quinta-feira, 4 de junho de 2026

Textos para Celular

 
Anuário de Leituras Bíblicas

Acesso: dizemasescrituras.blogspot.com

Corpus Christi


    Na Quinta-Feira Santa, durante a Santa Ceia, Jesus ofereceu-nos Sua Carne e Seu Sangue, que celebramos e recebemos na Santa Missa. O Evangelho Segundo São Lucas narrou: "Chegada que foi a hora, Jesus pôs-Se à mesa, e com Ele os Apóstolos. Tomou em seguida o pão, e depois de ter dado Graças, partiu-O e deu-lhO, dizendo: 'Isto é Meu Corpo, que é dado por vós. Fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo tomou o cálice, depois de cear, dizendo: 'Este Cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue, que é derramado em favor de vós.'" Lc 22,14.19-20
    Bem antes, porém, logo depois da primeira multiplicação dos pães e dos peixeis, no Evangelho Segundo São João, Ele havia revelado na sinagoga de Cafarnaum: "Eu sou o Pão Vivo que desceu do Céu. Quem comer deste Pão viverá eternamente. E o Pão, que Eu hei de dar, é Minha Carne para a Salvação do mundo." Jo 6,51
    E como fato amplamente documentado, no ano de 1209, em Liège, atual cidade de Bélgica, Santa Juliana de Mont-Cornillon, freira agostiniana, começou a ter visões que pediam à Santa Igreja Católica uma festa para o Santíssimo Sacramento incluída no Calendário Litúrgico. Aconteciam exatamente durante suas adorações eucarísticas. Uma visão apresentou a lua em seu pleno esplendor, com uma escura faixa diametralmente a cobrindo. E Nosso Senhor fez com que ela compreendesse o significado: a lua era a vida de Sua Igreja na Terra, e a linha opaca, a ausência de uma festa litúrgica para a Santa Eucaristia. Queria-a para que os fiéis pudessem adorá-la, crescer na de Sua presença nela, na prática das virtudes e para reparar as ofensas que nela Lhe faziam.


    Apesar de ter-se tornado priora do convento, nossa Santa só revelou estas visões a duas irmãs, como ela ardorosas adoradoras do Santíssimo Sacramento, além de um estimado Padre, Giovanni di Losanna, da igreja de São Martinho em Liège, pedindo-lhe que consultasse teólogos e autoridades da Igreja Católica Apostólica Romana sobre a possibilidade de realizar essa festa. Após naturais hesitações, Robert de Thourotte, Bispo de Liège, atendeu aos pedidos de Santa Juliana e suas companheiras, instituindo a solenidade de Corpus Domini na diocese, no que mais tarde foi espontaneamente seguido por outros Bispos da região. Em 1230, enfim, por Graça da Divina Providência, ela teve a oportunidade de confidenciar suas visões ao Arquidiácono de Liège, o Cônego Jacques Pantaléon de Troyes, que viria a ser o Papa Urbano IV.
    Em Bolsena, cidade da região de Lácio, Itália, no ano de 1264, o Padre Pietro de Praga, que duvidava que na Santa Eucaristia estivessem realmente transubstanciados o Corpo e o Sangue de Cristo, ao elevar a Hóstia Consagrada durante a Santa Missa, viu dela sair Sangue e cair sobre o linho litúrgico. A notícia logo chegou ao Santo Padre Urbano IV, que estava na cidade de vizinha de Orvieto. E para ele não restou dúvida: Deus manifestamente pedia uma festa para o Santíssimo Sacramento.
    Ele determinou que todos objetos envolvidos no milagre fossem trazidos para Orvieto em procissão, cerca de 20 quilômetros, no dia 19 de junho de 1264, quando solenemente os recebeu e levou à Catedral de Santa Prisca. Era a primeira procissão de Corpus Christi. A partir de então, iniciaram-se as procissões, dadas 60 dias pós a Páscoa. E em 11 de agosto de 1264, na bula papal 'Transiturus de hoc mundo', Urbano IV instituiu a Festa de Preceito para homenagear o Corpo de Cristo, a ser celebrada na quinta-feira depois da oitava de Pentecostes.
    Mas Urbano IV morreu menos de dois meses após a publicação desta bula, não podendo implementar a tradição como queria. Havia pedido, porém, que o já insigne Santo Tomás de Aquino redigisse o Ofício Litúrgico da Festa, inclusive os hinos, o qual nosso Doutor Angélico intitulou Lauda Sion e ainda hoje é usado. E só em 1317, o Papa João XXII, o segundo a liderar a Igreja de Deus Vivo a partir de Avignon, cidade do sudeste de França, viria a lhe dar novo impulso. Contudo, conforme registros, a diocese de Colônia, oeste de atual Alemanha, adotou a procissão ainda antes de 1270. Daí se difundiu por outra cidades, e depois em França, Itália e Hungria. Em Roma, é feita desde 1350.
    O linho, liturgicamente chamado corporal, com as marcas do Preciosíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, segue exposto na também chamada Catedral de Orvieto, na região de Úmbria, centro de Itália.


    Três das quatro pedras de mármore do altar, que fora banhado pelo Sangue que corria da Hóstia Consagrada, são devidamente preservadas como relíquias no Tabernáculo da Basílica de Santa Cristina, em Bolsena, que remonta o século XI.


    O Milagre Eucarístico, no entanto, não aconteceu apenas em Bolsena. Já se havia dado em Lanciano, na região de Abruzos, também em Itália, por volta do ano 700. E aí não apenas saiu Sangue da Hóstia Consagrada, mas toda ela tornou-se Carne que resiste incorrupta através dos tempos.
    Foi analisada em 1971 e atestada como músculo cardíaco: contém, em seção, o miocárdio, endocárdio, o nervo vago e, no considerável espessor do miocárdio, o ventrículo cardíaco esquerdo. O sangue é humano do tipo AB, e, apesar de mais de 13 séculos, cuja conservação é outro milagre, ainda mantém fresca constituição, como se houvesse recém-saído de uma pessoa viva.
    Ela encontra-se exposta no Santuário Eucarístico de São Francisco, em Lanciano.


    E esse determinante sinal de Deus também se deu em muitos outros lugares através dos séculos, comprovadamente em mais de uma centena deles. Ou seja, o mundo não pode dizer-se alheio à patente realidade do Corpo e o Sangue de Cristo no Santíssimo Sacramento. Aliás, como a Carta de São Paulo aos Colossenses já dizia, quando se referiu à passagem dos rituais judaicos: "Ninguém, pois, vos critique por causa de comida ou bebida, ou espécies de festas ou de luas novas ou de sábados. Tudo isto não é mais que sombra do que devia vir. A realidade é Corpo Cristo." Cl 2,16-17
    Citando os mais conhecidos lugares, temos várias cidades de Itália, como Alatri, Santa Chiara di Assisi, Asti, Bagno di Romagna, Canosio, Cascia, Cava dei Tirreni, Dronero, San Mauro La Bruca, Ferrara, Firenzi, Valvasone e Gruaro, Macerata, Mogoro, Morrovalle, Offida, Patierno, Rimini, Roma, Rosano, San Pietro Damiano, Salzano, Scala, Siena, Trani, Torino, Veroli e Volterra.
    Além de Itália, outros países de Europa foram igual e largamente agraciados: em Espanha nas cidades de Alboraya-Almacéra, Alcalà, Alcoy, Caravaca de la Cruz, Cimballa, Daroca, Gerona, Gorkum-El Escorial, Guadalupe, Ivorra, Moncada, Montserrat, O'Cebreiro, Onil, Ponferrada, San Juan de las Abadesas, Silla, Valença e Zaragoza. Em França nas cidades de Avignon, Blanot, Bordeaux, Dijon, Douai, Faverney, La Rochelle, Neuvy-Saint-Sépulchre, Les Ulmes, Marseille-En-Beauvais, Paris e Pressac. Em Alemanha nas cidades Augsburg, Benningen, Bettbrunn, Erding, Kranenburg, Regensburg, Weingarten, Wilsnack e Stich. Em Holanda nas cidades de Alkmaar, Amsterdam, Bergen, Boxmeer, Boxtel-Hoogstraten, Breda-Niervaart, Meerssen e Stiphout. Em Bélgica nas cidades de Bois-Seigneur-Isaac, Bruges, Bruxelas, Herentals, Herkenrode-Hasselt, Liège e Middleburg-Lovanio. Em Polônia nas cidade de Cracóvia, Glotowo, Legnica, Poznan e Sokółka. Em Áustria nas cidades de San Georgenberg-Fiecht, Seefeld e Weiten-Raxendorf. Em Portugal na cidade de Santarém. Em Suíça na cidade de Ettiswil. E em atual Croácia na cidade de Ludbreg.
    Fora de Europa, houve milagres eucarísticos em México na cidade de Tixtla. Em Venezuela na cidade de Betania. Em Colômbia na cidade de Tumaco. Em Perú na cidade de Eten. Em Argentina.na cidade de Buenos Aires. Em Egito nas cidades de Santa Maria Egiziaca e Scete. E em Índia nas cidades de Chirattakonam e Vilakkannur.


    O Milagre de Juazeiro, que popularmente consagrou o Padre Cícero, também foi um Milagre Eucarístico, que, aliás, se repetiu por várias vezes diante de muitas testemunhas, sempre ao ser posta na boca de Maria Magdalena do Espírito Santo de Araújo, a 'beata' Maria de Araújo.
    Quanto à Transubstanciação, pois, que em toda Santa Missa ocorre no momento da consagração da Hóstia, não há dúvida: o pão e o vinho oferecidos no altar realmente se transformam em Corpo e Sangue de Cristo. O fato é que alguns ainda teimam em não acreditar na própria Palavra de Jesus, que com todas letras disse: "Pois Minha Carne é verdadeiramente uma comida e Meu Sangue, verdadeiramente uma bebida." Jo 6,55
    Ora, é por Sua Carne e por Seu Sangue que nos é concedida a indizível Graça da Comunhão com Deus: "Quem come Minha Carne e bebe Meu Sangue, permanece em Mim e Eu nele." Jo 6,56
    E Ele havia advertido: "Na Verdade, na Verdade, digo-vos: se não comerdes a Carne do Filho do Homem, e não beberdes Seu Sangue, não tereis a Vida em vós mesmos." Jo 6,53b
    É o Pão de Céu, portanto, exclusivamente consagrado pela Igreja Una, que devemos buscar como verdadeiro Alimento. Foi isso que Ele disse à multidão, depois que multiplicou pães e peixes: "Na Verdade, na Verdade, digo-vos: buscais-Me, não porque vistes os sinais, mas porque comestes dos pães e ficastes fartos. Trabalhai não pela comida que perece, mas pela que dura até a Vida Eterna, que o Filho do Homem vos dará. Pois n'Ele Deus Pai imprimiu Seu sinal." Jo 6,26b-27
    Eis que a Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios exorta: "Pois Nossa Páscoa, Cristo, foi imolada. Celebremos, então, a festa, não com o velho fermento nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os pães sem fermento, de pureza e da Verdade." 1 Cor 5,8
    E nestes termos ele explica a celebração do Santíssimo Sacramento, invocando a Sagrada Tradição, ou seja, a fiel retransmissão dos ensinamentos de Jesus desde os Apóstolos: "Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e, depois de ter dado Graças, partiu-O e disse: 'Isto é Meu Corpo, que é dado para vós. Fazei isto em memória de Mim.' Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o Cálice, dizendo: 'Este Cálice é a Nova Aliança em Meu Sangue. Todas vezes que O beberdes, fazei-o em memória de Mim.' Assim, todas vezes que comeis desse Pão e bebeis desse Cálice, lembrais a Morte do Senhor, até que Ele venha." 1 Cor 11,23-26
    Mas também adverte do necessário exame de consciência, que muitas vezes vai recomendar o Sacramento da Confissão: "Portanto, todo aquele que indignamente comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor, será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor. Que cada um examine a si mesmo, e assim coma desse Pão e beba desse Cálice. Aquele que O come e O bebe sem distinguir o Corpo do Senhor, come e bebe sua própria condenação. Esta é a razão porque entre vós há muitos adoentados e fracos, e muitos mortos." 1 Cor 11,27-30
    Sobre outras 'comunhões', diz com toda clareza: "As coisas que os pagãos sacrificam, sacrificam-nas a demônios e não a Deus. E eu não quero que tenhais comunhão com os demônios. Não podeis beber, ao mesmo tempo, o Cálice do Senhor e o cálice dos demônios. Não podeis participar, ao mesmo tempo, da Mesa do Senhor e da mesa dos demônios. Ou queremos provocar a ira do Senhor? Acaso somos mais fortes que Ele?" 1 Cor 10,20-22
    Ao menos uma vez por ano, pois, deve-se buscar o Sacramento da Confissão. Ora, os judeus já faziam assim desde que adotaram o sacrifício pela reparação dos pecados, que também exigia prévia purificação. Deus mesmo ditou Moisés, no Livro de Levítico, o que viria a ser a excomunhão: "Todo homem puro poderá comer da carne do pacífico sacrifício. Mas aquele que a comer em estado de impureza, será cortado de seu povo." Lv 7,19b-20
    A própria família dos levitas, a tribo sacerdotal, deveria estar em estado de pureza para comer das oferendas consagradas a Deus pelo povo. O Livro de Números registrou estas palavras de Deus a Aarão, que era levita e foi o primeiro sumo sacerdote de Israel: "Contigo farás aproximarem-se do Santuário teus irmãos da tribo de Levi, a tribo de teu pai, para que se juntem a ti e te ajudem quando estiveres com teus filhos diante da Tenda do Testemunho. Fui Eu que escolhi os levitas, vossos irmãos, entre os israelitas. Dados ao Senhor, são-vos de novo entregues para fazerem o serviço da Tenda de Reunião. Todo membro de tua família que estiver puro, comerá dessas coisas." Nm 18,2.6.11b
    Assim também todo povo de Israel para comer a Páscoa, que era uma obrigação: "Mas se alguém, estando puro, não se encontrar em viagem, e todavia não fizer a Páscoa, será cortado de seu povo, porque não apresentou a oferta do Senhor no tempo estabelecido. Este levará a pena de seu pecado." Nm 9,13
    Ora, tão vital é o Santíssimo Sacramento que toda a Missão de Jesus foi orientada precisamente para esse momento: "Raiou o dia dos pães sem fermento, em que se devia imolar a Páscoa. Jesus enviou Pedro e João, dizendo: 'Ide e preparai-nos a ceia da Páscoa.' Foram, pois, e acharam tudo como Jesus lhes dissera, e prepararam a Páscoa. Chegada que foi a hora, Jesus pôs-Se à mesa, e com Ele os Apóstolos. Disse-lhes: 'Ardentemente tenho desejado convosco comer esta Páscoa, antes de sofrer.'" Lc 22,7-8.13-15
    Ele já havia dito aos Apóstolos depois do Domingo de Ramos, quando foi procurado em Jerusalém por judeus de outros nações: "Presentemente, Minha alma está perturbada. Mas que direi? Pai, salva-Me desta hora? Mas é exatamente para essa hora que vim." Jo 12,27
    Além de ser o mais importante dos Sacramentos, ao qual todos demais estão ordenados, ele ainda é a visível e material presença de Deus entre nós. Sem dúvida, a promessa de permanentemente estar com a Igreja Apostólica, refere-se à Santa Eucaristia, como Ele mesmo afirmou instantes antes de Sua Ascensão, no Evangelho Segundo São Mateus: "Eis que convosco estou todos dias, até a consumação dos séculos." Mt 28,20
    Que nos alegremos, então, com esse indizível privilégio de podermos sentar à mesa com Nosso Senhor e receber Seu Corpo e Seu Sangue como Alimento da Vida Eterna. Aguardemos com Ele, à mesa do Altar, porque a Santa Eucaristia é a preparação para o Celestial Banquete, como prometeu no Evangelho Segundo São Marcos: "Na Verdade, digo-vos: já não beberei do fruto da videira, até aquele Dia em que de novo o beberei no Reino de Deus." Mc 14,25
    E que nossa verdadeira felicidade seja o Altar do Senhor, agora e na eternidade, como o anjo disse na visão do Livro de Apocalipse de São João: "Felizes os convidados para a Ceia das Núpcias do Cordeiro." Ap 19,9


    A secular procissão de Corpus Christi, portanto, faz-nos recordar o Caminho que Jesus fez do Cenáculo, onde ofereceu Seu Corpo e Seu Sangue, até o Monte das Oliveiras, onde livremente Se entregou para ser crucificado. Esse Caminho é propriamente a Via Sacra, tradição iniciada e repetida todos dias por Nossa Mãe Maria Santíssima enquanto esteve em Jerusalém após a Paixão de Cristo, até se refugiar nos arredores da cidade de Éfeso (cf. Ap 12,14), onde escolheu 14 estações e seguiu repetindo, quando por fim 'dormiu' e foi Assunta aos Céus. E no Horto das Oliveiras, na noite anterior, sentindo que Sua hora se aproximava, Nosso Senhor convidou-nos à vigília, que deve prevalecer na procissão: "Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai Comigo." Mt 26,38

    "Todas vezes que comemos deste Pão e bebemos deste Cálice, anunciamos, Senhor, Vossa Morte, enquanto esperamos Vossa Vinda!"