sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

São Policarpo


    Era discípulo de São João Evangelista, fato que lhe confere o título de Padre Apostólico, dado exclusivamente a pessoais seguidores dos que formavam o Colégio dos Doze. Também obteve a Graça de conhecer e conviver com alguns deles.
    São Policarpo foi ordenado Bispo de Esmirna pelo próprio São João, e teve sua história contada por Santo Irineu, seu melhor discípulo, que sucedeu a São Timóteo como Bispo em Lyon, na França. Nas primeiríssimas décadas da Igreja, Esmirna era uma da sete mais importantes cidades da 'Ásia', como era chamada uma província romana, hoje região ao sudoeste da Turquia.
    De família cristã, nosso Santo narra ter ouvido desde a infância as pregações do 'discípulo amado', sentado a seus pés. E por tão verazes e preciosos registros, Santo Irineu tornou-se o mais importante erudito cristão do século II.
    São Policarpo escreveu várias cartas de suma importância, conforme muitos fragmentos, mas delas só foi totalmente preservada a conhecida 'Carta de Policarpo aos Filipenses', do ano de 110, que os protestantes fazem questão de renegar pois a história de São Policarpo atesta que toda a Igreja está submissa apenas à autoridade dos bispos ordenados pelos Apóstolos, e deles sucessivamente até os dias de hoje.
    Ora, Tertuliano, padre latino e apologista cristão do século II, declarou que "Policarpo teria sido ordenado... pelas mãos do próprio Apóstolo João, 'segundo a tradição daquela igreja, do mesmo modo que a igreja de Roma afirma que Clemente fora ordenado bispo por Pedro.'"
    Santo Irineu, no mesmo sentido, testemunhou que São Policarpo "não apenas foi discípulo dos apóstolos e viveu familiarmente com muitos dos que tinham visto o Senhor, mas foi estabelecido bispo da Ásia, na igreja de Esmirna, pelos próprios apóstolos."
    E quando São Policarpo esteve em Roma, "na época do bispado de Aniceto", seu testemunho a respeito dessa ordenação teria "... levado à conversão muitos dos gnósticos."
    Como sinal da unidade que ele defendia, a igreja de Esmirna escreveu uma epístola após seu martírio, e citou uma oração sua na qual ele "fez menção de todos quantos em sua vida tiveram trato com ele, pequenos e grandes, ilustres e humildes, e especialmente de toda a Igreja Católica, espalhada por toda a terra."
    Essa epístola fala em 'paróquias', termo grego que significa comunidades de 'exilados' do Paraíso, e é endereçada aos irmãos de Filomélio e de todo o mundo nestas palavras: "A Igreja de Deus que peregrina em Esmirna à Igreja de Deus que peregrina em Filomélio, e a todas as paróquias da Igreja Santa e Católica em todo o mundo."
    Suas pregações, ademais, estão em plena harmonia com as cartas de Santo Inácio de Antioquia, de quem foi amigo pessoal e recebeu várias epístolas, inclusive as mais conhecidas, enviadas das cidades por onde passava enquanto era levado a Roma para ser martirizado.
    Enfim, vários outros registros foram-nos transmitidos pelo próprio São Policarpo apesar de sua conhecida vocação de evangelizador, pois sempre foi mais voltado para os assuntos pastorais que os da história ou da administração da Igreja.


    Santo Irineu, em sua famosa obra 'Contra as Heresias', fez menção a essa carta de São Policarpo que nos chegou: "Há também uma poderosa epístola escrita por Policarpo aos Filipenses, de onde os que desejarem e estiverem ansiosos por sua Salvação podem aprender o caráter de sua e a pregação da Verdade."
    De fato, nela São Policarpo menciona 60 passagens do Novo Testamento, que atestam o quão antiga é a canonicidade dos quatro Evangelhos e das Cartas Apostólicas. 34 dessas passagens são das cartas de São Paulo, fato que reflete seu profundo conhecimento e intimidade com a nascente Igreja. Ele também cita vários ensinamentos que recebeu diretamente de São João Evangelista.
    De conciliador espírito, quando Aniceto era Papa, São Policarpo foi a Roma como representante das igrejas da 'Ásia', para que chegassem a um consenso sobre a data da Páscoa, que estava sendo comemorada em dias diferentes em Roma e no Oriente. E embora não tenham chegado a um acordo, celebraram juntos a Liturgia, mostrando unidade na fé a despeito de momentâneas e menores divergências doutrinárias.
    São Policarpo cumpria essas cerimônias com profunda reverência e desvelo, pois sua principal paixão era viver interiormente a fé, numa postura de verdadeira humildade. Regia-se pelo Pai Nosso: '... seja feita Vossa vontade...', pois, por sensatez, sabia que ao final o Senhor sempre faz valer Seus desígnios.
    Ainda em Roma, conheceu pessoalmente Marcião e Valentino, criadores das heresias da época, aos quais questionou com desconcertante Sabedoria e impôs fragorosas derrotas. Os principais dos judeus também não lhe queriam bem, porque convertia muitos de seus fiéis por meio das próprias Escrituras, que tão bem conhecia. De fato, tanto hereges como líderes judeus iriam comemorar sua morte.
    No ano de 155, aos 86 anos, teve a visão de sua morte, que aconteceria três dias depois, na perseguição aos cristãos perpetrada pelo imperador Marco Aurélio. Sabendo que seria condenado à fogueira, avisou a seus amigos e, atento às necessidades da Igreja, preparou sua sucessão.
    Quando foi preso e levado ao tribunal do cônsul Estácio, estava em estado de Graça, e assim em perfeita serenidade. Instado a renegar sua fé, afirmou: "Eu tenho servido Cristo por 86 anos e Ele nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar contra Meu Redentor? Ouça bem claro: eu sou cristão!"
    Quando foi levado à fogueira, ele rezou: "Sede bendito para sempre, ó Senhor. Que Vosso adorável Nome seja glorificado por todos os séculos."


    Mas como não parava de louvar a Deus, o fogo não lhe queimava. Seus carrascos então retiraram-no da fogueira e amarraram-no numa estaca, onde foi morto à espada. Porém, como a ordem era para reduzi-lo a cinzas, levaram novamente seu corpo à fogueira, onde por fim foi queimado. Milagrosamente, sua carne exalava um delicioso cheiro de pão cozido.
    Sua morte foi descrita um ano depois, também na carta da igreja de Esmirna endereçada à igreja de Filomélio e à Igreja Santa e Católica. E é o mais antigo registro do martirológio cristão.
    Seguem trechos de sua 'Epístola aos Filipenses':
    'Não é por mim mesmo, irmãos, que vos escrevo sobre a justiça, e sim porque primeiro vós me pedistes. Pois nem eu, nem ninguém como eu, pode chegar a Sabedoria do abençoado e glorificado Paulo. Ele, estando entre vós, comunicou com exatidão e força a Palavra da Verdade na presença daqueles que ainda estão vivos.'
    'Vós e Inácio escrevestes-me para que se alguém for a Síria, que leve vossa carta. Eu atenderei esta requisição se encontrar uma boa oportunidade, pessoalmente, ou através de outra pessoa que vos sirva de mensageiro. Quanto às cartas de Inácio, que ele nos enviou e outras que possamos ter aqui, nós vo-las enviamos como pedistes. Vão anexas. Podereis delas retirar grande utilidade, pois encerram fé, paciência e toda espécie de edificação relativa a Nosso Senhor. Qualquer outra informação que vós obtiverdes a respeito de Inácio, e daqueles que com ele estão, fazei a gentileza de informar-nos.'
    '... quem perverte as profecias do Senhor para sua própria satisfação... este é o primeiro nascido de Satanás. Assim, abandonemos os vãos discursos das multidões e suas falsas doutrinas, e voltemos aos ensinamentos que nos foram transmitidos desde o princípio. “Permaneçamos sóbrios na oração”, e perseveremos no jejum; suplicando em nossas orações ao Deus que tudo vê para que "não nos deixeis cair em tentação”, pois disse o Senhor: “O espírito está pronto, mas a carne é fraca."'
    'Por causa disso, cingi vossas cinturas, “servi ao Senhor no temor” e na Verdade, como quem tem renunciado ao inútil, às vãs conversas e aos erros da multidão, e “acreditado n'Aquele que ressuscitou Nosso Senhor Jesus Cristo da morte e deu-Lhe a Glória”, e um trono à Sua direita. A Ele todas as coisas no Céu e na Terra estão subordinadas. A Ele todo espírito serve. Ele vem como o Juiz dos vivos e dos mortos.'
    'Todos vós estejais submetidos uns aos outros, tendo uma conduta justa entre os gentios, para que ambos recebam a recompensa de vossas boas obras e o Senhor não seja blasfemado por causa de vós. Mas coitado daquele por quem o Nome do Senhor é blasfemado! Ensinai, portanto, a sobriedade a todos, e manifestai-a em vossa própria conduta.'
    'Exorto-vos, portanto, que vos abstenhais da avareza, e que sejais castos e verdadeiros. “Abstende-vos de todo tipo de mal.” Pois se um homem não pode governar-se nestes assuntos, como pode ensiná-los aos outros? Se um homem não se mantém longe da avareza, ele desonra-se pela idolatria, e deve ser julgado como um dos pagãos.'
    'Da mesma maneira, que os jovens também sejam irrepreensíveis em todas as coisas, sendo especialmente zelosos em preservar a pureza, e mantendo-se, como que um freio, de todo tipo de mal. Pois é bom que eles repilam toda luxúria que existe neste mundo, pois “todo desejo da carne luta contra o espírito”; e “nenhum fornicador, nem efeminado, nem aquele que abusa de si mesmo com os outros terá parte no Reino de Deus”, nem quem comete inconsistentes e indevidas ações. Por isso, é preciso que eles se abstenham de todas essas coisas, permanecendo obedientes a presbíteros e diáconos, assim como a Deus e a Cristo. As virgens devem andar com inocente e pura consciência.'
    'Por isso devemos servi-Lo no temor, e com toda e reverência, como Ele mesmo nos manda, da mesma maneira que os Apóstolos nos ensinaram no Evangelho, e da mesma maneira que os Profetas proclamaram a Vinda do Senhor. Sejamos zelosos na busca do que é bom, mantendo-nos longe das causas de ofensa, de falsos irmãos, e daqueles que hipocritamente proclamam o Nome do Senhor, fazendo homens vãos caírem no erro.'
    'Pois quem permanece na caridade está longe de todo pecado.'
    'Mas Aquele que ressuscitou dentre os mortos também nos ressuscitará, se fizermos Sua vontade e seguirmos Seus Mandamentos, e se amarmos o que Ele amou, abstendo-nos de toda injustiça, arrogância, amor ao dinheiro, murmurações, falsos testemunhos, “não pagando mal por mal, injúria por injúria”, golpe por golpe, maldição por maldição, mas sendo misericordiosos pelo que disse o Senhor em Seus ensinamentos: “Não julguem para não serem julgados; perdoem e serão perdoados; sejam misericordiosos e alcançarão misericórdia; pois com aquilo que vós medirdes também sereis medidos”; e uma vez mais: “Bem-aventurados são os pobres, e aqueles que são perseguidos por causa da Verdade, pois deles é o Reino de Deus."'
    'Estas coisas eu tenho-vos escrito através de Crescente, a quem recentemente vos recomendei e agora novamente vos recomendo. Ele tem crescido irrepreensível entre nós, e eu creio que será da mesma maneira entre vós.'

    Há belíssimas igrejas em sua homenagem por todo o mundo.


    Em Roma, em recentes anos, foi-lhe construída uma moderna e arrojada igreja, de peculiar beleza.


    A igreja erguida em sua homenagem em Esmirna, apesar de pequena e discreta para evitar o radicalismo muçulmano, é muito antiga e especialmente decorada.


    São Policarpo, rogai por nós!