sábado, 2 de fevereiro de 2019

Nossa Senhora das Candeias


    Esse título da Mãe de Deus tem algumas sutis variações como Nossa Senhora da Candelária e Nossa Senhora da Luz, ou ainda Nossa Senhora da Apresentação e Nossa Senhora da Purificação. Fora esse último, que diz respeito ao ritual cumprido pela própria Santíssima Virgem, são todos referências ao Cristo, Luz do mundo, como no Templo de Jerusalém testemunharia o religioso Simeão, no dia da Apresentação do Menino Jesus: "Agora, Senhor, deixai ir em Paz Vosso servo, segundo Vossa Palavra. Porque meus olhos viram Vossa Salvação que preparastes diante de todos povos, como Luz para iluminar as nações, e para a Glória de Vosso povo de Israel." Lc 2,29-32
    De fato, anos mais tarde, ao iniciar Sua vida pública, Jesus mesmo iria dizer: "Eu sou a Luz do mundo. Aquele que Me segue não andará em trevas, mas terá a Luz da Vida." Jo 8,12
    E como Seus representantes, logo filhos de Maria, Ele deu-nos idêntica missão: "Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha, nem se acende uma luz para colocá-la debaixo de um caixote, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe para todos que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam vossas boas obras e glorifiquem Vosso Pai que está nos Céus." Mt 5,14-16
    Além da Apresentação do Senhor, portanto, nesse dia também celebramos a 'purificação' de Nossa Mãe Celeste, que, assim como Jesus Se deixou batizar mesmo sem precisar, cumpriu as prescrições da Lei, constantes no Livro de Levíticos:

    "O Senhor disse a Moisés:
    - Dize aos israelitas o seguinte: quando uma mulher der à luz um menino, será impura durante sete dias, como nos dias de sua menstruação. No oitavo dia, far-se-á a circuncisão do menino. Ela ainda ficará trinta e três dias no sangue de sua purificação. Não tocará santa coisa alguma, e não irá ao Santuário até que se acabem os dias de sua purificação.
    Se ela der á luz uma menina, será impura durante duas semanas, como nos dias de sua menstruação, e ficará sessenta e seis dias no sangue de sua purificação.
    Cumpridos esses dias, por um filho ou por uma filha, apresentará ao sacerdote, à entrada da Tenda de Reunião, um cordeiro de um ano em holocausto, e um pombinho ou uma rola em sacrifícios pelo pecado. O sacerdote oferecer-los-á ao Senhor, e fará a expiação por ela, que será purificada do fluxo de seu sangue.
    Tal é a Lei relativa à mulher que dá à luz um menino ou uma menina.
    Se suas posses não lhe permitirem trazer um cordeiro, tomará duas rolas ou dois pombinhos, uma para o holocausto e outro para o sacrifício pelo pecado. O sacerdote fará por ela a expiação, e será purificada." Lv 12,1-8

    Foi estritamente como mandava a Lei, pois, que Nossa Senhora e São José cumpriram suas obrigações para com Deus. Ora, São Mateus atestou a religiosidade do glorioso São José: "José, seu esposo, era justo." Mt 1,19a
    E pelo sacrifício que ofereceram no Templo, porque não quiseram tocar nos presentes dados pelos Reis Magos ao Menino, muito úteis para a fuga e para os tempos que estiveram no Egito, percebe-se a humilde condição em que viviam. São Lucas registrou: "Concluídos os dias de Sua purificação segundo a Lei de Moisés, levaram-nO a Jerusalém para apresentá-Lo ao Senhor, conforme o que está escrito na Lei do Senhor: 'Todo primogênito do sexo masculino será consagrado ao Senhor' (Ex 13,2); e para oferecerem o sacrifício prescrito pela Lei do Senhor, um par de rolas ou dois pombinhos." Lc 2,21-24


    É Nossa Senhora das Candeias, pois, que é invocada pelos cegos, como afirmou Padre Vieira: "Perguntai aos cegos para que nasce esta Celestial Menina, dir-vos-ão que nasce para Senhora da Luz..."


    Quanto à história dessa devoção, remonta os anos de 1400, quando se deu uma aparição de Maria Santíssima na Ilha de Tenerife, no Arquipélago das Canárias, situado na costa oeste do Continente Africano. Foi escrita pelo frei dominicano Alonso de Espinosa, em 1594, e, assim como a Aparição de Guadalupe, atesta a Virgem Celeste antecipando-se entre povos nativos como Grande Embaixatriz da Igreja de Seu Filho.
    Dois pastores aborígenes, levando suas cabras para pernoitar numa caverna do barranco de Chimisay, ao aproximarem-se do penhasco notaram uma estranha resistência do rebanho, que se recusava a entrar. Foi quando sobre a rocha viram uma mulher com uma Criança no braço e uma vela na mão esquerda, que lhes pareceram gente local. Como eram proibidos de falar ou aproximar-se de mulheres, ao gritar e fazer gestos para que ela dali saísse, um deles subitamente não conseguiu mais mover o braço, pois ficara enrijecido. Enraivecido, o outro pastor foi até lá esbravejando, e, como ela não se retirava do lugar, para assustar tentou estocá-la com a ponta de sua faca, mas acabou ferindo a si mesmo no mesmo lugar onde a tocou.
    Espantados, e como ela não lhes respondia e ninguém mais se atreveu a aproximar-se, os pastores guanches foram a Chinguaro para aconselhar-se com Acaymo, chefe e sacerdote de seu povo, que primeiro lá mandou seus conselheiros, mas como ela nada respondia, sugeriu-lhes que os próprios pastores voltassem ao local e respeitosamente convidassem-na para vir à sua presença. Quando retornaram ao local, no entanto, eles tiveram o ímpeto de tocá-la, e foram instantaneamente curados. Então se perceberam diante de apenas uma imagem, de aproximadamente um metro, e, perplexos, voltaram ao sacerdote. Percebendo o caráter sobrenatural de tudo aquilo, o idoso guanche foi até o penhasco e tentou levá-la nos braços a seu palácio, porém, como não suportou o peso, pediu ajuda para acomodá-la dentro da caverna, onde acabou ficando.
    Tempos depois, Antón Guanche, um jovem aborígene que havia sido escravizado pelos castelhanos e em viagem de volta a Tenerife conseguira escapar, ao saber dos relatos e ter o primeiro contato com a imagem, logo a reconheceu como de Nossa Senhora.
    Com efeito, portugueses e castelhanos haviam chegado a este arquipélago por volta de 1336, quando fizeram contato com os nativos, e em seguida capturaram alguns deles para trabalhar como escravos. Levado a Espanha no início da adolescência, Antón Guanche aceitou ser batizado e abraçar a fé cristã.
    Assim os nativos mantiveram a imagem de 'La Morenita' por quase um século na caverna de Achbinico.


    Com o início da colonização em 1497, logo os espanhóis tentaram roubar a imagem. Mas, como foram repentinamente acometidos de uma peste, os envolvidos no assalto resolveram devolvê-la. E com a definitiva conquista, em 1526 construíram uma capela em sua devoção. Aí, em 1534 nasceria São José de Anchieta, que recebeu o título de Apóstolo do Brasil. Em 1668, enfim, como sua história e devoção já havia se espalhado pelo mundo cristão, iniciou-se a edificação do primeiro grande santuário, que mais tarde se tornaria a atual Basílica Real da Candelária.
    Na noite de 6 para 7 de novembro de 1826, porém, deu-se uma grande inundação que arrasou o então Castelo de São Pedro, que abrigava a santa imagem, e acredita-se que ela tenha sido arrastada para o mar, pois desapareceu. Numerosas e detalhadas buscas foram feitas, mas todas resultaram infrutíferas.
    A imagem que hoje se tem, portanto, é apenas uma cópia. E as letras inscritas em seu manto, apesar de cuidadosamente registradas pelo frei Alonso e estudadas por todos esses séculos, continuam indecifradas. E como muito especial sinal, na imagem o Menino Jesus traz às mãos uma pomba, representando tanto o Santo Espírito que Ele nos oferece como a oferta feita por Nossa Senhora e São José no dia da Apresentação do Senhor, celebrada nesta data.


    Nossa Senhora das Candeias, rogai por nós!