sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Deus Consolador


    De onde nos vem a força para enfrentarmos os mais difíceis momentos? Como é possível suportar certas dores? Não precisamos ir muito longe para achar explicação. A despeito de tantos nomes atribuídos a Deus, Jesus sempre O chamou de Pai, e Ele mesmo já havia prometido: "'Serei para vós um Pai, e vós sereis para Mim filhos e filhas', diz o Senhor todo-poderoso." 2 Cor 6,18
    Há muito tempo, de fato, essa sensação de proteção e consolação, caracteristicamente paternal, é percebida pela humanidade. O salmista assim a descreveu: "Como um pai tem misericórdia de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão..." Sl 102,13
    Através do Profeta Isaías, que era grande conhecedor do divino amor e seus atributos, Deus mesmo fez essa comparação, dirigindo-se ao povo de Israel: "Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, Eu não te esqueceria nunca." Is 49,15
    Com efeito, Ele consola-nos desde a afeição que nos dedica, como canta o salmista: "Que Teu amor seja minha consolação..." Sl 119,76
    E assim Ele foi revelando-Se, até dirigir-Se abertamente ao povo já entre tantos desatinos, dizendo de enfático modo: "Eu, Eu mesmo sou Vosso Consolador!" Is 51,12
    Também foi o que Ele prometeu através do Profeta Zacarias, quando o povo esperançosamente contava com a reconstrução do Templo de Jerusalém: "Farás a seguinte proclamação: eis o que diz o Senhor dos Exércitos: 'Minhas cidades novamente terão muitas riquezas.' O Senhor será a consolação de Sião, e Sua escolha outra vez cairá sobre Jerusalém." Zc 1,17
    Prometeu consolar Israel até mesmo em momentos de desobediência, dizendo através de Isaías: "Como um rebelde, seguiu o caminho que bem queria. Eu vi seu caminho, mas vou curá-lo, guiá-lo e oferecer-lhe consolação." Is 57,17-18
    Esse Profeta, aliás, predisse as emblemáticas palavras que Jesus usaria ao anunciar Sua Missão, quando o Filho também Se revelou um consolador: "O Espírito do Senhor está sobre Mim... para consolar os que estão tristes..." Is 61,1-2
    São Lucas relata que o religioso Simeão viu o cumprimento dessa promessa ao testemunhar a Apresentação do Menino Jesus no Templo, referindo-se por 'Israel' ao verdadeiro povo de Deus, o Corpo Místico de Cristo: "Ora, havia em Jerusalém um homem chamado Simeão. Este homem, justo e piedoso, esperava a consolação de Israel..." Lc 2,25
    Desde o Sermão da Montanha, portanto, Jesus já prometia Seus cuidados: "Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados!" Mt 5,4
    Ele desenganava os ricos que se iludem com seus bens: "Mas ai de vós, ricos, porque tendes vossa consolação!" Lc 6,24
    E pouco antes de Sua Paixão, mais uma vez Ele referiu-Se a Si mesmo, assim como ao Espírito Santo, como Consolador: "E Eu rogarei ao Pai, e Ele dar-vos-á outro Consolador, para que fique eternamente convosco." Jo 14,16
    A Graça da consolação, porém, não é indiscriminadamente derramada. Jesus disse do Divino Paráclito, que é derramado sobre a Igreja: "É o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber porque não O vê nem O conhece. Mas vós O conhecereis, porque permanecerá convosco e estará em vós." Jo 14,17
    E é por Sua ação que os Sacerdotes da Igreja nos concedem a consolação da remissão dos pecados, exatamente como Jesus ordenou aos Apóstolos: "Depois dessas palavras, soprou sobre eles dizendo-lhes: 'Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos.'" Jo 20,22-23
    Ele já havia demonstrado o indizível valor do perdão dos pecados, ao oferecê-lo como algo muito mais importante que uma cura. Foi no episódio do enfermo descido pelo teto, na casa de São Pedro: "Eis que Lhe apresentaram um paralítico estendido numa padiola. Jesus, vendo a daquela gente, disse ao paralítico: 'Meu filho, coragem! Teus pecados são-te perdoados.'" Mt 9,2
    E Davi, em seus salmos, já havia percebido a indizível alegria que essa Graça traz: "Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido." Sl 31,1
    No mesmo sentido, enquanto veríssima Palavra de Deus, as Escrituras também têm essa específica finalidade. Diz São Paulo: "Ora, tudo quanto outrora foi escrito, foi escrito para nossa instrução, a fim de que, pela perseverança e pela consolação que dão as Escrituras, tenhamos esperança." Rm 15,4
    Tal poder já havia sido observado pelos Macabeus, quando os inimigos de Israel lhes prometiam fidelidade através de uma carta de compromisso. De fato, haveria mais confiável promessa que a de Deus? "... embora não tenhamos necessidade dessas vantagens, pois para nossa consolação temos os Santos Livros, que estão em nossas mãos..." 1 Mac 12,9
    O mesmo bem produz uma luz de Sabedoria, que nos faz perceber os verdadeiros tesouros de Deus: "Portanto, resolvi tomá-la por companheira de minha vida, cuidando que ela para mim será uma boa conselheira, e minha consolação nos cuidados e na tristeza." Sb 8,9
    A alma realmente ciente da necessária redenção da humanidade, porém, em verdadeira penitência abraça-se ainda mais à Cruz de Cristo. É da inspiração do salmista: "No dia de angústia, procuro o Senhor. De noite, minhas mãos levantam-se para Ele sem descanso. E, contudo, minha alma recusa toda consolação. Faz-me gemer a lembrança de Deus. Em minha meditação, sinto o espírito desfalecer." Sl 76,3-4
    Ou contenta-se com os divinos ensinamentos: "A Lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma." Sl 18,8a



    Mas Deus bem sabe quem mais precisa de Seus auxílios, e trata de reanimar-nos com as mais simples coisas, ou pela presença de alguém. São Paulo registrou esse afago em carta aos coríntios: "Deus, porém, que consola os humildes, confortou-nos com a chegada de Tito..." 2 Cor 7,6
    Assim também aos colossenses: "Quanto ao que me concerne, o caríssimo irmão Tíquico, fiel Ministro e companheiro no Senhor, informar-vos-á de tudo. A ele envio-vos para este fim, para que conheçais nossa situação e console vossos corações. Ele vai junto a Onésimo, nosso caríssimo e fiel irmão, vosso conterrâneo. Ambos informar-vos-ão de tudo que aqui se passa. Saúda-vos Aristarco, meu companheiro de prisão, e Marcos, primo de Barnabé, a respeito do qual já recebestes instruções. Se este for ter convosco, bem o acolhei. Jesus, chamado o Justo, também vos saúda. Da circuncisão, são os únicos que comigo trabalham no Reino de Deus. Eles têm-se tornado minha consolação." Cl 4,7-11
    De fato, a divina consolação tem o dom de desafogar de toda ânsia e de todo mal. E quando se entra em perfeita Comunhão com o Pai, ela torna-se perene, traz a verdadeira serenidade. O Último Apóstolo reza pelos tessalonicense: "Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, Nosso Pai, que nos amou e deu-nos eterna consolação e boa esperança por Sua Graça, consolem vossos corações e confirmem-nos para toda boa obra e palavra!" 2 Ts 2,16
    Afirmativamente, essa é uma das funções do Sacerdote durante a Santa Missa, pois esse é um dos dons da Palavra: "Aquele que profetiza, porém, fala aos homens, para edificá-los, exortá-los e consolá-los." 1 Cor 14,3
    Claro, desde que este realmente esteja pregando conforme a Sã Doutrina e com autoridade: "Temos diferentes dons, conforme a Graça que nos foi conferida. Aquele que tem o dom da profecia, exerça-o conforme a fé." Rm 12,6
    Essa foi a principal função que Jesus atribuiu a São Pedro: "Tendo eles comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: 'Simão, filho de João, amas-Me mais que a estes?' Respondeu ele: 'Sim, Senhor, Tu sabes que Te amo.' Disse-lhe Jesus: 'Apascenta Meus cordeiros. Apascenta Minhas ovelhas.'" Jo 21,15.17c
    E vendo aproximar-se sua hora, o Príncipe dos Apóstolos humildemente distribuía-a com os demais Sacerdotes, dando suas pessoais recomendações: "Eis a exortação que dirijo aos Anciãos que estão entre vós, porque como eles sou Ancião, fui testemunha dos sofrimentos de Cristo e com eles serei participante daquela Glória que há de manifestar-se. Apascentai o rebanho de Deus, que vos é confiado. Dele tende cuidado, não constrangidos, mas espontaneamente; não por amor de sórdido interesse, mas com dedicação; não como absolutos dominadores sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos de vosso rebanho." 1 Pd 5,1-3
    Mas essa deve ser a obrigação de todo cristão, pois ao passo que São Paulo pedia aos filipenses que se compadecessem uns dos outros em nome da Paz de Cristo, também pedia pelos Sacerdotes da Igreja em nome da Comunhão: "Assim, pois, consolai-vos e edificai-vos uns aos outros, como já o fazeis. Suplicamo-vos, irmãos, que reconheçais aqueles que entre vós arduamente trabalham para dirigir-vos e admoestar-vos no Senhor. Tende para com eles singular amor, em vista do cargo que exercem. Conservai a Paz entre vós." 1 Ts 5,11-13
    Porque tal qual o Pai devem ser os filhos, para que trabalhem em nome da união da Igreja: "O Deus da perseverança e da consolação conceda-vos o mesmo sentimento uns para com os outros, segundo Jesus Cristo, para que, com um só coração e uma só voz, glorifiqueis a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo." Rm 15,5
    E apesar de todas tribulações, São Paulo dava o exemplo: "Porque, ao que parece, Deus tem posto a nós, Apóstolos, na última classe dos homens, por assim dizer sentenciados à morte, visto que fomos entregues em espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens. Até esta hora padecemos fome, sede e nudez. Somos esbofeteados, somos errantes, fatigamo-nos, trabalhando com nossas próprias mãos. Insultados, abençoamos; perseguidos, suportamos; caluniados, consolamos! Chegamos a ser como que o lixo do mundo, a escória de todos até agora... " 1 Cor 4,9.11-13
    Pois é certo que as consolações nos são dadas em proporção às dores e penitências que enfrentamos em nome da Salvação, nossa e de nossos irmãos: "Com efeito, à medida que em nós crescem os sofrimentos de Cristo, por Cristo também crescem nossas consolações. Se, pois, somos atribulados, é para vossa consolação e Salvação. Se somos consolados, é para vossa consolação, a qual se efetua em vós pela paciência em tolerar os sofrimentos que nós mesmos suportamos. Nossa esperança a respeito de vós é firme: sabemos que, como sois companheiros de nossas aflições, assim também o sereis de nossa consolação." 2 Cor 1,5-7
    Ele bem sabia, no entanto, de onde vinha sua força para seguir no 'bom combate e guardar a '. E chega a ser repetitivo ao falar dessa Graça que gostaria que fosse repassada a toda humanidade: "Bendito seja Deus, o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai das Misericórdias, Deus de toda consolação, que nos consola em todas nossas tribulações, para que possamos consolar os que estão em qualquer tribulação, através da consolação que nós mesmos recebemos de Deus." 2 Cor 1,3-4
    Também citou o poder do amor que nos infunde o Divino Paráclito: "Foi Epafras que nos informou do amor com que o Espírito vos anima. Por isso, também nós, desde o dia em que o soubemos, não cessamos de orar por vós e pedir a Deus que vos conceda pleno conhecimento da Sua vontade, perfeita Sabedoria e penetração espiritual, para que vos comporteis de maneira digna do Senhor, procurando agradar-Lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus. Para que, em tudo confortados por Seu glorioso poder, tenhais a paciência de tudo suportar com longanimidade." Cl 1,8-11
    Pois como atesta o Apóstolo dos Gentios, nossa vida na fé pode servir de consolação a nossos irmãos: "Assim, irmãos, fomos consolados por vós, no meio de todas nossas angústias e tribulações, em virtude de vossa fé. Agora, sim, tornamos a viver, porque permaneceis firmes no Senhor." 1 Ts 3,7-8
    Um milagre, então, tem poder ainda maior: "Acontece que um moço, chamado Êutico, que estava sentado numa janela, foi tomado de profundo sono enquanto Paulo ia prolongando seu discurso. Vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo e foi levantado morto. Paulo desceu, debruçou-se sobre ele, tomou-o nos braços e disse: 'Não vos perturbeis, porque sua alma está nele.' Então subiu, partiu o Pão, comeu e falou-lhes largamente até o romper do dia. Depois partiu. Quanto ao moço, levaram-no dali vivo, cheios de consolação." At 20,9-12
    Inspiradamente, São Paulo usava de revelações, neste caso a promessa da Definitiva Volta de Jesus, para apascentar a todos: "Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o mesmo Senhor descerá do Céu e aqueles que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois nós, os vivos, os que estamos ainda na terra, seremos junto a eles arrebatados sobre nuvens ao encontro do Senhor nos ares, e assim para sempre estaremos com o Senhor. Portanto, consolai-vos uns aos outros com estas palavras." 1 Ts 4,16-18
    E ainda enquanto estava entre nós, Jesus mesmo prometeu: "Vinde a Mim todos vós que estais aflitos sob o fardo, e Eu aliviar-vos-ei. Tomai Meu jugo sobre vós e recebei Minha Doutrina, porque Eu sou manso e humilde de coração e achareis o repouso para vossas almas. Porque Meu jugo é suave e Meu peso é leve." Mt 11,28-30
    Ele garantiu aos que guardam Sua Palavra: "Deixo-vos a Paz, dou-vos Minha Paz. Não vo-la dou como o mundo a dá. Não se perturbe vosso coração, nem se atemorize!" Jo 14,27
    Mas advertiu que buscássemos a Paz tão somente n'Ele, vale dizer, através dos Sacramentos de Sua Igreja, pois Sua vitória contra o pecado é a definitiva prova de Glória de Deus"Referi-vos essas coisas para que tenhais a Paz em Mim. No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o mundo." Jo 16,33
    São Tiago Menor, por exemplo, falou da Unção dos Enfermos, mas deixa claro que sua aplicação era absolutamente restritiva aos Sacerdotes da Igreja: "Está alguém enfermo? Chame os Sacerdotes da Igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo em Nome do Senhor. A oração de fé salvará o enfermo, e o Senhor restabelecê-lo-á. Se ele cometeu pecados, ser-lhe-ão perdoados." Tg 5,14-15
    Ele recomendava a Confissão como grande lenitivo. E nada dizia de 'confessar somente a Deus', como ensinam falsos mestres: "Confessai vossos pecados uns aos outros, e orai uns pelos outros para serdes curados. A oração do justo tem grande eficácia." Tg 5,16
    No Céu, enfim, com Jesus já estão os Santos, Seus vencedores, aqueles que foram definitivamente consolados. É o que atesta São João Evangelista, da conversa que teve com um dos Anciãos (Serafins?) que lá se encontravam: "E ele disse-me: 'Esses são os sobreviventes da grande tribulação. Lavaram suas vestes e alvejaram-nas no Sangue do Cordeiro.' Por isso, estão diante do trono de Deus e dia e noite servem-nO em Seu Templo. Aquele que está sentado no trono abrigá-los-á em Sua Tenda. Já não terão fome, nem sede, nem o sol ou calor algum abrasá-los-á, porque o Cordeiro, que está no meio do trono, será Seu Pastor e levá-los-á às fontes das Águas Vivas. E Deus enxugará toda lágrima de seus olhos." Ap 7,14b-16
    E esse será o destino de todos aqueles que alcançarem a Salvação: "Ao mesmo tempo, ouvi do trono uma grande voz que dizia: 'Eis aqui o Tabernáculo de Deus com os homens. Habitará com eles e serão Seu povo, e Deus mesmo estará com eles. Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição.' Então Aquele que está assentado no trono disse: 'Eis que Eu renovo todas coisas.'" Ap 21,3-5a
    
INVOCAÇÃO AO ESPÍRITO SANTO

    "Ó Deus, que instruístes os corações de Vossos fiéis com a Luz do Espírito Santo, fazei que apreciemos retamente todas as coisas, segundo o mesmo Espírito, e gozemos sempre de Sua consolação. Por Cristo Senhor Nosso! Amém!"