terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

A Caridade


    A palavra caridade, em latim, é sinônimo de amor. Mas pelo largo uso atual, criou-se uma sutil distinção entre elas, e caridade passou a designar atitude, gestos concretos do amor que se sente, quando verdadeiramente altruístico. Nos assuntos da Igreja, ela tem duas nuances: a caridade espiritual, no ato de rezar por alguém ou na consagração à vida religiosa, como exemplos, e a caridade material, na tradicional forma de esmolas, doações, assistência, trabalho voluntário etc.
    Ser 'caro' para com o semelhante, portanto, significa tornar-se de maior valor pela distinta Graça com que se dedica ou por algum bem material que se oferece.
    Já no sentido teológico, o termo mais propriamente significa encarnar o amor salvífico, o amor de Salvação, isto é, por notória intervenção de Deus, em nossa humanidade viver o divino amor. Esse é o Mandamento de Jesus: "Dou-vos um novo Mandamento: Amai-vos uns aos outros. Como Eu vos tenho amado, também vós deveis amar-vos uns aos outros." Jo 13,34
    Porém, num mundo de tantas e tão flagrantes injustiças, sejam pessoais ou sociais, o Papa Bento XVI deixou uma reflexão a ser feita. Convocando a um engajamento político de cristãos em defesa dos mais pobres, em sua Encíclica 'Caritas in Veritate', onde discorre sobre a verdadeira caridade, como o título diz, fez alusão a um pensamento de São Gregório Magno: "Não posso ‘dar’ ao outro do que é meu, sem antes lhe ter dado aquilo que já lhe pertence por justiça."
    Grande teólogo, São Paulo com frequência falou da caridade. Seja para distingui-la, ao denunciar o racionalismo de certas 'economias': "Porém, a ciência incha, a caridade constrói." 1 Cor 8,1
    Seja para pontualmente conceituá-la: "A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa. Não é arrogante. Não é escandalosa. Não cuida de seus interesses, não se irrita, não guarda rancor, não suspeita mal. Não se alegra com a injustiça, mas com a Verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta." 1 Cor 13,4-7
    Ou para prever a efetividade de sua prática: "A caridade jamais acabará. As profecias desaparecerão, o dom das línguas cessará, o dom da ciência findará." 1 Cor 13,8
    Ele destaca-a entre as virtudes teologais: "Por ora subsistem a , a esperança e a caridade - as três. Porém, a maior delas é a caridade." 1 Cor 13,13
    E indica-a como necessária atitude de um cristão: "Tudo que fazeis, fazei na caridade." 1 Cor 16,14
    Ou como essencial instrumento da fé: "Estar circuncidado ou incircunciso de nada vale em Cristo Jesus, mas sim a fé que opera pela caridade." Gl 5,6
    Ou ainda como razão de servir: "Vós, irmãos, fostes chamados à liberdade. Não abuseis, porém, da liberdade como pretexto para servir à carne. Pelo contrário, fazei-vos servos uns dos outros pela caridade..." Gl 5,13
    Foi este Santo que estabeleceu a autêntica meta de todo cristão: "... conhecer a caridade de Cristo, que desafia todo entendimento, para que sejais cheios de toda plenitude de Deus." Ef 3,19
    E assim refuta toda heresia, pedindo pela Unidade da Igreja: "Para que não continuemos crianças ao sabor das ondas, agitados por qualquer sopro de doutrina, ao capricho da malignidade dos homens e de seus enganadores artifícios. Mas, pela sincera prática da caridade, cresçamos em todos sentidos, n'Aquele que é a cabeça, Cristo. É por Ele que todo o Corpo, coordenado e unido por conexões que estão a Seu dispor, trabalhando cada um conforme a atividade que lhe é própria, efetua esse crescimento, visando sua plena edificação na caridade." Ef 4,14-16
    Recomendava mesmo que, em casos de extrema necessidade, cuidássemos primeiro da Igreja, em manutenção à obra da Salvação: "Por isso, enquanto temos tempo, façamos o bem a todos homens, mas particularmente aos irmãos na fé." Gl 6,10
    Aludindo a seus sofrimentos no esforço da evangelização, o Último Apóstolo pedia mútua compreensão: "Exorto-vos, pois, prisioneiro que sou pela causa do Senhor, que leveis uma vida digna da vocação à qual fostes chamados, com toda humildade e amabilidade, com grandeza de alma, mutuamente suportando-vos com caridade. Sede solícitos em conservar a unidade do Espírito no vínculo da Paz. Sede um só corpo e um só espírito, assim como fostes chamados pela vossa vocação a uma só esperança." Ef 4,1-4
    Porque somos conhecedores do mais perfeito exemplo a ser seguido: "Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós entregou-Se a Deus como oferenda e sacrifício de agradável perfume." Ef 5,2
    Pois só a prática da caridade nos permite verdadeiramente alcançar o dom do discernimento, que sempre é de grande importância para o ser humano, como será atestado no grande Dia do Juízo: "Peço, em minha oração, que vossa caridade se enriqueça cada vez mais de compreensão e critério, com que possais discernir o que é mais perfeito e torneis-vos puros e irrepreensíveis para o Dia de Cristo..." Fl 1,9-10
    Jesus, de fato, prometeu no Sermão da montanha: "Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus!" Mt 5,8
    São Paulo ainda a apresenta como o caminho da excelência: "Mas, acima de tudo, revesti-vos da caridade, que é o vínculo da perfeição." Cl 3,14
    Assim como imprescindível qualidade para líderes e mestres: "... torna-te modelo para os fiéis, no modo de falar e de viver, na caridade, na fé, na castidade." 1 Tm 4,12
    Ele sabe que só Deus pode fazer com que evoluamos nesse dom, como acontece com os que alcançam a santidade: "Que o Senhor vos faça crescer e avantajar em mútua caridade e para com todos homens, como é nosso amor para convosco. Que Ele confirme vossos corações, e torne-os irrepreensíveis e santos na presença de Deus, Nosso Pai, por ocasião da Vinda de Nosso Senhor Jesus com todos Seus Santos!" 1 Ts 3,12-13
    Citando o livro dos Provérbios, São Pedro aponta-a como a maior das indulgências: "Antes de tudo, mantende entre vós uma ardente caridade, porque a caridade cobre uma multidão de pecados. (Pr 10,12)" 1 Pd 4,8
    E São Rafael Arcanjo, exaltando a Comunhão com os pobres, ensinou a Tobit e a Tobias, seu filho, sobre a caridade material: "... a esmola é preferível aos escondidos tesouros de ouro. Porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a Misericórdia e a Vida Eterna..." Tb 12,8b-9
    Mas o próprio Tobit, julgando estar em seu leito de morte, já havia repassado importantes conselhos a Tobias: "Dá esmola de teus bens, e não te desvies de nenhum pobre, pois, assim fazendo, tampouco Deus se desviará de ti. Sê misericordioso segundo tuas posses: se tiveres muito, dá abundantemente; se tiveres pouco, dá desse pouco de bom coração. Assim acumularás uma boa recompensa para o dia da necessidade, porque a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma de cair nas trevas. Para todos que a praticam, a esmola será um motivo de grande confiança diante do Deus Altíssimo." Tb 4,7-12
    Contudo, o sagrado autor dos Provérbios antes ressalta a suma importância da Comunhão com Deus: "Há muitos planos no coração do homem, mas é a vontade do Senhor que se realiza." Pr 19,21
    E vinculando a intenção ao amor, cravou essa luminosa máxima: "O encanto de um homem é sua caridade: mais vale o pobre que o mentiroso." Pr 19,22a
    O Eclesiástico também reconheceu: "... homens de misericórdia; as obras de sua caridade nunca foram esquecidas. Os filhos de seus filhos são uma santa linhagem, e seus descendentes mantêm-se fiéis às Alianças. Por causa deles, seus filhos permanecem para sempre, e sua posteridade, assim como sua glória, não terá fim. Seus corpos foram sepultados em Paz, seu nome vive de século em século. Proclamem os povos sua Sabedoria, e cante a assembléia seus louvores!" Eclo 44,10b.12-15
    Pregou a generosidade para com todos em carência, para nossa melhor relação com Deus: "Estende a mão ao pobre, a fim de que sejam perfeitos teu sacrifício e tua oferenda. Dá de boa vontade a todos os vivos, e não recuses esse benefício a um morto. Não deixes de consolar os que choram, aproxima-te dos que estão aflitos. Não tenhas preguiça de visitar um doente, pois é assim que te firmarás na caridade." Eclo 7,36-39
    E pela caridade para com os pais na velhice, ele garante a Divina Misericórdia: "Meu filho, ajuda a velhice de teu pai, não o desgostes durante sua vida. Se seu espírito desfalecer, sê indulgente, não o desprezes porque te sentes forte, pois tua caridade para com teu pai não será esquecida e, por teres suportado os defeitos de tua mãe, ser-te-á dada uma recompensa: tua casa tornar-se-á próspera na justiça. Lembrar-se-ão de ti no dia da aflição, e teus pecados dissolver-se-ão como o gelo ao forte sol." Eclo 3,14-17 
    Ele observa, enfim, que a Paz frequentemente transmitida é maior caridade que a material: "Filho, realiza teus trabalhos com mansidão e serás amado mais que um generoso homem." Eclo 3,19
    Com a Vinda do Cristo, a mera e indiscriminada violência, que é o extremo oposto da caridade, deve ser sistematicamente banida de nossas vidas, pois elevando as prescrições do Antigo Testamento à perfeição, Ele ensinou sobre pessoais e menores ofensas: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Olho por olho, dente por dente.' Eu, porém, digo-vos: não resistais ao mau homem. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra." Mt 5,38-39
    Assim, para verdadeiramente segui-Lo e a todos franquear a Salvação, devemos amar até mesmo nossos inimigos, e por eles rezar, como Ele exortou: "Tendes ouvido o que foi dito: 'Amarás teu próximo e poderás odiar teu inimigo.' Eu, porém, digo-vos: amai vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de Vosso Pai do Céu, pois Ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e os injustos." Mt 5,43-45
    Pregou que os bens desses mundo, principalmente os amealhados em ilegalidade, sejam usados para edificar verdadeiras amizades: "Eu digo-vos: fazei amigos com a injusta riqueza, para que, no dia em que ela vos faltar, eles recebam-vos nos eternos tabernáculos." Lc 16,9


    No episódio da mulher flagrada em adultério, ato tão abominável para os antigos, Jesus, fixando o mais elevado parâmetro de isenção espiritual, simplesmente tornou inaplicável a lei que previa o apedrejamento: "Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra." Jo 8,7
    Explicou a importância de oferecer o perdão para fomentar o amor: "Jesus então lhe disse: 'Simão, tenho uma coisa a dizer-te.' 'Fala, Mestre', disse ele. 'Um credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinqüenta. Não tendo eles com que pagar, perdoou a ambos suas dívidas. Qual deles o amará mais?' Simão respondeu: 'A meu ver, aquele a quem ele mais perdoou.' Jesus replicou-lhe: 'Julgaste bem.' E voltando-Se para a mulher, disse a Simão: 'Vês esta mulher? Entrei em tua casa e não Me deste água para lavar os pés. Mas esta, com suas lágrimas regou-Me os pés e enxugou-os com seus cabelos. Não Me deste o ósculo, mas esta, desde que entrou, não cessou de beijar-Me os pés. Não Me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com perfume, ungiu-Me os pés. Por isso, digo-te: seus numerosos pecados lhe foram perdoados, porque ela tem demonstrado muito amor. Mas ao que pouco se perdoa, pouco ama." Lc 7,40-47
    E numa hipérbole, na qual exaltou quase que apenas seu aspecto material, Ele cita a caridade como único critério para separar ovelhas de cabritos no Dia do Juízo: "Então o Rei dirá aos que estão à direita: 'Vinde, benditos de Meu Pai, tomai posse do Reino que vos está preparado desde a Criação do mundo, porque tive fome e destes-Me de comer; tive sede e destes-Me de beber; era peregrino e acolhestes-Me; nu e vestistes-Me; enfermo e visitastes-Me; estava na prisão e viestes a Mim.' Perguntar-Lhe-ão os justos: 'Senhor, quando foi que Te vimos com fome e demos-Te de comer, com sede e demos-Te de beber? Quando foi que Te vimos peregrino e acolhemos-Te, nu e vestimos-Te? Quando foi que Te vimos enfermo ou na prisão e fomos visitar-Te?' Responderá o Rei: 'Em Verdade, Eu declaro-vos: todas vezes que fizestes isto a um destes Meus pequeninos irmãos, foi a Mim mesmo que o fizestes." Mt 25,34-40
    De fato, Ele garantiu que cada gesto de generosidade em nome do Reino de Deus seria lembrado: "Todo aquele que der ainda que seja somente um copo de água fresca a um destes pequeninos, porque é Meu discípulo, em Verdade Eu digo-vos: não perderá sua recompensa." Mt 10,42
    E para deixar bem claro a importância de Seu Mandamento, que se tornou Sua marca, voltou a repetir em outra ocasião: "Este é Meu Mandamento: amai-vos uns aos outros, como Eu vos amo." Jo 15,12
    A despeito de todas adversidades, por fim, Ele pedia santa e tenaz persistência no amor: "Como o Pai Me ama, assim também Eu vos amo. Perseverai em Meu amor. Se guardardes Meus Mandamentos, sereis constantes em Meu amor, como também Eu guardei os Mandamentos de Meu Pai e persisto em Seu amor." Jo 15,9-10
    Expressou com todas letras como verdadeiramente podemos amá-Lo: "Aquele que tem Meus Mandamentos e os guarda, esse é que Me ama. E aquele que Me ama será amado por Meu Pai, e Eu amá-lo-ei e manifestar-Me-ei a ele." Jo 14,21
    Relembrou o primeiríssimo Mandamento, elementar ponto da doutrina que o mundo acintosamente ignora, como essência da caridade espiritual: "Achegou-se a Ele um dos escribas que os ouvira discutir e, vendo que lhes respondera bem, d'Ele indagou: 'Qual é o primeiro de todos Mandamentos?' Jesus respondeu-lhe: 'O primeiro de todos Mandamentos é este: 'Ouve, Israel, o Senhor Nosso Deus é o único Senhor! Amarás ao Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma, de todo teu entendimento e de todas tuas forças." Mc 12,28-30
    E assim explicou o amor do Pai pela humanidade: "Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo que lhe deu Seu único Filho, para que todo aquele que n'Ele crer não pereça, mas tenha a Vida Eterna." Jo 3,16
    São João Evangelista, nesse sentido, inspiradamente aponta Deus como fonte de todo amor: "Mas amamos, porque primeiro Deus nos amou." 1 Jo 4,19
    São Paulo faz coro: "Mas eis aqui uma brilhante prova de amor de Deus por nós: quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós." Rm 5,8
    Cheio de confiança, o Amado Discípulo diz: "Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor, permanece em Deus e Deus nele. Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no Dia do Julgamento, pois, como Ele é, também nós o somos neste mundo." 1 Jo 4,16-17
    A caridade, portanto, é a condição que Jesus fixou para que, através da verdadeira Comunhão entre nós, sejamos Sua Igreja: "Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se vos amardes uns aos outros." Jo 13,35
    Essa é a marca da Cruz: "Ninguém tem maior amor que Aquele que dá sua vida por Seus amigos." Jo 15,13
    Entretanto, Ele profetizou a respeito dos últimos tempos: "E ante o crescente progresso da iniquidade, a caridade de muitos esfriará." Mt 24,12

    "Confirmai na caridade Vosso povo!"