quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

O Mistério do Mal


SEM A FÉ, A DESOLAÇÃO

    Como entender o mal que há no mundo? Por que Deus não o elimina em definitivo? De fato, não é exagero dizer que vivemos num 'vale de lágrimas', como rezamos na oração 'Salve Rainha'.
    Pois mesmo nos casos dos castigos de Deus, é patente que nem só os maus padecem, como se viu no episódio em que Aarão conseguiu amenizar Sua cólera durante o Êxodo, conforme o Livro de Sabedoria: "Verdade é que a prova da morte também feriu os justos, e numerosos foram aqueles que ela abateu no deserto. Mas a ira de Deus não durou muito tempo porque um irrepreensível homem se apressou em tomar sua defesa, servindo-se das armas de seu pessoal ministério: a oração e o expiatório sacrifício do incenso. Opôs-se à ira e pôs fim ao flagelo, mostrando que era Vosso servo. Dominou a revolta, não pela força física, nem pela força das armas, mas por sua palavra deteve Aquele que castigava, relembrando-Lhe os juramentos feitos aos antepassados e a estabelecida Aliança. Os mortos já se amontoavam uns sobre os outros, mas, quando ele interveio, deteve a cólera e afastou-a dos vivos." Sb 18,20-23
    E quando profetiza a morte de Cristo, o Livro do Profeta Zacarias, falando por Deus Pai, diz não só de Seu sofrimento, sem dúvida imerecido, bem como do de Seus humildes seguidores: "'Espada, levanta-te contra Meu Pastor, contra Meu Companheiro!' Oráculo do Senhor dos Exércitos. 'Fere o Pastor! Que as ovelhas sejam dispersas! Voltarei Minha mão até mesmo contra os pequenos.'" Zc 13,7
    Mas o exagerado uso da razão, e assim a rejeição dos sussurros da fé, podem cegar, como o sagrado autor do Livro de Eclesiastes atesta: "Porque, no acúmulo de sabedoria, se acumula tristeza. E se aumenta a ciência, aumenta a dor." Ecl 1,18
    O sofrimento dos pobres, citado nesse mesmo livro e facilmente constatado pelo mundo, também pode ser fonte de desolação quando não se percebe a sobrenatural consolação dada por Deus: "Pus-me, então, a considerar todas opressões que se exercem debaixo do sol. Eis aqui as lágrimas dos oprimidos e não há ninguém para os consolar. Seus opressores fazem-lhes violência, e não há ninguém para os consolar." Ecl 4,1
    Assim como corriqueiras e mundanas injustiças: "Há outra vaidade que acontece na Terra: há justos, aos quais acontecem males como se tivessem praticado as obras dos ímpios, e há ímpios aos quais tudo corre bem, como se tivessem praticado as obras dos justos." Ecl 8,14a
    E a fé fatidicamente acaba por desaparecer, pois ao tempo do Eclesiastes a Ressurreição e a Vida Eterna ainda não eram consolidadas revelações, prevalecendo a sensação de que tudo se encerrava mesmo neste mundo: "... todos estão à mercê das circunstâncias e da sorte." Ecl 9,11
    No Livro de Jó, este homem conhecido por sua grande paciência, em seu emblemático sofrimento também se desesperou: "A Terra está entregue nas mãos dos maus, e com um véu Ele cobre os olhos de Seus juízes. Se não é Deus Quem faz isso, quem é?" Jó 9,24
    Ele abertamente questiona Deus, como que desconhecendo Seus poderes, porque, de fato, padecia de muitos males: "Em lugar de condenar-me, direi a Deus: 'Mostrai-me porque razão me tratas assim. Encontrais prazer em oprimir, em renegar a obra de Vossas mãos? Em favorecer os planos dos maus? Orgulhoso como um leão, Vós me caçais! Multiplicais proezas contra mim..." Jó 10,2-3.16
    Mas um amigo de Jó, lembrando elementos da Criação, afirma que o mal provém do próprio ser humano: "Pois o mal não sai do pó, e o sofrimento não brota da terra: é o homem quem causa o sofrimento como as faíscas voam no ar." Jó 5,6-7
    E outro adverte que os desígnios do Criador nem sempre são tão fáceis de compreender: "Oh! Se Deus te falasse, e abrisse Seus lábios para te responder, te revelar os mistérios da Sabedoria que são ambíguos para nosso espírito..." Jó 11,5-6
    Por fim, ao retomar a palavra, Deus relembra Seu sutil agir e de pronto questiona tanta insensatez: "Quem é esse que assim quer obscurecer Meus desígnios com estapafúrdios discursos?" Jó 38,2
    Caindo em si, Jó admite seus mal arrazoados pensamentos e, pelas obras de Deus na natureza, acaba por reconhecer Sua bondade: "É verdade! Eu falei, sem nada entender, de maravilhas que superam minha compreensão. Meus ouvidos tinham escutado falar de Vós, mas agora meus olhos Vos viram." Jó 42,3b.5
    No Livro de Salmos, um ancião também declarou grandes dificuldades, que atribuiu aos desígnios de Deus: "Vós fizestes-me passar por numerosas e amargas tribulações para, de novo, fazer-me viver e dos abismos da Terra tirar-me. Aumentai minha grandeza, e consolai-me novamente. Celebrarei então Vossa fidelidade nas cordas da lira, eu cantá-Vos-ei na harpa, ó Santo de Israel." Sl 70,20-22
    Outro sagrado autor igualmente reclamou a Deus pelo sofrimento dos inocentes: "Levantai-Vos, Juiz da Terra, castigai os soberbos como eles merecem. Até quando, Senhor, triunfarão os ímpios? Até quando se desmandarão em arrogantes discursos, e jactanciosos estarão esses obreiros do mal? Eles esmagam o povo, Senhor, e oprimem Vossa herança. Trucidam a viúva e o estrangeiro, tiram a vida aos órfãos. E dizem: 'O Senhor não vê, o Deus de Jacó não presta atenção nisso!'" Sl 93,2-7
    E no Livro do Profeta Isaías, Deus mesmo deu esta explicação sobre certas situações de governo: "Porque eis o que o Senhor me disse quando me agarrou e me preveniu contra essa política: 'Não chameis conspiração tudo que o povo chama conspiração, não vos assusteis. É o Senhor que vós deveis ter por conspirador! É a Ele que é preciso respeitar, a Ele que se deve temer. Ele será a Pedra de escândalo e a Pedra de tropeço para as duas casas de Israel, o laço e a cilada para os habitantes de Jerusalém.' Eu vou recolher esta declaração e selar esta revelação para meus discípulos. Eu, e os filhos que o Senhor me deu, somos, em Israel, sinais e presságios da parte do Senhor dos Exércitos, que habita no Monte de Sião." Is 8,11-13-14.16.18
    Mas contemplando a sofrida história de Israel, este Profeta tornou a interrogar Deus: "Como nos deixastes andar longe de Vossos caminhos e endurecestes nossos corações para não termos temor a Vós?" Is 63,17a
    Semelhante questão já havia levantado Gedeão, juiz de Israel, quando o anjo do Senhor lhe apareceu. Está no Livro de Juízes: "Ah, meu senhor, se o Senhor está conosco, por que nos vieram todos esses males?" Jz 6,13a
    O Livro do Profeta Habacuc também questiona a Deus, quando o povo de Israel estava para ser esmagado pelo Império de Babilônia: "Não sois Vós, Senhor, desde o princípio, Meu Deus, Meu Santo, o Imortal? Ó Senhor, Vós destinastes este povo para fazer Justiça? Ó Rochedo, Vós designaste-lo para aplicar castigos? Vossos olhos são por demais puros para verem o mal, não podeis contemplar o sofrimento. Por que olharíeis os ímpios e Vos calaríeis, enquanto o malvado devora o justo?" Hab 1,12-13
    Contudo, mais uma vez Deus não explicou Seus desígnios, e apenas enunciou a frase que em vários dos Sagrados Livros ecoaria: "Eis que sucumbe aquele que não tem íntegra alma, mas o justo viverá pela fé." Hab 2,4
    E o Eclesiastes, assim como o amigo de Jó, com correção vai apontar a origem do mal: "Deus criou o homem reto, mas é ele que procura os extravios." Ecl 7,29
    Então chega a essa conclusão"Isso também é vaidade! Como a sentença contra os maus atos não é imediatamente executada, o coração dos homens enche-se de desejo de fazer o mal, porque o pecador culpado de cem crimes imagina sua vida prolongada. Mas eu sei que a felicidade é para aqueles que temem a Deus, que Sua presença os impõe respeito, e que não haverá nenhuma felicidade para o ímpio, o qual, como a sombra, não prolongará sua vida..." Ecl 8,10-13


A INCOMPARÁVEL GLÓRIA

    O que parece ser um problema, pois, Nosso Salvador vai apontar como oportunidade para que a Graça de Deus se manifeste de mais claro modo, como o milagre de uma cura, por exemplo. O Evangelho Segundo São João narrou: "Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Seus discípulos indagaram d'Ele: 'Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego?' Jesus respondeu: 'Nem este pecou nem seus pais, mas é para que nele se manifestem as obras de Deus.'" Jo 9,1-3
    Foi isso que São José de Egito alegou a seus irmãos, que o jogaram ainda jovem numa cisterna para o matar, mas depois resolveram vendê-lo como escravo. Ora, como administrador do faraó, José viria a salvar Israel da fome, como se lê no Livro de Gênesis: "Vossa intenção era de fazer-me mal, mas Deus tirou daí um bem. Era para fazer, como acontece hoje, com que se conservasse a vida a um grande povo." Gn 50,20
    A Carta de São Paulo aos Romanos também nos mostra que a Graça é muito maior que o mal, e sempre o transformará num bem incomparavelmente superior, fazendo com que o futuro daqueles que creem em Deus seja cada vez melhor: "Mas onde abundou o pecado, superabundou a Graça. Assim como o pecado reinou para a morte, a Graça também reinaria pela Justiça para a Vida Eterna, por meio de Jesus Cristo, Nosso Senhor." Rm 5,20-21
    E deixa claro que o mal ou o bem por nós praticados nos levarão a diferentes destinos: "Porque o salário do pecado é a morte, enquanto o dom de Deus é a Vida Eterna..." Rm 6,23
    Porém, mesmo ungidos pelo Espírito Santo, ele aponta como o mal segue tentando-nos: "Deleito-me na Lei de Deus, no íntimo de meu ser. Sinto, porém, em meus membros outra lei, que luta contra a Lei de meu espírito e me prende à lei do pecado, que está em meus membros." Rm 7,22-23
    A Primeira Carta de São João também denuncia em nossas más inclinações a origem do mal: "Porque tudo que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida,  não procede do Pai, mas do mundo." 1 Jo 2,16
    Igualmente diz a Carta de São Tiago: "Feliz o homem que suporta a tentação. Porque, depois de sofrer a provação, receberá a Coroa da Vida que Deus prometeu àqueles que O amam. Ninguém, quando for tentado, diga: 'É Deus Quem me tenta.' Deus é inacessível ao mal e não tenta a ninguém. Cada um é tentado por sua própria concupiscência, que o atrai e alicia. A concupiscência, depois de conceber, dá à luz o pecado, e o pecado, uma vez consumado, gera a morte." Tg 1,12-15
    E se Ele permite a tentação (cf. Jó 1,9s), não deixa de dar-nos condições, como a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios revela: "Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além de vossas forças, mas com a tentação Ele dá-vos-á os meios de suportá-la e sairdes dela." 1 Cor 10,13
    Um claro exemplo temos de Jesus mesmo, que alertou São Pedro na noite em que ia ser entregue, falando tanto da permissão que o Demônio pede a Deus como do auxílio de Cristo. Ora, a ele Nosso Senhor confiou todos demais Apóstolos, que com ele eram os fundamentos da Igreja (cf. Ef 2,20): “Simão, Simão, saiba que Satanás insistentemente pediu para vos peneirar como trigo. Mas Eu rezei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça. Pois quando tu te converteres, confirma teus irmãos” Lc 22,31-32
    É o que se lê no Livro de Tobias, do ocorrido com Tobit, seu pai: "Ora, aconteceu que um dia, cansado desse trabalho, voltou para sua casa e deitou-se junto à parede onde adormeceu. Enquanto dormia, de um ninho de andorinhas caiu-lhe esterco quente nos olhos, e ele tornou-se cego. Deus permitiu que lhe acontecesse essa prova, para que sua paciência, como a do Santo homem Jó, servisse de exemplo à posteridade. Como sempre havia temido a Deus, desde sua infância, e guardado Seus Mandamentos, ele não se afligiu nem murmurou contra Deus por ter sido atingido pela cegueira." Tb 2,10-13
    Por isso, a Segunda Carta de São Paulo aos Coríntios trata de exaltar o poder da Graça, pelos Sacramentos, como mais importante parte na obra da Redenção: "E tudo isso faz-se por vossa causa, para que a Graça se torne copiosa entre muitos e redunde o sentimento de gratidão, para Glória de Deus. É por isso que não desfalecemos. Ainda que vá arruinando-se nosso homem exterior, nosso interior renova-se de dia para dia. Nossa presente tribulação, momentânea e ligeira, proporciona-nos um eterno peso de incomensurável Glória. Porque não miramos as coisas que se vêem, mas sim as que não se vêem. Pois as coisas que se vêem são temporais, e as que não se vêem são eternas." 2 Cor 4,15-17
    E arremata, dizendo o que nos orienta: "Andamos na , e não na visão." 2 Cor 5,7
    Ele faz um belo discurso, no qual menciona o sofrimento, a fraqueza, a esperança, a paciência, a Redenção, a oração e os auxílios do Espírito de Deus: "Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm comparação alguma com a futura Glória, que deve ser-nos manifestada. Por isso, a Criação ansiosamente aguarda a manifestação dos filhos de Deus. Pois sabemos que toda Criação geme e sofre como que dores de parto até o presente dia. Não só ela, mas nós, que temos as primícias do Espírito, também gememos em nós mesmos, aguardando a adoção, a redenção de nosso corpo. Porque pela esperança é que fomos salvos. Ora, ver o objeto da esperança já não é esperança, porque, o que alguém vê, como é que ainda o espera? Nós que esperamos o que não vemos, é em paciência que o aguardamos. De toda forma, o Espírito vem em auxílio a nossa fraqueza, porque não sabemos o que devemos pedir nem rezar como convém, mas o Espírito mesmo intercede por nós com inexprimíveis gemidos. E Aquele que perscruta os corações sabe o que o Espírito deseja, o Qual intercede pelos Santos, segundo Deus. Aliás, sabemos que todas coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são os eleitos, segundo Seus desígnios." Rm 8,18-19.22-28
    Ele explica: "Ora, nós não recebemos o espírito do mundo, mas sim o Espírito que vem de Deus, que nos dá a conhecer as Graças que Deus nos prodigalizou e que pregamos numa linguagem que nos foi ensinada não pela sabedoria humana, mas pelo Espírito, que exprime as coisas espirituais em termos espirituais. Mas o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, pois para ele são loucuras. Nem pode compreendê-las, porque é pelo Espírito que deve ponderá-las." 1 Cor 2,12-14
    Tinha, portanto, perfeita ciência da efemeridade da terrena vida: "Pois enquanto permanecemos nesta tenda, gememos oprimidos: desejamos ser não despojados, mas revestidos com uma nova veste por cima da outra, de modo que o que há de mortal em nós seja absorvido pela Vida. Aquele que nos formou para este destino é Deus mesmo, que por penhor nos deu Seu Espírito. Por isso, estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor." 2 Cor 5,4-6
    Na Carta aos Hebreus, os seguidores da tradição de São Paulo fazem-nos lembrar as centenas de irmãos que já àqueles anos haviam gloriosamente seguido o Caminho indicado por Jesus (cf. Mc 8,34): "Desse modo, cercados como estamos de tal nuvem de testemunhas, desvencilhemo-nos das correntes do pecado. Corramos com perseverança ao proposto combate, com o olhar fixo no Autor e Consumador de nossa fé: Jesus. Em vez de gozo que se Lhe oferecera, Ele suportou a Cruz e está sentado à direita do trono de Deus. Atentamente considerai, pois, Aquele que tantas contrariedades sofreu dos pecadores, e não vos deixeis abater pelo desânimo." Hb 12,1-2
    E assim eles ressaltam o sacrifício dos mártires: "Ainda não tendes resistido até o sangue na luta contra o pecado." Hb 12,4
    Como já era prisioneiro, e por ser um Sacerdote, pela fé dos cristãos o Apóstolo dos Gentios dispõe-se ao martírio. Está na Carta de São Paulo aos Filipenses: "Ainda que tenha de derramar meu sangue em sacrifício e em serviço de vossa fé, eu alegro-me e felicito-vos." Fl 2,17
    E ele não falava em linguagem figurada, como vemos ao explicar o poder do Evangelho: "Porém, temos este tesouro em vasos de barro, para que claramente transpareça que este extraordinário poder provém de Deus e não de nós. Em tudo somos oprimidos, mas não sucumbimos. Vivemos em completa penúria, mas não nos desesperamos. Somos perseguidos, mas não ficamos desamparados. Somos abatidos, mas não somos destruídos. Sempre trazemos em nosso corpo os traços da Morte de Jesus, para que a Vida de Jesus também se manifeste em nosso corpo. Embora estando vivos, a toda hora somos entregues à morte por causa de Jesus, para que a Vida de Jesus também apareça em nossa carne mortal. Assim em nós opera a morte, e em vós a vida." 2 Cor 4,7-12
    Apenas estava sendo coerente, pois havia muito que assim ele preparava os cristãos, e sob o estigma da Santa Cruz e de penitências a Santa Igreja Católica cresceu. No Livro de Atos dos Apóstolos, o Amado Médico registrou: "Naqueles dias, Paulo e Barnabé voltaram para as cidades de Listra, Icônio e Antioquia. Encorajando os discípulos, eles exortavam-nos a permanecerem firmes na fé, dizendo-lhes: 'É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus.' E em cada igreja instituíram anciãos, e, após orações com jejuns, encomendaram-nos ao Senhor, em Quem tinham confiado." At 14,21b-23
    Deixou vários exemplos de tenebrosas tribulações: "Não queremos, irmãos, que ignoreis a tribulação que nos sobreveio em Ásia. Ali fomos desmedidamente maltratados, além de nossas forças, a ponto de termos perdido a esperança de sair com vida. Dentro de nós mesmos sentíamos a sentença de morte, para que aprendêssemos a pôr nossa confiança não em nós, mas em Deus, que ressuscita os mortos." 2 Cor 1,8-9
    Via em sofrimentos e provações necessários alertas para se manter em vigília: "Ademais, para que a grandeza das revelações não me levasse ao orgulho, foi-me dado um espinho na carne, um anjo de Satanás para me esbofetear e me livrar do perigo da vaidade." 2 Cor 12,7
    Ensinava: "Por Ele (Cristo) é que tivemos acesso a essa Graça, na qual estamos firmes e nos gloriamos na esperança de um dia possuir a Glória de Deus. Não só isso, mas gloriamo-nos até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança." Rm 5,2-4
    Sua intimidade com Deus, com efeito, chegou a verdadeiras pérolas da espiritualidade: "Deus encerrou todos homens sob a desobediência, para com todos usar de Misericórdia. Oh, abismo de riqueza, de Sabedoria e de ciência em Deus! Quão impenetráveis são Seus juízos, e inexploráveis, Seus caminhos!" Rm 11,32-33
    E assim nos estimula a achar a sintonia das Graças de Deus: "Não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação de vosso espírito para que possais discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, o que Lhe agrada e o que é perfeito." Rm 12,2
    Deixa, enfim, um valoroso conselho de moderação e resignação: "Não te deixes vencer pelo mal, mas triunfa do mal com o bem." Rm 12,21


FÉ, ESPERANÇA E AMOR

    E de sua luminosa santidade, para que não desanimemos com contrariedades, ele faz-nos recordar a virtude de esperança que nos é infusa através da Palavra de Deus: "Ora, tudo quanto outrora foi escrito, foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela perseverança e pela consolação que dão as Escrituras, tenhamos esperança." Rm 15,4
    Ele descarta por completo qualquer sabedoria desprovida da inspiração de Deus: "... para que vossa fé não se baseasse na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus. Pregamos a Sabedoria de Deus, misteriosa e secreta, que Deus predeterminou antes de existir o tempo, para nossa Glória." 1 Cor 2,5.7
    Ele até explica o dom da ciência, enaltecendo a 'Beatífica visão': "Nossa ciência é parcial, nossa profecia é imperfeita. Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá. Hoje vemos como por um espelho, confusamente, mas então veremos face a face." 1 Cor 13,9-10.12
    São João Evangelista garante: "Caríssimos, desde agora somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que havemos de ser. Sabemos que, quando isto se manifestar, seremos semelhantes a Deus, porquanto O veremos como Ele é. E todo aquele que n'Ele tem esta esperança torna-se puro, como Ele é puro." 1 Jo 3,2-3
    E entre as virtudes, mesmo as espirituais, São Paulo ressalta a excelência do amor, que tudo suporta: "Ainda que distribuísse todos meus bens em sustento dos pobres, e ainda que entregasse meu corpo para ser queimado, se não tiver amor, de nada valeria! Por ora subsistem a fé, a esperança e o amor. Mas o mais importante é o amor." 1 Cor 13,3.13
    Enfim, o próprio Jesus avisou-nos do mal que há no mundo, e mostrou na perseverança o Caminho da vitória: "Disse-vos essas coisas para que em Mim tenhais a Paz. No mundo haveis de ter aflições. Mas, tenham coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    Ele dava exemplo: "... Eu também guardei os Mandamentos de Meu Pai, e persisto em Seu amor." Jo 15,10b
    Deixou claro, desde Seus primeiros ensinamentos, que cada dia haveria de ser enfrentado sem que nos desesperemos quanto às provações ou ao futuro. O Evangelho Segundo São Mateus traz: "Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá suas próprias preocupações. A cada dia basta seu mal." Mt 6,34
    Ainda falou de difíceis tempos, quando nossa impotência será radical: "Enquanto for dia, cumpre-Me terminar as obras d'Aquele que Me enviou. Virá a noite, na qual já ninguém pode trabalhar." Jo 9,4
    Padeceu Ele mesmo grande Sacrifício, que pressentia já no Horto das Oliveiras, no início de Sua Paixão: "Meu Pai, se é possível, afasta de Mim este cálice! Todavia não se faça o que Eu quero, mas sim o que Tu queres." Mt 26,39b
    No momento em que foi preso, conforme o Evangelho Segundo São Lucas, explicitou o que se passava: “Eu estava convosco no Templo todos dias, e vós não estendestes as mãos contra Mim. Mas esta é vossa hora, e do poder das trevas." Lc 22,53
    E na Cruz, pouco antes de morrer, humanamente experimentou a plenitude da desolação, citando um Salmo do rei Davi: "Próximo da hora nona, Jesus exclamou em forte voz: 'Eli, Eli, lammá sabactáni?, que quer dizer: Meu Deus, Meu Deus, por que Me abandonaste? (Sl 21,2) '" Mt 27,46
    A Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses foi ainda mais específica, ao mencionar estranhas e malignas forças que agem sob permissão de Deus: "Porque o mistério da iniquidade já está em ação, apenas esperando o afastamento daquele que o detém." 2 Ts 2,7
    Deu detalhes sobre os poderes das trevas, acenando para grandes tormentos, nos quais, por castigo, Deus terá ativa participação. Falou do principal anticristo a vir no fim dos tempos: "A manifestação do ímpio será acompanhada, graças ao poder de Satanás, de toda sorte de enganadores portentos, sinais e prodígios. Ele usará de todas seduções do mal com aqueles que se perdem, por não terem cultivado o amor à Verdade que teria podido salvá-los. Por isso, Deus enviá-lhes-á um poder que os enganará e os induzirá a acreditar no erro." 2 Ts 2,9-11
    Já se via na história de um rei estrangeiro e seu próprio povo: "Reinou Abimelec sobre Israel durante três anos. E Deus suscitou um mau espírito entre ele e os habitantes de Siquém, que os fez revoltarem-se. Isso aconteceu para que o homicídio dos setenta filhos de Jerobaal fosse vingado, e seu sangue caísse sobre Abimelec, seu irmão, que os havia matado, e sobre os siquemitas que tinham sido seus cúmplices. Morto Abimelec, todos israelitas voltaram a suas casas. Assim Deus fez recair sobre Abimelec o mal que tinha feito a seu pai, matando seus setenta irmãos, e do mesmo modo, Deus fez recair sobre os siquemitas seus crimes." Jz 9,22-24.55-57a
    Algo semelhante, mas em escala pessoal, havia acontecido antes da saída da escravidão em Egito, conforme o Livro de Êxodo: "Moisés e Aarão tinham operado todos esses prodígios em presença do faraó. Mas o Senhor endureceu o coração do faraó, que não permitiu aos israelitas partirem de sua terra." Êx 11,10
    Na história de Saul, primeiro rei de Israel: "Os homens de Saul disseram-lhe: 'Eis que um mau espírito de Deus veio sobre ti. Que nosso senhor ordene, e teus servos aqui presentes procurarão um homem que saiba tocar harpa. E quando o mau espírito de Deus estiver sobre ti, ele tocará o instrumento para te acalmar." 1 Sm 16,15-16
    Na história do rei Acab, como o Profeta Miqueias lhe revelou, no Primeiro Livro de Reis: "O Senhor pôs um espírito de mentira na boca de todos profetas aqui presentes, mas é tua perda que o Senhor decretou." 1 Rs 22,23
    Massivamente tornaria a acontecer em Egito: "Os príncipes de Soã enlouquecerão, os sábios conselheiros do faraó formarão um insensato conselho. Como ousais dizer ao faraó: 'Eu sou filho de sábios, filho dos antigos reis?' Onde estão agora teus sábios? Que eles te anunciem e te façam saber os desígnios do Senhor dos Exércitos contra Egito! Os príncipes de Soã perdem a razão, os príncipes de Nof são iludidos e os chefes das tribos desencaminham Egito. O Senhor difundiu entre eles um espírito de vertigem, e eles vagueiam por todo Egito sem desígnio certo, como um bêbado que cambaleia em seu vômito." Is 19,11-14
    Em Jerusalém, antes do exílio em Babilônia: "'Acamparei contra ti como Davi, cercar-te-ei de acampamentos e levantarei trincheiras contra ti.' A multidão de teus inimigos será como a poeira fina, a multidão dos tiranos será como a palha, que voa, pois, de repente, serás visitada pelo Senhor dos Exércitos com forte trovão, tremor de terra e estrondos, tempestade, furacão e chamas de fogo devorador. Como em um sonho, uma noturna visão, assim será a multidão das nações que atacam Ariel, os acampamentos e as trincheiras daqueles que a sitiam. Pasmai-vos e maravilhai-vos, obstinai-vos, feridos de cegueira, embriagai-vos, mas não de vinho, cambaleai, mas não por causa da bebida. Porque o Senhor espalhou sobre vós um espírito de torpor, fechou vossos olhos e cobriu vossas cabeças." Is 29,3.5-7.9,10
    Com a maioria dos judeus perante a Vinda de Cristo, segundo São Paulo: "É o que continua a acontecer no presente tempo: subsiste um resto, segundo a eleição da Graça. Conseqüência? Que Israel não conseguiu o que procura. Os escolhidos, estes sim, conseguiram-no. Quanto aos mais, foram obcecados, como está escrito: 'Deus deu-lhes um espírito de torpor, olhos para que não vejam e ouvidos para que não ouçam, até o presente dia (Dt 29,3)." Rm 11,5.7-8
    Também na rebelião das nações e do próprio Império Romano contra Roma. O Livro de Apocalipse de São João traz: "O anjo disse-me: 'As águas que viste, à beira das quais a prostituta se senta, são povos e multidões, nações e línguas. Os dez chifres que viste, assim como a besta, odiarão a prostituta. Hão de despojá-la e desnudá-la. Hão de comer-lhe as carnes e queima-la-ão ao fogo. Porque Deus lhes incutiu no coração o desejo de executarem seus desígnios, de concordarem em ceder sua soberania à besta, até que se cumpram as palavras de Deus.'" Ap 17,17
    Porém, incluso no mistério do mal, o tempo de ação do inimigo também está contado, como o Amado Discípulo testemunhou: "Eu ouvi no Céu uma voz forte que dizia: 'Agora chegou a Salvação, o poder e a realeza de Nosso Deus, assim como a autoridade de Seu Cristo... Mas, ó Terra e mar, cuidado! Porque o Demônio desceu para vós cheio de grande ira, sabendo que pouco tempo lhe resta.'" Ap 12,10a.12b
    De fato, os martírios continuam, ou seja, a intercessão dos Santos, entre tantas outras, prossegue: "Quando abriu o quinto selo, debaixo do altar vi as almas dos homens imolados por causa da Palavra de Deus e por causa do testemunho de que eram depositários. E clamavam em alta voz, dizendo: 'Até quando Tu, que és o Senhor, o Santo, o Verdadeiro, ficarás sem fazer Justiça e sem vingar nosso sangue contra os habitantes da Terra?' Então foi dada a cada um deles uma branca veste e lhes foi dito que aguardassem ainda um pouco, até que se completasse o número dos companheiros e irmãos que com eles estavam para ser mortos." Ap 6,9-11
    Ora, se não pelo mistério do mal, como entender os martírios de São João Batista e de Nosso Senhor Jesus Cristo? Como entender os maus espíritos que dominam tantos tiranos pelo mundo afora na História da humanidade? E pior ver-se-á ao fim dos tempos: "Vi, então, um anjo de pé sobre o sol, a chamar em alta voz a todas aves que voam pelo meio dos céus: 'Vinde, reuni-vos para a grande ceia de Deus, para comerdes carnes de reis, carnes de generais e carnes de poderosos, carnes de cavalos e cavaleiros, carnes de homens, livres e escravos, pequenos e grandes.' Eu vi a besta e os reis da Terra com seus exércitos reunidos para fazer guerra ao Cavaleiro e a Seu exército. Mas a besta foi presa e com ela o falso profeta, que realizara prodígios sob seu controle, com os quais seduzira aqueles que tinham recebido o sinal da besta e se tinham prostrado diante de sua imagem. Ambos foram lançados vivos no lago de sulfuroso fogo. Os demais foram mortos pelo Cavaleiro, com a espada que Lhe saía da boca. E todas aves fartaram-se de suas carnes." Ap 19,17-21
    Como entender que Deus permita demoníacas possessões em crianças, como se lê no Evangelho Segundo São Marcos? "Respondeu um homem dentre a multidão: 'Mestre, eu trouxe-Te meu filho, que tem um espírito mudo. Este, onde quer que o apanhe, lança-o por terra e ele espuma, range os dentes e fica endurecido. Roguei a Teus discípulos que o expelissem, mas não o puderam.' Respondeu-lhes Jesus: 'Ó incrédula geração, até quando estarei convosco? Até quando hei de aturar-vos? Trazei-Mo cá!' Eles trouxeram-Lho. Assim que o menino avistou Jesus, o espírito fortemente agitou-o. Caiu por terra e revolvia-se espumando. Jesus perguntou ao pai: 'Há quanto tempo lhe acontece isto?' Desde a infância, respondeu-lhe. E muitas vezes tem-no lançado ao fogo e à água, para o matar.'" Mc 9,17-22a
    Por isso, citando duas ordens de anjos caídos, a Carta de São Paulo aos Efésios aconselhou: "Revesti-vos da armadura de Deus para que possais resistir às ciladas do Demônio. Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste tenebroso mundo, contra as forças espirituais do mal espalhadas nos ares." Ef 6,11-12
    Como Jesus, ele recomendava a constante vigilância: "Vigiai, pois, com cuidado sobre vossa conduta: que ela não seja conduta de insensatos, mas de sábios que ciosamente aproveitam o tempo, pois os dias são maus." Ef 5,15-16
    E falava em absoluta resignação diante dos ditames de Deus: "Sei viver na penúria, e também sei viver na abundância. Estou acostumado a todas vicissitudes: a ter fartura e a passar fome, a ter abundância e a padecer necessidade. Tudo posso n'Aquele que me fortalece." Ef 4,12-13
    De fato, enquanto a humanidade debate-se entre a sobriedade do bem e a ilusão do mal, o Pai cuida de consolar-nos. Ora, Jesus mesmo era um consolador, assim como o Espírito Santo. Ele prometeu na última noite entre os Apóstolos: "Porém, quando vier o outro Consolador que Eu vos enviarei da parte do Pai, o Espírito da Verdade..." Jo 15,26
    Falando de Sua Paixão, nesta mesma ocasião, Ele fez menção à indizível alegria que os Apóstolos teriam, assim como todos que creem na Ressurreição: "... sem dúvida, agora estais tristes, mas hei de ver-vos outra vez, e vosso coração alegrá-se-á e ninguém vos tirará vossa alegria." Jo 16,22
    Disse que Sua Ressurreição os faria entrar noutra dimensão de percepções, e entenderiam o que a Comunhão dos Santos representa: "Naquele dia conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim e Eu em vós." Jo 14,20
    E garantiu extasiantes Graças que em Seu Nome são derramadas sobre Sua Igreja: "Até agora não pedistes nada em Meu Nome. Pedi e recebereis, para que vossa alegria seja perfeita." Jo 16,24
    Falou de obras só comparáveis às que se viriam pelos Santos da Igreja Católica: "Na Verdade, na Verdade, digo-vos: aquele que crê em Mim também fará as obras que Eu faço, e ainda fará maiores que estas, porque vou para junto do Pai. E tudo que pedirdes ao Pai em Meu Nome, fá-vos-ei, para que o Pai seja glorificado no Filho." Jo 14,12-13
    Para entendermos o mistério do mal, portanto, primeiro temos que contemplar o mistério do bem, que, sem dúvida, é infinitamente superior. Nosso Senhor disse em Sua primeira visita a Jerusalém em Missão: "... Deus tanto amou o mundo que lhe deu Seu único Filho..." Jo 3,16
    São Paulo, portanto, alegra-se: "Mas eis aqui uma brilhante prova do amor de Deus por nós: quando ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós. Portanto, muito mais agora que estamos justificados por Seu Sangue, por Ele seremos salvos da ira. Se quando ainda éramos inimigos fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, com muito mais razão estando já reconciliados seremos salvos por Sua Vida." Rm 5,8-10
    Enfim, o Doutor da Igreja e Padre Grego, São João Crisóstomo, que viveu entre 347 e 407, luminosamente apontou: "Deus não te abandona. É porque Ele deseja aumentar tua Glória que muitas vezes permite que adoeças. Mantém tua coragem para que também possas ouvi-Lo dizer: 'Pensas que te tratei de outra forma senão para que te mostres justo?'"
    Mais: "Ó tão grato fardo, que consola aqueles que o carregam! Os fardos dos terrenos senhores gradualmente desgastam as forças daqueles que os carregam. Mas o fardo de Cristo (Mt 11,30) auxilia aqueles que o carregam, porque nós não carregamos a Graça, mas a Graça nos agracia."
    Ainda: "Deus mede a aflição de acordo com nossa necessidade."    
    E Santo Agostinho, outro Doutor da Igreja, ensina: "Pois o Deus Todo-Poderoso, por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em Suas obras, se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar o bem do próprio Mal."

    "Socorrei, com bondade, aqueles que Vos buscam!"