso se intercedessem: "Disse-me, então, o Senhor: 'Mesmo que Moisés e Samuel se apresentassem diante de Mim, Meu coração não se voltaria para esse povo. Expulsa-os de Minha presença, que eles saiam! E se eles te disserem: 'Para onde iremos?', tu di-lhes-ás: Assim disse o Senhor:' Aquele que é da morte, para a morte! Aquele que é da espada, para a espada! Aquele que é da fome, para a fome! Aquele que é do cativeiro, para o cativeiro!' Eu visitá-los-ei com quatro coisas, Oráculo do Senhor: a espada para matar, os cães para dilacerar, as aves do céu e os animais selvagens para devorar e para destruir. Eu colocá-los-ei como objeto de horror para todos reinos da Terra..." Jr 15,1-4a
    Sempre deixando claro o motivo: "Porque te feri, como se fere um inimigo, com cruel castigo, por causa da gravidade de tua falta e do número de teus pecados. Por que choras sobre tua ferida? Por que incurável é tua dor? É por causa da gravidade de tua falta e do número de teus pecados que te fiz isso." Jr 30,14b-15
    Enfim, o Livro de lamentações atestou: "O Senhor mandou contra Jacó inimigos sem conta. Jerusalém tornou-se entre eles objeto de aversão." Lm 1,17b
    Até prefigurou o Santíssimo Sacramento como fonte de Salvação: "O Senhor destruiu sem piedade todos campos de Jacó, em Sua ira deitou abaixo as fortificações da cidade de Judá, lançou por terra, aviltou a realeza e seus príncipes. Sentados no chão, em silêncio, os anciãos da cidade de Sião espalharam cinza na cabeça, vestiram-se de saco. As jovens de Jerusalém inclinaram a cabeça para o chão. Meus olhos estão inchados de lágrimas, fervem minhas entranhas. Derrama-se por terra meu fel diante da arruinada cidade de meu povo, vendo desfalecerem tantas crianças pelas ruas da cidade. Elas pedem às mães: 'O Pão e o Vinho, onde estão?' E vão caindo como derrubadas pela morte nas ruas da cidade, até expirarem no colo das mães." Lm 2,2.10-12
    E Jeremias, autor deste Livro, torna a pedir contra os inimigos de Israel: "Dai-lhes, Senhor, a paga, o que merece seu proceder. Cegai-lhes o coração, feri-os com Vossa maldição, persegui-os com Vossa cólera e exterminai-os de nosso universo, Senhor!" Lm 3,64-66
    Nessas punições estariam incluídas as naturais catástrofes, como Ele diz no Livro de Provérbios: "Uma vez que recusastes Meu chamado, e ninguém prestou atenção quando estendi a mão, uma vez que negligenciastes todos Meus conselhos e não destes ouvidos a Minhas admoestações, Eu também Me rirei de vosso infortúnio e zombarei quando vos sobrevier um terror, quando vier sobre vós um pânico, como furacão, quando se abater sobre vós a calamidade, como a tempestade, e quando caírem sobre vós tribulação e angústia. Então Me chamarão, mas não responderei. Procurá-Me-ão, mas não atenderei." Pr 1,24-28
    Outra parte dessas hostilidades deve mesmo ser creditada ao Mistério do Mal, que termina sendo um dos recursos usados por Deus para promover a Salvação daqueles que amam a Verdade, e não se deixam seduzir pelo erro. A Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses detectou-o: "Porque o Mistério da Iniquidade já está em ação, apenas esperando o afastamento daquele que o detém." 2 Ts 2,7
    Pois não são só infiéis que padecem, como o Livro de Sabedoria diz do episódio daqueles que murmuravam e se puseram contra Moisés e Aarão, narrando o feito deste último: "Verdade é que a prova da morte também feriu os justos, e numerosos foram os que ela abateu no deserto. Mas a ira de Deus não durou muito tempo, porque um irrepreensível homem se apressou a tomar sua defesa, se servindo das armas de seu ministério pessoal, a oração e o sacrifício expiatório do incenso. Opôs-se à ira e pôs fim ao flagelo, mostrando que era Vosso servo. Dominou a revolta, não pela força física, nem pela força das armas, mas por sua palavra deteve Aquele que castigava, relembrando-Lhe os juramentos feitos aos antepassados e a Aliança estabelecida. Já os mortos, amontoavam-se uns sobre os outros, mas quando ele interveio, deteve a cólera e afastou-a dos vivos." Sb 18,20-23
    E é assim, por prevalecer este Mistério, sob o qual se desenvolve a própria maldade humana, que os mais pobres sofrem. O Livro de Eclesiastes observou: "Pus-me, então, a considerar todas opressões que se exercem debaixo do sol. Eis aqui as lágrimas dos oprimidos, e não há ninguém para os consolar. Seus opressores fazem-lhes violência, e não há ninguém para os consolar." Ecl 4,1
    De fato, no Livro de Jó, este personagem notório por sua paciência já o percebia: "A vida do homem sobre a Terra é uma luta..." Jó 7,1
    Havia dito: "Levo, cravadas em mim, as flechas do Todo-Poderoso, e meu espírito bebe o veneno delas. Os terrores de Deus enfileiram-se contra mim." Jó 6,4
    Em desaforo, vai reclamar do próprio Deus e de Seus sobrenaturais procedimentos: "Orgulhoso como um leão, Vós me caçais! Multiplicais proezas contra mim, redobrais Vossos assaltos contra mim! Vosso furor cresce contra mim e vigorosas tropas vêm-me cercar. Por que me tirastes do ventre?" Jó 10,16-18a
    Antevê sua própria morte nestas provações: "Deus agarra-me com violência pela roupa, segura-me pela orla da túnica. Joga-me dentro do lodo e confundo-me com o pó e a cinza. Clamo por Vós, e não me respondeis. Insisto, e não Vos importeis comigo. Vós tornastes-Vos Meu carrasco e atacais-me com Vosso musculoso braço. Levantais-me e fazeis-me cavalgar o vento, e sacodis-me com a tempestade. Bem vejo que me devolves à morte, ao lugar de encontro de todos mortais." Jó 30,18-13
    E a resposta de Deus dada no Livro do Profeta Habacuc, embora garantisse a vitória final, apenas pedia mais paciência e : "'Até quando, Senhor, implorarei sem que escuteis? Até quando Vos clamarei: 'Violência!', sem que venhais em socorro? Por que me mostrais o espetáculo da iniquidade, e contemplais Vós mesmo essa desgraça? Só vejo opressão e violência diante de mim, nada mais que discórdias e contendas.' E o Senhor respondeu-me assim: 'Escreve esta visão, grava-a em tabuinhas, para que ela possa ser facilmente lida. Porque há ainda uma visão para um termo fixado, ela rapidamente se aproxima de seu termo e não falhará. Mas, se tardar, espera-a, porque ela se realizará com toda certeza, não falhará. Eis que sucumbe aquele que não tem íntegra alma, mas o justo viverá pela fé.'" Hab 1,2-3;2,2-4
    Sem dúvida, e ainda sobre a imolação de primogênitos, é insofismável a violência que se verificou nas mortes de São João Batista e de Nosso Senhor. Mesmo que tal sacrifício se tenha tornado sinal de maldição, quando Deus expressou que não queria a reconstrução de Jericó, no Livro de Josué: "Então proferiu Josué este juramento: 'Maldito seja diante do Senhor quem tentar reconstruir esta cidade de Jericó! Será ao preço de seu primogênito que lhe lançará os primeiros fundamentos, e será à custa do último de seus filhos, que lhe porá as portas!'" Js 6,26
    Isso explica tamanha indignação entre os israelitas quando o rei de Moab, mesmo sendo inimigo de Judá e de Israel, sacrificou seu filho. É leitura do Segundo Livro de Reis: "Tomando, então, seu filho primogênito, que deveria reinar depois dele, ofereceu-o em holocausto sobre a muralha." 2 Rs 3,27
    Ou mesmo para com Acaz, que, embora rei de Jerusalém, acabou fazendo o mesmo: "Chegou até a passar seu filho pelo fogo, segundo o abominável costume dos povos que o Senhor tinha expulsado de diante dos filhos de Israel." 2 Rs 16,3
    E ainda Manassés, igualmente rei de Jerusalém: "Fez passar pelo fogo seu próprio filho. Entregou-se à magia, à astrologia, à necromancia e à adivinhação. Multiplicou as ações que ofendem o Senhor, assim provocando Sua ira." 2 Rs 21,6
    É então que o Livro do Profeta Miqueias, antes propondo obediência a Deus, vai questionar esses sacrifícios: "Sacrificá-lhe-ei por minha maldade meu primogênito, o fruto de minhas entranhas por meus próprios pecados?" Mq 6,7b
    Em razão disso, citando o Livro do Profeta Oseias e também Se referindo ao sacrifício de animais, Jesus vai reafirmar a Palavra de Deus no Evangelho Segundo São Mateus: "Ide e aprendei o que significam estas palavras: 'Eu quero a Misericórdia e não o sacrifício (Os 6,6)." Mt 9,13a
    Não por acaso, Cristo mesmo foi prometido através de Isaías como o Príncipe da Paz: "Porque todo calçado que se traz na batalha, e todo manto manchado de sangue, serão lançados ao fogo e se tornarão presa das chamas. Porque um Menino nos nasceu, um Filho nos foi dado. A soberania repousa sobre Seus ombros, e Ele chama-Se: Admirável Conselheiro, Deus Forte, Eterno Pai, Príncipe da Paz. Seu império será grande e sem fim a Paz sobre o trono de Davi e em Seu Reino. Ele firmá-lo-á e mantê-lo-á pelo direito e pela Justiça, desde agora e para sempre. Eis o que o zelo do Senhor dos Exércitos fará." Is 9,4-6


O CORDEIRO IMOLADO

    Mas ao contrário do desfecho do ritual em que Abraão imolaria Isaque, Jesus não foi poupado por Deus. No Evangelho Segundo São João, Nosso Salvador mesmo afirmou: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo que lhe deu Seu Único Filho, para que todo aquele que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    E toda Sua humilde vida, bem como o massacre que sofreria, estavam previstos desde os tempos do Profeta Isaías, com precisão de minúcias: "... tão desfigurado estava na Cruz que havia perdido a humana aparência... Cresceu diante de Deus como um pobre Rebento enraizado numa árida terra. Não tinha Graça nem beleza para atrair nossos olhares, e Seu aspecto não podia seduzir-nos. Era desprezado, era a escória da humanidade, Homem das dores, experimentado nos sofrimentos, como aqueles diante dos quais se cobre o rosto. Era amaldiçoado e d'Ele não fazíamos caso. Na Verdade, Ele tomou sobre Si nossas enfermidades e carregou nossos sofrimentos: e nós reputávamo-Lo como um castigado, ferido e humilhado por Deus. Mas Ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades. O castigo que nos salva, pesou sobre Ele, fomos curados graças a Suas chagas. Foi maltratado e resignou-Se, não abriu a boca, como um cordeiro que se conduz ao matadouro e uma ovelha muda nas mãos do tosquiador. Por um iníquo julgamento foi arrebatado. Quem pensou em defender Sua causa quando foi suprimido da Terra dos vivos, morto pelo pecado de meu povo? Foi-Lhe dada sepultura ao lado de facínoras, e ao morrer achava-se entre malfeitores, se bem que não haja cometido injustiça alguma, e em Sua boca nunca tenha havido mentira. Mas aprouve ao Senhor esmagá-Lo pelo sofrimento. Se Ele oferecer Sua vida em expiatório sacrifício, terá uma duradoura posteridade, prolongará Seus dias, e a vontade do Senhor por Ele será realizada. Após suportar em Sua Pessoa os tormentos, alegrar-Se-á de ver a Luz até o enlevo. O Justo, Meu Servo, justificará muitos homens, e sobre Si tomará suas iniquidades. ... Ele próprio deu Sua vida, e deixou-Se colocar entre os criminosos, sobre Si tomando os pecados de muitos homens, e intercedendo pelos culpados." Is 52,14b;53,2-5.7-11.12b
    Afirmativamente, a principal imagem que temos de Jesus, embora não a única, é a de mansidão, como Isaías também previu e São Mateus citou: "Ele não disputará, não elevará Sua voz. Ninguém ouvirá Sua voz nas praças públicas. Não quebrará o caniço rachado, nem apagará a mecha que ainda fumega, até que faça triunfar a Justiça. Em Seu Nome, as pagãs nações porão sua esperança (Is 42,1-4)." Mt 12,19-21
    Ele mesmo disse de Si: "Vinde a Mim todos vós que estais aflitos sob o fardo, e Eu aliviá-vos-ei. Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para vossas almas. Porque Meu jugo é suave e Meu fardo é leve." Mt 11,28-30
    E abertamente ensinava contra a violência: "Ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás, mas quem matar será castigado pelo Juízo do tribunal.' Mas Eu digo-vos: todo aquele que se irar contra seu irmão, será castigado pelos juízes. Aquele que disser a seu irmão: Idiota, será castigado pelo Grande Conselho. Aquele que lhe disser: Louco, será condenado ao fogo da geena. Tendes ouvido o que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente.' Eu, porém, digo-vos: não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, também lhe oferece a outra. Tendes ouvido o que foi dito: Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo. Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei bem àqueles que vos odeiam, rezai por aqueles que vos maltratam e perseguem." Mt 5,21-22.28-29.43-44

BOM COMBATE E SACRIFÍCIO

    Pelas mesmas razões, a vida que Jesus previu para os cristãos na Terra nunca pareceu um mar de rosas: "No mundo haveis de ter tribulações." Jo 16,33b
    E quanto maior a perseguição sofrida pelo cristão, segundo Ele, mais forte é o sinal do verdadeiro amor a Deus: "Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e falsamente disserem todo mal contra vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande vossa recompensa nos Céus, pois assim perseguiram os Profetas que vieram antes de vós." Mt 5,11-12
    Na verdade, já no início Suas Palavras não eram exatamente um convite à acomodação: "Desde então Jesus começou a pregar: 'Fazei penitência, pois o Reino dos Céus está próximo.'" Mt 4,17
    Segui-Lo, pois, é abraçar o altruísmo e carregar uma cruz: "Se alguém quer vir após Mim, renegue a si mesmo, tome cada dia sua cruz e siga-Me." Lc 9,23
    Mas deixou claro que tudo está sob o comando de Deus: "Não se vendem cinco pardais por alguns centavos? E, entretanto, nem um só deles passa despercebido diante de Deus. Até os cabelos de vossa cabeça estão todos contados. Não temais, pois. Mais valor tendes vós que numerosos pardais." Lc 12,6-7
    Ao falar da morte como medo maior, apontava o inferno com algo muito mais trágico: "Não temais aqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes temei Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na geena." Mt 10,28
    Tão trágico que, tendo ele como destino, nenhuma vida que se possa levar nesse mundo vale a pena. Foi assim que Ele Se referiu a Judas Iscariotes, que apesar da indizível Graça de O conhecer e estar por mais de três anos em Sua presença, cometeu o gravíssimo pecado de O trair: "O Filho do Homem vai morrer, como d'Ele está escrito. Mas ai daquele homem por quem o Filho do Homem é traído! Seria melhor que jamais tivesse nascido!" Mt 26,24
    E se alguém duvida, o inferno não é nenhuma amenidade. Em comparação ao que lá se passa, temos esta Sua frase, que diz de brutal violência: "Mas todo aquele que fizer cair em pecado a um destes pequeninos que creem em Mim, melhor seria que lhe amarrassem uma pedra de moinho ao pescoço e o lançassem ao mar!" Mc 9,42
    De fato, Nosso Senhor não fala de um bom destino para Seus opositores. E para que ninguém se engane, esta é uma frase do Novo Testamento, e Sua: "Quanto aqueles que Me odeiam, e que não Me quiseram por Rei, trazei-os e massacrai-os em Minha presença." Lc 19,27
    Contou algo semelhante na parábola das Bodas do Filho do Rei, quando os servos, enviados para chamar os convidados, foram ignorados, insultados e até assassinados: "O Rei soube e ao extremo indignou-Se. Enviou Suas tropas, matou aqueles assassinos e incendiou-lhes a cidade." Mt 22,7
    E a um homem que foi a estas Bodas sem as vestes nupciais, o Rei ordenou: "Amarrai-lhe os pés e as mãos, e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes." Mt 22,13b
    Da mesma forma, as últimas palavras que dirá aos condenados no Juízo Final não serão nem um pouco suaves: "Retirai-vos de Mim, malditos! Ide para o fogo eterno, destinado ao Demônio e a seus anjos." Mt 25,41
    Falando a Deus Pai, o salmista, não por acaso Davi, já dizia de Nosso Senhor: "O Senhor está a Tua direita: Ele destruirá os reis no Dia de Sua cólera. Julgará os povos pagãos, empilhará cadáveres. Por toda Terra esmagará cabeças." Sl 109,5-6
    Já o final da Grande Batalha assim foi revelado no Livro de Apocalipse de São João. E veja-se, também é uma notação do Novo Testamento, para quem acha que a violência é coisa do Antigo, e não trata apenas de poderosos: "Vi, então, um anjo de pé sobre o sol, a chamar em alta voz a todas aves que voam pelo meio dos céus: 'Vinde, reuni-vos para a grande ceia de Deus, para comerdes carnes de reis, carnes de generais e carnes de poderosos, carnes de cavalos e cavaleiros, carnes de homens, livres e escravos, pequenos e grandes. E todas aves fartaram-se de suas carnes.'" Ap 19,17-18.21b
    Como os Provérbios avisaram: "Aproximai-vos, nações, para ouvir, e vós, povos, estai atentos! Que ouça a Terra e tudo que ela contém, o mundo e tudo que ele produz, porque o Senhor está indignado contra todas nações e enfurecido contra todas suas tropas. Ele devotou-as ao massacre e destinou-as ao morticínio." Pr 34,1-2
    E na cena a seguir, o Amado Discípulo viu o joio da Terra ser ceifado: "O anjo lançou sua foice à Terra e vindimou a vinha da Terra, e atirou os cachos no grande lagar da ira de Deus. O lagar foi pisado fora da cidade, e do lagar saiu sangue que atingiu até o nível dos freios dos cavalos, pelo espaço de mil e seiscentos estádios." Ap 14,19-20
    O próprio Jesus lançou mão de truculência já na primeira passagem em vida pública por Jerusalém, por causa do vilipêndio da Casa do Pai, fazendo lembrar um Salmo de Davi: "Encontrou no Templo os negociantes de bois, ovelhas e pombas, e mesas dos trocadores de moedas. Fez Ele um chicote de cordas, expulsou todos do Templo, como também as ovelhas e os bois, espalhou pelo chão o dinheiro dos cambistas e derrubou as mesas. Disse aqueles que vendiam as pombas: 'Tirai isto daqui e não façais da Casa de Meu Pai uma casa de negociantes.' Lembraram-se, então, Seus discípulos do que está escrito: 'O zelo de Tua Casa me consome' (Sl 68,10)." Jo 2,14-17
    E igualmente em Sua última Páscoa, pela na segunda vez, citando Profetas ainda mais contundentes: "Jesus entrou no Templo e dali expulsou todos aqueles que se entregavam ao comércio. Derrubou as mesas dos cambistas e os bancos dos negociantes de pombas, e disse-lhes: 'Está escrito: Minha Casa é uma Casa de Oração (Is 56,7), mas vós fizestes dela um covil de ladrões (Jr 7,11)!'" Mt 21,12-13
    As cidades que viram Sua Onipotência, ademais, não tiveram gratuitamente tal privilégio: "Depois Jesus começou a censurar as cidades, onde tinha feito grande número de Seus milagres, por terem recusado a se arrepender: 'Ai de ti, Corozaim! Ai de ti, Betsaida! Porque se tivessem sido feitos em Tiro e em Sidônia os milagres que foram feitos em vosso meio, há muito tempo ter-se-iam arrependido sob o cilício e a cinza. Por isso, digo-vos: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Tiro e para Sidônia que para vós! E tu, Cafarnaum, serás elevada até o Céu? Não! Serás atirada até o inferno! Porque se Sodoma tivesse visto os milagres que foram feitos dentro de teus muros, subsistiria até este dia. Por isso, digo-te: no Dia do Juízo, haverá menor rigor para Sodoma que para ti!'" Mt 11,20-24
    Ora, a própria Cidade Santa não seria poupada, mas destruída pela segunda vez: "Aproximando-Se ainda mais, Jesus contemplou Jerusalém e chorou sobre ela, dizendo: 'Oh! Se tu, ao menos neste dia que te é dado, também conhecesses Aquele que pode trazer-te a Paz. Mas não. Isso está oculto a teus olhos. Sobre ti virão dias em que teus inimigos te cercarão de trincheiras, te sitiarão e te fustigarão por todos lados. Destruí-te-ão a ti e a teus filhos que estiverem dentro de ti, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada.'" Lc 19,41-44
    E falando aos religiosos judeus que não acolheram Sua Palavra, Ele foi direto ao apontar a fonte do mal que os submetia: "Vós sois do Demônio, vosso pai, e quereis fazer os desejos de vosso pai. Ele era homicida desde o princípio e não permaneceu na Verdade, porque a Verdade não está nele. Quando diz a mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira." Jo 8,44
    Pois como vital referência em nossas vidas, rejeitá-Lo implica drásticas consequências. Citando um sagrado autor de Salmo e referindo-Se a Si mesmo, Ele advertiu os anciãos, escribas e sacerdotes do Templo de Jerusalém: "Mas Jesus, fixando neles o olhar, disse-lhes: 'Que quer dizer então o que está escrito: A Pedra que os edificadores rejeitaram, tornou-se a Pedra Angular (Sl 117,22)? Todo aquele que cair sobre esta Pedra ficará despedaçado. E sobre quem ela cair, este será esmagado!'" Lc 20,17-18
    Mesmo gente que crê anunciar Seu Nome sofrerá total desprezo: "Muitos di-Me-ão n'Aquele Dia: 'Senhor, Senhor, não pregamos nós em Vosso Nome? E não foi em Vosso Nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres?' E, no entanto, Eu di-lhes-ei: 'Nunca vos conheci. Retirai-vos de Mim, maus operários!'" Mt 7,22-23
    Enquanto Temível Deus, pois, Ele exigirá tudo de nossos talentos: "Mau e preguiçoso servo! Sabias que colho onde não semeei e que recolho onde não espalhei. ... esse inútil servo, jogai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes." Mt 25,26.30
    E o pecado, que muitos julgam um deleite, Ele compara à atrocidade da escravidão: "Na Verdade, na Verdade, digo-vos: todo homem que se entrega ao pecado, é seu escravo. Ora, o escravo não fica na casa para sempre, mas o filho sim, fica para sempre." Jo 34-35
    Tão séria e decisiva é vida aqui na Terra, portanto, que todo projeto de Deus se revela uma verdadeira batalha, e a vitória só se fará perceber pela causa, como Jesus mesmo descreveu. De fato, a Paz Ele só ofereceu a Sua Igreja, não ao mundo: "Não julgueis que vim trazer a Paz à Terra. Vim trazer não a Paz, mas a espada. Eu vim trazer a divisão entre o filho e o pai, entre a filha e a mãe, entre a nora e a sogra, e os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa. Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem ama seu filho mais que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma sua cruz e não Me segue, não é digno de Mim. Aquele que tentar salvar sua vida, perdê-la-á. Aquele que a perder, por Minha causa, reencontrá-la-á." Mt 10,34-39
    O próprio cenário que Ele traçou para a humanidade através dos séculos não é nada cômodo, muito menos para Seus fiéis: "'Quando ouvirdes falar de guerras e de tumultos, não vos assusteis. Porque primeiro é necessário que isso aconteça, mas não virá logo o fim.' Também lhes disse: 'Levantar-se-ão nação contra nação e reino contra reino. Haverá grandes terremotos por várias partes, fomes e pestes, e aparecerão espantosos fenômenos no céu. Antes de tudo isso, porém, lançá-vos-ão as mãos e persegui-vos-ão, entregando-vos às sinagogas e aos cárceres, levando-vos à presença dos reis e dos governadores por causa de Mim. Isto acontecê-vos-á para que vos sirva de testemunho. Sereis entregues até por vossos pais, vossos irmãos, vossos parentes e vossos amigos, e matarão muitos de vós. Por causa de Meu Nome sereis odiados por todos. Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na Terra, a aflição e a angústia apoderar-se-ão das nações pelo bramido do mar e das ondas. Os homens definharão de medo, na expectativa dos males que devem sobrevir a toda Terra. As próprias forças dos céus serão abaladas.'" Lc 21,9-13.16-17.25-26
    Por isso, na noite em que ia ser entregue, Nosso Salvador preparou a Igreja Una para realmente difíceis tempos, dando recomendações de dissuasão e também defesa: "Depois ajuntou: 'Quando vos mandei sem bolsa, sem mochila e sem calçado, faltou-vos porventura alguma coisa?' Eles responderam: 'Nada.' 'Mas agora', disse-lhes Ele, 'aquele que tem uma bolsa, tome-a. Aquele que tem uma mochila, igualmente a tome. E aquele que não tiver uma espada, venda sua capa para comprar uma.'" Lc 22,35-36
    Ora, tamanho é o combate entre o Sumo Bem e o Mal que a própria instauração do Reino dos Céus se ressentia dessa agressividade. Ele falava de uma guerra espiritual: "Desde a época de João Batista até o presente, o Reino dos Céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam." Mt 11,12
    E assim foi até Sua Vitória, até Sua chegada aos Céus. E na batalha que lhes custa a vida, são os Santos vencem, conforme a visão que São João Evangelista teve: "Houve uma batalha no Céu. Miguel e seus anjos tiveram de combater o Dragão. O Dragão e seus anjos travaram combate, mas não prevaleceram. E já não houve lugar para eles no Céu. Foi, então, precipitado o grande Dragão, a primitiva Serpente, chamado Demônio e Satanás, o sedutor do mundo inteiro. Com ele foi precipitado à Terra seus anjos. Eu ouvi no Céu uma voz forte que dizia: 'Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo, porque foi precipitado o acusador de nossos irmãos, que dia e noite os acusava diante de Nosso Deus. Mas estes venceram-no por causa do Sangue do Cordeiro e de Seu eloquente testemunho. Desprezaram a vida até aceitar a morte.'" Ap 12,7-11
    Contudo, se após a Ascensão do Senhor aos Céus sempre temos os auxílios do Espírito Santo (cf. Jo 14-16), por outro lado agravou-se o combate aqui na Terra. Nessa mesma visão, disse uma forte voz que gritava: "Por isso, alegrai-vos, ó Céus, e todos que aí habitais. Mas, ó Terra e mar, cuidado! Porque o Demônio desceu para vós, cheio de grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta." Ap 12,12
    O inimigo combateu até Nossa Senhora, que se refugiou em Betânia e depois em Éfeso, enquanto era protegida por Deus: "O Dragão, vendo que fora precipitado à Terra, perseguiu a Mulher que dera à luz o Menino. Mas à Mulher foram dadas duas asas de grande águia, a fim de voar para o deserto, para o lugar de seu retiro, onde é alimentada por um tempo, dois tempos e a metade de um tempo, fora do alcance da cabeça da Serpente." Ap 12,13-14
    Mas tal vitória da Mãe Celeste é apenas a mais antiga jura de violência feita pelo próprio Deus a Satanás, desde os tempos do Paraíso: "Porei ódio entre ti e a mulher, entre tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça, e tu feri-lhe-ás o calcanhar." Gn 3,15
    E ela ainda continua sofrendo em seu 'calcanhar', ou seja, por seus filhos que o inimigo ferozmente ataca, aqueles formam a verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo: "Este, então, irritou-se contra a Mulher e foi fazer guerra ao resto de seus descendentes, àqueles que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus." Ap 12,17
    Nem mesmo com as intercessões dos Santos, que, aliás, clamam por vingança, findarão os martírios na Igreja de Deus Vivo. Mais uma vez, a Palavra é de paciência: "Quando abriu o quinto selo, debaixo do altar vi as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: 'Até quando Tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer Justiça e sem vingar nosso sangue contra os habitantes da Terra?' Então foi dada a cada um deles uma branca veste, e lhes foi dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros de serviço e irmãos que estavam com eles para ser mortos." Ap 6,9-11
    Porém, justamente em função da violência que padecem, os Santos já estão reinando e julgando junto a Deus: "Também vi tronos, sobre os quais se sentaram aqueles que receberam o poder de julgar. Eram as almas daqueles que foram decapitados por causa do testemunho de Jesus e da Palavra de Deus. Feliz e Santo é aquele que toma parte na Primeira Ressurreição! Sobre eles a segunda morte não tem poder, mas serão Sacerdotes de Deus e de Cristo: com Ele reinarão durante os mil anos." Ap 20,4.6
    No Livro do Profeta Malaquias, Deus prometeu: "'Pisareis aos pés os ímpios, os quais serão pó sob a planta de vossos pés no Dia em que Eu agir', diz o Senhor dos Exércitos." Ml 3,21
    Porque as pretensões de Satanás não se encerram em combater apenas o povo de Deus, e o período de batalhas previsto na Bíblia, que sempre incluem todo império do Mal na Terra, vai até o último dia: "Vi sair da boca do Dragão, da boca da besta e da boca do falso profeta três imundos espíritos semelhantes a rãs. São os espíritos de demônios que realizam prodígios e vão ter com os reis de toda Terra, a fim de os reunir para a batalha do Grande Dia do Deus Dominador. Combaterão contra o Cordeiro, mas o Cordeiro vencê-los-á, porque é Senhor dos senhores e Rei dos reis. Aqueles que estão com Ele são os chamados, os escolhidos, os fiéis. Eu vi a besta e os reis da Terra com seus exércitos reunidos para fazer guerra ao Cavaleiro Jesus e a Seu Exército." Ap 16,13-14;17,14;19,19
    Ou seja, como visto, o fim dos inimigos de Deus não será nem um pouco amistoso. Os vinte e quatro anciãos (anjos!) dizem diante do trono de Deus sobre Sua ira e sobre o tempo de "... exterminar aqueles que corromperam a Terra." Ap 11,18b
    Nem o será o fim de seus seguidores! E tudo em avisos feitos no último Livro da Bíblia, nada de uma antiga visão que se tinha de Deus: "Um terceiro anjo seguiu-os, dizendo em alta voz: 'Se alguém adorar a besta e sua imagem, e aceitar seu sinal na fronte ou na mão, também há de beber o vinho da divina cólera, o puro vinho deitado no cálice de Sua ira. Será atormentado pelo fogo e pelo enxofre diante de Seus santos anjos e do Cordeiro. A fumaça de seu tormento subirá pelos séculos dos séculos. Não terão descanso algum, dia e noite, esses que adoram a besta e sua imagem, e todo aquele que acaso tenha recebido o sinal de seu nome." Ap 14,9-11
    Por isso, na Segunda Carta de São Paulo a São Timóteo, quando 'velho' e pressentindo seu próprio sacrifício, ele assim se referiu a sua vida: "Combati o bom combate, terminei minha carreira, guardei a ." 2 Tm 4,7
    E os seguidores de sua tradição exortam na Carta aos Hebreus: "Corramos com perseverança ao proposto combate, com o olhar fixo no Autor e Consumador de nossa fé, Jesus." Hb 12,1b
    Vão mais longe: "Atentamente considerai, pois, Aquele que tantas contrariedades sofreu dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desanimo. Ainda não tendes resistido até o sangue na luta contra o pecado." Hb 12,3-4
    Ciente das maquinações do inimigo, a Carta de São Paulo aos Efésios preparou-nos para uma guerra contra poderosas ordens de anjos decaídos, citando duas delas: "Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do Demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra principados e potestades, contra os príncipes deste tenebroso mundo, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares. Tomai, portanto, a armadura de Deus, para que possais resistir nos maus dias e vos manter inabaláveis no cumprimento de vosso dever. Ficai alerta, à cintura cingidos com a Verdade, o corpo vestido com a couraça da Justiça, e os pés calçados de prontidão para anunciar o Evangelho da Paz. Sobretudo, embraçai o escudo da fé, com que possais apagar todos inflamados dardos do Maligno. Tomai, enfim, o capacete da Salvação e a espada do Espírito, isto é, a Palavra de Deus. Intensificai vossas invocações e súplicas. Rezai em toda circunstância, pelo Espírito, no Qual perseverai em intensa vigília de súplica por todos cristãos." Ef 6,11-18
    Ele expressamente diz que estas forças estão no "... modo de viver deste mundo, do príncipe das potestades do ar, do espírito que agora atua nos rebeldes." Ef 2,1b
    A Segunda Carta de São Pedro, por sua vez, avisa de cósmicas convulsões, e pede que não desprezemos a paciência de Deus: "O Senhor não retarda o cumprimento de Sua promessa, como alguns pensam, mas usa da paciência para convosco. Não quer que alguém pereça. Ao contrário, quer que todos se arrependam. Entretanto, o Dia do Senhor virá como ladrão. Naquele Dia, os céus passarão com ruído, os elementos abrasados dissolver-se-ão, e será consumida a Terra com todas obras que ela contém. Uma vez que todas estas coisas hão de se desagregar, considerai qual deve ser a santidade de vossa vida e de vossa piedade, enquanto esperais e apressais o Dia de Deus, esse Dia em que hão de se dissolver os céus inflamados e hão de se fundir os abrasados elementos! Nós, porém, segundo Sua promessa, esperamos Novos céus e Nova Terra, nos quais habitará a Justiça." 2 Pd 3,9-13
    A Primeira Carta de São Pedro já alertava, como se deu com a destruição de Jerusalém, iniciada pelo Templo (cf. Ez 9,6): "Porque vem o momento em que se começará o Julgamento pela Casa de Deus. Ora, se Ele começa por nós, qual será a sorte daqueles que são infiéis ao Evangelho de Deus? E se o justo se salva com dificuldade, que será do ímpio e do pecador?" 1 Pd 4,17-18
    Acaso não é a história das cidades da luxúria um claro exemplo da pesada mão de Deus? "O Senhor fez, então, cair sobre Sodoma e Gomorra uma chuva de enxofre e de fogo, vinda do Senhor, do Céu. E destruiu essas cidades e toda planície, assim como todos habitantes das cidades e a vegetação do solo." Gn 19,24-25
    No entanto, Deus teria poupado Sodoma se lá houvesse apenas dez homens justos: "Abraão replicou: 'Que o Senhor não Se irrite se falo ainda uma última vez! Que será, se lá forem achados dez?' E Deus respondeu: 'Não a destruirei por causa desses dez.'" Gn 18,32


    Porque Deus está pode compadecer-Se de Seu povo, e suspender mesmo que um grande castigo. Foi o que aconteceu ao tempo do rei Davi, por um pecado seu: "Deus enviou a Jerusalém um anjo para a destruir. Enquanto ele a assolava, o Senhor, que olhava, compadeceu-Se desse mal e disse ao anjo destruidor: 'Basta! Retira agora tua mão!'" 1 Cr 21,15a
    No Livro do Profeta Joel, Ele mesmo clama, e este arauto completa: "'Por isso, ainda agora, Oráculo do Senhor, voltai a Mim de todo vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos de luto. Rasgai vossos corações e não vossas vestes.' Voltai ao Senhor Vosso Deus, porque Ele é bom e compassivo, longânime e indulgente, pronto para Se arrepender do castigo que inflige. Quem sabe se Ele mudará de parecer e voltará atrás, deixando após Si uma bênção? Ofertas e libações para o Senhor, Vosso Deus!" Jl 2,12-14

TEMOR AO SENHOR
 
    Assim como os Céus, contudo, a Igreja Viva não está indefesa. E guardada por anjos, ela mesma pode vigorosamente responder a ataques, em aparência, inofensivos, como vemos desde seus primeiros tempos: "Pedro, porém, disse: 'Ananias, por que Satanás tomou conta de teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo e enganasses acerca do valor do campo? Acaso não podias conservá-lo sem o vender? E depois de vendido, não podias livremente dispor dessa quantia? Por que imaginaste isso em teu coração? Não foi aos homens que mentiste, mas a Deus.' Ao ouvir estas palavras, Ananias caiu morto. Apoderou-se grande terror de todos que disso ouviram falar." At 5,3-5
    Mas nem todo combate é da vontade de Deus, como Jesus disse a São Pedro, quando estava para ser preso no monte das Oliveiras: "Crês tu que não posso invocar Meu Pai e Ele não Me enviaria imediatamente mais de doze legiões de anjos?" Mt 26,53
    São Paulo prega: "Não pagueis a ninguém o mal com o mal. Aplicai-vos a fazer o bem diante de todos homens. Se for possível, quanto depender de vós, vivei em Paz com todos homens. Não vos vingueis uns aos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus.'" Rm 12,17-19a
    Assim também a Carta de São Tiago: "Já o sabeis, meus diletíssimos irmãos: todo homem deve ser pronto para ouvir, porém tardo para falar e tardo para se irar, porque a ira do homem não cumpre a Justiça de Deus." Tg 1,19-20
    Sobre isso, Jesus já havia advertido os irmãos São Tiago Maior e São João Apóstolo: "Enviou diante de Si mensageiros que, tendo partido, entraram em uma povoação dos samaritanos para Lhe arranjar pousada. Mas não O receberam, por Ele dar mostras de que ia para Jerusalém. Vendo isto, Tiago e João disseram: 'Senhor, queres que mandemos que desça fogo do Céu e os consuma?' Jesus voltou-Se e severamente os repreendeu: 'Não sabeis de que espírito sois animados. O Filho do Homem não veio para perder as vidas dos homens, mas para as salvar.' Foram, então, para outra povoação." Lc 9,52-56
    E se a Santa Madre Igreja tem que enfrentar tanta barbárie e tantas injustiças, não se deve esquecer que ela tem dono, nem se deve desconfiar em Suas promessas. Disse Jesus ao Príncipe dos Apóstolos: "E Eu declaro-te: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei Minha Igreja. As portas do inferno não prevalecerão contra ela." Mt 16,18
    Ora, através de Moisés, Deus mesmo prometeu Sua proteção aos israelitas, que nada tem de brandura: "Eis uma coisa que está guardada Comigo, consignada em Meus segredos: a Mim Me pertencem a vingança e as represálias..." Dt 32,34-35a
    Já o havia prometido a Caim, depois que matou seu irmão Abel: "'Eis que agora me expulsais deste lugar, e eu devo ocultar-me longe de Vossa face, tornando-me um peregrino errante sobre a Terra. O primeiro que me encontrar, matar-me-á.' E o Senhor respondeu-lhe: 'Não! Mas aquele que matar Caim será punido sete vezes.' O Senhor pôs em Caim um sinal, para que, se alguém o encontrasse, não o matasse." Gn 4,14-15
    Isaías repetiu essa certeza, dirigindo-se à Jerusalém Celestial, símbolo da Igreja Apostólica: "Fortalecei as enfraquecidas mãos e firmai os debilitados joelhos. Dizei às pessoas deprimidas: 'Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é Vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus. É Ele que vem para vos salvar.'" Is 35,3-4
    Ademais, um simples processo de conversão pode significar agruras, como quando Jesus apareceu a São Paulo, cegando-o: "Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma resplandecente Luz vinda do Céu. Os homens que o acompanhavam encheram-se de espanto, pois ouviam perfeitamente a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada." At 9,3.7-8a
    Davi, acolhendo uma correção, até diz: "Se o justo me bate, é um favor. Se me repreende, é como perfume em minha fronte. Minha cabeça não o rejeitará. Sob seus golpes, apenas rezarei." Sl 140,5
    E São Pedro explica outras situações: "Com efeito, é coisa agradável a Deus sofrer contrariedades e injustamente padecer, por motivo de consciência para com Deus. Que mérito teria alguém se pacientemente suportasse os açoites por ter praticado o mal? Ao contrário, se é por ter feito o bem que sois maltratados, e se pacientemente o suportardes, isto é coisa agradável aos olhos de Deus." 1 Pd 2,19-20
    Da mesma forma, os sinais realizados pelos Santos têm poderes que vão muito além dos práticos efeitos. Foi o que aconteceu com os próprios fiéis logo após o dia de Pentecostes: "E todos estavam cheios de temor, por causa dos numerosos prodígios e sinais que os Apóstolos realizavam." At 2,43
    Porque Jesus não lhes assegurou apenas acesso à Palavra, mas reais poderes que já vigoram sobre este mundo: "Então, ao vencedor, àquele que praticar Minhas obras até o fim, dá-lhe-ei poder sobre as pagãs nações." Ap 2,26
    Com efeito, ainda entre nós Ele havia dito aos 72 enviados, que eram meros discípulos, um grupo a mais, além dos Doze Apóstolos: "Eis que vos dei poder para pisar serpentes, escorpiões e todo poder do inimigo." Lc 10,19
    E assim Se referiu ao Pentecostes: "Eu mandá-vos-ei o Prometido de Meu Pai. Entretanto, permanecei na cidade até que sejais revestidos da força do alto." Lc 24,49
    Por isso, ao falar da autoridade da Igreja, a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios não parece muito cordata: "Não são carnais as armas com que lutamos. São poderosas, em Deus, capazes de arrasar fortificações. Nós aniquilamos todo raciocínio e todo orgulho que se levanta contra o conhecimento de Deus, e cativamos todo pensamento e reduzimo-lo à obediência a Cristo. Também estamos prontos para castigar todos desobedientes, desde que vossa obediência seja perfeita." 2 Cor 10,4-6
    Via de regra, porém, São Pedro recomenda absoluta mansidão para com todos: "Sede educados para com todos, amai os irmãos, temei a Deus, respeitai o rei." 1 Pd 2,17
    A Carta de São Paulo aos Colossenses pede em especial pelos não cristãos: "Procedei com Sabedoria no trato com os de fora. Sabei aproveitar todas circunstâncias. Que vossas conversas sejam sempre amáveis, temperadas com sal, e a cada um sabei responder devidamente." Cl 4,5-6
    Grande teólogo, ele via o temor a Deus, a Quem não devemos tentar, como essencial para o processo da santificação: "Depositários de tais promessas, caríssimos, purifiquemo-nos de toda imundície da carne e do espírito, realizando plenamente nossa santificação no temor a Deus." 2 Cor 7,1
    E é, de fato, por essa tomada de conhecimento da verdadeira realidade que a Igreja Católica se firmou: "A Igreja então gozava de Paz por toda Judeia, Galileia e Samaria. Estabelecia-se caminhando no temor ao Senhor, e a assistência do Espírito Santo fazia-a crescer em número." At 9,31
    Os discípulos de São Paulo, por exemplo, ao defender a Santa Missa, vão justificar-se usando uma passagem do Deuteronômio: "Sim, possuindo nós um inabalável Reino, dediquemos a Deus um reconhecimento que Lhe torne agradável nosso culto com temor e respeito. Porque 'Nosso Deus é um fogo devorador (Dt 4,24)'." Hb 12,28
    A Sabedoria, contudo, em geral vê absoluta moderação na força usada por Deus: "Mostrais Vossa força àqueles que não creem em Vosso poder, e confundis aqueles que não a conhecem e ousam afrontá-la. Mas, dominando Vossa força, julgais com bondade e governai-nos com grande indulgência, porque sempre Vos é possível empregar Vosso poder, quando quiserdes. Agindo desta maneira, mostrastes a Vosso povo que o justo deve ser cheio de bondade, e inspirastes Vossos filhos à boa esperança de que, após o pecado, lhes dareis tempo para a penitência. Porque se os inimigos de Vossos filhos, dignos de morte, Vós o haveis castigado com tanta prudência e longanimidade, dando-lhes tempo e ocasião para se emendarem, com quanto cuidado não julgareis Vós Vossos filhos, a cujos antepassados concedestes com juramento Vossa Aliança, repleta de ricas promessas?" Sb 12,17-21
    De toda forma, já havia usado de mais contundentes palavras: "Não é que Vos fosse impossível esmagar os maus por meio dos justos num combate, ou exterminar todos juntos por animais ferozes ou por uma categórica Palavra, mas castigando-os pouco a pouco, dáveis tempo para o arrependimento..." Sb 12,9-10a
    O Livro de Eclesiástico, por sua vez, vê a violência no próprio pecado, e o temor ao Senhor como o dom que de fato é: "O temor ao Senhor expulsa o pecado! Mas aquele que não tem esse temor, não poderá tornar-se justo. A violência de sua paixão causará sua ruína." Eclo 1,27-28
    Segundo os Provérbios, é ele que nos traz a verdadeira inspiração: "O princípio da Sabedoria é o temor ao Senhor!" Pr 9,10
    Mas, ao mesmo tempo, é nossa mais preciosa joia, por nos conduzir à Paz e à Salvação: "O temor ao Senhor é a coroa da Sabedoria: dá uma plenitude de Paz e de frutos de Salvação." Eclo 1,22
    O Livro de Eclesiastes também fala dele como plena realização humana: "Eu sei, no entanto, que a felicidade é para aqueles que temem a Deus, que Sua presença enche de respeito, e que não haverá nenhuma felicidade para o ímpio, o qual, como a sombra, não prolongará sua vida, porque não tem temor a Deus." Ecl 8,12b-13
    Na Terra, pois, aos Seus Jesus garante consolação espiritual: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dá-vos-á outro Consolador, para que eternamente fique convosco. É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós conhecê-Lo-eis, porque convosco permanecerá e em vós estará." Jo 14,16-17
    Consolação essa que é dada por Sua indizível Paz: "Deixo-vos a Paz, dou-vos Minha Paz. Não vos dou como o mundo a dá. Não se perturbe vosso coração, nem se atemorize!" Jo 14,27
    Nos Céus, por fim, os filhos de Deus viverão a absoluta harmonia, pois Ele mesmo "Enxugará toda lágrima de seus olhos, e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição." Ap 21,4
    E poderão usufruir, então, de uma inimaginável serenidade na Nova Terra, porque Deus assegurou no Livro Profeta Oseias: "Farei para eles, naquele dia, uma aliança com os animais selvagens, as aves do céu e os répteis da terra. Farei desaparecer da Terra o arco, a espada e a guerra, e fá-los-ei repousar com segurança." Os 2,20
    De fato, Isaías viu o Reino de Cristo, e descreveu: "'Então o lobo será hóspede do cordeiro, a pantera deitar-se-á ao pé do cabrito, o touro e o leão comerão juntos, e um menino pequeno conduzi-los-á. A vaca e o urso fraternizar-se-ão, suas crias repousarão juntas, e o leão comerá palha com o boi. A criança de peito brincará junto à toca da víbora, e o menino desmamado meterá a mão na caverna da áspide. Não se fará mal nem dano em todo Meu Santo Monte!' Porque a Terra estará cheia da ciência do Senhor, assim como as águas recobrem o fundo do mar. Naquele tempo, o Rebento de Jessé, posto como estandarte para os povos, será procurado pelas nações e gloriosa será Sua morada." Is 11,6-10

    "Caminhamos na estrada de Jesus!"