quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

São Cirilo e São Metódio


    Ativos missionários, verdadeiros modelos para toda a Igreja, com justiça esses irmãos foram carinhosamente denominados de 'Apóstolos dos Eslavos', e São João Paulo II declarou-os co-padroeiros da Europa, junto a São Bento.
    Nascidos em Tessalônica, nesses tempos terras da Macedônia grega, São Metódio entre 815 e 820, e São Cirilo, o caçula de sete, entre 827 e 828, eram filhos de Leo, um alto militar grego do Império Romano do Oriente, ou Bizantino, e de mãe eslava, Maria, com quem teriam aprendido o dialeto eslavo-macedônico. Seus nomes de nascimento eram Miguel e Constantino, respectivamente. Perderam o pai quando São Cirilo tinha apenas 14 anos, e foram entregues a um ministro-chefe imperial, Theoktistos, eunuco e sábio educador, fundador da Universidade de Magnaura, na cidade de Constantinopla, antiga Bizâncio e atual Istambul, onde Cirilo viria a ser professor.
    Na verdade, por sua brilhante inteligência, São Cirilo foi ordenado padre antes mesmo de terminar seus estudos, enquanto São Metódio, apesar de tornar-se diácono, escolheu trabalhar como alto oficial do governo, e mesmo após muitas frustrações nesse cargo e longos períodos em missões religiosas, só em 868 deixou-se ordenar padre.
    Mestre em Teologia, além de dominar os idiomas árabe e hebreu, São Cirilo foi enviado para debater a Doutrina da Santíssima Trindade com teólogos árabes no Califado de Samarra, cidade do atual Iraque, com o objetivo de melhorar as relações com este governo.
    A segunda missão foi entre os anos 855 e 861 no Império Cazar, que durou de 650 a 1048 e hoje corresponderia a porções da Bielorrússia, Rússia, Crimeia, Geórgia, Azerbaidjão e Cazaquistão. Era um pedido de Miguel III, imperador bizantino, e de Fócio, patriarca de Constantinopla, que foi seu professor na universidade e grande inspirador nos primeiros anos. O objetivo confiado a São Cirilo era em impedir a expansão do judaísmo nessa região. Por esse período e por suas mãos, deram-se os batismos de Ascold e Dyr, príncipes do Rus' de Kiev, estado predecessor das atuais nações da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia.
    Apesar de não ter sido bem sucedido, São Cirilo aprendeu a língua cazar enquanto esteve na cidade de Quersoneso, uma antiga colônia grega na península de Taurica, atual Crimeia. Através dos encontros que manteve com cristãos que estavam nessas terras desde os tempos dos Apóstolos, conheceu os eslavos das tribos Rus, súditos dos Cosaros, e com um sábio local estudou a língua, a escrita e os livros sagrados que guardavam.
    Tinha várias semelhanças como a língua macedônica, mas era muito complicada de ler e escrever. São Cirilo resolveu então reaproximar esta escrita às letras gregas, latinas e hebraicas, destas usou muitos caracteres de fonemas que já existiam na antiga língua eslava-russa, e para os que faltavam adotou antigos caracteres ou inventou novos. Criava assim o Alfabeto Glagólico ou Glagolítico, mais tarde chamado de Cirílico, em sua homenagem, que era a primeira língua literária eslava e se tornaria a oficial do Império Búlgaro, vigente entre 632 e 1018.
    Integralmente ou com ligeiras variações, estes caracteres hoje são usados nas seguintes línguas eslavas: bielorussa, macedônica, russa, sérvia, ucraniana, azerbaidjana, cabardina, casaquistana, iacuta, moldaviana, nenena, ossetina (osseta), quirguiza, tchuvashes, turcmena, udmurtana e uzbeca, além ainda do mongol, do uzbeque e do tadjique, entre outras da Europa Oriental, do Cáucaso e da Sibéria.

 
    Retornando a Constantinopla, São Cirilo tornou-se professor de filosofia na Universidade de Magnaura, enquanto São Metódio ocupava cargos cada vez mais importantes na política e administração bizantina, além de abade do monastério de Bósforo, no lugarejo de Crisópolis, que atualmente é distrito de Istambul.
    Por conta do importante trabalho de São Cirilo no Império Cazar, os irmãos foram convidados pelo príncipe Ratislav, da Grande Morávia, reino eslavo que se estabeleceu de 833 até 894 em terras do centro-leste europeu, atualmente parte ou totalidade de países como Alemanha, Polônia, Áustria, Hungria, República Checa, Eslováquia, Romênia, Eslovênia, Sérvia, Croácia e Ucrânia. Ele queria que nosso Santo fizesse missões em suas dominações, que foram empreendidas entre 863 e 867, para reforçar a identidade de seu povo pelo culto do próprio idioma. O objetivo do príncipe era afastar as invasões e influências alemãs em suas terras, em parte realizadas através de missionários germânicos, que em suas catequeses tentavam impor-lhes o latim ou, em último caso, o grego.
    Chegando lá, eles começaram a traduzir a Liturgia para a escrita eslava, que São Cirilo havia criado, e por isso também ficou conhecida como 'Eslavo da Igreja Antiga', ainda hoje usado na Liturgia de muitas igrejas ortodoxas, além de igrejas católicas do leste. O clero germânico, porém, fez-lhe forte oposição, mas não foi o bastante para aplacar o sucesso que tiveram junto ao povo. Ainda a pedido do príncipe, eles redigiram o primeiro Código Civil Eslavo e foram os fundadores da Academia da Grande Morávia, onde preparavam uma geração de religiosos, incluindo o próprio São Metódio.
    Por fim, puseram-se a traduzir a própria Bíblia, iniciando pelos Evangelhos e Salmos, e seguindo pelos livros mais importantes do Novo e Velho Testamento, embora os registros mencionem apenas os 'Evangelhos de São Cirilo', ou do 'Evangelho Eslavo'. Tal empresa logo chegou ao conhecimento do Papa Nicolau I, que, entusiasmado com a grande e rápida difusão do Evangelho, convidou-os a Roma em 867. Foi nessa ocasião que, viajando em companhia de um séquito de religiosos, eles trouxeram da Crimeia a Roma as relíquias de São Clemente.
    Sofriam, contudo, muitas e duras críticas de Teotmar, Arcebispo de Salzburgo e Bispo de Passau, hoje terras da Áustria e Alemanha, respectivamente, que reclamava o território no qual nossos santos evangelizavam e não aceitava a Liturgia em outra língua que não o latim. Entretanto, com a morte de Nicolau I antes da chegada deles a Roma em 868, o Papa Adriano II recebeu-os calorosamente, reconheceu a luminosa Sabedoria de São Cirilo e concedeu formal autorização para o uso da Liturgia Eslava, assim como para as traduções dos livros sagrados. Foi nessa ocasião que São Metódio viu-se compelido a ordenar-se padre.


    Seu irmão mais novo, porém, sentindo aproximar-se sua hora e cansado de tantos conflitos, tornou-se monge como era seu desejo havia algum tempo, abandonou o nome de Constantino para adotar o de Cirilo e veio a falecer 50 dias depois, no dia 14 de fevereiro de 869. À época suas relíquias foram enterradas no subsolo da secular Basílica de São Clemente, próxima ao Coliseu, cuja estrutura de igreja remonta o período ainda clandestino, no século I, e é riquíssima em construções arqueológicas, pois aí anteriormente se celebravam cultos pagãos.


    No ano seguinte, São Metódio foi ordenado Arcebispo da Panônia e da Morávia. Mas por problemas políticos com a destituição de Ratislav, decidiu-se ficar na Panônia, região que hoje corresponde a terras da Hungria, Croácia, Eslovênia, Bósnia e Herzegóvina e Sérvia, onde tinha o apoio do príncipe Kocel, que era eslavo e admirador seu trabalho. No entanto, também aí nosso santo sofreu novas investidas dos episcopados germânicos, principalmente do Arcebispo de Salzburgo, a quem a Panônia havia pertencido como jurisdição.
    No sínodo de Regensburg, cidade da Bavária, atual Alemanha, São Metódio foi considerado invasor pelos clérigos germânicos e levado para a cidade de Ellwangen, no mesmo país, onde ficou encarcerado por dois anos e meio. Apesar da insistência do Arcebispo de Salzburgo, o Papa João VIII tomou o lado de São Metódio, e, trazendo todos a Roma, reinstituiu-lhe o arcebispado e pediu a punição de seus adversários.
    Com a expulsão dos religiosos germânicos da Grande Morávia, que aconteceu logo em seguida, São Metódio teve aí um período muito frutífero. Traduziu quase todos os livros que restavam da Bíblia, além das valiosíssimas obras dos Padres da Igreja, e com maestria difundiu o Catolicismo até sua morte, em 885, deixando junto ao trabalho de seu irmão uma marcante influência no desenvolvimento cultural dos povos eslavos. Alcançou mesmo o brilhantismo de um santo.
    Três séculos mais tarde, a cidade de Velehrad, na atual República Checa, construiria uma monumental basílica em homenagem a Assunção de Nossa Senhora, mas também a ele e seu irmão.


    Após sua morte nesta cidade, e a do Papa Adriano II também em 885, os discípulos dele e de São Cirilo foram expulsos da Morávia por reviravoltas políticas. O resultado, porém, foi exatamente o inverso: eles espalharam-se por todas terras eslavas, principalmente na atual Bulgária, pregando o Santo Evangelho na língua eslava, fundando escolas de Teologia e praticando o Rito Eslavo.
    Nossos Santos são muito venerados também pela Igreja Ortodoxa Russa, com o título de "Iguais aos Apóstolos", e anualmente se realizam grandes procissões e festas por todo o país.


    Recentemente reencontradas, após preventivo resgate contra repercussões da ira anticlerical da Revolução Francesa, as relíquias de São Cirilo foram novamente guardadas Basílica de São Clemente, onde a ele e a seu irmão foi dedicada uma capela.
   

    São Cirilo e São Metódio, rogai por nós!