quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

São Calisto


    Papa (cf. Jo 21,15s) por pouco mais de 6 anos, em período de perseguição aos cristãos pelo Império Romano, Callixtus era escravo em Roma, sua cidade natal, e, quando adulto, nas minas da ilha de Sardenha, a oeste de Itália, onde exerceu insalubre e muito pesado trabalho.
    Durante a juventude, por sua boníssima índole e inteligência, seu senhor, Carpóforo, que também havia sido escravo, confiou-lhe uma boa soma em dinheiro para que negociasse. Mas, reconhecido como um ex-escravo num mercado cheio de velhacos, foi descaradamente enganado e acabou ficando sem nenhum centavo, pois não conseguiu reaver o dinheiro que investiu e emprestou, nem receber a garantia em mercadoria, do que havia contratado. Temendo ser severamente punido, resolveu fugir.
    Acabou capturado, porém conseguiu explicar-se perante seu dono, que era cristão e mais uma vez lhe concedeu liberdade, sob condição de recuperar o dinheiro perdido. Mas nosso Santo não demorou a ser preso por brigar com judeus na sinagoga de Roma, tentando reaver empréstimos, quando eles o denunciaram como cristão a Fusciano, prefeito romano.
    Deportado como escravo para Sardenha entre 186 e 189, em companhia de muitos cristãos cheios de fé e esperança, aí fervorosa e definitivamente abraçou o Catolicismo. Entre 190 e 192, junto a outros cristãos, recebeu indulto por intercessão de Jacinto, que era autoridade em Roma, tornou-se um liberto imperial (ex-escravo) e foi morar em Anzio, comuna ao sul de Roma, povoada quase exclusivamente por cristãos, onde abriu um banco, ofício muito popular à época. Acabou falindo por uma grande crise inflacionária, mas sobremaneira alargou sua formação cristã e o Sacramento da Ordenação como Diácono.
    De tão notória santificação que se deu por sua profunda conversão, Zeferino, ao tornar-se Papa, convidou-o para trabalhar consigo: fê-lo responsável pelas catacumbas da Via Apia, que hoje levam o nome de Catacumbas de São Calisto. Nelas renomados Santos seriam sepultados, como o próprio Santo Hipólito, que lhe faria infundadas críticas, Santa Cecília, Papa São Damásio I, e onde os corpos de muitos dos Primeiros Santos Mártires de Roma já restavam. Aí também está a recém-descoberta Cripta dos Papas, e junto a ela, no Cubículo de Santo Eusébio, está o histórico epitáfio da tumba do Papa São Marcelino, de pontificado ainda no século III, no qual temos um dos mais antigos registros do uso da palavra 'Papa'.



    Àqueles anos, fim do século II, as catacumbas, pelas dimensões que já haviam alcançado, eram o grande segredo dos cristãos, dada a perseguição que sofriam. Lá eles celebravam a Santa Missa e sepultavam os corpos dos fiéis, pois muitos ainda acreditavam que eles seriam necessários no Dia da Ressurreição da Carne. São Calisto, porém, zelava pelas catacumbas com a clara intenção de preservar as relíquias de Santos e Mártires para a veneração na posteridade.
    Com a morte de Zeferino, e como entre os cristãos já eram evidentes sua devoção e santidade, São Calisto foi unanimemente aclamado Papa, pelo Clero e pelo povo. E por mais um forte motivo: tinha sido o melhor aluno de Santo Irineu, Padre, teólogo e escritor de grande importância para a Santa Igreja Católica (cf. Ef 5,26; At 1,8), pois com maestria rebateu as heresias da época e foi a última testemunha viva da canonização dos quatro Evangelhos.


    Como Papa, São Calisto I foi perseguido e caluniado, da parte de hereges e não convertidos, por ter sido escravo e seguir sendo muito humilde. De fato, contrariando muitos estudiosos de então, usou larga e sabiamente do poder de perdoar, sempre ministrando o Sacramento do Arrependimento ou Confissão como era da tradição do Apóstolos (cf. Mc 6,12; Jo 4,2 e At 19,18). Ele ensinava: "Todo pecado pode ser perdoado pela Igreja, desde que cumpridas as devidas penitências."
    Ora, no Evangelho Segundo São Lucas, Jesus mesmo havia determinado aos Apóstolos: "Se teu irmão pecar, repreende-o. Se se arrepender, perdoa-lhe. Se sete vezes no dia pecar contra ti, e sete vezes no dia vier procurar-te, dizendo: 'Estou arrependido', perdoar-lhe-ás." Lc 17,3-4


    Sofreu forte oposição, principalmente de Santo Hipólito e Tertuliano, que era apologista cristão mas também seguidor do herege Montano. Combatiam-no, em específico, por refutar heresias que contrariavam a concepção da Santíssima Trindade e por conceder perdão por adultério, fornicação, homicídio e apostasia, que àqueles tempos só era dado uma única vez, após severas e públicas penitências. Aliás, penitências essas que São Calisto igualmente revogou, e anos depois teria a concordância de Santo Agostinho. Ora, antes de morrer, Santo Hipólito, que era um grande teólogo, reconheceria os argumentos de São Calisto, arrepender-se-ia e seria assassinado por ser cristão, ou seja, como Mártir.
    Nosso Papa também permitiu o Sacramento do Matrimônio entre nobres e cidadãos romanos com pessoas de classes baixas ou escravos, além de escravos com escravos, quando todas essa uniões eram proibidas ou não reconhecidas, como no caso entre escravos, pelo Direito Romano. Gerava, assim, a diferença entre a Lei Eclesiástica e a Lei do Casamento Civil, o Ius Civile, que mais tarde seria revogado.
    Enfim, semelhantemente condenou e combateu duas outras heresias: o monarquianismo, fosse modalista, fosse dinâmico, também chamados de modalismo e adocionismo, e o sabelianismo, na pessoa do próprio Sabélio.
    A grande consideração, e até veneração, que o imperador Alexandre Severo lhe tinha, chegando a ordenar a construção de um templo ao 'Deus dos cristãos', provocou uma rebelião popular dos pagãos no ano de 222. Valendo-se da ausência do imperador em Roma, ao ser acusado de cristão, o que era patente por seu comportamento, São Calisto, então aos 62 ou 67 anos de idade, em meio às turbas se recusou a renegar sua fé em Cristo, e por isso foi mantido em cárcere privado sem alimentação e sem água, diariamente espancado com varas, e por fim atirado da janela da casa onde estava preso com uma pedra amarrada ao pescoço. Como ainda estava vivo, foi jogado num poço para morrer afogado.
    Viveu como escravo, foi libertado para servir a Deus sob violenta perseguição à Igreja Católica Apostólica Romana (cf. At 1,6), e passou seus últimos instantes numa prisão. Um memorável Mártir. Foi o primeiro Papa registrado no Depositio Martyrum, um cronógrafo, ou seja, calendário ilustrado, do ano de 354. É o Padroeiro dos trabalhadores de cemitério.


   Sobre o poço de seu martírio foi erguido uma capela, ao lado da atual Igreja de São Calisto, cujo primeira edificação foi construída por ele mesmo, para que de oculto mas digno modo, pudesse celebrar o Santíssimo Sacramento.


    Ela fica nas proximidades da Igreja, hoje Basílica de Santa Maria, de primeiro prédio também construído por nosso Santo, em Trastevere, sua região de nascimento em Roma, sob cujo Altar principal seus restos mortais foram depositados, séculos após terem sido sepultados no Capelódio, nas catacumbas da Via Aurélia.


    São Calisto, rogai por nós!